A Estação Romana da Quinta da Abicada é um sítio arqueológico nas imediações da vila de Mexilhoeira Grande, no concelho de Portimão, em Portugal. Trata-se de uma villa romana, a qual terá sido uma grande mansão. Este monumento é conhecido principalmente pelos seus mosaicos de motivos geométricos, que foram transferidos para museus em Portimão e Lagos para preservação. A Villa foi ocupada principalmente entre os séculos I e IV, com provas de possível ocupação posterior.FABIÃO, 1993:249 Foi escavada por José Leite de Vasconcellos em 1919, e José Formosinho em 1938, e em 1946 foi classificada como Monumento Nacional.Ficha na base de dados SIPA
thumb|esquerda|Mapa da zona da Abicada Descrição Localização As ruínas estão situadas numa zona plana na península da Abicada, formada pela confluência das ribeiras do Farelo e da Senhora do Verde, na Ria de Alvor.BRANCO e CONCEIÇÃO, 2015:24 Este local foi escolhido por se situar junto à Ria de Alvor e perto de uma estrada principal, facilitando o seu acesso terrestre e marítimo, mas com uma boa vista, conceitos que eram normalmente tidos em conta na a construção das villas romanas.
Está situada junto à povoação da Figueira, na Freguesia da Mexilhoeira Grande, parte do concelho de Portimão. Localiza-se a uma distância de cerca de 7,5 Km da cidade de Portimão, e a 10 km da cidade de Lagos.MEDEIROS, 2012:52 É o principal vestígio arqueológico da civilização romana na freguesia da Mexilhoeira Grande, tendo sido encontrados outros indícios deste período na freguesia, incluindo várias sepulturas e estruturas industriais, que indicam que a zona da Mexilhoeira Grande teria sido um centro de produção agrícola e piscícola.SIMÕES, 2007:30-36
Composição O complexo visível das ruínas situa-se num terreno de propriedade pública com aproximadamente 80 por 30 m, rodeado por terrenos de propriedade privada. As ruínas da Abicada correspondem a um conjunto de origem romana, dividido em três partes: uma zona produtiva, o edifício residencial, e várias dependências. Durante as escavações feitas por José Formosinho em 1938, foi encontrado um complexo com uma área superior a 1000 m², que possuía trinta divisões.
Edifício principal O edifício principal do complexo é uma típica villa romana, de construção complexa e grande qualidade e durabilidade. Mesmo cerca de 2000 anos após a sua edificação, restam ainda diversos vestígios das paredes. A villa apresenta uma forma rectangular, dividida em três partes de organização muito diferente. Cada parte da casa possuía pelo menos uma porta para o exterior, todas voltadas para Sul.
A parte central organizava-se em redor de um pátio, de forma hexagonal, com as seis divisões adjacentes a cada uma das paredes laterais. Esta configuração hexagonal do peristilo era pouco comum nas casas romanas, tendo sido encontrados exemplos semelhantes nas villas de Rabaçal, em Portugal, Valdetorres de Jarama, em Espanha, e Palazzo Pignano, na Itália. Esta parte foi identificada por José Formosinho como sendo o androceu, ou seja, a parte masculina da casa. As seis divisões em redor do pátio seriam quartos individuais (cubículos - cubiculum). No centro do pátio existia um tanque que recolhia a água das chuvas (Implúvio - impluvium).
A parte poente da casa organizava-se em redor de um peristilo (peristylum), um pátio central orlado de colunas de forma rectangular, rodeado por um corredor circular (ambulacrum), que dava acesso a cinco compartimentos. Estas salas seriam talvez o gineceu (gyneceus), a parte da casa destinada às mulheres, e a sala de recepção (oeacus). Nas alas esquerda e direita do corredor estavam situadas as alae, salas compridas e estreitas, onde normalmente eram colocados os retratos dos antepassados, junto com o larário, um altar aos deuses da família. O lado nascente era a zona utilitária da vila, uma vez que era composto por várias pequenas salas divididas por um corredor, onde estava situada a cozinha, os celeiros e os quartos para os escravos. Esta zona tinha uma canalização em chumbo, que comunicava com o exterior.
Os corredores em redor dos pátios centrais tinham uma coberta de telha (Tegulae - Tégula), no estilo romano, de forma rectangular e plana, apenas com uma saliência para encaixe, necessitando desta forma de menos obras de reparação e limpeza. O telhado era suportado por colunas de secção hexagonal, compostas por tijolos em forma de quarto de círculo.
Os compartimentos das zonas central e poente tinham os seus pavimentos revestidos com painéis de mosaicos, que são considerados dos mais significativos não só no Algarve mas em todo o país, sendo um dos maiores conjuntos na região. O lado nascente, como era destinado principalmente aos trabalhadores, não estava coberto por mosaicos, utilizando em vez disso ladrilhos de cerâmica, o que oferece um vivo contraste com os pavimentos das zonas onde habitavam os senhores da casa. Um dos motivos utililizados nos painéis de mosaicos eram estrelas de seis raios dentro de quadrados, cujas cercaduras apresentavam desenhos geométricos feitos com tesselas brancas, pretas e vermelhas. Os três pavimento levados para Lagos são composto por motivos geométricos, sendo o primeiro com flores estilizadas com quatro pétalas, utilizando principalmente tons brancos, azuis escuros, amarelos e vermelhos. O segundo apresenta as cores brancas, azuis, vermelhas, rosas e cinzentas, destacando-se uma cruz suástica, que na antiguidade representava a renovação da vida e os raios do sol. O último é formado principalmente por folhas em círculos, em branco, azul e amarelo.
