L'Anti-Œdipe: Capitalisme et schizophrénie () é um livro de 1972 escrito em conjunto pelos filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, sendo Guattari também psicanalista.Os manuscritos de Guattari para O anti-Édipo foram coletados e organizados por Stéphane Nadaud e lançados no ano de 2004, em publicação póstuma. Cf. É o primeiro de dois volumes da obra teórica Capitalismo e esquizofrenia, seguido por Mil Platôs, o segundo volume da obra. Em o anti-Édipo, Deleuze e Guattari analisam a relação do desejo de realidade através da esquizofrenia, psicose e da sociedade capitalista, abordando temas como economia, sociedade, psicologia humanista, artes, literatura, civilização, psiquiatria e história.Cf. Michel Foucault

Em o anti-Édipo, Deleuze e Guattari delineiam uma psiquiatria materialista que é modelada pela relação entre o inconsciente e os processos produtivos construídos sobre o conceito de produção desejante — que inter-relacionam as máquinas desejantes e o corpo sem órgãos (CsO). Também constroem uma crítica à psicanálise de Sigmund Freud, principalmente quanto à centralização que esta dá ao complexo de Édipo. Ainda, os autores reaproveitam a concepção materialista da história de Karl Marx, que considera a história dos modos de produção o meio de desenvolvimento das sociedades "primitivas, despóticas e capitalistas" para sociedades que, em última instância, também são transformadas pelo processo forçado de edipianização, o qual equivale à traição do desejo, pois uniformiza os sujeitos e os transforma numa massa homogênea. Deleuze e Guattari detalham as diferentes organizações de produção, inscrição e consumo, desenvolvendo uma prática crítica que denominam como esquizoanálise.

Introdução O anti-Édipo estabelece a tarefa de reverter o erro que, segundo os autores, idealiza o desejo ao colocá-lo ao lado da aquisição, desse modo concebendo-o como falta — “o inconsciente deixa de ser o que é, fábrica, ateliê, para se tornar um teatro, cena e encenação" — e postula que não é a loucura que deve ser reduzida à ordem social geral, mas sim o mundo moderno ou todo o campo social que deve ser interpretado de acordo com a singularidade do louco, pois “o inconsciente não delira sobre papai-mamãe, ele delira sobre as raças, as tribos, os continentes, a história e a geografia, sempre um campo social”. Segundo os autores, só o desejo — ou a dimensão dos elementos que o desejo mostra — garante a livre configuração das singularidades e forças capazes de colocar a história em movimento, rompendo o ciclo papai-mamãe em que:

Deleuze e Guattari criticam a redução do inconsciente ao campo familiar, processo que dão o nome de familialismo. A psicanálise traz à tona um conceito interessante, o de inconsciente, mas ao mesmo tempo o reduz ao pequeno círculo familiar e ao triângulo papai-mamãe-eu, que é materializado na figura de Édipo, a constelação familiar em pessoa. Além disso, os pensamentos e o comportamento da criança são interpretados como uma marca de seu vínculo com os pais. Porém, o inconsciente ou o imaginário da criança relaciona-se também com o mundo, os grupos sociais e as identidades que o constituem. Portanto, não é a maneira como a criança vê o mundo que deve ser interpretada de acordo com seu apego emocional aos pais, mas a relação emocional com os pais que é a tradução de seu próprio delírio no campo social. Mais claramente, para Deleuze e Guattari:

A primeira tarefa positiva da esquizoanálise é tornar o sujeito capaz de descobrir a formação e funcionamento de suas máquinas desejantes, bem como seus fluxos, sínteses e cadeias. Desse modo, o recalcado não pode ser lido pelo recalcamento, pois este seria somente um teatro de representações capaz de exibir apenas imagens falsas dos agentes recalcantes — o inconsciente não funciona através de suas máquinas constituintes e externalizam somente aquilo que o aparelho de repressão lhe permite. Se a psicanálise reprime o inconsciente, a esquizoanálise persegue as linhas de fuga para desbloquear o recalcamento e transformar a repressão a fim de que as máquinas desejantes possam operar novamente. A transferência da psicanálise equivale à dispersão e esquizofrenização proposta pela esquizoanálise.

Terminologia científica esquerda|miniaturadaimagem|220x220px|Um campo vetorial em uma esfera.No desenvolvimento argumentativo do livro, Deleuze e Guattari se apropriam de vários conceitos provenientes de campos científicos diversos. Para descrever o processo do desejo, eles recorrem à dinâmica dos fluidos, o ramo da física que estuda como um fluido se movimentam através do espaço. Eles descrevem a sociedade como se fossem forças agindo sobre um campo vetorial. Ainda, Deleuze e Guattari relacionam os processos do corpo sem órgãos à embriologia de um ovo, da qual eles tomam emprestado o conceito de "indutor".Cf. Cap. II.5.4: Como a psicanálise suprime os conteúdos sociopolíticos. In:

Influências teóricas O anti-Édipo é uma genealogia cultural e intelectual resultante de uma incursão teórica que transpassa vários autores, partindo de Freud e da expansão da psicanálise, de Wilhelm Reich (A função do orgasmo) a Herbert Marcuse ("Eros e civilização"), passando por Foucault (História da loucura na época clássica), pela antipsiquiatria ("A política do experimento de Laing") e até mesmo por D. H. Lawrence ("Eros et les chiens") e Henry Miller ("Hamlet"). Esta é uma das obras em que os autores, como alguns de seus contemporâneos (Foucault,Deleuze nunca deixou de se interessar pela obra de Michel Foucault. Veja a carta "Desejo e prazer" que ele dirigiu a Foucault em 1977, em que destaca sua abordagem sobre a questão do desejo. Lyotard, Baudrillard), reanalisam a questão do poder,Ver , chapitre V : L'État en question. particularmente a ideia de que o saber, como poder repressivo, pode ser retroalimentado pelos oprimidos.Ver préface de Michel Foucault à la traduction américaine de L'Anti-Œdipe (1977) (em francês) É um livro filosófico importante e fortemente relacionado à conjuntura francesa do maio de 1968, e que foi redescoberto posteriormente por alguns autores da teoria queer, como Guy Hocquenghem (O desejo homossexual), Monique Wittig ("A Mente Hétero"), e até entre os italianos ligados ao autonomismo dos anos 1970, como Franco Berardi ("Radio Alice").

