miniaturadaimagem|Vincent Ogé Nascimento: 1757 - Dondon, São-Domingos (Haiti) Morte: 6 de Fevereiro de 1791 - Cap-Français

Vincent Ogé Jeune (1757-1791) foi um homem de cor livre, nascido na Ilha de São Domingos, que teve papel fundamental nos antecedentes da Revolução Haitiana. Ogé era um dos mais ricos da ilha e por isso, sua posição de liderança no movimento exigindo direitos políticos para as pessoas de cor foi tão surpreendente, uma vez que as pessoas de cor livres da colônia geralmente eram mais conservadoras, pois tinham muito a perder ao se colocarem contra a elite branca.Garrigus, John D., Vincent OGé Jeune (1757-91): Social Class and Free Colored Mobilization on the Eve of the Haitian Revolution, p. 33–62, The Americas. 68 (01), 2011

Em 1790, Ogé compôs um movimento de homens livres de cor exigindo à Assembleia Nacional Francesa o fim das leis racistas e o direito dos homens livres de cor de votarem nas assembleias locais de São Domingos, através dos próprios representantes.

Até o fim da Guerra dos Sete Anos, em 1763, os oficiais da colônia haviam tratado as pessoas de cor como parte da elite branca, sem grandes distinções. A partir do fim da guerra, entretanto, as leis passaram a exigir a diferenciação entre os dois grupos, e as pessoas de cor passaram a ser chamadas affranchis (libertos).

Ogé teve contato com abolicionistas franceses, influenciado suas ideias. Ogé, juntamente com outras personalidades negras, batalharam “pelo significado e pela universalização dos sentidos da cidadania” DUARTE, E. P.; QUEIROZ, M. V. L., A Revolução Haitiana e o Atlântico Negro: o constitucionalismo em face do lado oculto da modernidade, p. 15-28, Revista Direito, Estado e Sociedade, 2016. Esses movimentos buscavam expandir os princípios de liberdade e igualdade, e, em reação a essas lutas, foi publicado, em 08 de março de 1790, um decreto que dava autonomia às colônias, trazendo uma grande derrota aos homens livres de cor no solo francês. Desiludido, Ogé retorna a São Domingos em outubro de 1790, Ogé – passando pela Inglaterra e os Estados Unidos – onde teve contato com novos discursos abolicionistas.

Ogé comparava as lutas dos homens livres de cor às lutas do Terceiro Estado na França. Ao retornar a ilha, Ogé inicia uma revolta para exigir o direito de que todo cidadão, sem qualquer tipo de distinção, obtenha acesso aos direitos políticos. Ao ser capturado e executado, Ogé transforma-se em um mártir tanto em São Domingos como em Paris, ajudando a intensificar as trocas atlânticas entre aqueles que procuravam expandir os limites dos princípios revolucionários, como apontado pelos autores Rebecca J Scott e Jean M Hebrard SCOTT, Rebecca J.; HÉBRARD, Jean M., Rosalie . . . minha escrava”, capítulo 2 de Provas de liberdade: Uma odisseia atlântica na era da emancipação, p. 39–74, Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 2014.

Ogé foi o grande responsável por trazer o debate racial através do Atlântico da Europa para as colônias, com uma posição muito mais radical e imediata do que o idealizado por seu colega revolucionário Julien Raimond. Ao se posicionar tão radicalmente, Ogé quebrava a elitização do movimento, incluindo as pessoas de cor das classes mais baixas na luta e aumentando a abrangência do debate.

As ações de Ogé foram a grande ligação entre a elite de cor livre e este grupo mais abrangente e pobre, que tinha menos a perder lutando e, portanto, mais razões para lutar; foi ele que inspirou as revoltas das pessoas de cor livres em todas as colônias americanas e criaram o “espectro de pardocracia” que assustava os colonos brancos.

Ogé já foi considerado um dos grandes heróis da revolução haitiana, sendo inclusive seu primeiro mártir; porém, de acordo com John D. Garrigus, as narrativas do século XIX colocaram-no em segundo plano, entretanto suas ações como um negro livre são autoexplicativas, e revela a contradição de sua posição como um membro da elite.

