O Políptico da Matriz de Santa Cruz (Madeira) é um conjunto de seis pinturas a óleo sobre madeira de carvalho pintadas na primeira metade do século XVI por pintor português de que se desconhece a identidade e que se destinaram à decoração da Igreja Matriz de Santa Cruz, na Ilha da Madeira, fazendo parte provavelmente do desmembrado Retábulo do Altar-mor, onde ainda permanecem.

O Políptico da Matriz de Santa Cruz é constituído pelas pinturas Anunciação, Adoração dos Pastores, Adoração dos Magos, Calvário, Lamentação e Ressurreição. Os painéis têm todos 161 cm de altura e 95 cm de largura e foram deslocados para as paredes laterais da capela-mor após ter sido apeado e desmembrado o retábulo, o que deve ter acontecido em 1686, ano em que se procedeu a importantes melhoramentos na Igreja. Considerando as dimensões do altar e as proporções das peças, as pinturas provavelmente estariam dispostas em duas fiadas horizontais, uma relativa à infância de Cristo e a outra à sua Paixão, e integradas em molduras de talha dourada similares às da Matriz da Ponta do Sol. As peças centrais seriam a Natividade e a Ressurreição, temas centrais e condizentes com a invocação ao Salvador da Igreja de Santa Cruz.Isabel Santa Clara, Das Coisas visíveis às invisíveis, contributos para o estudo da Pintura Maneirista na Ilha da Madeira (1540-1620), Vol. I e II, Tese de Doutoramento em História da Arte da Época Moderna, Universidade da Madeira, 2004,

Para Isabel Santa Clara, as pinturas do Políptico inserem-se no contexto de uma produção na primeira metade do século XVI que começa a aderir à maneira italiana na depuração da composição, na volumetria dos corpos, na estrutura e formulário decorativo das arquitecturas e ourivesarias, sendo obras de bom Artista, ou talvez mais propriamente de bons Artistas.

Descrição Anunciação

A cena desenrola-se num espaço interior com um pórtico que dá acesso a outro interior. Em primeiro plano o anjo que veste uma túnica rosada e um manto verde pendente do ombro esquerdo está ajoelhado perante a Virgem Maria apontando para o alto com o braço direito onde paira a pomba do Espírito Santo e com o esquerdo segurando um ceptro de ouro. Maria está também ajoelhada usando um vestido azul claro sobre camisa de mangas roxas e amplo manto azul escuro e apoiando o braço esquerdo numa mesinha onde está aberto um livro de orações, numa atitude de humilde aceitação do encargo divino traduzida pela inclinação da cabeça e pelos gestos das mãos.

Entre o Anjo e Maria está um vaso com açucenas com a forma de ânfora de bojo com relevos e asa em forma de serpente que prende com a boca um objecto esférico. O contraste entre este motivo e as açucenas corresponde na iconografia deste tema ao triunfo da "nova Eva" sobre o mal. Também a cortina que separa os dois aposentos, com uma rica cercadura de pássaros, folhagens e frutos parece repetir a representação do triunfo do bem sobre o mal, vendo-se dois ignudi que seguram uma cartela que permite a visão de uma figura angustiada. Esta cortina estando parcialmente levantada permite ver o outro aposento com um leito de colunas e dossel, uma porta fechada e uma janela que se adivinha pela entrada de luz do lado direito. O pórtico de onde pende a cortina é encimada por uma travessa em forma de concha tendo ao centro um busto humano envolto numa cartela. Como um "quadro dentro do quadro", este rectângulo emoldura a cabeça da Virgem sendo uma das zonas mais luminosas da pintura.

O padrão do tapete aproxima-se dos pintados pelos principais Mestres da época sem no entanto os copiar. No tapete e na cortina estão os desenhos de tecidos mais elaborados, em contraste com a simplicidade das vestes das duas figuras. As zonas de luz mais intensa são a do Espírito Santo e o aposento desvendado em segundo plano, o rosto, as mãos e o livro aberto de Maria, o arcanjo Gabriel e a coluna de mármore como que a ligar a terra ao céu.

