António Serrão de Castro (ou António Serrão de Crasto) (Lisboa, 1610 ou 1614 - Lisboa, 1683 ou 1685) foi um poeta cristão-novo português. Nasceu e morreu em Lisboa, contudo, não há certezas quanto ao ano de nascimento, havendo dados referentes a 1610 e 1614,'Carta a Francisco de Mezas', Transcrição do manuscrito, Códice 6031, Biblioteca Nacional de Portugal nem quanto ao de falecimento (1685 ou 1683 ).

Foi preso pela Inquisição em 1672, permanecendo encarcerado até 1682. Em 1684 foi recolhido ao Hospital Real onde aí faleceu. .

Foi membro da Academia dos Singulares de Lisboa, havendo um grande número de poemas seus nos dois volumes que reúnem os trabalhos dessa agremiação. .

No entanto, a principal obra de António Serrão de Castro é o poema satírico “Os Ratos da Inquisição”, escrito durante os anos em que esteve preso e que viria a ser publicado e prefaciado em 1883 por Camilo Castelo Branco. .

Biografia A vida em família Filho de Pedro e Ana Serrão, tinha 6 irmãos – Fernão, Estêvão Rodrigues, Inês Duarte, Paula (apenas esta irmã e António adotaram da avó materna o apelido “de Castro”, todos os outros tinham “Serrão” como seu último nome), e Francisca Serrão. O núcleo familiar ficou reduzido, desde 1642, a apenas 4 filhos: Inês, Paula, António e Francisca. Viveu com a família na baixa de Lisboa na rua dos Escudeiros – uma das mais importantes, caraterizada por uma grande circulação de mercadores e onde moravam os mais abastados cristãos-novos – onde a família, pertencente à pequena e média burguesia, mantinha uma botica.

Quando o pai morreu, António era ainda jovem e, por isso, a botica passou primeiramente para os seus irmãos mais velhos.

Enquanto os seus irmãos trabalhavam na botica, António Serrão de Castro frequentava colégios religiosos onde aprendia gramática, latim, filosofia e humanidades. Desde os primeiros anos da juventude demonstrava aptidão para a poesia. Os primeiros textos da sua autoria circulavam pela cidade sob a forma de folhetins manuscritos nos quais, geralmente, usava pseudónimos como Manuel de Alfama ou Francisco Ralé. Era dotado de um humor jovial e festivo (não perdendo, assim, oportunidade de fazer uso de tais qualidades poéticas para “se fazer gracioso” às donzelas que pretendia conquistar no bairro de Alfama).

Casou-se tarde, com mais de 30 anos, com uma prima, Francisca Serrão, com quem teve 6 filhos: Luís Serrão que nasceu em 1649, Pedro Serrão que nasceu em 1652, Teresa Maria de Jesus nascida 2 anos depois, Duarte Serrão nascido a 1655 e Duarte de Castro e Ana, que faleceram com 4 e 2 anos, respetivamente. Nessa altura tinha já herdado a chefia da botica, através da qual conseguia bom lucro (o seu avô materno tinha sido cirurgião e uma das irmãs, Francisca Serrão, era casada com um médico, o que conferia à loja renome e prestígio), condição que lhe permitiu pagar o curso de medicina em Coimbra do filho Luís e o curso de teologia de Pedro no prestigiado Colégio de Congregação do Oratório em Lisboa.

Por toda a cidade, as boticas eram locais de grande convivência. Para além dos utensílios necessários à produção e venda dos medicamentos, António Serrão de Castro tinha por hábito colocar cadeiras perto do balcão e fazia da sua loja um local de convívio com os clientes que a frequentavam – com o seu “espírito jovial e folgazão”, era conhecido pelos seus “ditos espirituosos”.

