The Clock é uma instalação de arte do videoartista suíço-americano Christian Marclay. Trata-se de um filme de 24 horas exibido em looping, sendo composto por montagens de cenas de filmes e programas de televisão que mostram relógios ou referências a horários. A própria obra de arte funciona como relógio: sua apresentação é sincronizada com o tempo real e, consequentemente, os horários exibidos são equivalentes aos verdadeiros.
Marclay desenvolveu o conceito de The Clock enquanto trabalhava com a obra Screen Play, de 2005. Com apoio da galeria White Cube, de Londres, ele reuniu um grupo para encontrar o material de vídeo, que foi editado por três anos. A obra foi elogiada pela crítica, vencendo o Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2011. As seis edições do filme foram adquiridas por grandes instituições, permitindo que o trabalho fosse visto por um vasto público.
Conteúdo miniaturadaimagem|O clímax do filme The Stranger, de Orson Welles, aparece à meia-noite. Após a meia-noite, as personagens vão a bares e bebem. Alguns buscam momentos íntimos; outros ficam irritados ao serem acordados pelo telefone. Durante a madrugada, as personagens estão, em geral, sozinhas ou dormindo. Entre as três e as cinco horas da madrugada, ocorrem várias sequências oníricas. Por volta das sete da manhã, as personagens são mostradas acordando. Das nove ao meio-dia, comem café-da-manhã e fazem sexo matinal. Com a tarde chegando, uma sequência de cenas de ação é exibida, terminando com o badalar dos sinos de High Noon. À tarde, o andamento do vídeo desacelera rapidamente.
Entre as quatro e cinco da tarde, dá-se importância ao transporte, com personagens viajando em aviões, trens e automóveis. Às seis, pessoas jantam e tiroteios ocorrem. À noite, vão a festas. Por volta das vinte horas, começam as apresentações de orquestras e peças teatrais. À proporção que se aproxima a meia-noite, as personagens vão se agitando, tendo ataques de cólera e pedindo que execuções sejam suspensas. Violinos gritantes vão intensificando o momento. À meia-noite, exibe-se o empalamento de Orson Welles em uma torre de relógio, ao fim de The Stranger; o Big Ben, que aparece neste filme, explode em V for Vendetta.
Produção
Concepção The Clock foi concebido em 2005, enquanto Marclay trabalhava na obra Screen Play. Ele notou que precisava de uma maneira com a qual os músicos ficariam sincronizados com o vídeo. Um assistente no Centro de Arte e Tecnologia Eyebeam trouxe-lhe cenas de relógios, e Marclay começou a imaginar se era possível encontrar cenas de cada minuto do dia.Toop, David (outubro de 2011). "Painting in Slang". The Wire (332): 41–95. Ele guardou a ideia em segredo por vários anos, temendo que o conceito fosse roubado. Em 2007, após sua parceira Lydia Yee aceitar um cargo no Barbican Centre, Marclay se mudou de Nova York para Londres. Lá, propôs o filme à galeria White Cube, incerto da viabilidade do projeto. Ele obteve um orçamento de mais de 100 mil dólares, fornecido em parte pela Paula Cooper Gallery.
Desenvolvimento miniaturadaimagem|Nem todas as cenas da obra mostram um relógio. Nesta, de Night of the Living Dead, o horário é mencionado verbalmente.|esquerda Planejou-se que os primeiros meses de trabalho serviriam para provar que Marclay poderia encontrar material suficiente para alcançar seu objetivo. A White Cube o ajudou a reunir um time de seis pessoas que assistiriam a DVDs e copiariam cenas com relógios ou menções de tempo. Por vezes, o próprio Marclay não conhecia as obras de fonte. Foram usados programas da Google para gravar e procurar clipes. Com o aumento do material de vídeo, Marclay pôde começar a trabalhar nas transições entre cenas. Usando o programa Final Cut Pro, ele uniu clipes, padronizou os formatos de vídeo e suavizou o áudio. Ele citou as "transições bizarras" do artista Bruce Conner como influências em sua edição. Marclay desejava incluir mais cenas estranhas e melodramáticas, mas ficou preocupado com o possível cansaço gerado após muito tempo de exibição. Por isto, focou em momentos incidentais; Paul Anton Smith, seu assistente-chefe, explicou que Marclay queria mostrar cenas que fossem "banais e simples, mas visualmente interessantes". Um assistente que focou muito em cenas violentas foi demitido, e os que sobraram começaram a se especializar em gêneros particulares.
