A invasão espanhola de Portugal entre 5 de Maio e 24 de Novembro de 1762 foi um episódio militar da Guerra dos Sete Anos, em que Espanha e França invadiram Portugal três vezes e foram derrotados pela Aliança Anglo-Portuguesa. Inicialmente, apenas forças espanholas e portuguesas estavam envolvidas nos combates, antes dos franceses e britânicos terem intervindo no conflito para favorecer os seus respectivos aliados. Esta campanha foi fortemente marcada por uma guerrilha nacionalista nas regiões montanhosas de Portugal, que cortou o abastecimento dos exércitos espanhóis, e um campesinato hostil que praticava uma política de terra queimada à medida que os exércitos invasores se aproximavam, deixando-os com falta de abastecimento.
Durante a primeira invasão, 22,000 espanhóis comandados por Nicolás de Carvajal, Marquês de Sarria, entraram na Província de Alto Trás-os-Montes tendo como objetivo final chegar à cidade do Porto. Depois de ocuparem algumas fortalezas, foram confrontados com uma revolta nacional. Tirando partido do terreno montanhoso, os guerrilheiros infligiram pesadas perdas aos invasores e praticamente cortaram as suas linhas de comunicação com Espanha, provocando uma escassez de abastecimentos. Perto da fome, os espanhóis tentaram conquistar rapidamente o Porto, mas foram derrotados na batalha do Douro e na batalha de Montalegre antes de se retirarem para Espanha. Após este fracasso, o comandante espanhol foi substituído por Pedro Pablo Abarca de Bolea, Conde de Aranda.
Entretanto, 7104 tropas britânicas desembarcaram em Lisboa, liderando uma reorganização maciça do exército português sob o comando do Conde de Lippe, (ou em alemão: Friedrich Wilhelm Ernst zu Schaumburg-Lippe) o supremo comandante aliado.
Durante a segunda invasão de Portugal pela Província da Beira, 42.000 franco-espanhóis sob Aranda tomaram Almeida e vários outros bastiões, enquanto o exército anglo-luso impediu outra invasão espanhola de Portugal pela província do Alentejo, atacando em Valência de Alcântara na Extremadura espanhola, onde um terceiro corpo espanhol se reunia para a invasão.
Os aliados conseguiram deter o exército invasor nas montanhas a leste de Abrantes, onde a encosta das montanhas virada para o exército franco-espanhol era abrupta mas muito suave do lado dos aliados, o que facilitou o abastecimento e os movimentos dos aliados mas funcionou como uma barreira para os francos-espanhóis. Os anglo-portugueses também impediram os invasores de atravessar o rio Tejo e derrotaram-nos em Vila Velha.
O exército franco-espanhol, que teve as suas linhas de abastecimento a partir de Espanha cortadas pela guerrilha, foi praticamente destruído por uma estratégia de terra queimada: os camponeses abandonaram todas as aldeias em redor, levando consigo ou destruindo as colheitas, os alimentos e tudo o que podia ser utilizado pelos invasores, incluindo as estradas e as casas. O governo português também encorajou a deserção entre os invasores oferecendo grandes somas a todos os desertores. Os invasores tinham de escolher entre ficar e morrer de fome ou retirar-se. O resultado final foi a desintegração do exército franco-espanhol, que foi obrigado a retirar-se para Castelo Branco quando uma força portuguesa sob Townshend fez um movimento de cerco em direção à sua retaguarda. Segundo um observador britânico, os invasores sofreram 30,000 baixas, causadas principalmente pela fome, deserção e captura durante a perseguição pelo exército anglo-luso e pelos camponeses.
Finalmente, o exército aliado tomou o quartel-general espanhol, Castelo Branco, capturando um grande número de espanhóis, feridos e doentes - que Aranda tinha abandonado quando fugiu para Espanha, após um segundo movimento de cerco aliado.
