miniaturadaimagem|269x269px|Casas de Pedra no município de Nova Veneza, erguidas pelos imigrantes colonizadores. A imigração italiana em Santa Catarina se intensificou entre o final do século XIX e o início do século XX, representando um capítulo significativo na formação da identidade cultural e econômica do estado. Motivados por crises agrárias e oportunidades de trabalho, os imigrantes italianos se estabeleceram principalmente em áreas rurais, onde contribuíram para a agricultura e a indústria, introduzindo novas técnicas e culturas. Sua presença não apenas transformou a paisagem econômica local, mas também deixou uma marca nas tradições, costumes e na gastronomia, moldando a sociedade catarinense e enriquecendo sua diversidade cultural.

Em Santa Catarina chegaram muitos imigrantes do Trento e do Vêneto, a primeira colônia italiana do Brasil aconteceu em Santa Catarina, no atual município de São João Batista, conhecida como Nova Itália. Outras colônias começaram a surgir, próximas a Blumenau e Brusque, região colonizada por alemães, e também na região de Tubarão e Araranguá. Os imigrantes italianos chegavam ao porto do Desterro (Florianópolis), Laguna ou Itajaí e de lá partiam em embarcações menores povoando o interior do estado. Destacam-se na história catarinense, as colônias de Nova Itália, Porto Franco, Nova Trento, Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, Azambuja (1877), Urussanga (1878), Nova Veneza (1891), Nova Treviso, Nova Belluno, Grão Pará e Orleans.

O censo de 1920 registrou a presença de 8.062 pessoas nascidas na Itália que residiam em Santa Catarina, de um total de 558.405 italianos em todo o Brasil, fazendo com que o estado tivesse a sétima maior comunidade italiana no Brasil à época. Além daqueles vindos diretamente da Itália, a presença italiana em Santa Catarina foi, em grande medida, resultado da re-emigração de italianos oriundos do Rio Grande do Sul, principalmente no Oeste catarinense.

Antecedentes Desde o início do século XVI, a ocupação da região catarinense foi incentivada oficialmente, mas até o século XX não havia motivação econômica para um povoamento espontâneo. A escassez de pau-brasil, a distância da cana-de-açúcar dos centros comerciais na Europa, e a ausência de metais preciosos, borracha, algodão, café ou tabaco limitaram o interesse. A definição de limites ao sul do Brasil e a ocupação de áreas demográficas estratégicas foram as principais razões para seu povoamento. No início do século XVI, exploradores ouviram falar de grandes riquezas no interior, com a Ilha de Santa Catarina como porto central. Américo Vespúcio, Martim Afonso de Souza, Juan Dias Solis, Álvar Nunes Cabeza de Vaca e Sebastião Cabotto foram alguns dos que realizaram expedições ao sul. Contudo, logo perceberam que o ouro e a prata estavam nas civilizações pré-colombianas do México e do Peru, que haviam acabado de devastar. Como resultado, a vasta região entre São Paulo e a foz do Rio da Prata foi quase esquecida por um século e meio, sendo percorrida apenas por caçadores de índios e alguns poucos religiosos. miniaturadaimagem|Casarões antigos erguidos pelos imigrantes italianos no atual município de Nova Veneza/SC. A situação mudou em 1640, com a separação das Coroas de Espanha e Portugal, que tornou urgente a delimitação das possessões meridionais. Na época, a cidade costeira espanhola mais ao norte era Buenos Aires, criada em 1536 e reerguida em 1580, enquanto a pequena Cananéia era o núcleo urbano português mais ao sul. Entre essas duas localidades, quase 2 mil quilômetros se transformaram em um deserto humano. O primeiro passo concreto veio da coroa lusitana. Portugal, enfrentando dificuldades para consolidar sua independência da Espanha e lidando com a ocupação holandesa, ainda assim não ignorou a necessidade de limites ao sul. O rei solicitou a paulistas abastados que "estendessem mais para o sul seus reais domínios". Atendendo a esse pedido, entre 1640 e 1688, foram fundadas as três vilas pioneiras: Nossa Senhora da Graça de São Francisco, Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis) e Santo Antônio dos Anjos da Laguna. Em 1680, Portugal estabeleceu seu primeiro empreendimento oficial na América Meridional, a Colônia do Sacramento, na margem esquerda do Rio da Prata. No mesmo ano, os castelhanos atacaram a colônia, dando início a conflitos que se prolongaram até meados do século XIX. Em 1735, Portugal fundou São Pedro do Rio Grande, o primeiro núcleo estável do atual Rio Grande do Sul. As lutas constantes levaram à fortificação da Ilha de Santa Catarina em 1738 e à criação da Capitania do mesmo nome, que inicialmente foi subordinada a São Paulo e depois ao Rio de Janeiro. Em 1748, começaram a chegar a Santa Catarina os primeiros imigrantes, os açorianos, que vieram em um movimento coletivo, incentivado e financiado pelo governo, que lhes destinou terras e prometeu apoio. Embora muitos compromissos não tenham sido cumpridos, cerca de 5 mil pessoas foram trazidas dos Açores, deixando uma marca duradoura na cultura do litoral catarinense. Contudo, essas medidas não impediram que, em 1777, uma grande frota castelhana invadisse a Ilha de Santa Catarina, que a Espanha reivindicava desde o século XVI.