Após seis meses, Marclay mostrou à White Cube várias sequências estendidas, confiante de que, afinal, seria capaz de finalizar o projeto. Os vídeos começaram a ocupar muito espaço, então foram usados dois Power Mac G5, com as cenas dividias de acordo com o momento do dia. Marclay organizou os arquivos em relação às horas, que se tornaram espécies de capítulos para ele. A cada pasta de horário era proposto um tema, permitindo a formação de narrativas distintas. Ele passou três anos editando e unindo as cenas. Parte do material não utilizado em The Clock acabou fazendo parte da obra performática Everyday, de 2012.
Em 2010, Marclay contratou Quentin Chiappetta, engenheiro de som com que trabalhara antes, para colaborar no áudio de The Clock. Ele enviou diversos arquivos em disco para Chiappetta, que equalizaria a trilha sonora do filme. Devido à sua experiência como DJ, Marclay não queria utilizar fades simples entre as cenas. Ele foi ao MediaNoise, estúdio de Chiappetta em Williamsburg, Brooklyn, onde os dois trabalharam na trilha sonora usando Pro Tools. Em alguns casos, foram criados novos áudios para as cenas. Durante a primeira semana de exibição de The Clock, Marclay continuou a consertar erros de continuidade e a trabalhar no áudio. O produto final usava cerca de 12 mil clipes. Devido ao tamanho do filme, Marclay pediu que o professor Mick Grierson criasse um programa que executasse faixas de áudio e de vídeo separadamente, sincronizadas com o tempo real. O programa continua funcionando enquanto o local de exibição está fechado, de modo a manter a sincronia.
Lançamento Marclay fez seis edições de The Clock, além de duas provas de artista. Cinco cópias foram destinadas à venda por 467.500 dólares cada, e a última foi vendida ao investidor Steven A. Cohen por um valor não revelado.Balsom, Erika (setembro de 2013). "Around The Clock: Museum and Market". Framework: The Journal of Cinema and Media. Wayne State University Press. 54 (2): 177–91. Com um dia de projeção de The Clock, a White Club recebeu diversas ofertas de museus, alguns adquirindo cópias em conjunto. A venda foi uma das maiores da videoarte e de todo o mercado primário de arte. A edição cuja posse é dos colecionadores Jill e Peter Kraus, de Nova York, é um presente prometido ao Museu de Arte Moderna de Nova York. Em 2011, Steve Tisch empenhou o dinheiro necessário para comprar a obra para o Museu de Arte do Condado de Los Angeles. Um mês depois, a Galeria Nacional do Canadá e o Museu de Belas Artes de Boston anunciaram a aquisição de outra cópia. Em fevereiro de 2012, a união entre o Tate, de Londres, o Centro Pompidou, de Paris, e o Museu de Israel, de Jerusalém, comprou mais uma edição da obra.
Exibição Marclay originalmente pensou em fazer de The Clock uma obra de arte pública. Entretanto, dificuldades com luz e som tornaram a ideia impraticável. Marclay deu aos museus especificações para as salas de exibição. Ele queria que o vídeo fosse projetado sobre uma tela de de 6,4 m por 3,7 m, numa sala com sofás brancos da IKEA.Krauss, Rosalind E. (maio de 2011). "Clock Time". October. MIT Press (136): 213–7.Russell, Catherine (setembro de 2013). "Archival Cinephilia in The Clock". Framework: The Journal of Cinema and Media. Wayne State University Press. 54 (2): 243–58. A exibição da obra tornou-se uma fonte de conflito entre Marclay e alguns museus. The Art Newspaper relatou que o diretor do Museu de Arte do Condado de Los Angeles, Michael Govan, queria projetar o filme sobre o museu, embora este tenha negado que a obra seria exibida em ambiente externo.Burns, Charlotte (abril de 2011). "Coming soon? Movie montage for LA". The Art Newspaper. 20 (223): 1. Marclay não aprovou outras locações de exibição sugeridas pela Tate e pelo Museu de Belas Artes de Boston. Para assegurar que o filme completo seria exibido, ele exigiu que os museus concordassem em ficar abertos por 24 horas em algum momento da projeção.
