Capitólio (), como monte Capitolino (), é uma das sete colinas sobre as quais foi fundada a cidade de Roma. Ela está dividida em três regiões bastante distintas: a Cidadela (), a 48 metros de altitude em relação ao nível do mar, onde está a basílica de Santa Maria in Aracoeli; o Asilo (), a 35,9 metros de altitude, onde está a Piazza del Campidoglio; e o Capitólio propriamente dito, a 44,7 metros de altitude, onde está o Palazzo Caffarelli.
A encosta sudoeste do Capitolino, ocupada por vários edifícios da Villa Caffarelli e abaixo da Rocha Tarpeia, ainda hoje é conhecida como Monte Caprino.
História Período lendário e monárquico Uma selada conhecida antigamente como Asilo separa o cume setentrional (Cidadela) do meridional (Capitólio), onde fica uma proeminência rochosa chamada Rocha Tarpeia, o local de onde eram atirados os traidores de Roma. Por sua posição entre a planície do Fórum Romano e o rio Tibre, perto do vau da Ilha Tiberina, ali foi instalada a acrópole de Roma. thumb|direita|Rocha Tarpeia. Segundo a tradição romana, o primeiro assentamento no monte Capitolino foi fundado pelo deus Saturno (que tinha um templo no local), no qual foram acolhidos os regos liderados por Hércules. De fato, o Capitólio aparentemente foi habitado a partir do final da Idade do Bronze, como provam algumas cerâmicas descobertas no sopé do monte, no Sítio de Santo Omobono e nas escavações no Giardino Romano.
Segundo o historiador Tácito, o Capitólio e também o vizinho Fórum Romano foram anexados à antiga Roma quadrada de Rômulo por Tito Tácio.Estrabão, Geografia V, 3,7Tácito, Anais XII, 24. A construção do Templo de Júpiter Capitolino, dedicado à tríade capitolina (Júpiter, Juno e Minerva), que antigamente ocupava o segundo cume (Capitolium) e era até então apenas um altar,Zonaras, Epitome VII, 11. foi iniciada, segundo a tradição, na época de Tarquínio Prisco, continuando durante o reinado de Tarquínio Soberbo e só terminou no início da República Romana.Lívio, Ab Urbe Condita Periochae I.27. Prisco também construiu o acesso triunfal ao monte.Eutrópio, Breviarium ab Urbe condita I, 6.
A história do Capitólio está ligada à captura do monte pelos sabinos que, liderados por Tito Tácio, atacaram os romanos para se vingarem do Rapto das Sabinas. Capturada graças à traição de Tarpeia, os sabinos enfrentaram os romanos numa guerra que só terminou com a intervenção das próprias sabinas raptadas, que eram filhas dos sabinos e esposas e mães de romanos na época.Lívio, Ab Urbe Condita I, 11-13. Ali era realizado o sacrifício final dos triunfos, que até então terminava no Templo de Júpiter Ferétrio, cuja construção era atribuída ao próprio Rômulo, cujo nome provavelmente era uma referência ao quercus, a árvore sagrada que crescia no local e na qual Rômulo pendurou as armas e armaduras que ele havia capturado em combate singular contra o rei inimigo (a primeira spolia opima). Além disto, no Templo de Júpiter ficavam os santuários de Término e Juventas,Lívio, Ab Urbe Condita Periochae I.28.Floro, Epitoma de Tito Livio bellorum omnium annorum DCC I, 7.8. deuses estrangeiros que, segundo o tradicionalismo da religião romana, era preferível incorporar do que destruir. Este templo passou por numerosas restaurações e reconstruções.
Durante as obras de escavação das fundações do Templo de Júpiter Capitolino foi recuperada uma cabeça humana atribuída, na época, a Aulo Vibena (ou Vipsânia), um dos condes do herói Mastarna (o rei Sérvio Túlio), irmão de Célio Vibena. Ainda na antiguidade se supunha que deste episódio derivou o nome da colina inteira: de caput Auli, que significa "cabeça de Aulo", derivou capitolium.
