miniaturadaimagem|António Joaquim Ribeiro Gomes de Abreu António Joaquim Ribeiro Gomes de Abreu (São Gens, Fafe, 22 de Fevereiro de 1809Assento de baptismo (Moreira de Rei, Fafe, Livro de Baptismos 1758–1832, fl. 430. Arquivo Distrital de Braga – Bronnbach, Grão-Ducado de Baden, Baden-Württemberg, 15 de Junho de 1867Diccionario_Bibliographico_Portuguez_(Tomo_08_-_Suplemento_-_Letras_A-B), pág. 191) foi um médico, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, jornalista e publicista português, figura grada do Legitimismo. Amigo pessoal de D. Miguel I, recusou-se em 1856 a prestar o juramento de fidelidade à Carta Constitucional exigido pelo Decreto de 5 de Março desse ano, sacrifício que lhe custou a carreira universitária. Em 1863, partiu para o exílio, a fim de servir de preceptor aos filhos do rei proscrito, entre os quais D. Miguel Januário de Bragança, que à morte do pai assumiria a chefia da Casa Real exilada como D. Miguel II."D. MIGUEL [II DE BRAGANÇA", artigo no "Ilustração Portuguesa" a 1 de Novembro de 1927, a propósito da morte de D. Miguel II, avô do actual D. Duarte de Bragança, Monarquia Portuguesa, 29-08-2010, 16:08], sem nunca chegar a reinar. Pela rectidão do carácter e pela constância das convicções mereceu, em vida e depois da morte, o respeito unânime de correligionários e adversários. É mencionado por Camilo Castelo Branco em Serões de São Miguel de Seide e figura no romance histórico Terra Prometida, de Alberto Pimentel.Terra prometida: romance, por Alberto Pimentel, Guimarães & ca., 1918 Biografia

Nascimento e primeiros estudos miniaturadaimagem|250x250px|Bandeira do Reino de Portugal (1640 - 1834) Nasceu a 22 de Fevereiro de 1809 na freguesia de São Gens de Monte Longo (hoje, concelho de Fafe), em circunstâncias que o assento de baptismo regista com franqueza: na noite de 22 de Fevereiro de 1809 foi exposto, ainda recém-nascido, à porta de Custódia Teixeira, moradora no lugar de Barbosa, freguesia de Moreira do Rei. Baptizado solenemente a 24 do mesmo mês na igreja de S. Martinho de Moreira do Rei, recebeu o nome de António Joaquim e teve por padrinhos o padre José Novaes de Campos e sua irmã Mariana Novaes de Campos. Um averbamento posterior, de 20 de Janeiro de 1846, lavrado por mando do Vigário-Geral de Braga, declara-o legitimado e filho de João Ribeiro de Novaes e de Bernarda Narcisa Álvares da Cunha e Almeida, solteiros e da freguesia de S. Gens de Monte LongoArquivo Distrital de Braga – Moreira de Rei, Fafe, Livro de Baptismos 1758–1832, fl. 430 (PT-UM-ADB-PRQ-PFAF18-001-0005_00802): assento de baptismo de António Joaquim, exposto a 22 de Fevereiro de 1809 e baptizado a 24 em S. Martinho de Moreira de Rei, com averbamento de legitimação de 20 de Janeiro de 1846, que o declara legitimado e filho de João Ribeiro de Novaes e de D. Bernarda Narcisa Álvares da Cunha, da freguesia de S. Gens de Monte Longo – Dona Bernarda Narcisa Álvares da Cunha e Almeida, na forma completa que dá o assento de óbito do irmão, José Maria Ribeiro Gomes de Abreu..A exposição, e a demora de quase quarenta anos até à legitimação, explicam-se à luz da condição do pai: João Ribeiro de Novaes era eclesiástico. O seu assento de óbito(São Gens, 1 de Outubro de 1843, Livro de Óbitos 1807–1862, fl. 63) regista que foi sepultado dentro da Igreja de São Bartolomeu de São Gens, na sepultura principal da Capela-Mor e amortalhado no hábito de São Pedro – honras de sepultura próprias do sacerdote, e, naquele lugar e naquela igreja, do respectivo beneficiado – o titular do benefício eclesiástico de São Bartolomeu, condição que supõe ordens sacras, provimento colativo e rendimentos certos, e que indica casa de raiz na freguesia. A um filho havido nestas circunstâncias não podia o reconhecimento vir senão tardio e por via canónica, como veio: daí a exposição de 1809, com padrinhos da família do pai, e a legitimação de 1846 por mando do Vigário-Geral de Braga.

