Colonialismo cultural é uma forma de se alterar sutilmente a cultura de um grupo de indivíduos (território, país) por meio da manipulação dos meios de comunicação (cinema, televisão, etc.), fazendo com que muitas vezes estes sejam desapossados de parte dos seus bens culturais.

É uma estratégia utilizada pelos imperialismos para manterem seu domínio.

Para Ngũgĩ wa Thiong'o, o controlo económico e político nunca poderá ser completo ou eficaz sem controlo mental. Controlar a cultura de um povo é controlar as suas ferramentas de autodefinição em relação aos outros.

Para Augusto Boal, o colonialismo cultural designa a opressão que, mesmo após o fim do colonialismo formal, subsiste no âmbito da cultura.

A dominação cultural é um dos três pilares que mantém os impérios. Os outros pilares são: o domínio econômico e o domínio militar.

Nas vias culturais é exercida uma estratégia sobre os dominados que utiliza da propaganda, da censura ou do impedimento da produção cultural, da desinformação, com negação de verdades ou com a ocultação do passado histórico. Isto leva aos indivíduos a perceberem a cultura imposta como superior e a sua própria cultura como inferior (vide encolhimento cultural). Utilizando a ideia de hegemonia cultural desenvolta por Antonio Gramsci, a dominação ideológica necessita influenciar as bases da cultura, e a cultura em geral, assim a metrópole define as normas, valores, crenças e símbolos, para isto usa das ferramentas da educação, da produção cultural, dos mídia, da religião, com o resultado do convencimento de que a visão metropolitana, a cultura metropolitana, são superiores, as únicas válidas para percebermos e estarmos no mundo.

Fundamentos filosóficos

O processo econômico de relações entre desiguais sob dominação e colonização no mundo ocidental já vem justificado, marcado, pelo saber da Grécia Antiga. Assim Platão na sua República:

Na obra Política de Aristóteles destacam estes parágrafos do seu pensamento de onde nasceria o conceito de "servidão natural":

A categoria bárbaro no mundo grego, alargadamente usada em épocas posteriores, está entendida como pessoa de civilização ou cultura inferior, mais tarde, a partir do século VI até o final do século XV, barbarus veio equivaler a paganus do ponto de vista religioso. Para o sociólogo Vilfredo Pareto (1848-1923) o conceito da barbárie continua a ideia de Aristóteles da "servidão natural", sendo justo e de proveito que uns povos mandem e que os bárbaros obedeçam.

O debate filosófico e legislativo do período colonial nascido no século XVI, qualifica com a palavra bárbaro aquele povo que não é capaz de se governar por si mesmo, e pelo tanto de justificável colonização.

Neste século XVI foi célebre a batalha escolástica entre Bartolomeu de las Casas e Juan Ginés de Sepúlveda, tendo por pano de fundo a discussão sobre a barbaridade das pessoas americanas. Casas apresentou argumentos para qualificar as pessoas da América como seres com alma, mas dentro de um estado de barbárie que precisava da cristianização; "bárbaros a cristianizar" e "primitivos a civilizar". Juan Ginés de Sepúlveda para demostrar a "falta de alma" das pessoas do outro continente usa argumentos hoje qualificados como de etnocentrismo cultural: os índios não tem sentido da propriedade privada, nem noção dos mercados (na época, algumas sociedades produziam em formas coletivas e a riqueza era distribuída com reciprocidade).

Este discurso de "falta de alma" mudou posteriormente na "falta de humanidade" e no racismo que se alicerçou em saberes "científicos".

Casas discute também o conceito de guerra justa com o padre Gregorio Lita, este último apoiando-se em Tomás de Aquino, legitima submeter a povos que tem em si malignidade ou que são bárbaros. O conceito de bárbaro é desarmado por Michel de Montaigne também neste século XVI:

A colonização cultural nasce de valores antitéticos à Alteridade.