Também foram encontrados vestígios de estuque pintado nalgumas das paredes na zona poente do edifício. No gineceu, as paredes estavam pintadas com murais de motivos geométricos em tons de branco, vermelho escuro, amarelo ocre e azul petróleo.
Em termos de artefactos, não foram encontrados muitos vestígios na zona da Abicada, tendo sido recolhidos alguns fragmentos de cerâmica do tipo Terra sigillata, a mais apreciada durante a civilização romana, incluindo parte de uma figura de perfil que estava a oferecer um objecto. Também foram apanhados três fragmentos de cerâmica terra sigillata clara, que só existia na bacia do Mediterrâneo, e em Portugal só foi encontrada na zona Sul do país. Desta forma, terá sido produzida no Norte de África entre 90 a 100 e 180 a 220, sendo um dos exemplos das ligações comerciais entre a futura região do Algarve e o resto da civilização romana. Foram igualmente encontrados três fragmentos de vidro, dos quais um pertencia a uma urna de tom verde gelo, com bolhas de ar, e que terá sido produzido nos finais do ou inícios do II. Outro fragmento de vidro fazia parte de uma taça incolor, enquanto que o terceiro era uma tampa igualmente sem cor, uma peça considerada muito rara. Todos as peças de vidro são pequenas e delicadas, sendo provavelmente parte de contentores para perfumes, que durante o período romano eram produzidos no Oriente, o que prova que a família romana seria bastante abastada. Também foram recolhidos artefactos metálicos, incluindo parte de um espelho que tinha decorações geométricas, uma peça de grande valor que estava em linha com a riqueza dos proprietários, e várias moedas dos Seculos I a IV, especialmente pequenas moedas de bronze do , período em que a villa romana foi abandonada e depois destruída.
Zona produtiva A cerca de 20 m do edifício principal, foi encontrada uma adega, que foi totalmente destruída pelo proprietário do terreno no . Foram encontrados vestígios de lagares para vinho e azeite, e de tanques em Opus signinum, tendo vários autores avançado a sua utilização como cetárias, para a produção de preparados de peixe, embora isto seja pouco provável devido à sua localização.FABIÃO, 1993:239-243
thumb|Estação romana da Quinta da Abicada em 2006, vendo-se ainda os vestígios dos mosaicos de solo
História Ocupação primitiva Fundação e expansão A região da Mexilhoeira Grande foi habitada pelo menos desde o neolítico, facto comprovado pela descoberta de vários vestígios daquele período, como menires e os Monumentos Megalíticos de Alcalar. Também foram descobertas cistas da Idade do Bronze Mexilhoeira Grande e vestígios de povoações da Idade do Ferro nos concelhos vizinhos. A região era nessa altura habitada pelos Cónios, um povo de origem indo-europeia, e depois pelos Turdetanos. Estes povos mantinham um intenso contacto comercial e cultural com as civilizações do Mediterrâneo, principalmente fenícios e gregos.SIMÕES, 2007:20-28
A villa foi construída durante o período romano, como parte de um processo de colonização da região Sudoeste da Península Ibérica, que teve a preferência das elites devido à sua estabilidade política e militar, ao seu clima aprazível, ao solo fértil e a uma extensa faixa costeira que, além de ser rica em peixe, permitia o estabelecimento de portos que facilitavam as comunicações com a metrópole. A conquista romana iniciou-se nas duas centúrias antes do nascimento de Cristo, e terminou no .CAPELO et al, 1994:9-10 Após a pacificação do território, foram instaladas várias villas, que tinham a dupla função de servir como faustosas residências para as famílias mais ricas e como o centro de grandes explorações agrícolas que aproveitavam o fácil acesso ao oceano, como sucedeu com o Cerro da Vila, em Vilamoura, Milreu, em Estoi, Lacóbriga, em Lagos.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:8 A villa romana da Abicada terá sido um destes casos, concentrando num só local uma casa palaciana e várias estruturas para a preparação de produtos agrícolas e piscícolas.
A villa foi provavelmente fundada no . Fazia parte de um complexo maior, embora só tenha sido escavada a parte do terreno na posse do estado português. A localização, numa pequena elevação junto à ria de Alvor, foi escolhida devido à fertilidade das terras em redor e à sua proximidade ao oceano, que fornecia alimento e facilitava o transporte de mercadorias. Nessa época, a Ria de Alvor era navegável e caracterizada por um intenso tráfego comercial. Junto à villa existia um cais de acostagem para barcos de pequeno calado. Além do transporte marítimo, a villa tinha acesso a uma rede de estradas, estando próxima de Ipses (Alvor), Portus Hannibalis (Portimão) e Lacobriga (Lagos), podendo ter estado sob o domínio administrativo desta última. O período de maior prosperidade para a região terá sido o , durante o regime de pax romana estabelecida pelos imperadores Trajano (98-117), Adriano (117-138), Antonino Pio (138-161) e Marco Aurélio (161-180).