As controvérsias envolvendo o SBT dizem respeito a um conjunto amplo de controvérsias envolvendo essa rede de televisão brasileira, especialmente em suas relações com a sociedade, a imprensa e os órgãos reguladores. Ao longo de sua trajetória, o SBT foi alvo de críticas em diferentes contextos, que vão desde questões éticas e editoriais até aspectos administrativos e culturais, compondo um histórico significativo de polêmicas e debates públicos.
Concessão Na época em que foi divulgado que o Grupo Silvio Santos havia conquistado uma concessão de televisão aberta em São Paulo, a imprensa fez diversos questionamentos, alegando que Silvio Santos já era dono de uma rede de TV no Rio de Janeiro, a TVS, e não poderia vencer uma concessão que englobava uma outra rede de TV no mesmo estado. Como explicação, foi dito que o dono do canal 11 no Rio de Janeiro era Silvio Santos e quem venceu a licitação que englobava o canal 9, era o Sistema Brasileiro de Televisão, que não tinha Silvio Santos no seu rol acionário e sim Carmen Abravanel (cunhada de Silvio Santos) e Carlos Marcelino Machado de Carvalho (filho de Paulo Machado de Carvalho, da TV Record). Outra acusação é que o SBT teria sido favorecido graças a programas como a Semana do Presidente, exibida dentro do Programa Silvio Santos e a proximidade do apresentador com o presidente João Figueiredo. O ministro das Comunicações Haroldo Corrêa de Mattos ficou exaltado e chegou a chamar de antipopular e elitista quem criticava a escolha da concessão ao SBT.
Alguns Sindicatos de Radialistas da época também não gostaram da escolha do processo vencido por Silvio Santos e do “surgimento do SBT”. Ciro Machado, então presidente da categoria em Porto Alegre, assim falava de Silvio Santos: “é um mau empresário, que não assume responsabilidades com o trabalho e, todos sabem, só trabalha mediante prestação de serviços ou cachês”. Nisso, a bem da verdade, acabou se revelando uma mentira com o passar do tempo. É histórica a fama de bom pagador do SBT a seus funcionários. Por outro lado, o mesmo Ciro Machado disse que o mercado de trabalho não iria melhorar porque Silvio Santos “só se utiliza de enlatados”.
Em 20 de março de 1981, o Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo divulgou uma nota oficial lamentando a decisão do Ministério das Comunicações em ceder duas concessões aos grupos de Silvio Santos e Adolpho Bloch, o sindicato afirmando-se "de luto" pela concessão das duas novas redes de televisão ao Sr. Adolpho Bloch e à Sra. Carmem Abranavel, "que na realidade é a máscara onde se esconde o Sr. Sílvio Santos". O sindicato considerou que "foram ganhadoras as duas piores propostas, pois o Sr. Adolpho Bloch já fala numa rede para exibir filmes enquanto o Sr Sílvio Santos está preocupado com o seu Baú da Felicidade para a venda de carnês".
Em relação a Silvio Santos, o sindicato afirmou: "A rigor, um dos dois ganhadores nem deveria estar participando da licitação, porque era impedido por lei. Mas o Sr. Sílvio Santos [sic] burlou a lei e entrou na concorrência com testas de ferro".
Dívidas dos antigos funcionários da Tupi Em 1980, 869 dos cerca de 1.500 funcionários da Rede Tupi entraram com ação judicial coletiva para receber seus direitos. Em 1986, Silvio Santos assumiu a dívida, mas não houve acordo quanto ao valor corrigido. O sindicato queria R$ 7,8 milhões. O SBT, inicialmente, só queria pagar R$ 1,9 milhão e recorreu à Justiça. Em 1996, o SBT depositou em juízo esse valor, que foi distribuído aos ex-funcionários em 1997. Em 1999, a Justiça determinou o pagamento, pelo SBT, de mais R$ 6,4 milhões. Em 2000, cerca de 800 funcionários da extinta TV Tupi receberam parte de seus direitos trabalhistas, reivindicados há 20 anos. A 4.ª Vara Cível de São Paulo liberou ao sindicato dos radialistas do Estado R$ 6,4 milhões que o SBT havia depositado em juízo no ano de 1999. Desse total, o sindicato repassaria aos ex-funcionários R$ 5,8 milhões. O sindicato dos radialistas ainda tentaria receber mais R$ 1,1 milhão.
