A Real Fábrica de Louça do Rato, também conhecida como Real Fábrica do Rato ou Real Fábrica de Louças do Rato, foi uma fábrica portuguesa de cerâmica e faiança situada no Largo do Rato, em Lisboa, anexa à Real Fábrica das Sedas. Fundada em 1 de agosto de 1767, no contexto da política industrial pombalina, laborou até 1835 e é considerada uma das principais experiências portuguesas de modernização da produção cerâmica no século XVIII, substituindo progressivamente modelos artesanais de olaria por métodos fabris e por uma produção de maior ambição técnica e estética.
Criada por iniciativa de Sebastião José de Carvalho e Melo, então conde de Oeiras e futuro marquês de Pombal, a fábrica integrou o complexo da Real Fábrica das Sedas, no sítio do Rato, dando corpo, no domínio da cerâmica, ao programa de fomento das manufaturas desenvolvido no reinado de D. José I. A sua produção incluiu louça de mesa, serviços brasonados, talhas, jarras, esculturas decorativas, azulejos, estufas, braseiras, fontes de parede, peças de jardim, bustos régios e outros objetos de aparato ou uso doméstico.
História
Fundação e integração na Real Fábrica das Sedas A Real Fábrica de Louça foi fundada no Rato por ordem do marquês de Pombal, começando por estar anexa à Real Fábrica das Sedas. As condições do seu estabelecimento datam de 1 de agosto de 1767, tendo como primeiro mestre ou diretor o italiano Tomás Brunetto.esquerda|miniaturadaimagem|254x254px|Fachada da antiga Real Fábrica das Sedas, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa. A Real Fábrica de Louça do Rato funcionou como fábrica anexa ao complexo manufatureiro das Sedas.A criação da fábrica enquadra-se nas medidas de fomento industrial e comercial com que Carvalho e Melo procurou responder à crise económica que, a partir de 1760, afetou o país. Pretendia-se produzir objetos cerâmicos em faiança ao nível do que de melhor se fazia na Europa, evitando a importação de artigos estrangeiros e criando em Portugal um centro capaz de reunir saberes dispersos nas oficinas nacionais ou detidos por mestres estrangeiros. Na perspetiva do Estado, a Real Fábrica deveria também formar um corpo de profissionais aptos a transmitir conhecimentos tecnológicos e estéticos modernos a novas unidades produtivas que viessem a ser criadas, por iniciativa privada, noutras regiões do país.
A Real Fábrica de Louça surgiu num ciclo mais amplo de expansão da produção cerâmica portuguesa. Entre a fundação da Fábrica de Louça de Massarelos, no Porto, em 1763, e o início da atividade da Fábrica da Bica do Sapato, em Lisboa, em 1801, desenvolveram-se vários centros de fabrico, incluindo o Juncal, Viana, Miragaia, Cavaquinho, Santo António de Vale de Piedade, Estremoz e Coimbra, onde se destacou a atividade de Domingos Vandelli.
Direção de Tomás Brunetto Coube ao italiano Tomás Brunetto a primeira direção da Real Fábrica de Louça, entre 1767 e 1771. A sua ação tem sido interpretada sobretudo como a de um diretor artístico, responsável pela conceção de um programa de produção variado, complexo e inovador para o contexto da cerâmica portuguesa da época. No período de Brunetto, a produção caracterizou-se pela manufatura de grandes serviços de mesa, muitos deles brasonados, bem como talhas, jarras e esculturas decorativas, frequentemente policromas e de gosto Rococó.miniaturadaimagem|204x204px|Terrina em forma de cisne com as armas do marquês de Pombal, atribuída ao período de Tomás Brunetto, c. 1767–1771.A produção inicial inspirava-se tanto nas formas da porcelana da China como na faiança e na porcelana europeias, vulgarizando tipologias de peças de refeição já existentes em porcelana, mas teoricamente mais acessíveis ao público por serem fabricadas em faiança. Entre as novidades formais encontrava-se a chamada louça de fantasia, composta por peças em trompe-l'œil, em geral legumeiras e terrinas, seguindo modelos difundidos a partir da Fábrica de Estrasburgo e associados a Paul Antoine Hannong.
Prosseguindo uma relação tradicional entre ourivesaria e cerâmica, a produção de Tomás Brunetto apropriou-se também de formas oriundas da prata, incluindo modelos divulgados em peças do prateiro François-Thomas Germain. Apesar da elevada qualidade técnica e estética das peças, esta primeira fase não alcançou resultados financeiros relevantes. A produção destinava-se sobretudo a substituir importações e chocava com hábitos de consumo já enraizados: as elites estavam habituadas à porcelana oriental trazida pela carreira da Índia, enquanto as camadas populares consumiam louças de produção tradicional.
Sebastião José de Carvalho e Melo deu o exemplo à Corte, sendo um dos primeiros consumidores da louça produzida pela Real Fábrica. Conhecem-se peças que terão pertencido a serviços com as suas armas quando ainda era conde de Oeiras, como uma terrina em forma de cisne, com exemplares conservados no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. A documentação referente à venda de louça no armazém da fábrica, a partir de 6 de setembro de 1769, permite identificar compradores da aristocracia portuguesa e referências a compras efetuadas pela Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão e pela Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, indiciando a circulação de peças da primeira fase para o Brasil.
Sebastião Inácio de Almeida Tomás Brunetto foi substituído em 1771 pelo português Sebastião Inácio de Almeida, tendo Severino José da Silva como contramestre. Em 14 de agosto de 1771, a Direção da Real Fábrica das Sedas convencionou com Sebastião Inácio de Almeida e Severino José da Silva as condições para cuidarem do laboratório, aumento e perfeição da fábrica. A 19 de dezembro de 1777 foram estabelecidas as condições para que Sebastião Inácio tomasse a fábrica por sua conta, sujeitando-se aos lucros ou perdas que pudessem ocorrer.
