A cavalaria do Brasil é uma das armas que compõem seu Exército. Opera em veículos blindados e tal como a infantaria, confronta diretamente o inimigo, porém, com missões distintas tal como o reconhecimento e a vanguarda. É organizada em regimentos e esquadrões, equivalentes aos batalhões e companhias da infantaria. Seus principais tipos são os de carros de combate (Leopard 1 e M60), mecanizados (com veículos sobre rodas — EE-9 Cascavel, EE-11 Urutu e VBTP-MR Guarani), blindados (com veículos sobre lagartas — carros de combate e M-113) e de guarda (a cavalo). Seu efetivo serve nas tripulações dos veículos ou como fuzileiros embarcados, que podem também combater a pé.
O Brasil tem a cavalaria hipomóvel, isto é, a cavalo, desde o período colonial, destacando-se no Sul. Ela teve diversas formas e origens, como a elite social nas Milícias e Ordenanças, o Regimento Regular de Cavalaria de Minas, de caráter policial, as milícias de peões na fronteira gaúcha e os Lanceiros Guaranis e Alemães. Oficiais gaúchos preferiam a Arma no Brasil Império e na Escola Militar do Realengo (1912–1945), entre eles o patrono Manuel Luís Osório (1808–1879), que se destacou durante a Guerra do Paraguai. A manutenção dos cavalos era dificultada em campanha por deficiências materiais.
Os cavalos tornaram-se obsoletos nas guerras mundiais do século XX, sendo substituídos nos países industrializados por forças motorizadas, mecanizadas e blindadas. No Brasil o processo foi demorado, e tradicionalistas argumentavam que a economia e infraestrutura nacionais eram insuficientes para sustentar a mecanização total. Nos anos 50 e 60 as forças mecanizadas conviveram com as hipomóveis. Somente nas reformas dos anos 70 a indústria bélica era desenvolvida o suficiente para aposentar os cavalos. Como em alguns outros países, a mudança não extinguiu a arma: as capacidades e missões dos blindados são semelhantes às dos equinos, enquanto as tradições dos cavalarianos permanecem em parte herdadas do uso do cavalo. Desde então seu nível tecnológico depende da aquisição de novas gerações de veículos. Como nos países vizinhos, eles não são de última geração.
A maioria desses corpos estão agrupados em cinco brigadas, quatro no Sul do país e uma no Centro-Oeste. As brigadas de infantaria também contam com algumas forças de cavalaria, incluindo esquadrões especializados — paraquedista, aeromóvel e de selva. A organização à base de divisões vigorou da reforma de 1921 até ao redor dos anos 70, quando deu lugar às atuais brigadas, cada qual contando, além da cavalaria, com forças de artilharia, engenharia e logística. Quatro brigadas de cavalaria são mecanizadas, com regimentos mecanizados e blindados, e uma é blindada, com regimentos de carros de combate e batalhões de infantaria blindada.
Conceitos básicos miniaturadaimagem|Disparo do canhão de 105 milímetros de um Leopard 1|esquerda As tropas podem ser classificadas em infantaria, cavalaria, artilharia, engenharia e logística. As primeiras quatro são denominadas armas, e a última é dividida em “quadros”, “serviços” e outros nomes. Cavalaria e infantaria são armas base, isto é, vão ao encontro do inimigo, ao contrário das armas de apoio, artilharia e engenharia; suas unidades são assim denominadas “de manobra”. A cavalaria tem terminologia própria para seus escalões: esquadrões e regimentos. Os primeiros são equivalentes às companhias da infantaria e baterias da artilharia, e os segundos, aos batalhões da infantaria e grupos da artilharia. As forças denominadas “mecanizadas” usam blindados sobre rodas, enquanto as “blindadas” usam blindados sobre lagartas.