Família e Educação

Ogé nasceu na freguesia de Dondon, na província norte de São Domingos em 1757, a qual é relativamente perto da maior cidade portuária da ilha, Cap-Haïtian, na época conhecida como Cap-Français.

Graças à sua posição privilegiada, a região tornou-se um ponto central na defesa da colônia contra-ataques britânicos, com vários campos militares. Apesar da estratégia ser logo abandonada pelos franceses, o cenário militar ainda dominava a paisagem durante a infância de Ogé.

Em 1779, a região tornou-se um grande centro de recrutamento para uma campanha comandada por Charles d’Estaing, que, com mais de 900 homens de cor livres partiu para Savannah para ajudar a revolta dos colonos britânicos na América; apesar de não haver meios de confirmar se Ogé esteve ou não nesta campanha, sabe-se que grande parte de seus companheiros revoltosos em 1790 eram ou veteranos desta campanha ou filhos de veteranos desta campanha.

Seu status de maior cidade portuária também garantia outra característica importante a Cap-Français: era a primeira visão de todos os escravos trazidos à colônia e de todos os homens livres que vinham tentar a vida nela. Desta forma, a diversidade cultural da região era grande, o que garantia que os oficiais de Cap-Français fossem muito mais tolerantes do que os de Port-au-Prince no que se referia ao tratamento com as pessoas de cor, mesmo com a discriminação imposta pela lei.

Na cidade portuária, o status econômico era muito mais importante do que o racial. Vincent Ogé trabalhava e morava em Cap-Français, mas sua riqueza vinha das plantações de café que sua família possuía em Dondon. Seu pai era um homem branco chamado Jacques Ogé; sua mãe era uma “mulâtresse, filha legítima de um branco chamado Joseph Ossé e uma négresse cujo nome “não pode ser lembrado”, chamada Angélique Ossé; seu irmão mais velho chamava-se Jacques, e seu segundo irmão, Joseph; além de outras duas irmãs.

A origem real da riqueza da família Ogé é incerta; supostamente, sua mãe herdou a propriedade do pai ao se casar com Jacques. Muitas das famílias ricas de cor de 1780 foram fundadas nas décadas de 1720 e 1730, quando homens brancos recém-chegados à colônia se casavam com herdeiras de cor – essa talvez tenha sido a origem dos Ossé, e, portanto, dos Ogé.

A chegada do café transformou Dondon – o número de escravos aumentou, a renda da freguesia cresceu cerca de 70% em 22 anos, e as plantações de índigo foram desaparecendo, dando lugar às de café. Além disso, as leis raciais começaram a ser aplicadas e seguidas, e teve início a separação entre os indivíduos brancos (chamados de sieur e demoiselle) e os de cor (mulâtre libre, quarteronne libre ou ainda le nommé, que significa “o assim chamado”).

Os notários chegavam a não reconhecer a legitimidade de nomes de famílias francesas em pessoas de cor livres. Em 1773, surgiu uma nova lei que exigia que as pessoas de cor livres se associassem a novos sobrenomes de origem africana. Os poucos registros dos Ogés que sobreviveram possuem enorme importância por demonstrarem o incomum status social da família – apesar de os notários nunca descrevem sua raça, eles se referiam a eles como le nommé, ao invés dos títulos corteses. A fortuna pessoal de Ogé não vinha da plantação de café de sua família, entretanto, mas de uma curta carreira como mercador, na qual, como colocado por ele próprio em 1789, “obteve sucesso nesta difícil carreira, além das minhas expectativas”.

Aos onze anos, Ogé foi mandado pelos pais para estudar no porto de Bordeaux, o mais importante porto colonial francês, assim como a maior parte de sua família; em abril de 1763, os registros mostram Joseph Auger (o nome da família era frequentemente escrito com “Au” ao invés de “O”), de 18 anos, retornando a Cap-Français, e em outubro de 1783, ao fim da Guerra de Independência Estadunidense, Jacques Auger, 26, voltava a São Domingos.