De facto, a loja tornava-se palco de grandes e longas sessões de conversa, marcadas pelo tom cáustico e mordaz de Serrão Castro, com os mais assíduos clientes – como era o caso do ourives Jorge Ribeiro, o irmão Pedro Ribeiro e o corretor de câmbios João da Costa Cáceres (todos membros de família cristã-novas, vizinhas dos Serrão de Castro). Pedro Ribeiro foi durante algum tempo empresário da Casa das Comédias no Pátio das Arcas, onde eram representadas diversas peças teatrais, maioritariamente espanholas. Não foi, todavia, sempre feliz na escolha dos atores, “comediantes”, como então lhe chamavam, e numa ocasião em que trouxe de Espanha uma companhia menos prestigiosa, foi vítima de críticas de Serrão de Castro que, sendo assíduo frequentador das peças, contra ele chegou a publicar uns versos de troça. Isto foi o suficiente para se ter criado, de imediato, um clima hostil entre eles (mais tarde, quando são presos e interrogados pela Inquisição, alguns familiares de Pedro Ribeiro citam primeiramente António Serrão de Castro nas suas denúncias).

Assim, os anos sucediam-se com relativa estabilidade para o poeta. No entanto, é de destacar que foram anos tumultuosos da História de Portugal: a dominação espanhola, o regresso da monarquia pela ascensão do duque de Bragança como D. João IV (1640), soberano do reino português; guerras contra Espanha pela garantia da soberania de Portugal; a coroação de Afonso VI (1662); as intrigas palacianas e o afastamento do rei com a tomada do poder pelo irmão D. Pedro (1668) que ficou também com a sua esposa D. Maria de Saboia; a presença ameaçadora do Tribunal da Inquisição – estes foram episódios vivenciados pelo poeta e contados nos seus versos nas comemorações públicas das academias de letras.

Academia dos Singulares de Lisboa thumb|upright=1.0|esquerda|Frontispício das "Academias dos Singulares de Lisboa. Dedicadas a Apollo" onde estão compilados várias obras de António Serrão de Castro.

Consta que esta academia de letras foi iniciada a 1628 (1ª Academia dos Singulares) e mais tarde renovada em outubro de 1663, tendo atividade até 1664 correspondendo, assim, à 2ªAcademia dos Singulares. Sabe-se, ainda, que houve uma 3ªAcademia dos Singulares de outubro de 1664 a 19 de fevereiro de 1665 e que existiu uma reunião em 1670.

As sessões académicas sucediam-se com frequência e António Serrão de Castro teve uma atuação de destaque tanto por ter chegado a presidi-las (a 27 de janeiro e a 30 de novembro de 1664 como por se ter, nestes encontros intelectuais, consagrado entre os seus pares e ter versos seus impressos e publicados em 2 volumes (onde constam 2 orações, 20 sonetos, 37 romances, 12 glosas e 2 poemas em décimas) que se destinavam a divulgar os trabalhos académicos. Os anos que precedem a sua prisão (e a partir da 2ª Academia dos Singulares), são os que se caraterizam por uma maior atividade poética de Serrão de Castro.

Todas as sessões começavam com um discurso do presidente, depois eram lidos alguns versos em louvor deste e, por último, eram recitados poemas acerca do tema da conferência. João Pereira da Silva, aquando de uma sessão em que António Serrão de Castro foi presidente, recita:

“A todos elles no meio, Por cima levaes o collo, E pareceis qual parece, O cysne entre patos novos”

A Academia, como era costume na época, tinha nas suas sessões discussões sobre os principais aspetos da vida social e cultural mas continha, também, espaço para o riso, a descontração, a poesia “casual”, o quotidiano (sendo os seus escritos caraterizados pelo estilo “pomposo e rebuscado” e pelo gosto pelo exagero e o uso de metáforas). Muitos dos críticos que a desqualificaram focaram-se apenas na análise deste último aspeto da produção literária.

Entre as grandes contribuições dos Singulares, e nelas destacou-se a atuação de António Serrão de Castro, está a produção de écfrases e poesias icónicas.

Em todo o conjunto de poesia publicado pelos Singulares encontramos uma evidente crítica aos costumes da sociedade portuguesa e às variadas instituições. No caso de António Serrão de Castro, o poeta criticou as crendices populares e demonstrou a sua incredulidade em relação a certos ensinamentos da Igreja.

