Linguística Ecossistêmica é o ramo da Ecolinguística que encara os fenômenos da linguagem da perspectiva do ecossistema. Quase todas as demais versões da Ecolinguística usam conceitos da Ecologia como metáforas, em geral para o estudo de textos-discursos sobre ambientalismo, grupos minorizados, diversidade linguística e cultural etc. Em geral elas não tratam de questões estruturais, de interioridade da língua ou endoecologia linguística. Quanto à Linguística Ecossistêmica, é a parte da Ecologia dedicada ao estudo de todo e qualquer fenômeno da linguagem, tanto os de exterioridade da linguagem ou exoecologia linguística, quanto de sua endoecologia, ou seja, os fenômenos estruturais, uma vez que ela olha para seu objeto em sua integralidade, de forma holística. Seus conceitos são ecológicos a partir de dentro, eles não vêm de fora, tomados de empréstimo à Ecologia. Seus praticantes são ecólogos da linguagem, motivo pelo qual um nome alternativo para Linguística Ecossistêmica é Ecologia Linguística, em que "Ecologia" é o substantivo e "Linguística" o adjetivo. Os ecolinguistas tradicionais praticam Linguística Ecológica, com "Linguística" como substantivo e "Ecológica" como adjetivo.

O conceito inicial, central da Linguística Ecossistêmica é o de ecossistema linguístico. Na Ecologia, ecossistema é formado por uma população de organismos (P), seu habitat, meio ambiente ou território (T) mais as interações (I) organismo-mundo e organismo-organismo. O mesmo se dá com o ecossistema linguístico: ele consta de um grupo de pessoas, população ou povo (P) convivendo em seu território (T) e interagindo entre si pelo modo tradicional de interagir, sua linguagem (L). Como se pode ver, no ecossistema linguístico o I de interação é representado por L de língua/linguagem, o que já sugere que linguístico-ecossistemicamente língua/linguagem (L) é constituída pelas interações comunicativas (ou comunicação) que se dão no interior do ecossistema linguístico em questão.  

Este é o ecossistema integral da língua, formado por P, L e T. Não há língua sem falantes nem falantes que não tenham uma base territorial, a despeito de exceções como a língua dos surdos, a libras, a dos ciganos e a dos povos nômades em geral. Essas exceções confirmam a regra. Este ecossistema é chamado integral porque contém, integra três outros em seu interior, que são o ecossistema natural, o mental e o social da língua. Mas, antes de falar dos três, é preciso lembrar que o ecossistema integral da língua pode ser encarado de duas perspectivas. A primeira é a da comunidade de língua, que equivale ao domínio do que chamamos em linguagem laica de língua, da língua como sistema, em que prevalecem as regras sistêmicas. Assim, o domínio da comunidade de língua inglesa compreende Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e outras regiões do mundo. A comunidade de língua yawalapiti compreende o domínio do pequeno grupo étnico yawalapiti localizado no sul do Parque Indígena do Xingu. Como qualquer ecossistema linguístico, há uma população/povo (P), cujos membros convivem em seu território (T) e se comunicam entre si pelo modo tradicional de se comunicar localmente, sua língua/linguagem (L). E aqui temos uma definição de língua.  

O segundo modo de se olhar para o ecossistema integral da língua é o da comunidade de fala. Se na comunidade de língua a língua é vista da perspectiva do sistema, na comunidade de fala ela é observada do ponto de vista do uso, das interações comunicativas quotidianas, donde a prevalência das regras interacionais, que açambarcam as regras sistêmicas. Se a comunidade de língua é como o bioma da Ecologia (tundra, taiga, floresta temperada etc.), que está onde está independentemente do observador, a comunidade de fala é delimitada por ele. Pode ser um país inteiro, como o Brasil, mas pode ser partes dele, como o estado de Minas Gerais, ou só o Triângulo Mineiro, ou só Belo Horizonte, ou só o bairro da Floresta, ou só uma rua desse bairro como a rua Bahia, ou um quarteirão dessa rua, um domicílio desse quarteirão e até duas pessoas desse domicílio em diálogo. Em qualquer uma dessas situações haverá um grupo de pessoas (P) – mesmo que apenas duas – em determinado lugar (T) interagindo por meio da linguagem local (L). Tudo isso está em perfeita sintonia com o conceito original de ecossistema da Ecologia, como formulado por Arthur G. Tansley. Por isso, a comunidade de fala é o ecossistema linguístico por excelência, pois, como no ecossistema biológico, seu objeto é maleável. Porém, uma vez delimitado, ele pode e deve ser estudado com todo o rigor científico.

