O afundamento da frota alemã ocorreu no dia em Scapa Flow nas Ilhas Órcades, Escócia, quando a maior parte da Frota de Alto-Mar alemã foi deliberadamente afundada por seus próprios marinheiros para que seus navios não fossem tomados pelos Aliados da Primeira Guerra Mundial. O Armistício de Compiègne que deu fim a guerra estipulou que boa parte das embarcações da Marinha Imperial Alemã deveriam ser entregues, porém não havia um consenso sobre o que aconteceria com a frota. Os alemães renderam seus navios em 21 de novembro de 1918 sob o comando do contra-almirante Ludwig von Reuter, sendo guiados pela Marinha Real Britânica até Scapa Flow, onde foram internados.
Ao todo, 74 embarcações foram rendidas e permaneceram em Scapa Flow junto com suas tripulações alemãs, que lentamente foram repatriadas. Enquanto isso, os Aliados discutiam o que fazer com a frota: França e Itália queriam ficar com alguns navios, ao passo que o Reino Unido desejava que fossem destruídos. Durante esse período, os marinheiros estavam em estado de total desmoralização, com pouca comida, disciplina, recreação e serviço postal. Reuter começou a planejar o afundamento deliberado de sua frota em maio de 1919 ao descobrir sobre os possíveis termos do Tratado de Versalhes.
O processo de afundamento foi iniciado pelos marinheiros alemães na manhã de 21 de junho, aproveitando-se do fato de que a 1ª Esquadra de Batalha britânica do vice-almirante Sydney Fremantle estava fora de Scapa Flow realizando exercícios. Os britânicos tentaram intervir assim que perceberam o que estava ocorrendo, no processo matando e ferindo alguns alemães, e conseguindo salvar algumas das embarcações. Entretanto, 52 navios afundaram, muitos dos quais foram recuperados no decorrer das duas décadas seguintes e rebocados para longe a fim de serem desmontados. Mesmo assim, os destroços de sete embarcações permanecem até hoje no fundo de Scapa Flow e são locais de mergulho protegidos por lei.
Antecedentes thumb|esquerda|250px|Pintura de John Lavery mostrando Beatty lendo os termos de rendição aos alemães a bordo do HMS Queen Elizabeth A assinatura do Armistício de Compiègne em 11 de novembro de 1918 pôs fim à Primeira Guerra Mundial. As potências Aliadas concordaram que toda a frota de u-boots da Alemanha deveria ser rendida sem a possibilidade de retorno, porém não conseguiram chegar a um acordo sobre destino da frota de superfície. Os Estados Unidos sugeriram que os navios fossem internados em um porto neutro até uma decisão final ser alcançada, porém Noruega e Espanha, os dois países abordados sobre a questão, recusaram. O almirante britânico sir Rosslyn Wemyss sugeriu que as embarcações fossem internadas em Scapa Flow nas Ilhas Órcades, Escócia, com uma tripulação mínima, sendo vigiados nesse ínterim pela Grande Frota. Estes termos foram transmitidos para a Marinha Imperial Alemã em 12 de novembro, instruindo-os a preparar a Frota de Alto-Mar para partir em 18 de novembro, do contrário os Aliados iriam invadir o arquipélago da Heligolândia.
O contra-almirante alemão Hugo Meurer, o representante do almirante Franz von Hipper, o comandante da Frota de Alto-Mar, encontrou-se na noite do dia 15 de novembro com o almirante britânico sir David Beatty a bordo da capitânia deste, o . Beatty apresentou os termos a Meurer, que foram expandidos durante uma segunda reunião no dia seguinte. Os u-boots seriam rendidos para o contra-almirante Reginald Tyrwhitt em Harwich. A frota de superfície deveria navegar até o estuário do rio Forth e render-se a Beatty. Eles então seriam guiados até Scapa Flow e internados, esperando o resultado das negociações de paz. Meurer pediu para que a data limite fosse estendida, ciente que os marinheiros ainda estavam com um humor amotinado e que os oficiais teriam dificuldade de fazê-los obedecerem. Meurer assinou os termos.