Esta circunstância – exposição em 1809, legitimação em 1846 – explica as divergências das fontes quanto à origem do biografado. A certidão de idade apresentada no acto de matrícula em Coimbra, anterior à legitimação, dava-o como exposto na freguesia de Moreira do Rei, donde o registo da Universidade de Coimbra ainda hoje o dizer «exposto» e o datar de 1812Alunos do segundo ano de Filosofia, Universidade de Coimbra. Inocêncio Francisco da Silva, no Diccionario Bibliographico Portuguez, colhendo já a versão legitimada junto do Dr. Pereira Caldas, íntimo amigo e condiscípulo do biografado, dá-lhe a filiação e a naturalidade fafense, mas regista as dúvidas que então corriam: «alguns o suppunham nascido em Guimarães; outros o faziam natural de Monte-longo». O equívoco vimaranense explica-se por haver aprendido as primeiras letras em Guimarães, em casa de uma parenta. Quanto a Monte Longo, nem sequer é erro, pois era a designação antiga do concelho a que pertencia a freguesia de São Gens, substituída pela de Fafe com as reformas administrativas liberais, por volta de 1836-1840. A data de 1809, e não a de 1812, é a que reza o epitáfio de Bronnbach e a única congruente com a idade de 43 anos que Inocêncio atribui ao doutorando de 1852.

As línguas francesa e latina aprendeu-as com o irmão mais velho, José Maria Ribeiro Gomes de Abreu, mais tarde professor proprietário e vitalício de Gramática Portuguesa e Latina na vila de Celorico de Basto, e aperfeiçoou-as depois em Fafe com o professor José Furtado, tido por «latinista consummado». De lógica e retórica não consta que tivesse mestres: o que sabia destas ciências aprendeu-o em casa, pela lição dos livros e sem auxílio estranho. Já adulto, dirigiu-se a Coimbra com o intento de seguir o curso jurídico, mas as persuasões do seu patrício e amigo Pereira Caldas moveram-no a mudar de rumo e a matricular-se nas faculdades das ciências naturais (Inocêncio, Diccionario Bibliographico Portuguez).

Universidade de Coimbra Matriculou-se na Universidade de Coimbra em Matemática e Filosofia a 31 de Outubro de 1838 e em Medicina a 10 de Outubro de 1842. Obteve o grau de Bacharel a 23 de Junho de 1848 e o de Doutor em Medicina a 22 de Maio de 1852 (Memoria Professorum Universitatis Conimbrigensis RODRIGUES, Prof. Doutor Manuel Augusto (coord.) – Memoria Professorum Universitatis Conimbrigensis, vol. 2. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1992, p. 191. «ABREU, António Joaquim Ribeiro Gomes de», História da Ciência na UC, Universidade de Coimbra (excerto da Memoria Professorum Universitatis Conimbrigensis): https://www.uc.pt/historia-ciencia/professores/abreu-antonio-joaquim-ribeiro-gomes-de/ . Inclui registo bibliográfico do manuscrito de 1855 e da Revista Académica (1845–1848) na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.; Inocêncio indica 23 de Maio). No estudo da medicina deu provas de grande capacidade, e, como os recursos pecuniários lhe não sobravam, quase se sustentou dos proventos de leccionista, e para se formar houve de vender por setecentos mil réis o pequeno património que herdara de seu pai (Inocêncio).

Da sua vida de estudante ficaram alguns testemunhos curiosos: a 17 de Outubro de 1844, a Revista Universal Lisbonense publicou uma carta, subscrita por um farmacêutico e três estudantes da zona de Guimarães, entre os quais o próprio, dando notícia da descoberta de uma nascente de água férrea em Creixomil.

Em 1852, na qualidade de membro do Instituto da Academia Dramática de Coimbra, coube-lhe proferir um discurso fúnebre em memória de um consócio falecido nesse ano.

Terá sido igualmente relator e secretário da comissão que redigiu os primeiros estatutos da Sociedade Filantrópico-Académica de Coimbra, entidade que se propunha apoiar os estudantes desprovidos de recursos. Foi sócio do Instituto de Coimbra.