The Clock estreou em 15 de outubro de 2010, na galeria da White Cube, no centro de Londres. Desde então, a obra atraiu milhares de visitantes e obteve sucesso para além dos mecenas de arte. A Galeria Paula Cooper o exibiu no início de 2011, atraindo 11,5 mil visitantes em um mês. Em 2012, o Lincoln Center o projetou para 18 mil pessoas em seis semanas. O MoMa promoveu amplamente sua exibição, com uma discoteca silenciosa, uma celebração de Ano Novo e uma conta no Twitter. A exibição, que durou um mês, atraiu 40 mil pessoas.
Direitos autorais Quando começou a fazer The Clock, Marclay esperava que os direitos autorais não seriam um obstáculo considerável, teorizando que "se você faz algo bom e interessante, e que não ridiculariza ninguém, nem é ofensivo, os criadores da arte original vão gostar [do resultado]." Ele não obteve liberações de direitos autorais para nenhum dos filmes utilizados e afirmou que, embora o uso fosse ilegal, "a maioria [das pessoas] o consideraria como fair use."Westwood, Matthew (17 de março de 2012). "Time lord Christian Marclay is one to watch at the MCA". The Australian. Devido ao status de direitos autorais do filme, ao invés de cobrar por bilhetes separados, os museus ofereceram a projeção como parte de sua exposição geral.
Recepção The Clock foi descrito como "viciante" e "hipnotizante". The Guardian o chamou de "uma obra-prima dos nossos tempos". Chris Petit elogiou sua "implacabilidade à beira da histeria, a direção antinarrativa", e o conceito simples, comentando que ele mesmo queria ter tido a ideia do filme.Sinclair, Iain; Petit, Chris (maio de 2011). "Time Pieces". Film Comment. Film Society of Lincoln Center. 47 (3): 50–7. Na New York Review of Books, Zadie Smith afirmou que The Clock "não é nem ruim nem bom, mas sublime, talvez o melhor filme que você já viu". A Newsweek classificou Marclay como um dos artistas mais importantes da atualidade. Ele foi incluído na Time 100 de 2012.
Na Bienal de Veneza de 2011, Marclay foi reconhecido como o melhor artista da exibição oficial, vencendo o Leão de Ouro por The Clock. Ao aceitar o prêmio, Marclay evocou Andy Warhol, agradecendo ao júri "por dar a The Clock seus quinze minutos". O filme também ganhou na categoria de "Melhor Edição" no Boston Society of Film Critics Awards de 2011.
Interpretações The Clock tem seu enredo construído principalmente através de tomadas de corte. Uma tomada que indica tempo é seguida por uma tomada de reação, mostrando a resposta emocional de uma personagem - usualmente, medo, ansiedade ou tédio. Chris Petit observou que o impacto de ações repetidas sem contexto "vem como algo incrivelmente bizarro". A sequência imerge a audiência no fluxo de The Clock, fazendo com que experienciem um efeito isoladamente hipnótico.
Marclay via The Clock como um memento mori. Diferentemente do escapismo oferecido pelo cinema comum, The Clock chama atenção para quanto tempo o público passa assistindo a um filme. Ao passar mais tempo com o filme, atores reaparecem em vários pontos de suas carreiras. Para explicitar mais este tema, Marclay incluiu símbolos de tempo e morte em tomadas de transição. Entre esses estão ocasos, flores murchas e cigarros acesos, sendo estes descritos como "o símbolo temporal do século XX", uma versão moderna das velas acesas. Marclay também utilizou cenas com toca-discos e discos de vinil, não só como uma representação da "captura do tempo, a tentativa de segurá-lo", mas também como uma autorreferência aos seus trabalhos anteriores que utilizaram vinil.
Relação com outras obras