thumb|Afrassíabe segundo iluminura da Épica dos Reis do Xá Tamaspe

Afrassíabe (), segundo a Épica dos Reis de Ferdusi, mas também chamado Farassíabe (Farāsīāb) por Almaçudi, Albiruni e Abu Hanifa ou Farassíate (Farāsīāt) segundo Atabari, foi um rei lendário do Turanistão e rival da Pérsia.

Etimologia

O antropônimo Afrassíabe (Afrāsīāb) deriva do avéstico Fraŋrasyan, que segundo E. Benveniste advém de <* fra-hrasya- "fazer desaparecer, cair, destruir" (causativo duma raiz ligada ao sânscrito srṃs- "cair", sras- "cair, desaparecer"). A forma persa do seu nome possui o elemento -āb, que derivou do persa médio -āp, "água". Então, *Fraŋrasyāka -> *Frārasyāk -> persa médio Frāsiyāk, mas *Frahrasyāpa -> *Frārasyāp -> Frāsīāb (o Frangrāsyāb no Dencarde é uma tradução pseudo-erudita da forma avéstica). O nome dele ainda apareceu como Farāsīāt (Atabari), Farāsīāb (Almaçudi, Albiruni e Abu Hanifa), Frāsiyāv, Freangrāsyāk (persa médio), Frāsyāvak ou Frāsyāvan (pezande).

Vida

thumb|esquerda|Afrassíabe matando Nauzar segundo iluminura da Épica dos Reis de Ferdusi da Biblioteca Wellcome

Em fontes persas e islâmicas médias, Afrassíabe é tido como descendente de Tur (Tuje), um filho de Feredum, que no Avestá é tido como Turia-, ou seja, turiano ou turânio. Não há clareza nas fontes acerca do número de seus ancestrais e seus nomes, salvo seu pai, que aparece em todas como Paxangue. Sua genealogia, segundo a Criação Original, o coloca na sétima geração após Feredum: Fraciave, filho de Paxangue (Faxanje em árabe), filho de Zaexém (Zadexão para Ferdusi), filho de Tura, filho de Espaeniaspe, filho de Duroxabe (Durosaspe), filho de Tuje, filho de Fredom. Teve muitos irmãos, dos quais se destacam o santo , que perdeu a vida por suas simpatias pró-iranianas, e Garsevaz, que estaria envolvido na morte de Siauascis. Todos os seus filhos e irmãos são mortos no decorrer das guerras prolongadas com o Irã, mas principalmente durante a Batalha das Doze Faces. Afrassíabe foi o mais proeminente dos reis turanianos. É o principal inimigo dos iranianos e um agente de Arimã dotado com poderes mágicos para destruir as terras deles. Para os escritos zoroastristas, é um dos três mais odiados, junto de Bevaraspe e Alexandre, o Grande, que Arimã opôs aos iranianos.

Afrassíabe habitava uma fortaleza subterrânea feita de metal chamada Hancana, segundo uma tradição, enquanto noutra desfrutou do melhor da vida num palácio subterrâneo com paredes de ferro mil vezes mais altas que a altura de um homem, que foi sustentado por 100 colunas e era iluminado por estrelas, um sol e uma lua, todos feitos coma sua magia. Ainda, fluíam no palácio quatro rios (de água, vinho, leite e leite azedo batido). O Avestá coloca as suas várias malogradas tentativas de capturar o xᵛarnah- (farr(ah) em persa; glória ou fortuna divina). No Iaste 5.41-43, aparece sacrificando 100 cavalos, mil cabeças de gado e 10 mil ovelhas em Hancana à deusa Ardevi Sura Anaíta, o iazade da água, para poder alcançar o farr, que flutuava no mar Vourucaxa. No Iaste 19.56-64, mergulhou três vezes em Vourucaxa para pegar o farr, mas falhou. Já no Dencarde VII.2.68-69, começou a vagar pelos setes climas buscando o farr e o teve brevemente quando matou , o seguidor da mentira (Iaste 19.93), que tomou o trono e os iranianos pediram sua ajuda. O episódio aparece na Épica dos Reis, onde os turanianos vencem os invasores do "deserto da Arábia" na ausência de Caicaus em Hamavarã.

thumb|Carã e Afrassíabe se enfrentando em iluminura da Épica dos Reis thumb|Rustã remove Afrassíabe de sua sela em iluminura da Épica dos Reis