Período republicano Em 460 a.C., o Capitólio foi ocupado por quatro mil soldados sabinos liderados por Ápio Erdônio,Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas X.14. que tentou usurpar o comando da cidade à força. Depois de resistir por quatro dias, Erdônio foi finalmente capturado e executado pelos romanos liderados pelo cônsul Públio Valério Publícola, que também acabou morto em combate.Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas X.15-16. Depois desta guerra, o Quirinal também foi incorporado à cidade de Roma. thumb|upright=1.3|esquerda|Reconstrução de uma vista do Capitolino na época republicana. A antiga via de acesso ao Capitólio que permitia o tráfego de carroças era o Clivo Capitolino, uma continuação da Via Sacra que iniciava perto do Templo de Saturno (um trecho ainda é visível logo depois do Pórtico dos Deuses Harmoniosos). Mais adiante, a estrada ruiu juntamente com grande parte da encosta meridional da colina, mas é provável que seu trajeto continuasse em linha reta, contornando a colina para chegar ao Templo de Júpiter. Muito antigo era o chamado "auguráculo" ("recinto augural"), um espaço sagrado orientado segundo os pontos cardeais onde ocorriam os auspícios. Em 216 a.C., foi construído ali também um templo dedicado à Concórdia (diferente do templo de mesmo no Fórum Romano).
Na época da invasão gaulesa de 390 a.C., o Capitólio foi o local de um dos episódios mais famosos da história romana, o dos gansos capitolinos, ocorrido no recinto sagrado do Templo de Juno. Conta a história que, alarmados pelo alarido feito pelos gansos, os romanos descobriram um ataque noturno dos gauleses. Para lembrar o episódio, foi construído em 345-344 a.C. o Templo de Juno Moneta ("moeda" ou "admonitória"): perto deste templo foi criada a primeira casa da moeda romana e a origem do termo "moeda".
Logo depois do cerco gaulês, as defesas de Roma foram reforçadas com um muro que correspondia à depressão central do monte ("Asilo"), que servia não apenas como fortificação, mas também como estrutura de contenção da encosta (este muro caiu em desuso depois da construção da Muralha Serviana em 378 a.C.). Nele se abriam uma série de portas: no lado de frente para o Fórum Romano, a Porta Satúrnia (perto do Templo de Saturno), também chamada de Porta Capitolina ou Porta Tarpeia ou ainda Porta Pandana ("sempre aberta") para uso dos sabinos; ela permitia o acesso ao monte a partir do Clivo Capitolino e era atravessada durante os triunfos romanos. Uma segunda porta, chamada Porta Catulária, se abria no lado oposto sobre um clivo proveniente do Campo de Marte. Uma terceira, a Porta Carmental, ficava no sudoeste permitia o acesso a partir da escadaria conhecida como Cem Degraus (Centum gradus), cujo nome evoca os degraus que começavam no Fórnice Calpúrnio, ao lado da Rocha Tarpeia, na direção do futuro Teatro de Marcelo. Outras portas são conhecidas apenas pelas fontes literárias: a Porta Flumentana, talvez do lado noroeste, e a Porta Fontinal (ou Ratumena), a nordeste.
Um outro acesso a partir do Fórum Romano eram as Escadas Gemônias, que seguia para a Cidadela (Arx), que corresponde à escada moderna de mesmo nome, que passava entre o Cárcere Mamertino e o Templo da Concórdia: do alto dela eram atirados os corpos dos prisioneiros executados no Cárcere vizinho por crimes de lesa-majestade na época do imperador Tibério. A "Escada Moneta" (), a escadaria que levava diretamente ao Templo de Juno Moneta, era provavelmente um prolongamento das Gemônias no ponto mais alto da Cidadela.
Na selada entre os dois cumes (Asilo), onde está a moderna Piazza del Campidoglio, ficava o Templo de Vejóvis (terminado em 192 a.C.), com cela muito mais larga que longa, cujos restos ainda podem ser vistos no subsolo dos Museus Capitolinos.
Em 133 a.C., o tribuno da plebe Tibério Graco foi assassinado nas imediações do Templo de Júpiter durante um comício depois de um tumulto provocado pelos patrícios. É provável que ele tenha caído do alto da escadaria que levava ao Campo de Marte ("Cem Degraus"), onde mais tarde foi erigida uma estátua sua muito venerada pelo povo romano. Em 83 a.C., um gravíssimo incêndio destruiu o Capitólio, incluindo o venerado Templo de Júpiter. O encarregado da reconstrução foi o partidário de Sula, Quinto Lutácio Cátulo,Aulo Gélio, Noctes Atticae II, 10 que, em 78 a.C., completou a construção do Tabulário, o arquivo do estado romano, que cobriu todo o flanco da colina de frente para o Fórum Romano, para o qual serviu como um harmonioso pano de fundo. As obras no local prosseguiram até pelo menos o ano de 69 a.C..