Por volta de 1670, os textos que iam sendo reunidos para futura publicação acabaram por não o ser naquela altura (como havia acontecido com o texto dos dois volumes anteriores) porque a intensificação da ação da Inquisição estava a ter como repercussão a prisão de muitos cristãos-novos membros da Academia (a maioria dos académicos era, de facto, de origem cristã-nova), fator que desestimulou a divulgação dos trabalhos na época. Poucos anos mais tarde, muitas pessoas pertencentes a famílias cristãs novas abastadas começaram também a ser presas, como é referido em “História dos Cristãos Novos Portugueses “Subitamente, em Julho [de 1672], foram presos alguns opulentos contratadores: os Mogadouros, pais, filho e restante família; três irmãos Chaves; os Pestanas, que eram onze pessoas ao todo, nove famílias da gente abastada. Atingida naqueles que, até certo ponto, se julgavam imunes, a grei perseguida agitou-se, concentrou forças”. (João Lúcio Azevedo, 1975, pág.294)

Hoje, com a vasta revisão crítica sobre o período Barroco, grande parte das poesias dos Singulares constitui um documento histórico precioso sobre a intensa vida cultural de Lisboa no séc. XVII.

O poema abaixo transcrito refere-se a uma determinada conferência, cujo tema para escrita era o desejo que uma senhora havia manifestado de ouvir os poemas dos Singulares, tendo António Serrão de Castro escrito:

“Se cá vieres, souberasMuito galantes cantigas, E, cantando-as á guitarra,A todos trela darias.

Viras Helena e mais ParisFeitos nones na fugida, E viras Pyramo e ThysbeFeitos sardinhas d’ espicha.

Hippomenes e AtalantaTambem cá os acharias Não por amantes de assento,Mas amantes de corrida.

Outras viras desmaiadaPor causa de uma sangria, Sendo que em sangrar as bolças Sempre foi muito perita.

Viras Hero e mais Leandro,Ambos com grande fadiga, Elle, afogado em negócios,Ella quebrar por ser fina.”

A Inquisição A denúncia à Inquisição Os anos sucederam-se com relativo sucesso até ao dia 17 de junho de 1671 (teria cerca de 61 anos) quando foi denunciado pela primeira vez por um cristão-novo, Fernão Peres Coronel (que havia sido preso pela Inquisição em 1666 como judaizante) e, um ano mais tarde, por Jorge Ribeiro (a 24 de maio de 1672) – tendo sido principalmente estas duas denúncias a causa da determinação da ordem de prisão de António Serrão de Castro. Seguem-se outras denúncias de pessoas presas nesse mesmo mês, entre elas as de vários membros da Academia dos Singulares, as de membros da família Ribeiro, a de João da Costa Cáceres (a 17 de junho de 1671, após ter sido sujeitado a tortura) e restantes elementos da família Pestana. A simples condição de cristão-novo já há muito colocava Serrão de Castro sob suspeita de práticas judaicas e, para além disso, o facto de exercer a profissão de boticário, proibida pela legislação aos cristãos-novos, constituía um acrescido fator que o colocava em perigo. A ordem de prisão demorou cerca de um ano, tendo sido, oficialmente, preso a 24 de maio de 1672, mas incluiu grande parte dos vizinhos da família Serrão de Castro assim como frequentadores da sua botica, que foi apontada como um “perigoso foco de cristãos-novos.” Preso o poeta, acusado de práticas judaicas, confiscaram-lhe os bens, fecharam a botica e toda a família dispersou, tendo muitos procurado refúgio junto de amigos da família. Observando os processos da Inquisição relativos a estas famílias cristãs-novas, observa-se que a 21 de maio de 1672 terminam os procedimentos contra os Pestana; dias depois, é preso António Serrão de Castro e só um ano mais tarde (entre julho e dezembro de 1673) é iniciada uma “perseguição maciça dos Castro” em que o Santo Ofício prende todos os familiares mais próximos do poeta: os filhos, as irmãs e os sobrinhos, sendo certo que para essa detenção contribuíram os muitos depoimentos da família Pestana. Por outro lado, a denúncia de Fernão Peres Coronel acabou também, de certa forma, por comprometer seriamente a Academia dos Singulares pois resultou na prisão de alguns dos seus mais importantes membros (Pedro Duarte Ferrão, Luís de Bulhão, João da Costa Cáceres e Jerónimo de Faria).

Os interrogatórios