Ofensiva do Fezã ocorre durante a Segunda Guerra Civil Líbia, sendo iniciada em 16 de janeiro de 2019 com uma ofensiva militar do Exército Nacional Líbio para assumir o controle do sudoeste da Líbia.

Contexto O sul da Líbia é uma área onde as relações intercomunitárias são frágeis. Sobretudo, são notáveis os combates entre os tuaregues e os tubus em Ubari entre 2014 e 2015 e entre os tubus e os árabes da tribo de Oulad Souleymane em Saba em 2017. Também são relatados muitos casos de sequestro por resgate, roubo e banditismo. Vários grupos rebeldes sudaneses, chadianos e nigerinos estão presentes no sul da Líbia, particularmente na região de Saba.Frédéric Bobin, Des « mercenaires étrangers » en Libye, une stratégie à risque, Le Monde, 30 de outubro de 2018.Livré à lui-même, le Sud libyen en proie à des groupes armés étrangers, VOA, 29 de outubro de 2018.Laurent Ribadeau Dumas, Le sud de la Libye sous la coupe de groupes armés tchadiens et soudanais, Franceinfo, 30 de outubro de 2018.

Forças envolvidas

Cerca de cinco ou seis grupos rebeldes chadianos usam o sul da Líbia como base de retaguarda.Carine Frenk, Rebelles de l'UFR frappé par la France: «Pourquoi aucune force armée tchadienne ne les a arrêtés?», RFI, 7 de fevereiro de 2019.La Libye, base arrière des rebelles tchadiens?, RFI, 26 de agosto de 2017. O mais importante é o Conselho do Comando Militar para a Salvação da República (CCMSR), seguido pela União das Forças da Resistência (UFR), pela Frente pela Alternância e Concórdia no Chade (FACT) e pela União das Forças para a Democracia e o Desenvolvimento (UFDD).Laurent Larcher, Les rebelles tchadiens pris en tenaille entre la Libye et le Tibesti, La Croix, 6 de fevereiro de 2019. No total, essas milícias chadianas reúnem vários milhares de combatentes: seu número é estimado entre 2.000 e 3.500 pela ONU no início de 2018, entre 4.000 e 11.000 segundo Alexander Bish, pesquisador da "Global Initiative", no início de 2019 e 18.000 de acordo com o Governo de União Nacional em 2017. Esses grupos são próximos das Brigadas de Misurata e, em particular, da Terceira Força. Em 2017, participam nomeadamente ao lado destes na ofensiva do Crescente Petrolífero e na Batalha de Biraque. No entanto, na primavera de 2017, enfraquecida pelos contra-ataques do Exército Nacional Líbio, a Terceira Força retira-se de Fezã. Os grupos chadianos encontram-se isolados e alguns tentam conciliar-se com o Marechal Haftar. A Frente pela Alternância e Concórdia no Chade (FACT) obtém assim a autorização para permanecer em Jufra, com a condição de manter-se ordeira. Outras formações sobrevivem envolvendo-se em redes de contrabando. O Chade igualmente acusa o Catar de financiar os rebeldes chadianos.

Os rebeldes sudaneses encontram-se aglutinados no Reagrupamento das Forças para a Libertação do Sudão, surgido em junho de 2017 e liderado por Taher Abu Bakr Hajar.Tchad: qui a épaulé l'armée tchadienne à Kouri Bougouri?, RFI, 15 de janeiro de 2019. Esta aliança inclui três grupos armados de Darfur: o Movimento pela Justiça e Igualdade (MJI) e as duas facções do Exército de Libertação do Sudão, uma liderada por Abdul Wahid al-Nour e a outra por Minni Minnawi. Os rebeldes sudaneses, apoiados pelo Chade, servem como mercenários nas forças de Haftar. O Reagrupamento das Forças para a Libertação do Sudão dispõe de uma base militar em Cufra, que conta com 2.000 combatentes armados.

