Isabel de Mattos Dillon (Bahia, 20 de janeiro de 1861 — Rio de Janeiro, 19 de junho de 1920) também conhecida como Isabel de Sousa Mattos e Isabel de Mattos Gonçalves foi uma dentista, sufragista, republicana histórica e poetisa brasileira. Habilitada como dentista em 1883, foi uma das primeiras mulheres dentistas brasileiras e destacou-se no período do final do e início do como poetisa e como ativista pelos direitos das mulheres.

Isabel relata ter obtido o direito a voto ainda durante o período imperial e o teria exercido no Rio Grande do Sul, antes das pioneiras Celina Guimarães Viana e Júlia Alves Barbosa. Apesar de ter tido alistamento eleitoral negado pelo Ministério do Interior em 1890, lançou candidatura a deputada pelo estado da Bahia naquele ano, tendo recebido votos. Foi definida na imprensa de sua época como a primeira eleitora do Brasil.

Nome de prestígio no início do , foi colaboradora de periódicos como O Corymbo, A Família e A Notícia e escreveu sonetos, os tendo publicado em jornais e livros. Participou de atividades abolicionistas, foi membro do Centro do Partido Operário e do Partido Republicano Feminino. Abertamente contrária a Floriano Peixoto, participou da Segunda Revolta da Armada e foi presa.

Os acontecimentos envolvendo Isabel Dillon foram um dos elementos incentivadores do movimento feminista no final do , inspiraram a comédia O voto feminino, em que Josefina Álvares de Azevedo ridiculariza a recusa masculina ao voto feminino e foram citados por Leolinda Daltro em documento solicitando o sufrágio feminino enviado ao Congresso Nacional em 1916 e lido pelo deputado federal Maurício de Lacerda.

Formação e atuação profissional

Em 14 de maio de 1883, Isabel concluiu os exames de habilitação para dentistas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, obtendo o título de dentista aprovada. Naquele período, o exercício legal da odontologia dependia da aprovação em exames realizados perante as faculdades de medicina; o curso de odontologia seria institucionalizado nessas faculdades em 25 de outubro de 1884.

Em fevereiro de 1884, Isabel já anunciava seus serviços como cirurgiã-dentista em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Em novembro de 1888, A Verdade, de Itajubá, noticiou que Isabel Mattos Dillon pretendia abrir consultório na capital do Império. Em fevereiro de 1899, O Paiz, ao noticiar a obtenção do grau de cirurgiã-dentista por Isabella von Sydow, registrou a presença de Isabel na comemoração e apresentou-a como "sua collega já diplomada ha alguns annos". Durante a ceia, Isabel brindou ao jornal e ao redator-secretário Jovino Ayres, e o representante de O Paiz saudou as duas dentistas como "duas distinctas diplomadas".

Em dezembro de 1902, o Correio da Manhã anunciou que Isabel de Mattos Dillon deixava o Rio de Janeiro para seguir para o interior no exercício de sua profissão de cirurgiã-dentista. Em agosto de 1904, já sob o nome de Isabel de Mattos Gonçalves, anunciou em Curitiba que em breve abriria consultório odontológico na cidade. Em novembro daquele ano, um anúncio publicado no Diario da Tarde identificava-a como "cirurgião dentista diplomada pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro" e "especialista de molestias e operações da bocca". Segundo o mesmo anúncio, mantinha dois gabinetes em funcionamento na Praça Tiradentes, n.º 42, e atendia das oito horas da manhã às cinco da tarde e das seis às oito da noite. A publicidade afirmava ainda que os trabalhos eram realizados segundo os "methodos mais modernos e aperfeiçoados da cirurgia dentaria" e anunciava "preços razoaveis, e ao alcance de todos". Em março de 1905, a Prefeitura de Curitiba registrou a concessão de alvará a Izabel de Souza Mattos Gonçalves para seu gabinete odontológico.