Cayolla Zagallo destacou a Anunciação como o quadro deste conjunto em que «as novas sugestões de Itália têm talvez mais forte influência» e vê nele «acentuado preciosismo e maneirismo».M. A. Cayola Zagallo, «Algumas palavras sobre o património artístico da Ilha da Madeira», Arquivo Histórico da Madeira, vol. VI, 1939, pp. 25, 26 Para Isabel Santa Clara, o destaque dado por Zagallo a este quadro deriva de ser aquele em que é mais evidente a expressão do novo gosto renascentista, bastante requintado, tanto na arquitectura como no mobiliário e nos objectos, e que as vestes são leves, de pregas miúdas e sinuosas acentuando a graciosidade das figuras.

Adoração dos Pastores

A Virgem Maria ocupa o centro da cena amparando com serenidade e delicadeza o Menino Jesus, no que é acompanhada por um dos três anjos presentes. No lado esquerdo estão os três pastores acompanhados de um cão em primeiro plano. O pastor mais próximo está ajoelhado segurando uma gaita de foles, instrumento de música comum na iconografia pastoril europeia, cujo saco é composto de pequenos recortes rectangulares, para além do qual estão os dois outros pastores ainda de pé. S. José está de pé atrás da Virgem amparado a um cajado e envolto num amplo manto vermelho e enquadrado num arco ainda completo que permite a visão da claridade suave da paisagem em fundo, num processo de lhe destacar a figura como o utilizado para a Virgem Maria no painel da Anunciação.

O pastor mais afastado olha para o exterior e não para o Menino Jesus, atitude que permite deduzir que se trata de um auto-retrato, até pelos traços fisionómicos, menos rudes do que os dos companheiros.

As atenções convergem para o Menino Jesus, estando as figuras agrupadas em trios - a Sagrada Família, três anjos, três pastores e até três animais, tendo as linhas oblíquas um papel determinante na composição, em contraste com a verticalidade da coluna. As linhas das lajes, por sua vez, apontam para um ponto de fuga alto e lateral quase fora da cena.

Tal como na Anunciação, a arquitectura em ruínas é clássica ocupando uma área considerável da pintura. A coluna iluminada está incólume apresentando na parte inferior um baixo relevo com grotescos que rodeiam uma figura feminina. À esquerda da coluna abre-se um arco, encimado por uma cartela com um cavalo rampante, a indicar provavelmente o lugar do estábulo, por baixo do qual, na penumbra, estão o burro e a vaca.

Adoração dos Magos

No lado esquerdo, a Virgem Maria ampara e apresenta o Menino Jesus. Usando um manto azul escuro sobre um amplo vestido roxo escuro, Maria tem uma expressão rafaelesca levemente melancólica, como nas outras pinturas desta série dedicados à infância de Cristo. A pilastra, em segundo plano, estabelece a separação entre Maria e Jesus e as restantes figuras, tendo no nicho uma estátua, provavelmente do profeta Isaías.

O mago Belchior, em primeiro plano, está ajoelhado de mãos postas em adoração ao Menino com um manto vermelho sobre pelote bordado a ouro e pedras preciosas vendo-se uma bota também bordada a ouro. Já depôs no chão, em sinal de humildade, a sua coroa real e o cofre do ouro, ambas belas peças de ourivesaria, sendo o cofre decorado com figuras incrustadas. Baltasar, de elmo pontiagudo rodeado de turbante que lhe dá o adequado carácter exótico, com brinco de ouro e pérola na orelha, veste capa azul sobre sobre gibão de couro que assenta em túnica de damasco de orla bordada a pedrarias e manga com motivos de folhagens e figuras híbridas, motivos que decoram também o punho da espada e o fecho da corrente que a prende. A taça da mirra que segura distingue-se pelo vulto de três figuras da tampa. Gaspar está de pé, no centro da pintura, voltando-se numa acentuada torção para Baltasar e segurando a taça de incenso decorada com folhagens e rodeado na parte central de pérolas e camafeus.

Verifica-se de novo a ligação entre a figura de Maria e a coluna iluminada por detrás dela, decorada com grotescos. Entre os dois Magos de pé visiona-se em fundo a arquitectura em ruínas repetida da Adoração dos Pastores, mas mais distante de modo a permitir a numerosa comitiva dos Magos sobre a qual se destacam onze cabos de lança.

