John Margrave Lerew, DFC (Hamilton, 20 de agosto de 1912 – Vancouver, 24 de fevereiro de 1996) foi um oficial e piloto da Real Força Aérea Australiana (RAAF) durante a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, gerente sénior da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO). Como comandante do Esquadrão N.º 24, baseado na Nova Bretanha, ele tornou-se famoso nos anais da história da Força Aérea pela sua resposta irreverente às ordens do quartel-general na Austrália durante a Batalha de Rabaul em Janeiro de 1942. Depois de o seu esquadrão ter sido instruído a ajudar a repelir a força invasora japonesa com o seu único bombardeiro operacional e a manter o aeródromo danificado aberto, Lerew respondeu o quartel-general com a antiga frase em latim supostamente usada por gladiadores em homenagem ao seu imperador: "Morituri vos salutamus" ("Nós, que estamos prestes a morrer, vos saudamos"). Ele também desafiou a ordem de abandonar sua equipa e organizou a sua fuga de Rabaul.

Em Fevereiro de 1942, Lerew liderou um ataque de bombardeamento de baixo altitude contra navios inimigos na Nova Guiné, conseguindo deixar dois navios a arder. Ele foi abatido, mas conseguiu escapar da captura e voltou à sua Força nove dias depois de ser dado como desaparecido. Agraciado com a Cruz de Voo Distinto, ele posteriormente comandou a primeira diretoria de segurança de voo da RAAF. Depois de deixar a força aérea em 1946 como capitão de grupo, Lerew assumiu um cargo na recém-formada ICAO, no Canadá. Ele foi responsável por várias reformas administrativas e técnicas na organização, e foi promovido a Chefe do Ramo Aéreo em 1969. Aposentando-se da ICAO em 1972, ele viajou muito antes de se estabelecer em Vancouver, onde morreu em 1996 com a idade de 83 anos.

Infância e juventude Nascido em Hamilton, Victoria, Lerew era filho de William Margrave Lerew, um químico e cirurgião veterinário que emigrou da Inglaterra com os seus dois irmãos. A família era de descendência Huguenote, com o nome original Le Roux. John Lerew foi educado no Colégio Scotch, em Melbourne, onde foi membro dos cadetes. Ele estudou em part-time para obter o diploma de bacharel em engenharia civil na Universidade de Melbourne, servindo simultaneamente cerca de dois anos na milícia em várias unidades, incluindo no 39.º Batalhão e na 3.ª Divisão de Pesquisa de Artilharia e no Regimento da Universidade de Melbourne. Ele também desenvolveu um amor por carros velozes, juntando-se a uma equipa de competição e terminando em terceiro no Grande Prémio da Austrália de 1930.

A 19 de Novembro de 1932 Lerew alistou-se como cadete da aviação na reserva activa da RAAF, conhecida como Força Aérea Cidadã (CAF). Ele marchou para Victoria Barracks por capricho e pediu para ver a pessoa encarregada do recrutamento da Força Aérea. Ele foi levado ao escritório do líder de esquadrão Raymond Brownell, também um ex-aluno do Colégio Scotch, acabando por o admitiu na força aérea. Lerew realizou instrução de voo em 1933 no curso "B", conduzido pelo Esquadrão N.º 1 na Estação de Laverton, e tornou-se oficial piloto no dia 1 de Abril. Ele foi transferido da CAF para a Força Aérea Permanente a 20 de Maio de 1935, após a formatura na universidade, e foi promovido a oficial-de-voo no dia 1 de Julho. Colocado no Depósito de Aeronaves N.º 1, ele foi promovido a tenente de voo provisório em 1936. A classificação tornou-se substantiva no ano seguinte, quando ele foi nomeado Oficial Director de Obras e Edifícios de Estado-Maior na Sede da RAAF, em Melbourne, ficando responsável pela seleção e melhoria dos locais aeronáuticos.

