O assassinato de Henry Borel ou caso Henry Borel refere-se ao assassinato do menino brasileiro Henry Medeiros Borel (Rio de Janeiro, 3 de maio de 2016 – Rio de Janeiro, 8 de março de 2021), de quatro anos, no dia 8 de março de 2021, em Jacarepaguá (atual Barra Olímpica), na Zona Sudoeste da cidade do Rio de Janeiro. O menino foi assassinado no apartamento onde morava a mãe Monique Medeiros e o padrasto, o então médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, mais conhecido como Dr. Jairinho, filho do ex-deputado estadual Coronel Jairo.
O caso gerou grande repercussão no Brasil e no resto do mundo, tendo sido comparado aos casos Isabella Nardoni, ocorrido 13 anos antes, e Bernardo Boldrini, ocorrido 7 anos antes. Motivou ainda a criação da Lei Henry Borel, inspirada na Lei Maria da Penha, que introduziu maior rigor na punição de homicídios contra menores de 14 anos. A lei prevê também medidas protetivas específicas para crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica, permitindo que a Justiça tome decisões urgentes mesmo antes da conclusão do processo criminal, sempre que existam indícios de risco para a integridade física ou psicológica da vítima.
Em junho de 2026, Jairinho foi condenado a mais de 43 anos de prisão, mas a mãe da criança recebeu o perdão judicial após os jurados decidirem que ela era inocente da acusação de homicídio doloso.
A vítima Henry Borel Medeiros (Rio de Janeiro, – Rio de Janeiro, ) era filho da professora Monique Medeiros da Costa e Silva e do engenheiro Leniel Borel de Almeida. Eles se conheceram no inicio de 2011 e se separaram em 2020. Em agosto do mesmo ano, Monique conheceu o Dr. Jairinho, indo morar com ele três meses depois, junto com Henry. Na mesma época, ela deixou de ser diretora de uma escola em Senador Camará, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro para ser assessora no Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro (TCM-RJ). Henry então foi matriculado na pré-escola do Colégio Marista São José, a quatro minutos do imóvel, passou a fazer outras atividades e, em fevereiro, a frequentar o consultório de uma psicóloga. Na delegacia, a profissional disse ter sido procurada por Monique diante da recusa do filho em ficar com ela em Jacarepaguá. Ao pai, o menino chegou a reclamar de "abraços fortes" dados pelo padrasto.
Antecedentes No primeiro fim de semana de março, Leniel buscou o filho, o levou na casa da avó materna e brincou com ele em um parque de diversões. Às 19h20 do dia 7, devolveu a criança a Monique. Ela disse ter dado um banho em Henry e o colocado para dormir e relatou também que a criança vomitou ao chegar, mas não estranhou o estado, por se tratar de algo normal quando o filho chorava muito. Segundo depoimento inicial de Monique, na madrugada de 8 de março, ela e Jairinho teriam ido assistir televisão no quarto de hóspedes, já que o menino estava dormindo no quarto do casal.
Morte Monique relatou que acordou de madrugada, pelas 3h30min, com o barulho da TV, tendo se levantado e ido ao quarto do filho, encontrando-o deitado no chão, com mãos e pés gelados e olhos revirados. De acordo com ela, "quando abri a porta do quarto, vi ele deitado no chão. Peguei meu filho, botei em cima da cama. Estranhei. As mãos e os pés dele estavam muito geladinhos. Chamei o Jairinho. Ele enrolou meu filho numa manta e fomos ao hospital". As médicas do Hospital Barra D’Or, que atenderam o menino, garantiram à polícia que ele, levado pela professora e seu namorado, já chegara morto à unidade de saúde. As investigações que se seguiram mostraram, através das imagens da câmera do elevador que mostram Monique e Jairinho levando Henry ao hospital, que o menino já estava morto ao deixar o apartamento do vereador. Um laudo posterior indicou que Henry tinha lesões no crânio, ferimentos internos e hematomas nos membros superiores. À TV Globo, nove peritos disseram que exames indicaram que a criança teve morte violenta.