Para Isabel Santa Clara, os Magos são representados primorosamente e, de todo o conjunto, esta é a pintura que mais minúcia apresenta nos pormenores arquitectónicos, de armaria, de ourivesaria e de vestuário. Mais uma vez nela domina a unidade perspéctica, mas em que coexiste o diálogo entre a verticalidade do motivo principal e uma variedade de direcções e atitudes nas restantes figuras. A colocação das figuras aproxima-se da utilizada na Capela de S. Bartolomeu da Sé de Lisboa, mas esta pintura de Santa Cruz é mais desenvolta e italianizante.

Calvário

A figura de Cristo crucificado domina a cena revelando uma expressão de intenso sofrimento. No lado esquerdo estão a Virgem Maria e S. João unidos numa dor contida olhando para Cristo. No lado oposto, e num plano mais recuado, parecendo alheados da cena principal, estão três soldados que se afastam, um deles de costas e outro apontando o céu escurecido. No chão do lado direito, em primeiro plano, está bem evidenciada uma caveira, que se refere à toponímia do lugar. A parte inferior da cruz não está desbastada conservando a forma original de árvore, numa possível alusão à Árvore da Ciência. A iluminação, na sua alternância de luzes e sombras, é particularmente cuidada no modo como evidencia os edifícios monumentais em fundo, enquanto o céu apresenta um negrume ameaçador.

Segundo Isabel Santa Clara, a configuração da cruz e a sua colocação ao centro e paralela ao plano do quadro e a colocação de dois soldados de frente e um de costas separados do primeiro plano por uma elevação de terreno repete o Calvário do Tríptico do Bom Jesus de Valverde de Gregório Lopes. Por sua vez, o destaque dado à caveira é comum nas gravuras de Dürer e na pintura flamenga da época, mas não nas pinturas conhecidas de Gregório Lopes.

Ainda para Isabel Santa Clara, o Pintor optou por reduzir a narrativa ao essencial afastando-se da dispersão das composições tardo-medievais de raiz nórdica. Trata-se de uma pintura despojada, em que as figuras têm amplos espaços em seu redor, podendo sentir-se as tensões entre elas e onde os vazios ganham uma presença tão forte como os cheios.

Lamentação

O corpo de Cristo morto assente sobre os joelhos da Virgem e amparado no torso e cabeça por S. João ocupa o primeiro plano da imagem. Madalena, ao lado de Maria, envolta num manto rosa destaca-se em primeiro plano do lado direito, com rosto ovalado e suave, segurando delicadamente a mão de Cristo, enquanto a outra mão aberta lembra ainda os gestos mais veementes do final da Idade Média.

Completam a cena, José de Arimateia, de pé, à esquerda, e duas Santas Mulheres, uma junto a Maria amparando-a e outra mais atrás de pé numa postura de Stabat Mater. O frasco de perfumes de Madalena é sumariamente descrito, longe do requinte das peças da Adoração dos Magos. Em fundo repete-se a disposição dos edifícios, do colorido e da luminosidade do Calvário, sendo agora dada maior destaque às linhas oblíquas, tanto no posicionamento da cruz, na qual podemos ver a inscrição, como no agrupar das figuras.

Para Isabel Santa Clara, sendo um tema comum no reverso dos painéis dos retábulos das Misericórdias dedicados à Virgem da Piedade, esta Lamentação lembra a da Igreja do Carmo em Moura, de cerca de 1540-50, pelo destaque das figuras e da sua distribuição, mas sem os convencionalismos de desenho cria uma forte dramatismo com a cruz vazia e a utilização de zonas de penumbra densa.

Ressurreição

A figura de Cristo ressuscitado semi-coberto por um manto vermelho e segurando a cruz da vitória sobre a morte domina o centro da pintura. A cruz empunhada por Cristo é feita, na base, de cristal de rocha, material que se deixa atravessar pela luz, e, no topo, de ouro incrustado de pedras preciosas, dela pendendo um estandarte bipartido que esvoaça.