Segunda Guerra Mundial direita|miniaturadaimagem|Um Fairey Battle fotografado por Lerew numa batalha sobre Geelong, Setembro de 1940 Lerwe ainda estava em Melbourne em Setembro de 1939, quando começou a Segunda Guerra Mundial. Ele foi promovido a líder de esquadrão em Junho de 1940 e, no mesmo mês, assumiu o comando do Parque de Aeronaves N.º 1 em Geelong. Uma das suas tarefas iniciais foi testar a aeronavegabilidade do primeiro bombardeiro leve monomotor Fairey Battle montado na Austrália. Em Setembro de 1940 ele foi enviado para o Depósito de Aeronaves N.º 2 na estação de Richmond, em Nova Gales do Sul, e logo depois participou numa pesquisa nas Ilhas Salomão e na ilha de Nova Bretanha, incluindo a sua capital Rabaul. Mais tarde Lerew receberia o comando do Esquadrão N.º 24, em Maio de 1941, sendo ainda promovido a comandante de asa temporário em Outubro.

Em Novembro de 1941 o Esquadrão N.º 24 era composto por um Fairey Battle, três aviões biplanos de instrução de Havilland Moth Minor, cinco bombardeiros leves bimotor Lockheed Hudson e onze CAC Wirraway de treino., p. 191 Esperava-se que os Wirraway de dois assentos fossem empregados em operações como caças, mas eram adequados para tal função "apenas nas mentes do Conselho Aéreo", nas palavras do historiador da RAAF Alan Stephens. No dia 1 de Dezembro o quartel-general da RAAF em Melbourne notificou o esquadrão de Lerew que seria enviado para Rabaul como guarnição avançada na defesa do norte da Austrália.

Preparativos em Rabaul Os aviões Hudson do Esquadrão N.º 24 começaram a ser transferidos para o campo de aviação de Vunakanau, em Rabaul, a partir da Estação de Townsville no extremo norte de Queensland, em Dezembro de 1941. A meio do mês eles foram acompanhados pelas aeronaves Wirraway da unidade., p. 241 Vunakanau oferecia pouco abrigo para funcionários ou aeronaves, e já haviam aviões de reconhecimento japoneses activos nas proximidades, um sinal que sugeria que um ataque era iminente. O Esquadrão N.º 24 começou a realizar missões de reconhecimento com os seus Hudson e, numa ocasião, tentou bombardear um navio inimigo sem sucesso. O quartel-general da RAAF ameaçou retirar Lerew pela sua aparente falta de resultados e atrasos nas comunicações, e exigiu saber quais eram as suas desculpas. Com um espírito que a história oficial da RAAF na Segunda Guerra Mundial descreveu como uma "irreverência travessa", Lerew justificou as suas acções com vários motivos, entre os quais "a decepção pela falta de assistência dos Todos Poderosos". Mais tarde, ele relatou que a situação da RAAF na área estava a causar "mais preocupação" pelo seu próprio quartel-general no "sul do que pelo inimigo situado no norte"., pp. 269–271 esquerda|miniaturadaimagem|Wirraway semelhante aos do Esquadrão N.º 24 A força do Esquadrão N.º 24 no início de 1942 era de quatro aviões Hudson, seis Wirraway e 130 efectivos. No dia de Ano Novo, Lerew liderou os Hudson num ataque contra a ilha Kapingamarangi, incendiando um depósito de combustível que ainda estava a arder quando o esquadrão voltou para acompanhar um ataque dois dias depois., pp. 313–314 De 4 a 7 de Janeiro, o campo de aviação de Vunakanau sofreu quatro ataques de bombardeiros japoneses sem escolta, destruindo quase todos os Hudson, tendo sobrado apenas um. Embora os Wirraway tenham sido enviados para interceptar os atacantes em várias ocasiões, a sua velocidade de subida era tão baixa que apenas uma vez um deles conseguiu enfrentar um hidroavião inimigo, porém sem resultado; esta acção a 6 de Janeiro foi o primeiro combate ar-ar entre a RAAF e as forças japonesas. Nesta altura, Lerew solicitou ao quartel-general seis "caças modernos" com os quais defenderia o seu campo de aviação; o seu pedido não seria atendido.