A comunidade de fala yawalapiti, do Parque Indígena do Xingu, coincide com a respectiva comunidade de língua, caso em que temos uma comunidade de fala máxima, aquela cujo domínio coincide com o da comunidade de língua. A comunidade de fala mínima consiste em duas pessoas em diálogo. A língua yawalapiti só é conhecida pelos mais velhos. Os demais membros da comunidade falam kuikuro, kamayurá e português. É uma comunidade de fala em perigo de extinção, pois já está perdendo a própria língua (L).  Isso mostra que a comunidade de fala pode ser bilíngue e até multilíngue. Em Couto (2016a), há um detalhado estudo sobre o conceito de comunidade de fala.  

Enfim, a Linguística Ecossistêmica é um outro modo de se olhar para a língua, não apenas mais um modelo que considera língua como o sistema, a estrutura, a gramática, sendo a fala (parole) uma realização desse sistema. Para a Linguística Ecossistêmica o núcleo da língua é a interação comunicativa, com suas regras interacionais, das quais as regras sistêmicas são dependentes.

Emergência da Linguística Ecossistêmica O cenário em que surgiu a Linguística Ecossistêmica é claramente o da Ecologia biológica, com ênfase no seu conceito de ecossistema, com tudo que ele implica. Do ponto de vista filosófico, ela tem também influência do sistema língua-mundo (Sprache-Welt-System), proposto pelo filósofo da linguagem e da ciência (e ecologista) alemão Peter Finke entre 1974 e 1978. A primeira aplicação do conceito na teorização sobre a linguagem se deu na tese de doutorado de Wilhelm Trampe Aspekte einer ökologischen Linguistik (Aspectos de uma linguística ecológica), defendida em 1988 na Universidade de Bielefeld sob a orientação de Peter Finke. Essa tese resultou no livro Trampe (1990). Finke (1996), é o primeiro ensaio do filósofo dedicado exclusivamente a questões linguísticas. No mesmo ano saiu Strohner (1996). Além de alinhado com a proposta de Finke e Trampe, o ensaio de Hans Strohner introduziu duas novidades: ele foi o primeiro a usar a expressão "linguística ecossistêmica" e a falar em metodologia na Ecolinguística em geral. Em português, temos os seguintes ensaios desses e de outros pioneiros: Bang e Døør (2015), Trampe (2016) e Strohner (2019). Em Couto (2015) há um apanhado geral da teoria.

Uma outra fonte importante da Linguística Ecossistêmica é a Linguística Dialética formulada por Jørgen Døør e Jørgen Christian Bang, da Universidade do Sul da Dinamarca (SDU), em Odense, de 1985 a 1995, numa série intitulada Sprogteori I-VIII (teoria da linguagem I-VIII). As duas contribuições mais importantes dessa teoria são a visão da língua como essencialmente dialógica, como em Mikhail Bakhtin, e o fato de a língua apresentar três dimensões: a bio-lógica, a ideo-lógica (ou mental) e a sócio-lógica. Bang & Door (2007) é um apanhado geral dessa teoria.

No Brasil, a Linguística Ecossistêmica começou a fincar raízes por volta de 2012, por ocasião do I Encontro Brasileiro de Ecolinguística (I EBE), na Universidade de Brasília. Logo em seguida ela se propagou para a Universidade Federal de Goiás (Goiânia) e diversas outras universidades brasileiras, latino-americanas e até de outros países. Como parte dela, em Couto (2013) foi proposto pela primeira vez o sub-ramo Análise do Discurso Ecossistêmica, ainda com o nome de "Análise do Discurso Ecológica" (ADE). A ADE é a parte da Linguística Ecossistêmica dedicada ao estudo de textos-discursos (Couto, Couto & Borges 2015).  