Durante a terceira invasão de Portugal, os espanhóis atacaram Marvão e Ouguela, mas foram derrotados com baixas. O exército aliado deixou os seus aposentos de Inverno e perseguiu os espanhóis em retirada, fazendo alguns prisioneiros; e um corpo português entrou em Espanha, fazendo mais prisioneiros em La Codosera.
Em 24 de Novembro, Aranda pediu uma trégua que foi aceite e assinada pelo conde de Lippe em 1 de Dezembro de 1762.
Antecedentes
A neutralidade portuguesa e espanhola na Guerra dos Sete Anos miniaturadaimagem|O Marquês de Pombal Durante a Guerra dos Sete Anos, a frota britânica sob o comando do almirante Boscawen atacou a frota francesa em águas portuguesas ao largo de Lagos, Algarve, em 1758. Foram capturados três navios franceses e dois foram queimados. Portugal, apesar da aliança de longa data com a Grã-Bretanha, tinha declarado a sua neutralidade na guerra, tendo então o primeiro-ministro português, Sebastião José de Carvalho e Melo, pedido à Grã-Bretanha uma retratação por tais ações. O Governo britânico pediu desculpas ao rei D. José, enviando uma delegação especial a Lisboa"Boscawen had defeated the French fleet off the Portuguese coast. The French commander took refuge in Lagos after losing five of his ships on the coast of the Algarve. The French at once began to demand satisfaction, and Pitt sent Lord Kinnoull on a special mission to Lisbon to offer apologies." In Livermore, H. V. – A New History of Portugal, Cambridge University Press, London, 1969, p. 234., embora os navios não tenham sido devolvidos, como a França exigia (Pombal tinha previamente informado William Pitt, que não esperava que tal coisa acontecesse).José Hermano Saraiva (coordinator) – História de Portugal, vol. VI, Quidnovi, 2004, p. 63. O Rei de França, Luís XV, agradeceu a José I pela assistência prestada aos marinheiros franceses, mas solicitou a devolução dos navios. O caso parecia estar resolvido, mas a Espanha e a França usariam isso quatro anos mais tarde como um pretexto para invadir Portugal.
Portugal tinha cada vez mais dificuldade em manter a sua neutralidade na Guerra dos Sete Anos, devido a pequenos incidentes entre residentes britânicos e franceses: numa ocasião, o cônsul britânico em Faro avisou secretamente as fragatas britânicas para entrarem no porto e na cidade para impedir a descarga de um navio francês; e em Viana do Castelo, os mercadores britânicos equiparam um navio com armas e retiraram de um corsário francês um navio inglês que tinha sido capturado. No entanto, o rei e o Governo de Portugal assumiram o firme compromisso de manter o país fora da guerra.
Os franceses pressionavam cada vez mais uma Espanha relutante para entrar na guerra do seu lado, ao mesmo tempo que iniciavam negociações secretas com a Grã-Bretanha."France’s Foreign Minister, the Duc de Choiseul, had pressured Charles III of Spain to declare war against Britain, even as he was beginning secret negotiations with London to end the fighting". In York, Neil Longley – Turning the World Upside Down: The War of American Independence and the Problem of Empire, Praeger, London, 2003, p. 33. Contudo, os navios britânicos interceptaram correspondência oficial de Espanha para França e tomaram conhecimento de que existia uma cláusula secreta que previa que a Espanha devia declarar guerra à Grã-Bretanha em 1 de Maio de 1762. Segundo o mesmo, a Espanha declararia guerra à Grã-Bretanha em 1 de Maio de 1762."... in September , English naval forces intercepted official correspondence from Spain and learned that Madrid would enter the war if no peace were arranged by May 1762. On January 2, 1762, England declared war preemptively against Spain..."; in Stein, Stanley and Stein, Barbara – Apogee of Empire: Spain and New Spain in the Age of Charles III, 1759–1789, Johns Hopkins University Press, 2004, chapter The Trauma of Havana, 1762–1765."A family compact between the two crowns was signed in August 1761 guaranteeing their mutual possessions; a 'secret clause' further stipulated that if France was still at war with Britain in May 1762 Spain should declare war on Britain." In Pack, S. W. – Sea Power in the Mediterranean: A Study of the Struggle for sea power in the Mediterranean from the Seventeenth Century to the Present Day, Arthur Barker Limited, 1971, p. 68. A Grã-Bretanha antecipou a Espanha e declarou guerra mais cedo, em 2 de Janeiro de 1762.