Na alteridade, uma pessoa respeita a outra, um povo a outro, o diálogo é frutífero. Se não há alteridade, quem é mais forte domina o outro e termina por impor suas crenças. "Dou-me um lugar a mim como se eu for outro de mim mesmo". Não é de jeito narcisista que “eu” dou o lugar ao outro. Busca o colonialismo cultural a eliminação do “outro” uma negação da alteridade, seja pela segregação, integração forçada ou aculturação.

A barbárie interiorizada pelo colonizado: A barbárie é o maior sinal de colonização. O sujeito cultural colonizado funda a sua "identidade" em uma suposta barbárie que lhe faz apreender do colonizador e; desde ela é estabelecido o seu lugar no mundo: o sujeito cultural colonizado é um sujeito infantilizado (aqui o qualificativo infantilizado está usado com a ideia que tem da infância a sociedade europeia e europeizada, além de outras sociedades, como manipulável, ideologicamente inferior ou imatura).

A relevância da cultura nos processos coloniais

Para Amilcar Cabral (1978), os processos de dominação colonial comportam dois tipos de ações sobre as sociedades colonizadas, uma atuação material e outra de natureza cultural: sendo o domínio imperialista a negação do processo histórico da sociedade dominada, é necessariamente a negação do seu processo cultural. A estagnação do processo de desenvolvimento endógeno pela colonização tem como consequência a paralisação do desenvolvimento próprio da cultura do povo dominado.

Escreve Milan Kundera no seu romance O Livro do Riso e do Esquecimento citando o historiador e político Milan Hübl:

Talvez este trecho anterior esteja baseado no sofrido durante a ocupação nazista pelas gentes da Checoslováquia (estado ao que pertenceram os anteriormente citados Hübl e Kundera) durante o processo de germanização, sendo um dos Reichsprotektoren "governantes" do Protetorado da Boémia e Morávia: Reinhard Heydrich, com frases exemplarizantes compiladas por Callum A. MacDonald no livro "The Killing Of Reinhard Heydrich: The SS "Butcher Of Prague":

Assim os bens culturais do povo sob colonização costumam ser desatendidos, abandonados, expropriados, levados para um museu da metrópole, ou descontextualizados em museus locais. É criado e promovido um relato unilateral que apaga ou oculta a cultura do colonizado da história. O colonialismo cultural é uma ferramenta de dominação, o controle por parte da metrópole da cultura atua sobre o comportamento de indivíduos e grupos. Este submetimento de uma nação por outra nação mais poderosa, que atinge à cultura, leva a uma modificação dos valores e percepções da dominada, da sua cosmovisão ou filosofia, da sua gnosiologia ou epistemologia, o seu jeito de perceber o mundo, de entender o mundo, de atuar no mundo. A colonização coloniza mentes e emoções assim como também corpos, terra e trabalho . A dominação cultural reduze as culturas primigênias dos territórios colonizados à categoria de infraculturas.

Na lógica do processo de colonização cultural, os indivíduos pertencentes à infracultura são também inferiores e consideram-se a si mesmos inferiores.

Para Frantz Fanon e Amílcar Cabral o colonialismo cultural provoca uma submissão mental e apatia, que anula qualquer iniciativa ou ação política por parte da população colonizada. A inferiorização provocada pelo colonialismo cultural é explicada por George Herbert Mead: O conceito de si mesmo e do mundo que o ser humano na infância forma, cria-se a partir da absorção das funções dos papeis das pessoas que o rodeiam, as quais são modelo identificação. Assim o indivíduo não alcança o conceito de si mesmo de forma direta, mas em forma indireta a partir dos pontos de vista particulares, dos outros membros individuais do seu grupo social, e do ponto de vista generalizado do grupo social como um todo do que faz parte.

Ocorre uma aprendizagem sobre o colonizado onde a versão colonizadora é interiorizada, pertence então a um povo "primitivo, atrasado, subdesenvolvido".