Durante a direção de Sebastião Inácio de Almeida, até à sua morte em 1779, as exportações de louça para o Brasil conheceram grande incremento. Entre 1770 e 1775, a documentação refere a compra de milhares de peças registadas no livro das contas correntes com as companhias do Grão-Pará e Maranhão e de Pernambuco e Paraíba, com carregamentos que, em alguns casos, atingiam oito, nove ou dez milhares de peças; em setembro de 1770, por exemplo, foi registada a remessa de 14 219 peças de louça de várias qualidades e preços.
Para os anos de 1776 e 1777 existem registos mais pormenorizados da atividade exportadora. Em 1776 foram remetidas peças para o Pará, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro; a 3 de julho desse ano há atestação para a Companhia do Grão-Pará e Maranhão remeter 10 467 peças. Em abril de 1777, ocorreu uma das remessas mais significativas, com 14 632 peças enviadas para o Rio de Janeiro pelo próprio Sebastião de Almeida. Boa parte dos exemplares enviados para o Brasil nesses anos ostentava a marca «FR», iniciais de «Fábrica Real».
A importância do Brasil para o escoamento da produção da Real Fábrica esteve associada a mudanças estruturais na própria manufatura. Sebastião Inácio de Almeida elevou a produção a um patamar mais exigente do ponto de vista tecnológico, com faianças que, em geral, se aproximavam da porcelana pela leveza das pastas, pela finura da pintura, pela cintilação dos vidrados e pela pureza das cores empregues. As formas e decorações tornaram-se menos arrojadas do que as do período de Brunetto, predominando objetos moldados de bordos recortados e bulbosos, com decoração maioritariamente a azul sobre fundos brancos, em referência à porcelana chinesa.
A gestão de Sebastião de Almeida racionalizou a produção, reduzindo a variedade de tipologias e modelos e introduzindo peças com novas funções, adequadas às necessidades quotidianas de uma clientela mais exigente, designadamente no domínio da higiene. Este período constituiu uma charneira entre os primeiros anos da fábrica e a profissionalização que seria consolidada pelo administrador seguinte, João Anastácio Botelho de Almeida. Em 1779, a Junta do Comércio voltou a tomar conta da fábrica.
João Anastácio Botelho de Almeida e a consolidação da produção Após a morte de Sebastião de Almeida, sucedeu-lhe em 1780 João Anastácio Botelho de Almeida, administrador também responsável pela orientação artística da produção até 1816. A sua administração correspondeu a um dos períodos mais estáveis e lucrativos da Real Fábrica, sobretudo entre a tomada de posse e a chegada dos exércitos napoleónicos a Lisboa, em 1807.
O tempo de Botelho de Almeida consolidou uma nova mentalidade produtiva, traduzida numa maior viabilidade económica. No seguimento do seu antecessor, reduziu a quantidade de modelos produzidos e dirigiu o fabrico para aqueles que se sabia terem maior procura. Simultaneamente, investiu em objetos com utilização doméstica para além da mesa, introduzindo numerosas tipologias destinadas ao equipamento de interiores e exteriores, como estufas, braseiras, peças para jardins e fontes, esculturas cerâmicas, tamboretes, bebedouros de aves, aquários e fontes de parede.
A prosperidade da fábrica nas duas últimas décadas do século XVIII e no início do século XIX coincidiu com uma conjuntura favorável ao comércio atlântico português, em particular no eixo com o Brasil. Embora a documentação conhecida não permita afirmar com segurança a escala da exportação de louça da administração Botelho de Almeida para o Brasil, a produção de azulejos da Real Fábrica teve presença relevante naquele território.
Entre a azulejaria barroca e a produção industrial oitocentista, aplicaram-se no Brasil, especialmente na Bahia e no Maranhão, revestimentos neoclássicos maioritariamente saídos da Real Fábrica de Louça. Em Salvador, assinalam-se núcleos significativos de azulejaria neoclássica em edifícios religiosos, como as igrejas de Nossa Senhora da Vitória, Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Nossa Senhora da Conceição da Praia, Nossa Senhora da Saúde e Glória e o convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo, bem como em edifícios civis, como os solares do Conde dos Arcos, Bom Gosto e Margarida.
A presença deste estilo decorativo na azulejaria portuguesa não correspondeu a uma adesão plena aos cânones do neoclassicismo internacional, conservando temas, motivos e uma encenação de matriz barroca. A recorrência de paisagens bucólicas ou marítimas idealizadas, bem como de temas exóticos, relaciona-se com o gosto português desenvolvido desde a produção de faiança influenciada pela porcelana chinesa no século XVII e explica em parte a sua aceitação no Brasil.
Decadência e encerramento As invasões francesas interromperam a prosperidade crescente da Real Fábrica de Louça, iniciando um período de decadência agravado pela instabilidade política e por conflitos internos. Nos últimos anos de atividade sucederam-se administrações instáveis e breves, entre as quais se destacou a de Alexandre António Vandelli, entre 1818 e 1824. Dando continuidade à produção da administração anterior, Vandelli privilegiou o fabrico de louça de mesa e esculturas, sendo responsável pelo surgimento de uma nova manufatura de garrafas e canecas antropomórficas.
A instabilidade não impediu que se continuassem a fabricar peças de qualidade, nomeadamente esculturas. A produção escultórica manteve-se até aos últimos anos, incluindo exemplares como figuras de Neptuno e séries de bustos monumentais das Quatro Estações, que parecem contrariar o processo de decadência acentuada em que a fábrica se encontrava. A documentação evidencia também a produção de bustos de pessoas reais, incluindo modelos de D. João VI, D. Carlota Joaquina e D. Maria I.