A entomofagia (do grego entomon, “inseto”, e fagein, “comer”), também chamada de insetivoria, é o consumo de insetos como fonte alimentar. A antropoentomofagia (anthropos, “humano”), também chamada de antropoinsetivoria, é o consumo direto de insetos ou de seus produtos por humanos.FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Which insects?. Disponível em: <http://www.fao.org/edible-insects/en/>. Acesso em: 22 mai. 2018.
Entre os recursos naturais e de renovação, estão os insetos, que têm muitas características a seu favor, incluindo abundância (existem em grande quantidade), rápida reprodução e valor nutricional, além de sua presença em quase todos os ecossistemas. Os insetos comestíveis são uma grande fonte de proteína animal, geralmente tendo um valor nutricional muito bom em relação a proteínas, gorduras, lipídios, vitaminas, minerais e sais, além de ter um sabor apetitoso. Os insetos são consumidos em todos os estágios de desenvolvimento, que, dependendo da espécie, podem ser ovos, larvas ou ninfas, pupas e/ou adultos entre Pauro, Hemimetábolo ou Holometábolo. Isso não é surpreendente, já que os insetos formam 80% do reino animal e constituem uma grande biomassa no planeta onde existem há 350 milhões de anos. Além disso, eles têm atribuições únicas ao ambiente circundante e uma enorme variedade de situações e circunstâncias diversas, tanto bióticas quanto abióticas. A maioria dos insetos comestíveis é coletada manualmente ou com o uso de redes, machados, pás ou facas.
Principais insetos comestíveis A insetivoria em humanos varia muito culturalmente, havendo sociedade onde ela é absolutamente proibida e um tabu, e outras como é a principal fonte de proteína animal. O consumo pode se dar enquanto o animal encontra-se nos estados ovo, ninfa, larva, pupa e adulto (também chamado de imago), porém ocorre mais comumente durante as fases larva e pupa ROMEIRO, Edenilze Teles; OLIVEIRA, Israella Dias De; CARVALHO, Ester Fernandes. Insetos como alternativa alimentar: artigo de revisão. Contextos da alimentação, São paulo, v. 4, n. 1, p. 40-61, set. 2015. Disponível em: <http://scielo.br/pdf/inter/v17n3/1518-7012-inter-17-03-0503.pdf http://www3.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistacontextos/wp-content/uploads/2015/10/54_ca_artigo_ed_vol_4_n_1_15_2.pdf>.Acesso em: 22 mai. 2018.. Além dos insetos, os produtos de insetos também são muito presentes na alimentação humana, como o mel e a seda.
A maioria dos primatas se alimenta de apenas dois filos de invertebrados, moluscos (Mollusca) e artrópodes (Arthropoda, que inclui aracnídeos, “crustáceos” e insetos), com uma apreço por insetos e ignorando por completo os demais crustáceos. As principais ordens de insetos mais consumidas por humanos são coleópteros (besouros), representando 31% do consumo ao redor no mundo; lepidópteros (borboletas e mariposas), representando 18%; himenópteros (abelhas, vespas e formigas), representando 14%; ortópteros (gafanhotos, esperanças e grilos), representando 13%; hemiptera (cigarras e percevejos), representando 10%; e isópteros (cupins), representando 3%, entre outras, que representam 5% do consumo. Nessas ordens, incluem-se mais de 1.900 espécies diferentes de insetos indicados ao consumo humano.FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Insects for food and feed. Disponível em: <http://www.fao.org/edible-insects/en/>. Acesso em: 22 mai. 2018.