Rendição thumb|250px|O SMS Emden, SMS Frankfurt e SMS Bremse entrando em Scapa Flow As primeiras embarcações rendidas foram os u-boots, que começaram a chegar em Harwich no dia 20 de novembro; no final, 176 foram entregues. Hipper recusou-se a liderar sua frota até a rendição e assim delegou a tarefa para o contra-almirante Ludwig von Reuter. Os navios alemães encontraram-se na manhã de 21 de novembro com o cruzador rápido HMS Cardiff, que os levou para um encontro com mais de 370 embarcações da Grande Frota e países aliados. Havia setenta navios alemães no total; o couraçado e o cruzador rápido SMS Dresden tiveram problemas de motor e precisaram ser deixados para trás. O barco torpedeiro SMS V30 bateu em uma mina durante o cruzamento e afundou. Os alemães foram escoltados até o estuário do Forth, onde ancoraram. Beatty sinalizou a eles que "A bandeira alemã será arriada ao pôr do sol hoje e não será hasteada novamente sem permissão".
A frota então foi movida para Scapa Flow entre os dias 25 e 27 de novembro; os barcos torpedeiros foram deixados no Estreito de Gutter, enquanto os couraçados e os cruzadores foram ancorados ao norte e oeste da ilha de Cava. 74 navios foram internados no total, com o König e o Dresden chegando em 6 de dezembro acompanhados pelo torpedeiro SMS V129, que substituiu o V30. A última embarcação a chegar foi o couraçado em 9 de janeiro de 1919. Os navios internados foram inicialmente vigiados pela Força de Cruzadores de Batalha, depois reduzida para a Esquadra de Cruzadores de Batalha, comandadas sucessivamente pelo vice-almirante sir William Pakenham, o contra-almirante sir Henry Oliver e o contra-almirante sir Roger Keyes. A 2ª Esquadra de Batalha da Frota do Atlântico, sob o comando do vice-almirante sir Arthur Leveson, assumiu as funções de guarda em 1º de maio, sendo sucedidos logo no dia 18 do mesmo mês pela 1ª Esquadra de Batalha do vice-almirante Sydney Fremantle.
Cativeiro thumb|esquerda|upright=1.1|A frota alemã em Scapa Flow no dia 28 de novembro de 1918. O estado nos navios alemães durante o internamento era "de completa desmoralização". Quatro questões exacerbaram essa situação: falta de disciplina, comida ruim, falta de recreação e serviço postal lento. O resultado cumulativo desses problemas criou uma "imundície indescritível em alguns dos navios". O almirante sir Charles Madden, segundo em comando da Grande Frota, escreveu em 29 de novembro para seu cunhado e ex-superior lorde John Jellicoe, 1º Visconde Jellicoe, que "Todas as ordens propostas são consideradas e contra-assinadas pelo comitê dos homens antes de serem executadas e então elas são realizadas quando convém". Foi dito que os oficiais alemães ficaram "envergonhados" quando visitaram uma das embarcações. Comida era enviada da Alemanha duas vezes por mês, mas era monótona e de pouca qualidade. Pegar peixes e aves proporcionava um suplemento para a dieta e alguma recreação. Uma grande quantidade de conhaque também foi enviada. A recreação disponível era limitada aos navios, já que os britânicos não permitiam que os marinheiros alemães fossem para terra firme ou visitassem alguma outra embarcação vizinha. Oficiais e marinheiros britânicos só podiam visitar durante ocasiões oficiais. Correio enviado para a Alemanha desde o início era censurado, algo que mais tarde também foi aplicado ao correio que chegava. Os alemães tinham direito a trezentos cigarros por mês, ou 75 charutos. Havia médicos alemães internados junto com as frotas, porém nenhum dentista, e os britânicos recusaram-se a proporcionar cuidados dentários.