No ano seguinte, os desentendimentos e guerras continuaram a marcar a região. A Colônia do Sacramento, São Pedro do Rio Grande e Sete Povos trocaram de mãos várias vezes, e mesmo o Tratado de Madri, considerado inovador, não foi suficiente para definir e pacificar as fronteiras de forma definitiva. Com a intenção de receber colônias de imigrantes, os governantes voltaram sua atenção para o sul do Brasil, onde Santa Catarina oferecia boas condições. A região era povoada apenas no litoral, enquanto no planalto, cortado pelo importante Caminho das Tropas, o único núcleo urbano era a vila de Lages. No início do século XIX, a população da capitania não chegava a 50 mil habitantes. A produção no século XVII era quase de subsistência, e a imigração representava uma oportunidade real de crescimento econômico. O porto de São Francisco do Sul foi dinamizado pelo fluxo de produtos e passageiros em direção à Colônia Dona Francisca, fundada em 1851 no norte da província. O mesmo ocorreu em Itajaí, cuja evolução esteve ligada ao comércio com a colônia de Dr. Blumenau. Em Desterro e Laguna, o cenário não foi diferente. No estudo "Negros em Florianópolis", Fernando Henrique Cardoso estima que a população da província de Santa Catarina era de 30.309 habitantes em 1810, 66.218 em 1840, 101.559 em 1854 e 159.802 em 1872. Nesse período, a proporção de população escrava caiu de 23,07% para 9,39%, sendo o crescimento em parte atribuído à chegada de novos imigrantes. Em 1860, Laguna tinha a maior população, com 33.452 moradores, seguida pela capital com 19.995, São Francisco com 17.476, São José com 15.699, Porto Belo com 12.540, São Miguel com 9.665 e Lages com 5.820.

Razões para a imigração italiana

Desde 1808, com a vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, previa-se a entrada de mais imigrantes europeus no Brasil, seja para promover o branqueamento da raça, ocupar o solo, organizar um exército de defesa ou desenvolver a agricultura. Com o decreto de 25 de novembro de 1808, o governo estabeleceu uma legislação específica para a política imigratória, contendo intenções de auxílios e concessões ("para tal, oferecia-se custo da viagem, o lote rural, sustento, auxílio financeiro, sementes, animais tudo gratuitamente").

Em 1828, o Governo Imperial ordenou que a então Província de Santa Catarina instalasse os primeiros colonos alemães, enviados para o atual município de São Pedro de Alcântara. No que concerne aos italianos, em 1836, 186 colonos do Reino da Sardenha foram encaminhados para o atual município de São João Batista. Outros povos itálicos, porém, só chegariam a partir da década de 1870. Em 1850, a Lei de Terras estabeleceu a compra como único meio de acesso a terra abolindo, assim, o regime de sesmarias.