É interessante notar que Coleoptera, Lepidoptera, Hymenoptera e Hemiptera são 4 das 5 ordens de insetos chamadas de megadiversas, com mais de 150 mil espécies descritas (a quinta ordem megadiversa é Diptera); portanto, é condizente que sejam tão consumidas, já que são tão recorrentes na natureza. Orthoptera é a sexta ordem mais diversas, sendo, portanto, também muito recorrente. Contudo, Isoptera não é uma ordem tão comum. Uma hipótese para o seu consumo é a facilidade de acesso a esses insetos, os cupins. Eles vivem em colônias de dezenas de milhares de indivíduos, facilitando a captura em massa, e suas colônias são facilmente encontradas e acessíveis, tornando-os presas fáceis para humanos, ainda mais considerando nossas tecnologias, como o fogo.
Além disso, outras hipóteses tentam explicar porque essas ordens são as mais visadas por humanos:
Besouros têm alguns dos maiores tamanhos entre os insetos. A larva de besouro é sempre maior que o adulto da mesma espécie, e, em geral, imaturos (formas não adultas) tem mais gordura e proteína que os adultos e menos partes duras de quitina, fazendo com que larvas e pupas sejam muito cobiçadas. Apesar disso, a maioria das larvas e pupas ficam escondidas e precisam ser retiradas manualmente. Apesar de pequenas, formigas, abelhas e vespas formam colônias com uma grande biomassa total, o que as torna um alvo interessante de consumo. As pupas de abelha consumidas são ricas em gordura e proteínas e, além de serem coletados para consumo, também são procurados pelos seus produtos, como é o caso do mel da abelha. Contudo, colmeias são de difícil acesso, seja por estarem em locais muito altos ou em fendas e buracos muito estreitos, e esses insetos possuem muitos mecanismos de defesa, como mordidas e picadas venenosas. Cupins oferecem duas grandes vantagens: são insetos sedentários e apresentam a maior biomassa coletiva conhecida entre os insetos. Vivem todos juntos em cupinzeiros, e não são alados nem venenosos. Apesar disso, acessar seus duros cupinzeiros é trabalhoso, e primatas geralmente dependem de algum tipo de tecnologia para acessá-los. No caso das formas aladas, que voam em massa durante a época de acasalamento, elas são mais fáceis de se coletar, sendo referidas como “armazéns voadores de gordura”. Borboletas e mariposas têm larvas (lagartas) sociais, que podem ser encontradas em grupo se alimentando em plantas, tornando-as alvo fácil. Contudo, muitas espécies são aposemáticas (apresentam cores que informam seus predadores que elas não são comida, seja por serem impalatáveis - com gosto ruim -, tóxicas ou venenosas), impalatáveis, tóxicas e/ou venenosas, e não são comestíveis. As lagartas de cada espécie costumam estar disponíveis por apenas alguns dias, sendo um recurso sazonal. Gafanhotos e grilos consumidos costumam se locomover em grupos, com dezenas a centenas de milhares de indivíduos. Quando surgem, são fáceis de serem coletados e consumidos aos montes.
Pensando no consumo inadvertido de insetos, que é o consumo não intencional de insetos, todos os primatas atuais comem insetos, inclusive humanos, como em barras de chocolates ou no caldo de cana.
A maior diferença entre a insetivoria praticada por humanos e por outras espécies é o uso de tecnologia, seja para capturar os insetos, seja para domesticá-los, como a domesticação do bicho-da-seda. Dentre as tecnologias, estão o uso de fogo, contêineres e domesticação. Humanos fabricam contêineres, como bolsas e sacolas, dos materiais mais variados, como madeira e tecidos, que são usados para guardar, transportar, pulverizar, misturar, secar, umedecer, fermentar etc. insetos. Além disso, usamos o fogo e a fumaça para afastar, direcionar, concentrar, e preparar grupos de insetos.
Por que comer insetos? As três maiores razões para comer insetos no mundo moderno são: saúde, ambiente e contexto sócio-econômico-cultural.
