300px|miniaturadaimagem|Iranianos se manifestando contra o governo, em Teerã, após a queda do Voo 752. Os protestos no Irã em 2019–2020 foram uma série de manifestações populares ocorridas entre novembro de 2019 e janeiro de 2020 contra o governo da República Islâmica do Irã. A primeira onda teve início em 15 de novembro de 2019, após o governo anunciar um aumento de até 200% no preço da gasolina como parte de uma reforma dos subsídios aos combustíveis. Embora inicialmente motivadas por questões econômicas, as manifestações rapidamente assumiram caráter político, com críticas à corrupção, à deterioração das condições de vida, à repressão estatal e à liderança do país.

As manifestações de novembro foram reprimidas pelas forças de segurança iranianas, resultando em centenas de mortes segundo organizações internacionais de direitos humanos. O governo impôs um bloqueio quase total da internet durante vários dias, dificultando a circulação de informações e a organização dos protestos.

Uma segunda onda de manifestações ocorreu em janeiro de 2020, após o governo admitir que havia abatido, por engano, o Voo Ukraine International Airlines 752, em 8 de janeiro, durante um período de elevada tensão militar entre Irã e Estados Unidos. Inicialmente, as autoridades negaram qualquer responsabilidade pelo acidente, mas reconheceram o erro três dias depois, após a divulgação de evidências apresentadas por governos estrangeiros e por investigações independentes. Todas as 176 pessoas a bordo, 82 iranianas, morreram

A admissão provocou novos protestos em diversas cidades iranianas. Além de exigir responsabilização pelo abatimento da aeronave, os manifestantes criticaram a falta de transparência das autoridades, denunciaram a repressão estatal e pediram reformas políticas, chegando, em alguns casos, a exigir a renúncia do então Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei. Durante os protestos, os manifestantes acusaram as autoridades iranianas de "mentir" sobre a queda do avião, uma vez que o governo só admitiu ter abatido o avião três dias depois do acidente e após autoridades internacionais, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Justin Trudeau, o Primeiro-Ministro do Canadá, dizerem que havia evidências, de múltiplas fontes, incluindo dos serviços de inteligência, que sugeriam a responsabilidade iraniana.

Os protestos receberam ampla cobertura da imprensa internacional e foram acompanhados por organizações de direitos humanos, que denunciaram o uso excessivo da força pelas autoridades iranianas e restrições à liberdade de expressão.

Antecedentes

Protestos de novembro de 2019 miniaturadaimagem|2019: Durante os protestos populares contra o racionamento de gasolina no Irã, vários bancos, postos de gasolina e lojas foram incendiados. Em 15 de novembro de 2019, o governo iraniano anunciou um aumento substancial no preço da gasolina e a adoção de um sistema de racionamento de combustíveis. Segundo as autoridades, a medida buscava reduzir o consumo interno, combater o contrabando e ampliar os recursos destinados a programas de assistência social em meio às dificuldades econômicas agravadas pelas sanções internacionais. Na época, a Anistia Internacional afirmou que os protestos poderiam ter causado a morte de mais de 200 manifestantes.

O anúncio desencadeou manifestações em dezenas de cidades. Inicialmente concentrados em reivindicações econômicas, os protestos passaram a incluir críticas ao desemprego, à inflação, à corrupção e à atuação do governo e das forças de segurança. miniaturadaimagem|Protestos em novembro de 2019 no Irã. A resposta estatal foi marcada pelo emprego da Guarda Revolucionária Islâmica, da polícia e das forças de segurança interna. Organizações como a Anistia Internacional relataram o uso de munição real contra manifestantes e estimaram que centenas de pessoas foram mortas durante a repressão. As autoridades iranianas contestaram parte dessas estimativas, e o número exato de vítimas permanece objeto de divergência entre diferentes fontes.

Durante os protestos, o governo determinou um bloqueio nacional da internet, considerado um dos mais extensos já registrados no país, dificultando a comunicação entre manifestantes e limitando a divulgação de informações ao exterior.

Crise entre Irã e Estados Unidos Em 3 de janeiro de 2020, os Estados Unidos realizaram um ataque aéreo nas proximidades do Aeroporto Internacional de Bagdá, no Iraque, que resultou na morte do general iraniano Qasem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária Islâmica. O episódio intensificou a crise entre os dois países e levou o Irã a prometer retaliação. miniaturadaimagem|Carcaça do voo Ukraine International Airlines Flight 752. Na madrugada de 8 de janeiro, o Irã lançou mísseis balísticos contra as bases militares de Al Asad e Erbil, no Iraque, utilizadas por forças norte-americanas. Poucas horas depois, em meio ao estado de alerta das defesas antiaéreas iranianas, o Voo Ukraine International Airlines 752, que havia decolado de Teerã com destino a Kiev, foi atingido por dois mísseis terra-ar disparados por uma unidade da Guarda Revolucionária. As 176 pessoas a bordo morreram.