Ecossistemas linguísticos

Ecossistema natural da língua Ao entrar no ecossistema integral da língua, estamos assumindo a visão ecológica de mundo (Capra 1994). A primeira coisa que encontramos em seu interior é o ecossistema natural da língua. Ele consta de pessoas (P1) concretas, de carne e osso, com nomes próprios, como os indivíduos da comunidade yawalapiti, convivendo em seu território (T1) concreto, fisicamente localizado entre os rios Kuluene e Tuatuari  na parte sul do Parque Indígena do Xingu, e interagindo pelo modo comunitário e tradicional de interagir, sua linguagem (L1). Essa L1 compreende os sons usados, a entoação, a altura da voz, os movimentos da face, dos braços, do corpo, a posição em que se encontram os interlocutores, enfim, os componentes proxêmicos, cinésicos, paralinguísticos e outros, alguns deles previstos nas regras interacionais. Mesmo quem não conhece os padrões interacionais locais percebe tudo isso ao chegar na comunidade pela primeira vez.

Ecossistema mental da língua Todos e cada um dos indivíduos do ecossistema natural da língua têm um sistema nervoso central e um periférico, um cérebro e uma mente. No cérebro de cada um deles existe o ecossistema mental da língua que, como qualquer ecossistema tem que constar de interações entre interagentes localizados em algum lugar. No presente ecossistema, as interações se dão entre os neurônios (dendritos, axônios) localizados no cérebro. Por isso, o sistema nervoso, o cérebro é representado por T2, que é o "território", o locus das interações neurais, cujos agentes são os neurônios, logo, o lado P2 do ecossistema. As próprias interações constituem a língua (L2) como fenômeno mental.

É no cérebro/mente (T2, P2) que a língua é formada, armazenada e processada. A tal ponto que a gramática gerativa vê a língua como um fenômeno mental. O ecossistema mental da língua é um elo entre o natural e o social. Todo fenômeno social é também mental, mas nem todo fenômeno mental é também social, como é o caso dos perceptos individuais. O social tem como suporte o mental e o mental tem como suporte o natural.  

Ecossistema social da língua Ultrapassado o ecossistema mental da língua, o que encontramos logo em seguida no interior do ecossistema integral da língua é o ecossistema social da língua. Se no ecossistema mental cada indivíduo é visto da perspectiva individual, no social P3 representa a coletividade de indivíduos como interindividualidades (Marías 1960), como seres sociais, com diversos papéis sociais (pai, mãe, irmão, filho, professor, cliente, empresário etc.). As interações de base verbal entre essas interindividualidades constituem a língua como fenômeno social (L3), que é o que o leigo pensa dela.  Tanto o leigo quanto a maioria das teorias linguísticas veem a língua quase exclusivamente como um fenômeno social. O "território" (T3), o lugar, o locus dessas interações da língua como fenômeno social é a sociedade.  

Interações endoecológicas e interações exoecológicas Grande parte das teorias linguísticas (Sociolinguística, Análise do Discurso, Funcionalismo etc.) vê a língua como um fenômeno social. Para outras, ela é mental (Gramática Gerativa). Para certas concepções naturalistas e para o próprio criador da Gramática Gerativa, "língua é parte do mundo natural" (Chomsky 1996, p. 167). Assim veem também algumas concepções filosóficas, como a dos hilozoístas gregos e alguns estudiosos do foneticismo. Para a Linguística Ecossistêmica a língua apresenta as três facetas, como já reconhecido pela Linguística Dialética de Odense, Dinamarca (Bang & Døør 2007), que admite que a língua apresenta três dimensões: bio-lógica (natural), ideo-lógica (mental) e sócio-lógica (social). Usando um conceito comum na área das ciências da saúde, a Linguística Ecossistêmica considera a língua como um fenômeno biopsicossocial.