Riqueza Pessoal

Ogé retornou para casa por volta de 1774 ou 1775; já em 1777, tanto sua mãe quanto sua tia eram descritas como viúvas. O censo de 1776 não lista nenhum proprietário chamada Ogé, mas lista que a Viúva Augé possuía uma quantidade considerável de terras. Mesmo após a morte dos Ogé mais velhos, os notários – e o próprio Vincent – continuavam a se referir a ele como Ogé/Augé jeune.

No dia primeiro de junho de 1778, os registros de Dondon mostram Sieur e Dame Fouché escrevendo uma procuração para Sieur Ogé – assume-se, Vincent –, confiando-lhe a venda de seu café em Cap-Français.

Os arquivos da época mostram que, durante a década de 1780, Ogé estava envolvido em diversos empreendimentos, quase sempre com brancos – ele vendeu casas e apartamentos de luxo na cidade para brancos ricos, possuía um barco com dois parceiros brancos, e fazia negócios com grandes comerciantes em todos os grandes portos de São Domingos – e nunca era descrito como um homem de cor.

Como muitos colonos, ele nunca se casou, porém, contratou uma mulata livre como doméstica, uma posição que estereotipicamente incluía deveres sexuais. Em 1783, “Sieur Vincent Ogé jeune” pagou a doméstica, Marie Magdalene Gerrette, “mulâtresse livre”, por dois anos de serviço cuidando de Rosette, uma africana escravizada de doze anos, “da nação Susse”, comprada pelo próprio Ogé diretamente do navio que a trouxera.

Os registros sobreviventes da vida econômica de Vincent Ogé, bem como o seu próprio testemunho, indicam que ele era um dos homens de cor mais ricos de São Domingos, e ainda mais rico do que o francês europeu médio. Seu patrimônio, se investido, teria lhe garantido uma renda maior do que a de alguns juízes nobres do Parlamento de Bordeaux; em Paris, seu estilo de vida não poderia ter sido tão luxuoso quanto na colônia, mas ainda teria sido grandioso e respeitável, melhor do que vários dos pequenos burgueses da capital, apesar de estar longe de alcançar alguns dos maiores plantadores da colônia.

A riqueza de Ogé é tão importante por colocá-lo em um dos mais altos escalões da elite de plantadores de cor em São Domingos. Em outros lugares do Novo Mundo, esse status o teria “branqueizado” – pelo menos, aos olhos dos notários que quebravam as leis raciais recentes e não o classificavam como “de cor” em seus registros, ou exigiam documentos que provassem sua liberdade.

Em 1789 e 1790, quando as notícias a respeito da Revolução na França atingiram São Domingos, as famílias mais ricas da colônia começaram a se distanciar dos olhares do público; à exceção de Julien Raimond, que havia viajado para Paris em 1784 parcialmente para tentar conseguir uma reforma racial.

Apesar de encontrar-se ao lado de Raimond na Paris revolucionária, ele não estava entre os seus apoiadores em São Domingos, e havia ido a Paris por razões puramente pessoais; em 1787, ele havia quase falido, com uma dívida de 77 600 livres, os quais ele não conseguiria pagar a menos que saísse de Cap-Français. Em 1789, os interrogadores de Cap-Français tentaram fazê-lo admitir que sua ruína financeira vinha de sua personalidade ou opiniões políticas (se ele teria insultado e desrespeitado os brancos, e essa teria sido a causa). Ele negou, afirmando que havia estendido crédito a plantadores que nunca o reembolsaram e tinha uma parceria falida com uma firma em Les Cayes.

Em 1778, devido à Guerra de Independência Estadunidense, Versailles abriu os portos de São Domingos, o que causou um boom na economia colonial tão significativo que, em 1783, um mercador descreveu o fim das hostilidades como sendo “a pior coisa que podertia ter-nos acontecido”, uma vez que, com isso, Versailles voltou a fechar os portos, causando uma crise econômica colonial que levou mesmo os comerciantes mais bem-financiados à falência.

Ainda assim, Ogé não precisava sair de São Domingos para restaurar seu crédito; em 1788, ele se mudou para Port-au-Prince, onde vendeu sua propriedade, coletou algumas dívidas, e entrou em uma parceria para ajudar um capitão de navio a vender sua carga. Em seis meses, ele possuía dinheiro mais do que suficiente para saldar suas dívidas.