O ultimato hispano-francês de 1762. miniaturadaimagem|D. José. Ao ser confrontado com o "ultimato" franco-espanhol de 1762 para trair a sua aliança com a Grã-Bretanha, disse que "Afectá-lo-ia menos, embora reduzido ao último extremo, deixar cair a última laje do seu palácio e ver os seus fiéis súbditos derramarem até à última gota de sangue, do que sacrificar, juntamente com a honra da sua coroa, tudo o que Portugal tem de caro..." As duas potências bourbónicas decidiram tentar forçar Portugal a juntar-se ao seu Pacto de Família (o rei português era casado com uma Bourbon, irmã do rei espanhol). Espanha e a França enviaram um ultimato a Lisboa a 1 de Abril de 1762, declarando que Portugal deveria:Carvalhosa, Manuel F. Barros (Viscount of Santarém) – Quadro Elementar das Relações Políticas e Diplomáticas de Portugal, Tome VI, Paris, 1850, p. XVI.
Terminar a Aliança Anglo-Portuguesa e substitui-la por uma nova aliança franco-espanhola. Fechar os seus portos aos navios ingleses e interromper todo o comércio com a Grã-Bretanha na Europa e no Império Português. Declarar guerra à Grã-Bretanha. Aceitar a ocupação dos portos portugueses (incluindo Lisboa e Porto) por um exército espanhol. Assim, Portugal estaria simultaneamente "protegido" e "libertado" dos seus "opressores" britânicos.
Portugal teve quatro dias para responder, após os quais o país arriscava-se a enfrentar uma invasão de forças francesas e espanholas. Ambas as potências bourbónicas esperavam beneficiar, desviando as tropas britânicas da Alemanha para Portugal, enquanto a Espanha esperava integrar Portugal no seu império."One of the main aims of the two great Bourbon powers, in the making of the Family Compact, had been to attack Portugal, in order either to compel England to despatch a large part of its troops to that country, or to take possession of it…"; in Philippson, Martin – The Age of Frederick the Great, vol. XV, Lea Brothers and & company, Philadelphia, 1905, p. 103.
A situação em Portugal era desesperada. O grande terramoto, tsunami e incêndio de Lisboa em 1755 tinha destruído completamente a capital portuguesa, matando dezenas de milhares de pessoas e causando destruição e danos à maioria das fortalezas portuguesas. A reconstrução de Lisboa não deixou dinheiro para sustentar um exército ou uma marinha; e mesmo os quadros militares que tinham morrido no terramoto não tinham sido substituídos até 1762. A partir de 1750, a oferta de ouro do Brasil (que tinha feito de Portugal o maior detentor de ouro no século XVIII) começou o seu declínio irreversível, e o preço do açúcar do Brasil também caiu à medida que a procura britânica e holandesa diminuía.Livermore, H. V. – A New History of Portugal, Cambridge University Press, London, 1966, p. 232. esquerda|miniaturadaimagem|O terramoto de 1755 horrorizou toda a Europa, desencadeando um debate sobre a natureza e as suas causas entre os filósofos, em particular entre Voltaire e Rousseau, sobre se havia sido algo providencial ou natural. Um famoso panfleto publicado em 1762 em Madrid tentou provar que os danos causados aos portugueses eram um castigo divino por terem estabelecido uma aliança com hereges britânicos. A ajuda britânica tinha envolvido 6.000 barris de carne, 4.000 de manteiga, 1.200 sacos de arroz, 10.000 quartos de farinha (cerca de 127 toneladas) e 100.000 libras esterlinas para alívio (enquanto as ofertas de dinheiro espanholas e francesas foram rejeitadas.)|251x251px