No mesmo dia, Leniel, pai de Henry, foi a 16 DP registrar a ocorrência e prestou seu depoimento.
Henry foi enterrado no dia 10 de março de 2021, no Cemitério do Murundu, em Padre Miguel, na zona oeste do Rio de Janeiro.No dia seguinte ao enterro do filho, mãe de Henry foi a salão de beleza. O Povo, 8 de abril de 2021. Consultado em 11 de abril de 2021
Investigações A polícia começou a investigar o caso a fim de saber se Henry morrera por acidente ou se ele havia sido vítima de violência, já que o laudo do IML apontou lesões graves no corpo da criança. Os peritos acreditavam na hipótese de agressão, já que ele sofrera hemorragia interna e laceração hepática provocada por ação contundente.
No dia 17 de março Monique e Jairinho prestaram seus depoimentos. No dia anterior, os dois estiveram no apartamento de seu advogado, Andre França Barreto, e ensaiaram suas respostas. Ambos afirmaram no depoimento que colocaram Henry para dormir no quarto do casal e foram assistir televisão em outro quarto. Quando Monique voltou ao quarto do casal, deparou-se com Henry caído no chão. Ela teria chamado Jairinho que, de acordo com seus depoimentos, estava no banheiro nesse momento, e foram ao hospital.
No dia seguinte, 18 de março, prestou depoimento Thayna de Oliveira Ferreira, babá de Henry. Ela afirmou que nunca havia presenciado anormalidades na família e que, ao dar banhos em Henry, nunca viu qualquer marca de violência. Depois da prisão do casal, Thayna deu outro depoimento, contradizendo o que disse no primeiro, e relatou casos de violência cometidos por Jairinho contra Henry.
No dia 29 de março foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra Jairinho, Monique e Leniel. Eles forneceram a senha de 11 aparelhos celulares recolhidos e no celular de Monique foram encontradas conversas com a babá, onde esta relatava à Monique que Jairinho agredia Henry. A descoberta dessas conversas levou ao pedido de prisão temporária do casal e a apreensão do celular da babá, já que as conversas reveladas demonstraram a existência de agressões frequentes contra a criança e que Monique não afastara o filho do agressor. Ademais, ficou evidente que a babá havia mentido no seu primeiro depoimento.
No final de março, 12 pessoas já tinham sido ouvidas como testemunhas, incluindo as três médicas pediatras que o haviam atendido no hospital. Elas afirmaram que o menino já chegou morto ao local.
Réus Doutor Jairinho
Jairo Souza Santos Junior, conhecido como Dr. Jairinho, era um médico e político que ficou sem partido após expulsão do Solideriedade. Eleito vereador do Rio de Janeiro em 2004, conseguiu se reeleger em 2008, 2012, 2016 e 2020, sendo cassado deste último mandato devido quebra de decoro parlamentar.
Dr. Jairinho era figura conhecida do Legislativo carioca, tendo sido líder do governo de Marcelo Crivella (Republicanos) na legislatura 2017-2020 e filho de um ex-deputado estadual, o policial Coronel Jairo, que foi preso em 2018 pela Operação Furna da Onça, suspeito de receber mesada para aprovar projetos de interesse do governo de Sérgio Cabral (MDB).