O comando dos navios internados era exercido por Reuter, que hasteava sua bandeira no couraçado , sua capitânia. Ele tinha uma traineira britânica a sua disposição para visitar os navios e emitir ordens escritas sobre assuntos urgentes, com sua equipe ocasionalmente recebendo permissão para visitar outras embarcações a fim de cuidar da repatriação de oficiais e tripulantes. Reuter estava com saúde ruim e pediu em 25 de março que sua bandeira fosse transferida para o cruzador rápido SMS Emden, pois não tinha conseguido dormir por noites seguidas devido a um grupo de marinheiros revolucionários que se autointitulavam a "Guarda Vermelha" e que ficavam batendo os pés no teto de sua cabine. O número de homens sob seu comando foi continuamente reduzido no decorrer dos sete meses de internamento dos aproximadamente vinte mil marinheiros originais que levaram os navios para Scapa Flow em novembro de 1918. Quatro mil voltaram para a Alemanha em 3 de dezembro, seis mil em 6 de dezembro e cinco mil em 12 de dezembro, deixando por volta 4 815 homens, dos quais aproximadamente cem eram repatriados mensalmente.
thumb|250px|Marinheiros alemães pescando do convés de um torpedeiro Negociações sobre o destino dos navios estavam em andamento na Conferência de Paz de Paris. França e Itália queriam, cada um, um quarto das embarcações. O Reino Unido queria que fossem destruídos, pois sabia que qualquer redistribuição diminuiria a vantagem proporcional que tinha em relação às marinhas dos outros países. Os alemães não tinham permissão de destruírem seus próprios navios sob o Artigo XXXI do armistício. Tanto Beatty quanto Madden tinham aprovado planos para tomar as embarcações caso as tripulações tentassem afundá-los; Keyes e Leveson recomendaram que os navios fossem tomados de qualquer jeito e os alemães fossem internados em terra na ilha Nigg, porém suas sugestões não foram levadas adiante. Suas preocupações não eram sem justificativa, pois Reuter tinha mencionado com seu chefe de gabinete já em janeiro de 1919 sobre a possibilidade de afundar sua frota. Ele soube em maio sobre os possíveis termos do Tratado de Versalhes e começou a preparar planos detalhados para afundar os navios. Uma nova repatriação em 18 de junho deixou apenas homens confiáveis para realizar as preparações. No mesmo dia ele emitiu ordens para todas as embarcações da frota, afirmando no parágrafo onze que "É minha intenção afundar os navios apenas se o inimigo tentar tomar posse deles sem o consentimento de nosso governo. Caso nosso governo concorde nos termos de paz com render os navios, então os navios serão entregues, para a duradoura desgraça daqueles que nos colocaram nesta posição".
Nesse meio tempo a assinatura do Tratado de Versalhes foi marcada para o meio-dia de 21 de junho de 1919. A 1ª Esquadra de Batalha preparou-se para entrar nos navios alemães e realizar uma verificação à força à procura de sinais de que a frota estava preparando-se para afundar. Madden pediu pessoalmente no Almirantado Britânico em 13 de junho que avaliações políticas diárias fossem realizadas a partir de 17 de junho a fim de se prepararem para agir, porém ele comentou pouco depois com Beatty que não tinham "nenhuma indicação confiável sobre a atitude dos Alemães em relação aos termos de paz". Fremantle submeteu a Madden em 16 de junho um esquema para tomar as embarcações à meia-noite do dia 21 para o 22, depois da data em que o tratado deveria ser assinado. Madden aprovou o plano em 19 de junho, porém só depois de ser informado de que o prazo para a assinatura do tratado fora ampliado até às 19h do dia 23, não informando isto a Fremantle. Este descobriu sobre a extensão do prazo ao ver uma notícia de jornal no mesmo dia e presumiu que era verdade. Ele tinha sido instruído por Madden a praticar seus couraçados contra ataques de torpedo, o que necessitava de clima bom para que os torpedos fossem recuperados. O clima na noite de 20 junho estava favorável; assim, Fremantle ordenou que a 1ª Esquadra de Batalha deixasse Scapa Flow na manhã seguinte às 9h para treinarem. A operação para tomar os navios alemães foi adiada até a noite de seu retorno em 23 de junho, depois do prazo de assinatura do tratado. Fremantle posteriormente afirmou que disse extraoficialmente a Reuter antes de deixar Scapa Flow que o armistício ainda estava em efeito.
Afundamento thumb|260px|esquerda|O SMS Derfflinger afundando pela proa.