Doutorado, entrou no professorado da Universidade com provas brilhantes (Pimentel). Como professor substituto da Faculdade de Medicina regeu a cadeira de Clínica das Mulheres (1855–1856) e exerceu o cargo de Fiscal da mesma Faculdade (1855–1856). A 1 de Outubro de 1855 proferiu uma notável Oração de Sapiência na cerimónia de Abertura Solene do Ano Académico da Universidade de Coimbra.

A recusa do juramento (1856) Regia em Coimbra uma cadeira, ganha em concurso exclusivamente pelo seu talento e saber (Pimentel), quando lhe foi intimado o Decreto de 5 de Março de 1856, que obrigava todos os funcionários públicos a prestar juramento de fidelidade à Carta Constitucional e ao monarca reinante, com a cominação de a recusa ser havida como renúncia do cargo. Legitimista de raiz, herdeiro das doutrinas de seus maiores, «resolveu prontamente o dilema: não jurou» (Pimentel). Por essa recusa deixou de poder tomar posse da cadeira de lente substituto para que fora nomeado, e só a intervenção de Costa Cabral o livrou de ficar «para sempre riscado da nossa Universidade» (Álvaro Maia, «Ilustração», 1927). O seu epitáfio fixaria a data desse acto de fidelidade: «Fidelitatis documentum edit Conimbra die IX Aprilis 1856» [Deu prova de fidelidade em Coimbra, a 9 de Abril de 1856].

Sem posse possível, fixou-se em Lisboa, pobríssimo, propondo-se ganhar a vida como médico ou como explicador, e chegou a ponderar a fundação de um colégio (Pimentel). A exoneração, que ele próprio requereu, formalizou-se em 30 de Novembro de 1860. Viveu na capital alguns anos, gozando de notável estima e preponderância entre os correligionários políticos e, em geral, da afeição de quantos lhe reconheciam os talentos e admiravam o homem de convicções sinceras, comportamento exemplar e provada abnegação (Inocêncio).

Jornalismo e vida pública Foi um dos principais redactores de A Nação, jornal político-legitimista, desde a sua fundação – o primeiro número da folha tem a data de 15 de Setembro de 1847; a referência de algumas fontes ao ano de 1848 foi expressamente corrigida como lapso pelo próprio Inocêncio no suplemento do Diccionario. Dirigiu o quinzenário religioso O Catholico (n.º 1, 21 de Março de 1851 – n.º 48, 10 de Março de 1853, Lisboa, Imprensa de Francisco Xavier de Souza), de que foram redactores, além dele, Fernando Maria de Almeida Pedroso e D. José de Almeida e Lencastre, e colaboradores o Marquês do Lavradio, D. António de Almeida, o Barão de Alcochete e D. José Maria da Piedade Lencastre. Em 1854 foi um dos fundadores e primeiros redactores do jornal religioso A Missão Portuguesa, e de 1861 a 1867 dirigiu, em Lisboa, A Fé Catholica (n.º 1, 1861 – n.º 119, 1867). Deixou ainda vários artigos dispersos em jornais e revistas, com destaque para o Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e para a Revista Académica, de que foi o redactor principal.

Foi um dos quarenta sócios fundadores da Comissão Central do 1.º de Dezembro de 1640 – instituição que deu origem à actual Sociedade Histórica da Independência de Portugal –, signatários do primeiro manifesto patriótico anti-iberista 1º de Dezembro, in O Distrito de Aveiro, 8 de Outubro de 1861, de 25 de Agosto de 1861.

Preceptor de D. Miguel II e exílio Em 1862 encontrava-se em Londres, por ocasião da segunda visita de D. Miguel I de Portugal, à capital britânica, e surge numa conhecida fotografia de grupo ao lado do rei exiladoExposição evocativa de el-rei D. Miguel I : retrato de grupo, (Exposição realizada na Casa do Infante e promovida pela Câmara Municipal do Porto, por intermédio do Gabinete de História da Cidade em 1967), com João de Lemos Seixas Castelo Branco, o Dr. Carlos Zeferino Pinto Coelho, o Conde de Avintes (Marquês de Lavradio), o Conde de Bobadela, o Marquês de Abrantes, José Izidoro Mouzinho, Francisco de Lemos, António Pereira da Cunha, o Conde de São Martinho e António Pinto Saraiva. Foi então convidado por D. Miguel para preceptor dos seus filhos – convite que, segundo o «Álbum Legitimista», lhe partia o coração, mas que tinha para ele a força de um juramento prestado: quem rejeitara uma cadeira universitária para não jurar contra a consciência não podia rejeitar o chamamento do rei.