Documento Especial Em 1992, Silvio Santos convidou o diretor Nelson Hoineff e o apresentador Roberto Maya e seu programa Documento Especial a deixarem a Rede Manchete e irem para o SBT. O tema da estreia era “O País da Impunidade”, mas esta edição não foi ao ar e não se soube o verdadeiro motivo das restrições impostas ao programa de estreia. Informações dão conta que era uma reportagem dissecando o caso PC Farias/Fernando Collor de Mello, contendo inclusive uma gravação inédita obtida junto ao jornal Zero Hora de Porto Alegre e o SBT preferiu não levar ao ar por medo de represália de políticos, em especial do governo do presidente Collor, em tempos de crise institucional no Brasil. Tal matéria só seria exibida em 2007, no Canal Brasil. O mesmo programa levaria ao ar, em 17 de setembro de 1992, uma reportagem que não pôde ser tratada na Manchete por restrições de Adolpho Bloch.
A reportagem, que virou tema internacional, exibiu uma entrevista com um grupo neonazista brasileiro, denominado White Power, formado por skinheads, na matéria também aparecia o irmão de Eduardo Suplicy, Anésio Lara, que era simpatizante dos ideais de Adolf Hitler. Como Suplicy era candidato à Prefeitura de São Paulo, seu adversário Paulo Maluf tentou usar a matéria a seu favor na campanha. A Polícia Federal entrou no caso e indiciou diretor, chefe de reportagem e produtor por apologia ao crime. Na época, a Rádio Atual AM, voltada ao público nordestino foi pichada pelo fato de seu locutor ter se manifestado contra a matéria do Documento Especial. Em 29 de novembro daquele ano, a reportagem foi exibida no Festival de Documentários de Leipzig, na Alemanha.
Acusações de antiética
Vinhetas Durante as décadas de 1980 e 1990, o SBT, embora disputasse com a Rede Manchete o segundo lugar, nunca escondeu que a Rede Globo era seu alvo principal. Desta forma, diversas vinhetas foram exibidas provocando a concorrente.
Rambo Em 1988, o SBT anunciou que exibiria o filme Rambo. Como o interesse público pelo filme era grande, a expectativa de audiência era alta. A Globo resolveu contra-atacar com o filme Rambo II - ao que o SBT respondeu adiando a exibição de Rambo e colocando no ar uma vinheta com os seguintes dizeres:
No dia da exibição remarcada, a Rede Globo estica o capítulo da novela Vale Tudo. A estratégia do SBT foi colocar no ar um slide com os seguintes dizeres, paralisado por 50 minutos:
O SBT conseguiu a vitória no IBOPE, mas foi duramente criticado. A crítica Lúcia Leme, do jornal O Globo, afirmou à época:
A atitude do SBT foi vista como antiética à época, pois foi a primeira vez em que concorrentes se atacavam diretamente na televisão brasileira.
Sensacionalismo O programa Aqui Agora ficou conhecido por ser o primeiro registro de um programa de jornalismo sensacionalista da televisão brasileira. Ao adotar uma imagem popular, com diálogos diretos e imagens fortes, o programa conseguiu audiência mas, ao mesmo tempo, chocou o público. A emissora cheogu a ser processada por exibir um suicídio ao vivo.Veja, 24/03/99
"Vale tudo" aos domingos Em meados dos anos 90, o Domingo Legal de Gugu Liberato passou a concorrer pesadamente com o Domingão do Faustão, chegando à liderança em alguns momentos. O programa passa então a adotar uma linha sensacionalista e voltada ao erotismo, com o quadros como a Banheira do Gugu (onde convidados do sexo masculino procuravam um sabonete em uma banheira com modelos seminuas) e atrações como uma família de mexicanos que sofriam de hipertricose, condição na qual os pelos crescem indiscriminadamente pelo corpo. Ao apresentar os irmaõs como "Os Lobisomens Mexicanos", e questionar se os membros tomavam banho ou mesmo se eram parentes do lendário lobisomem, o programa os trata como aberração e a atitude foi duramente criticada.