Entre 1850 e 1874, foram introduzidos em Santa Catarina mais de seis mil alemães. Os governantes brasileiros tinham preferência pelos imigrantes germânicos e havia certa resistência contra os italianos. Porém, no final do século XIX, começaram a crescer as vozes contrárias à imigração alemã, de modo que o Brasil passou a aceitar a vinda de italianos. Segundo Dall'alba:

No final do século XIX, a situação econômica na Itália estava difícil. A economia italiana era dependente de uns poucos industriais, havendo no país muitos latifundiários, cuja produção era baseada num sistema tradicional e ultrapassado, com resquícios de feudalismo. Para fazer frente à crise agrícola, em 1880 o governo italiano tentou fazer distribuição de terras a pequenos proprietários, mas o projeto acabou mal. Devido aos elevados impostos e às dificuldades de produção, mais de duzentas mil famílias tiveram suas propriedades confiscadas, em dez anos.

Os números

Os dados numéricos relativos às entradas de italianos em Santa Catarina anteriores a 1885 provêm sobretudo dos relatórios anuais apresentados pelos Presidentes da Província à Assembleia Legislativa e dos registros da Inspetoria Geral de Terras e Colonização.SANTA CATARINA. Relatórios dos Presidentes da Província de Santa Catarina (1836–1889). Acervo do Arquivo Histórico de Santa Catarina (AHSC), Florianópolis. Embora o controle estatístico centralizado só tenha se consolidado na segunda metade da década de 1880, o cruzamento de listas de bordo com os livros de distribuição de lotes coloniais permite estimar a entrada de aproximadamente 12 a 14 mil italianos no estado, entre 1875 e 1884.

Segundo Angelo Trento, entre 1885 e 1894, entraram no estado mais 8.941 imigrantes italianos, conforme tabela abaixo:

Entrada de italianos em Santa Catarina, entre 1885 e 1894. 1885 1886 1887 1888 1889 1890 1891 1892 1893 1894 Total167390 549305 873 179 4.240 1.348863278.941

Em 1900, moravam em Santa Catarina em torno de 25 mil italianos, assim distribuídos:

+ Tabela 1: População italiana no estado de Santa Catarina (1900)RADIN, José Carlos. Imigração italiana em Santa Catarina e no Paraná: fontes diplomáticas italianas (1875-1927). Chapecó: Ed. UFFS, 2020, p. 63. Fonte original: ITÁLIA. Agenti Diplomatici e Consolari, 1908 (adaptada). Município População População italiana % de italianos Florianópolis 32.759 300 a 400 1,07% Araranguá 16.311 1.900 a 2.002 11,96% Tubarão 23.389 4.089 a 5.042 19,52% Urussanga 7.145 7.000 97,97% Itajaí 15.692 2.310 a 3.080 17,21% Nova Trento 5.805 1.110 a 1.200 19,90% Brusque 9.124 1.800 a 2.000 20,82% Blumenau 34.472 4.500 a 5.000 13,78% Outros 19 municípios 176.563 848 a 1.144 0,56% Total 321.260 23.857 a 26.868 7,89%

A imigração de italianos para Santa Catarina durou menos de 15 anos, praticamente cessando em 1893. O censo do Brasil de 1920 registrou a presença de 558.405 pessoas nascidas na Itália que residiam no Brasil, das quais 8.062 estavam em Santa Catarina, ou apenas 1,4% do total de italianos. Os números estão na tabela a seguir:

População nascida na Itália, por estados, no censo de 1920.Estado ItalianosSão Paulo398.797Rio Grande do Sul49.136Minas Gerais42.943Distrito Federal e Rio de Janeiro31.929Espírito Santo12.553Paraná9.046Santa Catarina8.062Outros estados5.939Total no Brasil558.405

Parte significativa da população de origem italiana de Santa Catarina não veio diretamente da Itália, mas do Rio Grande do Sul, e ocupou boa parte do Oeste catarinense, especialmente entre 1930 e 1950.

A política da colonização