No segundo semestre de 1905, Isabel encontrava-se em Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde anunciou consultório na rua Halfeld, n.º 140. O anúncio oferecia operações e tratamentos odontológicos, próteses e restaurações, incluindo trabalhos em ouro, platina e porcelana, além de coroas, pivôs e pontes. A publicidade afirmava que o gabinete empregava métodos modernos de cirurgia dentária e informava a existência de um cirurgião-dentista auxiliar para atender chamados fora do consultório e da cidade. No mesmo anúncio, Isabel declarava possuir "longa pratica de clinica" adquirida no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Em 1907, Isabel voltou a aparecer profissionalmente no Rio de Janeiro. Em novembro, foi anunciada a instalação de seu consultório na rua do Catete, n.º 51. Dias depois, o Jornal do Brasil noticiou o funcionamento, no mesmo endereço, de consultório mantido por Isabel de Mattos Gonçalves e por seu genro, o cirurgião-dentista Basílio Gonçalves. Ainda em 1917, ao entrevistá-la, o jornal A Rua registrava que Isabel continuava trabalhando como cirurgiã-dentista.

Comissão abolicionista No contexto dos movimentos abolicionistas nas cidades gaúchas de Pelotas e Rio Grande, em 1884, Isabel criou a Comissão Abolicionista 28 de Setembro, uma organização composta de mulheres na cidade de Rio Grande. Participaram também da organização as escritoras Revocata Heloísa de Melo e sua irmã Julieta de Melo Monteiro, além de outras mulheres como Rosa Derrépas e Alice Pascal. O objetivo da Comissão era angariar fundos para comprar cartas de alforria. O movimento abolicionista era majoritariamente masculino, mas reconhecia a importância estratégica da participação feminina, associada a qualidades morais como a caridade e a filantropia. Às mulheres era atribuído o papel de incitar sensibilidade e compaixão em relação aos escravizados.

Alistamento eleitoral no Rio Grande do Sul miniaturadaimagem|Poema publicado em março de 1887|alt=Diz ela, por ser doutora / Em dentes sãos e furados, / Que, como os mais doutorados / Quer também ser eleitora: / É clara a lei regedora / Do direito a alistamento, / Portanto, ao requerimento, / Que apresenta a supplicante / Espera no mesmo instante / Propício deferimento. / Despacho / Nego; o despacho bóto: / É permittido à mulher / Que em tudo metta a colher, / Menos na urna do voto thumb|Igreja Nossa Senhora dos Navegantes em São José do Norte, cidade onde Isabel teria exercido o direito de voto. Em 1885, diante de seu diploma e com base no artigo 4.º da Lei Saraiva, que previa o direito a voto a todo detentor de título científico, requereu a sua inclusão na lista de eleitores do Rio Grande do Sul, em São José do Norte. O juiz municipal de Rio Grande, José Vieira da Cunha, indeferiu a petição em 18 de novembro de 1886: Segundo Isabel, José Lomelino de Drummond lhe teria concedido o título de eleitora em grau de recurso, na qualidade de "juiz federal substituto". Ela conta ter, depois, votado em Júlio de Mendonça Moreira, seu correligionário do Partido Republicano, que não foi eleito. Mendonça Moreira seria posteriormente eleito em 1891 para Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.

A Lei Saraiva, Decreto n.º 3 029, de 9 de janeiro de 1881, foi a lei que instituiu, pela primeira vez, o título de eleitor, em substituição ao de qualificação, fixado em 1875. No diploma eleitoral, constavam dados pessoais como nome, idade, filiação, estado natal, profissão, domicílio e renda. Em determinadas situações, como para detentores de diplomas científicos ou literários de qualquer faculdade, academia, escola ou instituto nacional ou estrangeiro, legalmente reconhecidos, não era necessária a comprovação de rendimentos normalmente exigida.

Embora a constituição do Império não proibisse explicitamente o voto feminino, a política do era vista como uma atividade eminentemente masculina, sendo desnecessário explicitar tal interdição no texto legal.