Boaventura de Sousa Santos refere-se a esta divisão com o conceito de "linha abissal" que separa os plenamente humanos, com direitos, dos infra-humanos, sem direitos:

Aprendizagens condicionadas, reforçadas pela sociedade (religião, mídia, sistema educativo...) deformam a consciência coletiva e individual, produzindo-se uma sociedade com vergonha e estranhamento da sua própria identidade, aparece o auto-ódio, a vergonha étnica, e a vergonha cultural. Como exemplo, Boal no seu Teatro do Oprimido a respeito do que gera o visionado dos filmes de faroeste na população nativa de América do Norte escreve:

Boal no seu "A Estética do Oprimido" refere como a estrutura da opressão, da inferiorização é mantida graças a que a subjetividade está moldada, manipulada. Disto pode ser inferido o grande peso que na colonização cultural tem o cinema; a aceitação do imperialismo, mormente dos Estados Unidos da América, e em geral de qualquer imperialismo, tem a sua propaganda psicológica no grande acervo de filmes produzidos desde esse país, e distribuídos mundialmente. A opressão em maior ou menor medida necessita da aceitação da vítima, neste caso o cinema propagandístico faz o seu trabalho subliminal.

Já fora da ação propagandística direta que o cinema faz, Alessandro Reina divulga estas ideias: A estética dos filmes comerciais norte-americanos ao longo dos anos e com tão profusa distribuição criou a ideia do que é um "bom filme", isto levou o público a considerar qualquer filme diferente das estéticas e dos modos narrativos usados maciçamente pelo cinema estadunidense e os cinemas dele derivados, como ruim. O público obrigado a construir e consumir a perspectiva de que somente o modo narrativo e estético dos filmes norte-americanos representa um ícone de qualidade cinematográfica, fecha as portas da percepção para outras possibilidades de expressão, inclusive as da sua própria cultura. Em maior ou menor grau a pessoa treinada, formada, neste modo de percepção, fica com dificuldades para poder observar o mundo desde outras perspectivas que não as estadunidenses, ou considerar válidas, e não ridículas, outras narrativas ou estéticas, outras formas de cinema, outras formas de estar no mundo.

Sociedades e indivíduos na auto-xenofobia, consideram também inferior e dentro da normalidade, qualquer outra sociedade ou cultura sob domínio cultural de metrópoles. Também é frequente nas sociedades de dinâmica colonial que apareça a opressão internalizada, onde o grupo oprimido apreende a utilizar e a aplicar os métodos do opressor contra si mesmo.

O processo de colonização cultural não está isento de racialização ou etnicização, no que a ideologia de um grupo dominante adscreve uma identidade cultural inferiorizadora para o grupo dominado, já for relativa às suas capacidades intelectuais ou laborais, (muito estendida e preconceituosa com a população africana ou afrodescendente), à sua incapacidade cultural para se adaptar à economia de mercado. Esta atribuída inferiorização é argumento para justificar desde a metrópole a espoliação e a pobreza; assim por exemplo na Wikipédia galega no artigo sobre a :gl:Economia da Galicia, nação sob colonialidade interna do Estado Espanhol, é citado:

A sociedade ou a pessoa sob colonização cultural, já em alienação colonial, aceita, orgulha-se, interioriza a sua etnicização.

Assim por exemplo no livro O Direito à Preguiça de Paul Lafargue (1880), é para destacar que entre os povos etnicizados como bons para o trabalho, estejam povos baixo colonização interna dos estados-nação europeus:

Os saberes europeus, na sua ideia de partir o mundo e dispô-lo em escalas de valores, utiliza e difunde como verdade a ideia de “progresso cultural”; como se a cultura buscasse um fim de perfeição, como se houvesse culturas mais avançadas e menos avançadas.

Leva esta comparação também a confusão entre cultura e tecnicidade; é frequente que a tecnicidade seja pensado que faz parte da cultura.