De acordo com a Épica dos Reis, o primeiro ataque de Afrassíabe contra o Irã ocorreu sob o sucessor e filho de , Nodar, que era um rei inepto e rebelde. Quando Paxangue notou a situação, nomeou seu filho como chefe de um poderoso exército, que invadiu o Irã a partir do Daistão e Amol. Nodar foi capturado e executado, e veteranos iranianos foram feitos prisioneiros; seriam mortos, mas foram salvos por Agrerate, que implorou que fossem presos numa caverna sob sua custódia. Então, assumiu a realeza e governou por 12 anos. Em outra tradição, preservada em livros pálaves e histórias islâmicas, seus ataques ocorreram no tempo de Manuchir, que foi sitiado e detido nos montes Padascuar no Atabaristão, onde os seus filhos Fria e Nodar foram mortos. Esta versão é tida como mais credível, visto ser prevalente nas fontes existentes, sendo possível que a tradição registrada por Ferdusi tenha sido forjada para apagar a derrota do ilustre Manuchir. Seja como for, após a vitória, um acordo foi selado entre eles para demarcar a fronteira de seus países. O arqueiro iraniano de nome Araxe atirou uma flecha sobre o monte Padascuar e eles aceitaram o ponto atingido pela flecha como local da fronteira comum. O ponto atingido foi Bactro, perto do rio Oxo; Albiruni, por outro lado, coloca que atingiu uma enorme nogueira, nos confins do Coração, entre Fergana e Atabaristão, a mil parasangas do ponto de disparo.

Afrassíabe enviou exércitos a Pérsis e Sistão, que foram derrotados por e . Os antigos prisioneiros iranianos temiam a raiva e frustração de Afrassíabe, e apelaram a Agrerate para salvá-los. Para tal, fez com que fossem libertos e entregues ao general iraniano , que os levou de Sari a Zabol. Ao saber disso, Afrassíabe ficou furioso e cortou seu irmão ao meio com sua espada. Com isso, Dastã moveu seu exército contra Afrassíabe para vingar o sangue de Agrerate. Ele percebeu, entretanto, que o país precisava dum rei para que Afrassíabe fosse repelido. , neto de Manuchir, foi coroado. Apesar da guerra permanecer inconclusiva, esgotando ambos os exércitos, conseguiu forçar a retirada do inimigo e devolver prosperidade e abundância ao Irã. Então, com a morte de Zave, a guerra foi renovada. Os iranianos apelaram a Dastã, que passou o comando a seu filho Rustã. Também ciente de que era necessária a figura do rei, deu a tarefa a Caicobado, um príncipe de sangue real, na cordilheira Elbruz. Assim que recebeu a coroa, se preparou à guerra. Na batalha que se seguiu, Rustã procurou Afrassíabe. Atacou-o ferozmente e conseguiu arrancá-lo da sela; Afrassíabe mal conseguiu escapar e o exército turaniano recuou. Instado por Afrassíabe, que se encontrava sem rival para Rustã, Paxangue pediu a paz. O Oxo foi novamente designado como fronteira.

No tempo de Sorabe, filho de Rustã, Afrassíabe tentou aproveitar as ambições do jovem herói para derrotar o sucessor de Caicobado, Caicaus, Mas no decorrer de um trágico combate, Sorabe foi morto pelas mãos de seu pai, e o plano fracassou. Uma tradição posterior, registrada por Atabari, coloca que Caicaus casou com sua filha Sudaba. Caicaus suspeitava de seu herdeiro aparente, o jovem príncipe Siauascis, que rejeitou os avanços amorosos de sua madrasta e foi acusado por ela de ter procurado seu abraço. Embora a inocência de Siauascis foi confirmada por uma provação de fogo, se ofereceu para chefiar uma expedição contra Afrassíabe, que cruzou a fronteira. Ao que parece, a expedição contra ele foi instigada por falhar em entregar os presentes matrimoniais. Afrassíabe, avisado por presságios dum sonho, buscou a paz, concordando com as condições estabelecidas por Siauascis e Rustã. Mas o belicoso Caicaus se indignou com a notícia e convenceu Siauascis a prosseguir com a guerra. Achando desonroso quebrar seu acordo e desagradável retornar à corte sem cumprir os desejos de seu pai, cedeu à persuasão de Pirã, o tio de Afrassíabe e general respeitado, e se refugiou com Afrassíabe, que o recebeu com grande honra e deu sua filha Farangis em casamento. Siauascis provocou inveja entre os príncipes do país, em particular o irmão do anfitrião, Garsevaz, que envenenou a cabeça de Afrassíabe contra Siauascis e, finalmente, assegurou o consentimento à sua destruição. Afrassíabe, apreensivo com o futuro e atento às previsões dos astrólogos, também quis matar a criança que Farangis estava gerando, mas seguindo as súplicas de alguns príncipes e a intercessão de Pirã, ela foi confiada a Pirã até a criança nascer.