miniaturadaimagem|Fuzileiros desembarcam de um EE-11 Urutu As cavalaria tradicionalmente segue à frente, nos flancos ou na retaguarda da força principal, com missões de segurança (por exemplo, evitando emboscadas), reconhecimento, conexão, penetração, recuperação do comando, retirada, etc. Muitos exércitos ainda dão a designação de cavalaria às unidades com essas responsabilidades. Apesar da diferença tecnológica entre cavalos e blindados, eles compartilham atributos como a mobilidade. O poder de “choque”, característico da cavalaria pesada, hoje existe no carro de combate e é produzido pela combinação da mobilidade, blindagem e potência de fogo. A essas características soma-se um sistema de comunicações capaz de coordenar forças dispersas por grandes distâncias. No Exército Brasileiro, a cavalaria é a arma que mais representa o fogo e movimento juntos, e é ela que opera os meios pesados à frente das ofensivas.
miniaturadaimagem|Mobilidade do M-113 em terreno difícil|esquerda Essas características dos veículos também são atribuídas aos transportes blindados como o Urutu. Eles carregam “fuzileiros mecanizados” e “fuzileiros blindados” que podem combater embarcados no veículo ou desembarcados, acompanhando-o a pé. Os fuzileiros são uma espécie de infantaria embarcada, assim como os antigos dragões (infantaria montada), que combatiam a pé ou a cavalo (ou seja, embarcados). As analogias com a cavalaria hipomóvel também são feitas entre os carros de combate e os couraceiros e entre os blindados mais leves e os lanceiros, ulanos e hussardos.
Os oficiais de cada arma permanecem nela pela carreira inteira. Na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) a diferenciação ocorre quando, ainda como cadetes, são no início do 2.º ano chamados por ordem de classificação escolar a escolher qual arma seguirão, ingressando então em seu respectivo curso, como o Curso de Cavalaria. Os últimos em classificação são “compulsados” para preencher as vagas restantes.
História Período hipomóvel Colônia miniaturadaimagem|Dragão em Minas Gerais Os governadores-gerais do Estado do Brasil usaram forças de cavalaria contra indígenas na Bahia e Espírito Santo em meados do século XVI, com o primeiro combate registrado em Porto Grande, próximo a Pirajá, Bahia, em 26 de maio de 1555. O primeiro uso decisivo foi na guerra contra os tupiniquins em 1558–1559. Porém os cavalos eram escassos e caros, um privilégio de poucos colonos. Nos dois primeiros séculos a manutenção de unidades de cavalaria foi difícil. A rede de fortificações era muito mais útil para a defesa do território do que a cavalaria.
O Império Português pós-Restauração (1640) tinha um exército dividido entre Corpos Regulares, de caráter profissional e pago, e duas categorias de caráter territorial e não remunerado, os Corpos Auxiliares/Milícias e os Corpos Irregulares/Ordenanças. Ambos passavam a maior parte do tempo em suas ocupações civis e eram divididos em unidades de brancos, pardos e negros libertos. Várias companhias de cavalaria de milícias lutaram contra as invasões holandesas do Brasil, e um esquadrão participou da primeira Batalha dos Guararapes, em 1648.
As Ordenanças de homens de cavalo (só os Regulares e Auxiliares usavam o termo “cavalaria”) tinham caráter de elite social nos século XVI e XVII. Em Minas Gerais no século XVIII, entre as Auxiliares de cavalaria e Ordenanças a cavalo não havia unidades de pardos ou de libertos. Ambas davam prioridade aos homens mais ricos e nobres. A cavalaria regular emergiu no início do século XVIII, a princípio como uma infantaria montada, de caráter policial. No ciclo do ouro, várias companhias de dragões foram constituídas a partir de 1719. Elas foram consolidadas em 1775 no Regimento Regular de Cavalaria de Minas, custeado pelo poder local — a própria Capitania de Minas Gerais — e ancestral da Polícia Militar mineira.