Relações com a psicanálise De acordo com Didier Eribon, o livro é "uma crítica à normatividade psicanalítica e ao complexo de Édipo", sendo "um questionamento devastador do edipinianismo".Didier Eribon. Échapper à la psychanalyse (em francês), Éditions Léo Scheer, 2005, . No livro, Gilles Deleuze e Felix Guattari fazem críticas também à obra do psicanalista Jacques Lacan, argumentando que "apesar dos belos livros escritos recentemente por certos discípulos de Lacan, perguntamos se o pensamento de Lacan se orienta precisamente nesse sentido".Cf. Em seguida, os autores reforçam sua crítica:

No plano do tratamento psicanalítico, a contribuição da obra de Deleuze e Guattari impõe um ponto de inflexão no posicionamento do próprio psicanalista, aqui referido como esquizoanalista. Além da delicada fórmula da equizoanálise, essas considerações determinantes sobre os pontos cegos do protocolo analítico clássico ainda não se enraizaram nem deram origem, exceto talvez em alguns lugares da América Latina, a uma escola psicanalítica verdadeiramente nova a nível terapêutico e clínico. É também o ponto de vista que se pode deduzir das análises de René Girard sobre o olhar concentrado no mito em torno da personagem de Édipo, esquecendo a ausência de "julgamento" presente no teatro onde o mito opera.

O filósofo Michel Foucault escreveu que anti-Édipo pode ser melhor lido como uma "arte", no sentido transmitido pelo termo "arte erótica". Foucault considerou haver três "adversários" do livro: 1) os "burocratas da revolução"; 2) os "pobres técnicos do desejo" (psicanalistas e semiólogos); e, por fim, 3) "seu principal inimigo", o fascismo. Foucault usou o termo fascismo para referir "não somente ao fascismo histórico, o fascismo de Hitler e Mussolini […] mas também ao fascismo presente em todos nós, em nossas cabeças e em nosso comportamento cotidiano, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar a mesma coisa que nos domina e nos explora".

Críticas aos psicanalistas Deleuze e Guattari abordam o caso dos psicanalistas Gérard Mendel, Bela Grunberger e Janine Chasseguet-Smirgel, que eram membros proeminentes da mais respeitada associação psicanalítica da época (a International Psychoanalytical Association). Eles argumentam que este caso demonstra que a psicanálise abraça com entusiasmo um estado policial:

Tópicos abordados commoldura|Deleuze e Guattari argumentam que a pintura "Boy with Machine [Menino com Máquina]" (1954), de Richard Lindner, demonstra a tese esquizoanalítica da sobreposição dos investimentos sociais do desejo sobre a família. O quadro "mostra uma criança enorme e túrgida que, assim inserida, faz com que uma de suas pequenas máquinas desejantes funcione em uma enorme máquina social técnica."Cf.

Esquizoanálise A esquizoanálise, desenvolvida por Deleuze e Guattari, é uma análise política e social que busca se contrapor ao que os autores enxergam como tendências reacionárias da psicanálise. Ela propõe uma avaliação funcional dos investimentos diretos do desejo — seja este revolucionário ou reacionário — em um campo social, biológico, histórico e geográfico. Em o anti-Édipo, Deleuze e Guattari desenvolvem as quatro teses da esquizoanálise: Todo investimento libidinal inconsciente é molar e social: carrega um campo social, e de alguma maneira incide sobre um campo histórico;Cf. Os investimentos libidinais inconscientes de classe ou desejo são distintos de investimentos pré-conscientes de desejo ou de grupo;Cf. Os investimentos libidinais do campo social sobrepõem-se aos investimentos familiares;Cf. Os investimentos libidinais sociais dividem-se em dois polos: um polo paranoico; reacionário e fascista, e o polo esquizoide revolucionário.Cf.

Ao contrário da concepção psicanalítica, a esquizoanálise pressupõe que a libido não precisa ser dessexualizada ou sublimada para proceder a investimentos sociais. Deleuze e Guattari defendem que, na verdade, "a sexualidade está em toda parte: na maneira como um burocrata acaricia os seus dossiês, como um juiz distribui justiça, como um homem de negócios faz circular o dinheiro, como a burguesia enraba o proletariado […] As bandeiras, as nações, os exércitos e os bancos dão tesão em muita gente".Cf. Considerando a existência da infraestrutura e superestrutura na teoria marxista, Deleuze e Guattari defendem que o desejo faz parte da base econômica (infraestrutura) da sociedade, e não da superestrutura, que é ideológica e subjetiva.Cf.

Os investimentos libidinosos inconscientes do desejo coexistem sem necessariamente coincidir com investimentos pré-conscientes, que são produzidos de acordo com as necessidades ou interesses ideológicos do sujeito desejante.Cf.

O objetivo da esquizoanálise é mostrar como "o desejo pode ser determinado a desejar sua própria repressão no sujeito que deseja (daí o papel da pulsão de morte na junção do desejo e do social)".Cf. O desejo produz até "mesmo as mais repressivas e mortíferas formas da reprodução social".Cf.

Máquinas desejantes e produção social