thumb|esquerda|Assassinato de Siauascis segundo iluminura da Épica dos Reis thumb|esquerda|Execução de Afrassíabe por Caicosroes segundo iluminura da Épica dos Reis

A notícia do assassinato de Siauascis abalou a corte iraniana, e Rustã, que criou o príncipe quando jovem, matou Sudaba como vingança e invadiu o Turanistão com um grande exército. O filho de Afrassíabe, Sorca, foi capturado e morto da mesma forma que Siauascis, e Afrassíabe foi derrotado e recuou em direção à fronteira chinesa. Rustã pegou seus tesouros, pilhou o país e governou o Turanistão por seis anos, depois dos quais retornou ao Irã. Ao saber de sua partida, Afrassíabe retorna à sua terra devastada, reuniu seu exército e atacou o Irã em retaliação, causando grandes danos. Seguiu-se uma severa seca. Caicosroes, filho de Siauascis, foi resgatado do Turanistão pelo pelo distinto filho de Gotarzes, , e fez um voto solene que vingaria a morte de seu pai. Seguiu-se uma longa série de guerras e batalhas sangrentas entre os exércitos iraniano e turaniano. Após severas reviravoltas iniciais sob a liderança de Tus, em que muitos defensores iranianos perdem suas vidas, Rustã foi enviado para ajudar o exército iraniano sitiado nas montanhas Hamavã. Afrassíabe busca a ajuda do grão-cã da China, mas o grão-cã foi capturado por Rustã e o exército turaniano sofre uma derrota vergonhosa. A assistência que Afrassíabe recebeu de outros também é infrutífera, e ele e Pirã fugiram para o território chinês.

Um filho de Gueve, Oazanes, com quem Maneza, filha de Afrassíabe, se casou contra a vontade de seu pai, foi capturado pelas tropas turanianas e aprisionado em um fosso por seu sogro. Rustã entrou no Turanistão em busca de Oazanes, resgatou ele e Maneza e faz um ataque noturno surpresa ao palácio de Afrassíabe. O exército iraniano obteve outra vitória decisiva sobre o exército turaniano perseguidor. Humilhado, Afrassíabe reuniu um grande exército para atacar o Irã. Caicosroes enviou quatro exércitos em quatro direções diferentes para garantir a vitória. O quarto e principal deles, liderado por Gotarzes, partiu para enfrentar a principal força turaniana. Na subsequente Batalha das Doze Faces (davāzdah roḵ) doze guerreiros proeminentes de cada exército foram colocados uns contra os outros, com Pirã enfrentando Gotarzes. O Irã obteve uma vitória completa, Garsevaz e Goroi, o assassino de Siauascis, foram capturados e outros grandes guerreiros turanianos foram mortos.

Caicosroes decidiu travar uma guerra final contra Afrassíabe, que reuniu um poderoso exército e fez um voto solene de não descansar até que vingasse o sangue dos heróis turanianos caídos. Em uma série de batalhas, sofreu vários revezes e se refugiou em sua cidade fortificada de Gangue Dez. Perseguindo-o, Caicosroes triunfantemente entrou em Gangue Dez e tomou posse dos tesouros e da casa de Afrassíabe, que escapou para Hangue, uma caverna na montanha (uma versão tardia da fortaleza subterrânea de Afrassíabe). No Avestá, o iazade envolvido em sua destruição é Haoma (o eremita Hom de Ferdusi), que ofereceu sacrifícios a , deusa protetora do gado e cavalo, que lhe concedeu a bênção de poder acorrentá-lo e arrastá-lo até Cavi Haosravá (Caicosroes). Segundo Atabari, Afrassíabe escapou às cercanias do lago Chaechasta, onde Hom, Gotarzes e Gueve o capturaram e levaram a Caicosroes, que cortou sua cabeça e ordenou a execução de Garsevaz.