No sudoeste, os territórios tuaregues são controlados pelo Conselho Supremo dos Tuaregues da Líbia, liderados por Moulay Ag Didi.Frédéric Bobin, L’amertume des Touareg libyens, « citoyens de seconde zone », Le Monde, 19 de outubro de 2018. Os tuaregues controlam diversos poços de petróleo e, de 2014 a 2015, entraram em um confronto violento com os tubus, na região de Ubari, até a conclusão de um acordo de paz assinado com a mediação do Catar. Desde 2016, o Conselho Supremo dos Tuaregues apóia o Governo de Unidade Nacional de Fayez al-Sarraj.Tabu and Tuareg announce their support for GNA, libyaprospect.com, 4 de abril de 2016..

O Exército Nacional Líbio do Marechal Khalifa Haftar dispõe de uma presença limitada no Fezã. No entanto, obteve o reforço da Brigada Khalid Ibn Walid, dirigida por um salafita tubu.

Prelúdio Em fevereiro de 2018, novos combates irrompem em Saba entre a tribo árabe Oulad Souleymane e os tubus, sendo a primeira próxima ao Governo de Unidade Nacional liderado por Fayez el-Sarraj e os segundos próximos de Khalifa Haftar.Célian Macé, Le Sud libyen au bord de l'embrasement, Libération, 14 de março de 2018.Libye: les Toubous et la tribu Ouled Slimane s'affrontent à nouveau à Sebha, RFI, 27 de fevereiro de 2018.Libye: 3 morts dans des heurts entre tribus, Le Figaro avec AFP, 6 de março de 2018.Libye: des combats détruisent une partie de la citadelle historique de Sebha, RFI, 3 de abril de 2018. Posteriormente, no entanto, uma grande parte da tribo Oulad Souleymane se juntou a Haftar.

No final de maio de 2018, a Líbia, o Chade, o Níger e o Sudão assinam um acordo de cooperação em segurança, que autoriza o "direito de perseguição".

Em 13 de outubro de 2018, a aviação do Exército Nacional Líbio bombardeou um grupo chadiano em Fezã, perto de Tamassah, matando o líder rebelde Mohamed Kheir. Libye: nouveaux affrontements entre armée et rébellion tchadienne dans le sud, RFI 16 de outubro de 2018. Em seguida, combates esporádicos aconteceram perto do oásis de Tamassah. Em 16 de outubro, Khalifa Haftar vai a N'Djamena para se reunir com o presidente do Chade, Idriss Déby. Os dois homens convergem sobre a necessidade de uma operação no sul da Líbia, o que permitiria a Idriss Déby se livrar dos grupos rebeldes e Haftar, já senhor do leste do país, assumir o controle do sul.

Israel também teria respondido favoravelmente ao pedido do presidente do país, Idriss Deby, feito em novembro de 2018 durante a visita oficial de Benyamin Netanyahu, para ajudar a proteger a fronteira norte do Chade com a Líbia.

Desenvolvimento Em 16 de janeiro de 2019, o Exército Nacional Líbio anuncia o início de sua ofensiva.Libye: Haftar lance une opération pour "purger" le sud, Le Figaro avec AFP, 16 de janeiro de 2019. A operação é feita em coordenação com o governo do Chade e com o apoio da França, mas é vista com preocupação pela Argélia. Os Estados Unidos não reagem. A ofensiva é lançada a partir da base aérea militar de Tamenhant, a cerca de trinta quilômetros ao norte de Saba, a maior cidade do sul da Líbia. No entanto, as unidades do Exército Nacional Líbio já haviam assumido posições em torno de Saba nos dias anteriores. O Exército Nacional Líbio então afirma através de seu porta-voz, Ahmad al-Mesmari Mesmari, querer "garantir a segurança dos habitantes do sudoeste contra os terroristas, seja do Daexe ou da al-Qaeda, bem como dos bandos criminosos". Também alega almejar proteger os locais de petróleo, bem como as estradas que ligam o sul ao norte e lutar contra a imigração ilegal. Em um comunicado, apela às milícias locais para evacuar os locais militares que ocupam.

No final de janeiro, o Exército Nacional Líbio assegura sem muita dificuldade a cidade de Saba.Ayman al Warfalli, Libye: Les forces de Haftar contrôlent une bonne partie de Sabha, Reuters, 28 de janeiro de 2019.L'armée libyenne affronte toujours la rébellion tchadienne dans le sud, RFI, 2 de fevereiro de 2019.Célian Macé, Le maréchal Haftar fait des ricochets au Sahara, Libération, 8 de fevereiro de 2019. O Exército Nacional Líbio anuncia a tomada de Saba em 19 de janeiro, mas efetivamente não assume o controle de algumas partes da cidade até o dia 24.Mona Saanouni, Libye: Les forces de Haftar prennent le contrôle total de Mourzouq, Agence Anadolu, 21 de fevereiro de 2019.