Ainda durante o Império, outras mulheres disputaram o direito de voto, como Luiza Amélia Bemfica Ribeiro e Balbina de Castro Figueiredo, em Minas Gerais, que obtiveram a alistamento com decisão favorável do juiz de direito da comarca de Barbacena, mas foram excluídas em decisão de segunda instância pelo Tribunal da Relação de Ouro Preto. Segundo o acórdão, "não há muitos anos, discutindo-se a reforma eleitoral, indicou-se e não se venceu que se tornasse extensivo às mulheres o gozo dos direitos políticos, o que demonstra a não existência de lei que lhes conceda".

Alistamento eleitoral no Rio de Janeiro thumb|500px|Charge de Antônio Bernardes Pereira Netto na Revista Illustrada, 29 de março de 1890 retratando a negativa do ministro Cesário Alvim ao voto feminino.

Em 1890, durante a Primeira República, Isabel solicitou transferência de seu título para o Rio de Janeiro, onde voltara a residir. O alistamento eleitoral era controlado pelas comissões distritais, que analisavam e decidiam sobre a capacidade de alistamento de cada eleitor. Em caso de dúvidas, eram encaminhados inquirimentos ao ministro do interior, Cesário Alvim.

Isabel apresentou-se no 2.º distrito da paróquia do Engenho Velho. Tendo recebido o "diploma de eleitor de D. Isabel de Souza Mattos", qualificada no ano de 1885, em São José do Norte, a comissão se divide entre não privar a "eleitora do direito do voto já adquirido" e não fazer exceção à então recente decisão de proibir o alistamento eleitoral às mulheres. Consultado o ministro, Cesário Alvim decidiu por negar-lhe o alistamento:

Em sua coluna no jornal Democracia de 15 de março de 1890, o colunista Benvenuto Lobo, defensor do sufrágio feminino, criticou essa decisão de Cesário Alvim, argumentando que as duas leis citadas pelo ministro não excluíam as mulheres do voto e questionando as razões que levaram a negar o diploma de eleitor a Isabel.

Anteriormente ao requerimento de Isabel, em resposta ao governador do Rio de Janeiro, consultado se o presidente da comissão distrital de Itabapoana deveria incluir algumas mulheres que haviam requerido alistamento eleitoral, Cesário Alvim respondera que o regulamento eleitoral então vigente, assim como a legislação anterior, não cogitara de conferir às mulheres o direito de voto. Josepha Cardozo de Faria Leal e Anna Jacintha Cardozo, ambas esposas de funcionários públicos, também tinham solicitado alistamento eleitoral no 1.° distrito da paróquia de Sant'Anna. O advogado das requerentes argumentava primeiramente que elas cumpriam o requisito de serem alfabetizadas e que o direito de as mulheres ingressarem em cursos superiores provava a capacidade de votar. O episódio tornou-se assunto de crônicas e controvérsias nos periódicos da época.

A resposta de Cesário Alvim em não lhe conceder alistamento eleitoral desmotivou Isabel, que conta ter perdido gradualmente o interesse pela política, passando a dedicar-se ao trabalho de dentista e, posteriormente, aos cuidados da filha – nascida em 1893 –, que criava sozinha.

Candidata a deputada Apesar de ter tido alistamento eleitoral negado pelo Ministério do Interior em 1890, Isabel lançou naquele ano candidatura a deputada federal pela província da Bahia, de onde era natural. Sua candidatura e plataforma foram publicadas em documento intitulado Circular publicado em jornais brasileiros, no qual se define contra o socialismo e promete defender princípios de igualdade, liberdade religiosa, de pensamento e o direito de votar e ser votado, bem como se torna uma das primeiras pessoas no Brasil a defender a criação de leis protetoras a mães e filhos.

Segundo Maurício de Lacerda, obteve "brilhante votação, ao lado de nosso saudoso colega senhor Cesar Zama; mas não foi reconhecida". Isabel explicou que logrou boa votação, mas não suficiente para se eleger, o que atribui a não ter realizado campanha no estado da Bahia. Seu nome constou nos boletins eleitorais, tendo recebido votos em pelo menos duas zonas.