Período imperial thumb|direita|Santa Maria in Aracoeli e sua antiga e íngreme escadaria|222x222px No Capitólio, Augusto mandou construir um pequeno pequeno templo dedicado a Marte Vingador antes da dedicação de um templo homônimo no Fórum de Augusto. Suetônio conta que, durante as calendas de janeiro, o povo levava doações ao Capitólio, mesmo quando o imperador estava fora da cidade. Com o dinheiro obtido, Augusto mandou construir várias estátuas de deuses romanos, que ele mandava colocar em vários bairros da cidade, como a de Apolo Sandaliário ou a de Juno Tragedo e muitas outras.Suetônio, Vidas dos Doze Césares Vida de Augusto LVII
Durante o período de anarquia que se seguiu à morte de Nero (68-69), depois dos reinados de Galba e Otão, os partidários de Vespasiano se refugiaram no Capitolino perseguidos pelos partidários de Vitélio. O local todo foi incendiado e todos os templos foram destruídos. Vespasiano, assim que assumiu o trono, restaurou os edifícios e o Templo de Júpiter foi reaberto em 75.
Pouco depois, em 80, na época de Tito, um novo incêndio começou na encosta de frente para o Campo de Marte e as obras de reconstrução foram realizadas por Domiciano em 81. Foi nesta época que foram construídos o Pórtico dos Deuses Harmoniosos e o Templo de Vespasiano e Tito na encosta do Capitolino de frente para o Fórum Romano. Adriano e Marco Aurélio realizaram novas obras no Capitólio, que passou a ser então apenas um local de devoção religiosa e ponto final de procissões e triunfos. Na época de Trajano, depois que toda elevação que ligava o Capitolino ao Esquilino foi desbarrancado para a construção do Fórum de Trajano, realizou obras de regularização da encosta oriental da colina com um fachada de tijolos com pequenos nichos, ainda hoje visível perto da entrada do moderno Museo centrale del Risorgimento al Vittoriano.
Período medieval Sobre os restos do Templo de Juno Moneta, sobre a antiga Cidadela, foi construída a basílica de Santa Maria in Aracoeli, que podia ser acessada por uma íngreme escadaria, e um convento anexo, além de um maciço palácio papal geralmente conhecido como Torre de Paulo III, estes dois últimos destruídos na década de 1880 para permitir a construção do Vittoriano. Os restos do antigo Tabulário foram reutilizados como residência fortificada pela família Corsi. thumb|direita|Estátua de Cola di Rienzo na Cordonata O governo da cidade de Roma estava, nesta época, firmemente sob o comando papal, mas o Capitolino ainda era um local de resistência urbana, como os dramáticos eventos da república efêmera de Cola di Rienzo. Em 1144, uma revolta liderada pelos cidadãos contra a autoridade do papa e dos nobres fizeram com que o palácio dos Corsi fosse transformado em sede do Senado de Roma (Palazzo Senatorio), de costas para o antigo fórum, o início da mudança na orientação da colina que seria acentuada na época de Michelângelo.
Uma pequena praça foi criada de frente para o novo palácio para uso público da comuna. Em meados do século XIV, a corte de justiça das guildas foi construída na extremidade meridional da praça, um local que depois abrigaria os conservatori no século seguinte. No pórtico do palácio, disputas surgidas durante a realização dos negócios eram resolvidas, exceto quando tinham importância suficiente para serem julgadas num tribunal comunal, como o dos conservatori.
Até 1470, o principal mercado da cidade era realizado no Campidoglio e nas imediações, enquanto que o gado continuava a ser taxado e vendido no antigo Fórum Boário, localizado um pouco mais ao sul.Charles Burroughs, Michelangelo at the Campidoglio: Artistic Identity, Patronage, and Manufacture (IRSA s.c., 1993) pp. 91 "Palazzo dei Conservatori, Campidoglio (The Capitoline Hill)"