Respondido pela Rede Globo com o Domingão do Faustão exibindo outra anormalidade, o episódio chegou a levar Carlos Manga, então diretor do programa global, a propor um código de ética entre as duas emissoras, onde não exibiriam mais o que chamou de "cenas escatológicas e desgraças humanas". Guilherme Stoliar, sobrinho de Sílvio Santos e executivo do SBT, rejeitou a proposta, alegando tentativa de censura pela concorrente.
A Banheira do Gugu foi reavaliada pelo Ministério da Justiça e só poderia ser exibida após as 21 horas. Como o programa se encerrava mais cedo, a produção preferiu não realizar mais o quadro. À época, Gugu disse à Veja que a decisão se tratava de falso moralismo:
Programa do Ratinho
Contratação pelo SBT Na noite do dia 27 de agosto de 1998, Silvio Santos assinou contrato com Ratinho e posteriormente anunciava na emissora a contratação do apresentador. Na época, Ratinho era vice-líder de audiência na Record, com o seu Ratinho Livre, chegando a atingir 36 pontos.
No dia 28 de agosto, a Agência JB divulgou que além da contratação, o SBT deveria pagar R$ 43 milhões em multa pela rescisão do contrato com a Record. No mesmo dia, o SBT anunciava em comerciais, um programa especial exibido na sexta-feira (até então horário de Tela de Sucessos) e a entrevista coletiva à imprensa, que deu 13 pontos de audiência.
Em 31 de agosto, a Rede Record entrou com uma liminar na justiça para impedir que o SBT continue divulgando a estreia do Programa do Ratinho até que a multa rescisória seja paga. Do dinheiro, R$ 20 milhões foram pela quebra do contrato com a Record e R$ 23 milhões foram para a Abba Produções, empresa que administrava os sorteios do 0900. Silvio decidiu antecipar a estreia do Programa do Ratinho na semana posterior, que tinha previsão de começar em Outubro. Informação vazada dentro da emissora dizia que o SBT não tinha a menor condição de pagar a multa rescisória à Record.
Casos falsos Em 18 de outubro de 1998, menos de 2 meses após a estréia do programa no SBT, a Folha de S.Paulo fez uma reportagem, que revelou um esquema que fabricava histórias falsas para serem apresentadas no programa. O caso rapidamente chegou a Justiça. Em sua defesa, o apresentador afirmou que pagava aos diretores para procurar histórias para o programa, porém não sabia que elas eram falsas. Porém dias depois, a reportagem apurou que o Ratinho tinha ciência sobre a não veracidade das histórias.
Sequestro de Wellington Camargo Em 1999, quando o irmão dos cantores Zezé Di Camargo e Luciano, Welington José Camargo, estava sob poder de sequestradores, Ratinho criou um serviço por telefone para arrecadar o dinheiro do resgate. A atitude teria incitado os criminosos a aumentar o valor pedido e ainda cortar um pedaço da orelha de Welington, e ainda, ter colocado o mesmo pedaço, na portaria da TV Serra Dourada, afiliada do SBT em Goiânia. Anos depois em 2018, o apresentador admitiu que interferir nesse caso foi o seu único arrependimento na televisão.
Guilherme de Pádua Em 8 de abril de 2010, Ratinho fez uma entrevista com o ator Guilherme de Pádua, que em 1992, assassinou a colega de elenco, Daniella Perez a golpes de tesoura, junto de sua esposa, Paula Thomaz, ambos condenados a 19 anos de prisão, porém só ficaram 6 presos. Durante a entrevista, Ratinho e Guilherme de Pádua chegaram a discutir ao vivo, depois do programa, a autora de novelas e mãe de Daniela, Glória Perez, fez duras críticas a Ratinho e detonou Guilherme. Em 2011, em uma entrevista ao programa Hebe, na RedeTV!, o Ratinho afirmou estar arrependido de fazer a entrevista com o assassino da filha da autora.
Elisa Samúdio