Saúde: insetos são uma alternativa saudável para carnes de mamíferos (como gado), aves (como galinha) e peixes (como atum). De modo geral, eles são ricos em proteínas, gorduras e minerais, como cálcio, ferro e zinco. Ambiente: comparados com a pecuária, insetos produzem bem menos amônia e gases causadores do efeito estufa; por exemplo, enquanto que gado produz dezenas de toneladas de gás metano por dia, apenas os cupins e as baratas produzem metano, os demais insetos não. Além disso, a criação de insetos não demanda o desmatamento para a criação de áreas para viverem (como o gado demanda). Por fim, por serem animais de sangue frio (ectotérmicos), insetos convertem comida em proteína muito mais eficientemente; por exemplo, grilos precisam de 12 vezes menos comida do que o gado para produzir a mesma quantidade de proteína. Por fim, insetos podem ser alimentados com resíduos que, de outra maneira, não seriam aproveitados. Contexto sócio-econômico-cultural: A insetivoria já é uma forma de alimentação presente da dieta de dezenas de comunidades em todo o mundo. A criação ou forrageio (busca por alimento) de insetos pode usar tecnologias bastante sofisticadas para a criação em massa, mas também permite o uso de tecnologias simples e baratas, permitindo que setores mais pobres da comunidade possam tanto criar ou procurar insetos para sua subsistência, como também que façam pequenas criações para a venda.
Vantagens e desvantagens Carne é a forma mais comum de tecidos moles em mamíferos médios e grandes. Apesar de fornecer valores nutricionais e calóricos, obter esse recurso através da caça (seja atualmente, seja no passado dos hominínios) oferece desafios físicos e cognitivos. Um mamífero precisa ser detectado, observado, perseguido, subjulgado e então abatido para que se obtenha sua carne. Isso demanda tempo, recursos (como armas brancas) e trabalho individual ou em grupo, além de oferecer riscos, como acidentes e morte. Uma vez abatido, o recurso (no caso, a carne), que é perecível, precisa ser rapidamente consumido ou preparado para se manter consumível por um período de tempo prolongado; do contrário, decompositores vai consumir o recurso primeiro (como fungos e bactérias), e ele vai se tornar impróprio para o consumo humano. Assim, o consumo de carne oferece benefícios, mas também diversos desafios na sua obtenção e manutenção.
Insetos são muito menores que mamíferos ou qualquer outro vertebrado (peixes, anfíbios, répteis, mamíferos e aves). Contudo, eles são menos perigosos de se obter e existem em abundância, oferecendo pouco ou nenhum risco na sua coleta por humanos, além de possuírem valores nutricionais e energéticos comparáveis com os da carne. Isso os torna uma fonte alternativa de alimento.
Humanos se alimentam principalmente de 4 filos animais: moluscos (como polvo, lula, mexilhões e ostras, e Scargot), artrópodes (como aracnídeos, “crustáceos” e insetos), anelídeos (como os poliquetas) e cnidários (como as água-vivas), sendo moluscos e artrópodes os dominantes na nossa dieta. Dentre os artrópodes consumidos por humanos, a classe de preferência é a Pancrustacea, que inclui os “crustáceos” e os insetos. Apesar de fazermos uma distinção clara entre crustáceos e insetos na cultura popular, centenas de estudos científicos fazendo análises morfológicas (analisando a anatomia do corpo) e moleculares (também chamados de genéticas, analisando os genes) comprovaram que os insetos são um grupo dentro de Crustacea. Assim, biologicamente, insetos são um tipo específico de crustáceos. Apesar disso, na comunicação do dia-a-dia, insetos e crustáceos são referidos como sendo animais diferentes, e esta página vai se referir a eles usando essa linguagem popular.
Alimentar-se de insetos é vantajoso, pois eles apresentam uma grande diversidade. Existem mais de um milhão de espécies conhecidas de insetos, e muitas mais para serem descobertas e descritas. Só de besouros são 600 mil espécies. Por serem tão diversos e possuírem várias fases de vida (que variam conforme forem hemimetábolos ou holometábolos), eles ocupam a maioria dos habitats terrestres, principalmente nas regiões tropicais e sub-tropicais, o que os torna de fácil acesso a humanos.