Durante os três dias seguintes, autoridades iranianas negaram que a queda da aeronave tivesse sido causada por um míssil. Em 11 de janeiro, após a divulgação de evidências por governos estrangeiros e o avanço das investigações, o Estado-Maior das Forças Armadas iranianas reconheceu que o avião havia sido abatido por engano, atribuindo o incidente a erro humano durante um período de elevada tensão militar.

Os protestos

As manifestações tiveram início em 11 de janeiro de 2020, poucas horas após o Estado-Maior das Forças Armadas iranianas admitir que o Voo Ukraine International Airlines 752 havia sido abatido por engano por uma unidade da Guarda Revolucionária Islâmica. Os primeiros atos ocorreram em Teerã, especialmente nas proximidades da Universidade Sharif de Tecnologia e da Universidade Amir Kabir, onde estudantes e familiares das vítimas organizaram vigílias em memória dos mortos.

Ao longo do dia, as concentrações transformaram-se em manifestações contra o governo. Os participantes acusaram as autoridades de ocultar informações sobre o acidente durante os três dias que sucederam a queda da aeronave e criticaram a falta de transparência na condução da crise. Durante os protestos foram entoados slogans como "Morte ao ditador" e "Eles mentem que nosso inimigo é a América; nosso inimigo está aqui", em referência à liderança da República Islâmica. Alguns manifestantes também pediram a renúncia do Líder Supremo, Ali Khamenei, e rasgaram ou destruíram cartazes com a imagem do general Qasem Soleimani, morto dias antes em um ataque aéreo dos Estados Unidos.

As forças de segurança responderam com a presença ostensiva de unidades policiais e da Guarda Revolucionária. Segundo organizações de direitos humanos e relatos da imprensa internacional, foram empregados gás lacrimogêneo, cassetetes e munições de efeito moral para dispersar os manifestantes. O governo iraniano negou ter utilizado munição letal durante os atos de janeiro.

Em 12 de janeiro, os protestos estenderam-se para outras cidades, entre elas Isfahan, Shiraz, Rasht, Hamedã e Tabriz. Embora menores do que as manifestações nacionais de novembro de 2019, os atos reuniram estudantes universitários, professores, profissionais liberais e familiares das vítimas do voo PS752. As universidades converteram-se em importantes centros de mobilização, com associações estudantis exigindo investigações independentes, responsabilização dos envolvidos e maior transparência das instituições estatais.

Além da indignação provocada pelo abatimento da aeronave, diversos manifestantes passaram a questionar a atuação da Guarda Revolucionária e do establishment político iraniano. Em algumas universidades, estudantes recusaram-se a caminhar sobre bandeiras dos Estados Unidos e de Israel pintadas no chão — prática utilizada em eventos oficiais — gesto interpretado por parte da imprensa internacional como uma demonstração de que as críticas eram dirigidas ao governo iraniano e não representavam apoio às políticas externas desses países.

As manifestações prosseguiram em 13 de janeiro, quando novos protestos ocorreram em Teerã e em outras cidades. Os participantes voltaram a exigir responsabilização pelo abatimento do avião e entoaram palavras de ordem contra a liderança política e religiosa do país. Analistas observaram que a rápida transformação das vigílias em protestos políticos evidenciou o desgaste da confiança pública nas autoridades após a mudança da versão oficial sobre o acidente.

Reações aos protestos Durante os protestos, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou mensagens em apoio aos manifestantes e pediu que as autoridades iranianas respeitassem o direito de reunião e evitassem o uso da violência contra a população. O posicionamento foi rejeitado pelo governo iraniano, que acusou Washington de interferir em assuntos internos do país. miniaturadaimagem|Diplomata Rob Macaire. Em 11 de janeiro, o embaixador do Reino Unido no Irã, Rob Macaire, foi detido brevemente pelas autoridades iranianas após participar de uma vigília em homenagem às vítimas do voo PS752. O governo iraniano afirmou que o diplomata teria participado de uma manifestação não autorizada, enquanto Macaire declarou que havia deixado o local antes do início dos protestos e negou qualquer envolvimento com os atos políticos. O episódio provocou protestos diplomáticos do Reino Unido e ampliou as tensões entre Teerã e países ocidentais.

Embora os protestos tenham perdido intensidade nos dias seguintes, eles representaram uma das mais significativas demonstrações públicas de descontentamento desde as manifestações de novembro de 2019. Diversos analistas observaram que a admissão do abatimento da aeronave aprofundou a crise de confiança entre parte da sociedade iraniana e as autoridades do país, especialmente entre estudantes, profissionais urbanos e segmentos da classe média.

Ligações externas Vídeo dos protestos na Sky News

Ver também Protestos no Irã em 2017–2018

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