miniaturadaimagem|Guarda de Dom Pedro|esquerda Ao longo do período colonial a cavalaria foi recrutada em estratos sociais diversos. No Rio Grande do Sul colonial, uma sociedade militarizada, fronteiriça e pastoril, as milícias de cavalaria foram constituídas a partir da peonada. Ela era comandada por seus estancieiros “à semelhança dos contingentes dos barões feudais”; eram líderes carismáticos que organizavam a força a partir de suas próprias terras. Mobilizada apenas para a guerra ou para combater os índios, a tropa não seguia a disciplina militar ortodoxa, aumentando e diminuindo com deserções e ingressos. Os peões eram bem adaptados ao terreno e à montaria, improvisavam lanças e viviam numa sociedade onde o cavalo tinha grande importância. As milícias eram quase todas de cavalaria, mas como no restante do país, havia pouca cavalaria regular, consistindo, no século XVIII, de um Regimento de Dragões e outro Auxiliar criados na Capitania .
De 1763 a 1777 as guerras contra os espanhóis, que chegaram a ocupar dois terços do atual Rio Grande do Sul, deram origem a uma doutrina militar local, a “guerra à gaúcha”, que seria usada por mais dois séculos. Seus métodos eram a “guerra sempre móvel, em campanha rasa à base de Cavalaria, marcada por entreveros e desengajamentos rápidos”. As batalhas eram decididas no combate corpo a corpo e nos golpes de surpresa e astúcia. Na época, isto significou uma guerrilha para privar os espanhóis dos cavalos e gado. Os lanceiros gaúchos, apelidados de “centauros dos pampas”, tornaram-se emblemáticos das guerras do sul do país.
O príncipe regente Dom João julgou necessária a cavalaria para assegurar as capacidades militares do país, e vários regimentos foram criados no início do século XIX. Eles estavam armados com clavinas de pederneira Tower ou Brown Bess 17 mm e 19 mm, pistolas de pederneira 19 mm, lanças e sabres. Entre eles havia um Regimento de Lanceiros Guaranis, criado na região das Missões. O recrutamento de lanceiros entre os indígenas, que estavam formando sociedades nômades baseadas no cavalo, era mais um fenômeno sulista.
Império miniaturadaimagem|Osório na Batalha do Avaí O Império Brasileiro abandonou a nomenclatura de “Dragões”, reorganizando as forças em sete regimentos numerados de cavalaria. Era considerada ligeira, mas às vezes unidades do Sul eram consideradas de lanceiros por usarem essa arma, como os Lanceiros Alemães. A lança, adotada a partir de 1826, foi novidade inspirada nos lanceiros europeus e milicianos gaúchos. Até então os dragões só usavam sabres e carabinas e não aproveitavam o poder de choque das cargas montadas. A doutrina era a de Beresford: função ofensiva e combate montado, sem apear. No Segundo Reinado o armamento passou a ser clavinas de fulminante, Minié, de várias marcas e adarmes; sabres, revolvers Colt e Lefaucheux; pistolas de arção Minié e lanças.
Com opiniões e experiência próprias, os cavalarianos eram tidos em baixa estima pelos intelectuais da capital. Havia o dito: “como na cavalaria, rápido e malfeito”. O atual patrono, marechal Osório, atuou nesse período. Era gaúcho e típico estancieiro-militar. Os gaúchos predominavam na origem da tropa e localização dos regimentos; eram exímios cavalarianos. Os cavalos eram adestrados com selvageria e tratados de forma insensível. Junto à má qualidade das selas portuguesas e da alimentação, enfraqueciam e cada soldado precisava levar dois ou três. Podiam ser abandonados no caminho. O furto de cavalos era praticado tanto por riograndenses quanto por castelhanos.
Em campanha, as unidades de cavalaria eram muitas vezes corpos (isto é, unidades menores do que regimentos) de milícias gaúchas ou da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul. Nas guerras do sul do continente em 1825–1870, os cavalos eram de baixo padrão racial e as condições climáticas, ambientais, sanitárias e logísticas eram terríveis. Somado às condições do terreno, em muitos casos na Guerra do Paraguai (1864–1870) a cavalaria lutou a pé. O marquês de Caxias, em carta a Osório, descreveu a campanha como sendo “mais de caçadores e artilheiros que de cavaleiros, por isso que são ali os cavalos quase impossíveis de manter em grande número”.