Em 2004, Jairinho foi eleito pela primeira vez, aos 27 anos, e foi o vereador mais votado do PSC, com 24 mil votos. No pleito seguinte, em outubro de 2008, foi reeleito para o segundo mandato, com votos. Nesse período, Jairinho assumiu como principal proposta a luta por um ensino de qualidade no município do Rio, ao ser autor dos decretos que suspenderam a aprovação automática nas escolas da rede municipal. Ao assumir o cargo, o prefeito Eduardo Paes revogou a aprovação automática nos dois últimos ciclos do Ensino Fundamental. Em 2012, pelo PSC, Dr. Jairinho garantiu novo mandato, com 43 mil votos. Em 2016, já no PMDB, foi reeleito para o cargo de vereador, ao receber os votos de 26 mil cariocas. Em 2020, Jairinho foi o 28º mais votado dentre os 51 vereadores eleitos no Rio de Janeiro no ano de 2020. Em 11 de março de 2021, três dias após a morte do menino Henry, Jairinho passou a integrar o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Acabou por ter o seu mandato cassado em 30 de junho de 2021 por unanimidade (49 votos a favor dos 51 eleitos, Dr. Gilberto (PTC) apresentou licença médica), sendo o primeiro vereador da história da câmara municipal do Rio de Janeiro a perder o mandato por deliberação de outros vereadores. Jairinho está detido no presídio Bangu 8, onde também se encontra preso Roberto Jefferson, político e pai de sua ex-namorada Cristiane Brasil.
Monique Medeiros Monique Medeiros Costa e Silva de Almeida, de 32 anos, nasceu e cresceu em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, filha mais velha de uma professora e de um funcionário civil da Aeronáutica. Na mesma região, cursou colégios particulares durante a infância e a adolescência.
Cursou Letras (Português/Literatura) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e nesse período, conheceu o engenheiro Leniel Borel de Almeida. Os dois começaram a namorar e, logo depois, ela foi morar na cobertura dele, no Recreio dos Bandeirantes. Leniel passou então a pagar a mensalidade de uma faculdade particular em um shopping para a Monique, onde ela terminou a graduação.
Em 2011, Monique foi aprovada em um concurso público da Secretaria Municipal de Educação (SME) e passou a dar aulas para turmas de Ensino Infantil da Escola Ariena Vianna da Silva, em Senador Camará, onde, sete anos depois, ascendeu à diretora. Nessa ocasião, Henry, fruto da união com Leniel, tinha 2 anos. E o casamento, abalado pelo trabalho do engenheiro em uma multinacional, onde chegava a ficar três semanas embarcado, já dava sinais de desgaste. Algum tempo depois, Leniel foi demitido e a situação financeira do casal apertou. Eles foram morar em Bangu, no terreno de 360 metros quadrados, herdado pela mãe de Monique, da avó já falecida.
Com a recolocação profissional de Leniel, os três acabaram retornando ao Recreio, onde estavam no início da pandemia do coronavírus. O trabalho remoto permitiu a união da família, mas, segundo o engenheiro, o relacionamento não resistiu. "Acabou que passei a fazer 18, 20 reuniões por dia. Quase não nos falávamos e eu só conseguia brincar com o Henry à noite, já cansado. Isso acabou por nos afastar ainda mais. A partir daquele momento, nossa relação desandou de vez e ela pediu a separação logo depois", contou, em entrevista ao jornal O Globo.
Em meados de 2020, Monique, mais uma vez, foi com Henry para Bangu e lá contou ter conhecido o Dr. Jairinho durante um almoço profissional no centro comercial Village Mall, em agosto. Um mês depois, eles começaram a namorar e, em novembro, decidiriam morar com o menino num apartamento alugado no condomínio Majestic, em Jacarepaguá. Foi nessa época que a professora foi cedida ao Tribunal de Contas do Município e viu seu salário pular de R$ 4 mil para R$ 16.500.
Em 25 de março de 2026, Monique, que tinha o cargo de professora na rede municipal, foi demitida pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere. A decisão da prefeitura ocorreu após a ré ser solta pela primeira vez.
Depoimentos No dia 2 de abril, a revista Veja revelou, em detalhes, a existência de outras duas crianças agredidas, filhas de duas ex-namoradas de Jairo. Uma delas afirmou que o vereador agrediu sua filha quando os dois estiveram juntos, oito anos antes da morte de Henry. A menina, hoje com 13 anos de idade, foi ouvida pela polícia e relatou que as agressões eram frequentes. A polícia também descobriu que a menina vomitava e chorava quando Jairo ficava com ela e a mãe, mesmas reações de Henry quando voltava para a casa da mãe.