Em 27 de janeiro, o Exército Nacional Líbio reivindicou a captura da região de Godua, a oitenta quilômetros ao sul de Saba. No dia 1 de fevereiro, ao amanhecer, os rebeldes chadianos tentam atacar Godua. Pelo menos três homens do Exército Nacional Líbio são mortos, incluindo dois oficiais.

As forças de Haftar também cercam a cidade de Murzuque, mantida pelos tubus. A operação é ressentida pelas populações tubus que habitam na região: a Assembleia Nacional dos Tubus condena a ofensiva e os deputados líbios tubus suspendem sua participação na Câmara dos Representantes de Tobruque. A Assembleia Nacional dos Tubus também condena a operação exigindo explicações sobre as declarações do porta-voz do Exército Nacional Líbio, que acusou a tribo de "conluio com as forças estrangeiras". Anteriormente aliados Haftar, os tubus então aparentam estarem divididos.

Em 18 de janeiro de 2019, o Exército Nacional Líbio anunciou que havia matado Abu Talha al-Libi, um líder da al-Qaeda no Magrebe Islâmico.Libye: Abu Talha al-Liby, chef d’Aqmi, tué dans le sud du pays, RFI, 19 de janeiro de 2019.Libye: un dirigeant libyen d'Al-Qaïda tué dans le Sud (forces de Haftar), AFP, 18 de janeiro de 2019. Abu Talha al-Libi teria sido morto junto com outros dois jihadistas — o líbio el-Mehdi Dengo e o egípcio Abdallah Desouki — durante uma incursão contra duas casas na região de al-Qarda al-Chatti, a cerca de sessenta quilômetros a nordeste da cidade de Saba.

Em 3 de fevereiro, 121 rebeldes tubus nigerinos do Movimento pela Justiça e Reabilitação do Níger (MJRN), liderados por Mahamat Tinaymi, abandonaram a Líbia e se renderam ao exército nigerino em Madama.Niger: reddition de plusieurs rebelles de retour du sud-libyen, RFI, 11 de fevereiro de 2019. Uma cerimônia de desarmamento acontece em Dirkou no dia 11 de fevereiro.Désarmement d'ex-rebelles toubou après leur reddition dans le nord, AFP, 12 de fevereiro de 2019.

Com base no sul de Murzuque, os rebeldes chadianos da União das Forças da Resistência também preferem deixar o sul da Líbia ao invés de lutar contra as tropas de Haftar.Célian Macé, Le maréchal Haftar fait des ricochets au Sahara, Libération, 8 de fevereiro de 2019. Assim regressam ao território chadiano, mas entre 3 e 6 de fevereiro sua coluna é alvejada pela força aérea francesa no deserto de Ennedi. Cerca de vinte dos seus veículos são destruídos e entre 100 e 250 combatentes rendem-se às forças do governo chadiano.Tchad: nouvelle reddition de rebelles de l’UFR, RFI, 9 de fevereiro de 2019.

Em 6 de fevereiro, o Exército Nacional Líbio anuncia ter apreendido o campo petrolífero de al-Sharara (perto de Ubari); o maior do país, gerando sozinho um terço da produção líbia, fechado desde 10 de dezembro e anteriormente controlado por milicianos tuaregues.Frédéric Bobin, En Libye, les avancées du maréchal Haftar rebattent les cartes de la crise, Le Monde, 8 de fevereiro de 2019.Arianna Poletti, Libye : le maréchal Haftar avance dans le sud-ouest et inquiète Tripoli, Jeune Afrique, 8 de fevereiro de 2019. Esta tomada ocorre apenas algumas horas antes de o Governo de Unidade Nacional anunciar o envio dos Guardas das Instalações Petrolíferas para al-Sharara. Os tuaregues encontram-se então divididos e vários dos seus batalhões se juntam ao Exército Nacional Líbio.François d’Alançon, Libye : la dynamique Haftar s’amplifie, La Croix, 14 de fevereiro de 2019.