O líder do esquadrão Arch Tindal, Oficial de Armamento do Comando da Área do Norte, acrescentou o seu peso aos apelos de Lerew por aeronaves modernas. Tindal havia chegado para inspeccionar o Esquadrão N.º 24 a meio de um ataque inimigo a 3 e Janeiro, e imediatamente saltou para o Wirraway mais próximo para tentar uma interceptação. Ele mais tarde submeteu um relatório ao quartel-general em Townsville, fazendo eco às preocupações de Lerew sobre as capacidades do Wirraway e advertindo que "Rabaul está agora aberto a ataques de bombardeio". Apesar disso, a moral permaneceu alta na unidade; Lerew comentou sobre a atitude despreocupada do seu pessoal, que frequentemente esperava até ao último momento para se proteger durante os ataques aéreos. A 17 de Janeiro Lerew conseguiu ganhar altura suficiente num dos seus Wirraway para enfrentar um hidroavião japonês num ataque frontal, mas as suas munições de metralhadora .303 não foram suficientes para abater o japonês. Em 1956, durante uma conferência em Tóquio, ele conheceu o piloto do avião japonês, que o informou que seu ataque solitário danificou um motor e matou dois tripulantes, acrescentando que Lerew foi "o inimigo mais bravo que já enfrentei".

Invasão de Rabaul direita|miniaturadaimagem|Frota japonesa a ser empregada na invasão de Rabaul, fotografada por um Hudson da RAAF sobre Truk a 9 de Janeiro de 1942 No dia 20 de Janeiro uma força com mais de 100 aviões japoneses, incluindo bombardeiros, bombardeiros de mergulho e caças de escolta, convergiram para Rabaul., pp. 354–355 A força foi liderada pelo comandante Mitsuo Fuchida, que controlou o ataque a Pearl Harbor no dia 7 de Dezembro de 1941. Dois Wirraway de patrulha do Esquadrão N.º 24 atacaram a primeira onda de invasores japoneses. Os seis Wirraway restantes de Lerew então meteram-se em marcha, com um deles a sofrer um acidente na descolagem. Dos sete que ficaram no ar, três foram abatidos no mar por caças Mitsubishi Zero, dois outros aterraram com danos graves, um escapou com danos leves e um permaneceu ileso. A acção de dez minutos matou seis tripulantes da RAAF e feriu cinco. Um soldado australiano no solo mais tarde lembrou: "Sentamos nas nossas armas, chocados com o massacre que havíamos acabado de observar". Os caças japoneses agravaram a humilhação executando acrobacias sobre o campo de aviação bombardeado. Lerew comunicou então para o quartel-general, "Dois Wirraway, defesa inútil. Será que poderiam, agora, enviar alguns caças?", recebendo a resposta, "Lamentamos a impossibilidade de fornecer caças. Se os tivéssemos, os daríamos." No dia seguinte, ele foi obrigado a atacar a força japonesa que se aproximava com "todas as aeronaves disponíveis". Como os seus dois Wirraway utilizáveis não tinham porta-bombas, restava apenas o último Hudson para executar a ordem; o bombardeiro então descolou para procurar os navios inimigos, mas não foi capaz de localizá-los ao anoitecer e voltou para o campo de aviação.

Foi ao seguir uma nova directriz do quartel-general no dia 21 de Janeiro de 1942, para manter "aberto" o seu campo de aviação, que Lerew, após discussão com o seu pessoal de inteligência, enviou a mensagem que o tornou famoso: "Morituri vos salutamus". A mensagem confundiu o quartel-general, até que um oficial familiarizado com latim descodificou como a frase lendária usada pelos antigos gladiadores para homenagear o seu imperador: "Nós, que estamos prestes a morrer, vos saudamos!". Lerew também optou por ignorar duas outras ordens recebidas do quartel-general, em primeiro lugar, para transformar o seu restante pessoal de terra e tripulação em soldados de infantaria para ajudar na defesa do exército e, em segundo lugar, deixar Rabaul no seu último Hudson para assumir o comando de um novo esquadrão em Port Moresby, na Nova Guiné. À primeira ordem, ele respondeu que tripulações treinadas da RAAF seriam mais valiosas em acções futuras do que num último esforço para repelir o invasor em Rabaul; para a segunda, ele simplesmente "fechou os olhos", recusando-se a escapar sozinho na única aeronave que restava que poderia evacuar o seu pessoal. No dia seguinte, 22 de Janeiro, ele enviou noventa e seis funcionários no Hudson e em hidroaviões chamados de Port Moresby. Outros escaparam por terra ou em barcos; o planeamento cuidadoso de Lerew ajudou a garantir que apenas três dos seus homens fossem capturados pelos japoneses.

Posterior serviço de guerra