A crise diplomática entre Espanha e Guiné Equatorial em 1969, também conhecida como Crise das Bandeiras (), refere-se ao conflito político e diplomático que irrompeu entre os dois países logo após a independência do segundo e que provocou a saída da maioria da população origem espanhola do mesmo, coincidindo com a denúncia de uma suposta tentativa de golpe de Estado por parte do governo da Guiné Equatorial e o início de um período de repressão política nesse país africano.

Antecedentes Os acordos firmados por Espanha e Guiné Equatorial anexos a assinatura da independência de 12 de outubro de 1968 estabeleciam a presença de um corpo de funcionários espanhóis, bem como forças de segurança espanholas. Entretanto, após a independência ocorreu uma fuga de capitais que deixou a Guiné Equatorial à beira da bancarrota e dependente de empréstimos concedidos pelo Estado espanhol.

Os cofres dos dois únicos bancos existentes no país, o Banco Exterior de España e o Banco Español de Crédito, estavam vazios. O novo governo não podia pagar os funcionários e não possuía moeda própria (a peseta guinéu-equatoriana derivava da peseta espanhola) ou banco nacional. Além disso, o novo Estado utilizaria os orçamentos aprovados pelo governo espanhol para as duas províncias africanas, bianuais, conforme os acordos de transição assinados. Porém a Espanha se recusou a honrar esses acordos, o que ajudou a acrescentar tensão nas relações entre os dois países.

Em 26 de dezembro de 1968, após o regresso ao país do opositor político Bonifacio Ondó Edu do exílio no Gabão e a sua posterior prisão pela polícia guinéu-equatoriana, o funcionário espanhol Martín Zato, que ocupava o cargo de Fiscal General do Supremo Tribunal da Guiné Equatorial em Malabo (na época ainda chamado de Santa Isabel), visitou o Ministro do Interior para inteirar-se sobre a situação. Seria expulso do país pouco depois. Alguns dias mais tarde, em 30 de dezembro, Macías expulsa outro funcionário espanhol, o ex-secretário do Governo Civil de Fernando Poo, Fernando Rodríguez López Lammes.

Em 10 de janeiro de 1969, os funcionários espanhóis que trabalhavam no Ministério das Finanças guinéu-equatoriano se demitem em bloco afirmando que o governo de Macías não lhes faz um pagamento efetivo. A resposta do presidente é a proibição de que abandonem o território. No final do mês de janeiro, Macías congela as contas bancárias dos funcionários do Tesouro.

Crise das Bandeiras Em 15 de fevereiro de 1969, o vice-presidente Edmundo Bossio, por ordem presidencial, convocou o cônsul-geral da Espanha, Jaime Abrisqueta, para pedir-lhe que retirasse a bandeira espanhola de sua residência, o que o último não concordou.

No dia 23, Francisco Macías declarou persona non grata o cônsul-geral Abrisqueta e ordenou ao comandante Juan Tray que enviasse um piquete da Guarda Nacional para a chancelaria consular para retirar a bandeira. Imediatamente o vice-presidente do governo espanhol, o almirante Carrero Blanco entrou em contato com o ministro das Relações Exteriores, Fernando María Castiella, enviando um telegrama pelo qual ordenava o embaixador espanhol na Guiné Equatorial, Juan Durán-Lóriga, agir "de maneira enérgica e imediata".

No dia 25, a bandeira foi hasteada novamente. No mesmo dia, o presidente na presença do ministro da Educação, José Nsué Angüe Osa, recebeu o embaixador espanhol. Após algumas negociações, o embaixador é declarado persona non grata e é informado que deve deixar o paísFebrero de 1969: dos provincias españolas bajo el terror, José Eburi Palé, ao qual o embaixador responde ordenando para a noite de 26 de fevereiro um plano combinado de ocupação militar de Bata e Malabo. Na noite de 26 a 27, as forças espanholas ainda presentes na Guiné Equatorial são mobilizadas em diferentes pontos estratégicos do país: aeroporto, telégrafos, estações de TV e de rádio, porto, quartéis da Guarda Colonial, delegacias, Guarda Marítima, Palácio Presidencial, ministérios; e bloqueiam o acesso à capital de San Carlos (atual Luba ou San Carlos de Luba), Rebola e Basilé. O quartel-general é instalado na embaixada espanhola. Macías, na manhã do dia 27, declara estado de emergência. No entanto, durante o dia 27, são fornecidas instruções a partir da Espanha para abortar esta operação. Macías exige a expulsão da Guarda Civil e envia um telegrama para as Nações Unidas (ONU), no qual revela a mobilização das forças espanholas e acusa o embaixador espanhol pela iniciativa, exige a retirada das tropas e o envio dos Capacetes Azuis, enquanto a Espanha declara através do embaixador na ONU, Jaime de Piniés, que só retirará tropas quando todos os espanhóis tiverem saído. No mesmo dia, a embaixada espanhola ordena a evacuação de todos os espanhóis. Ao longo do dia, ocorrem tiroteios e incidentes violentos, no qual morre um homem espanhol, Juan José Bima Martí, de 27 anos.

Em 2 de março, depois de dois dias muito tensos, Juan Luis Pan de Soraluce substituiu Durán-Lóriga como embaixador.

A crise é agravada pela morte em estranhas circunstâncias do Ministro das Relações Exteriores, Atanasio Ndongo, a quem Macías acusa de organizar uma tentativa de golpe de Estado apoiada pela Espanha na noite de 4 a 5 de março. Macías empreende na sequência do golpe um expurgo em todo o aparato administrativo e político do país, iniciando um regime ditatorial.Macías instaura una verdadera dictadura en Guinea Ecuatorial, diario ABC, 09/03/1969, página 31 y página 32.Macías asume el poder absoluto en Guinea Ecuatorial, diario ABC, 09/03/1969, página 23. De forma imediata, são detidos e assassinados Saturnino Ibongo, embaixador da ONU, Pastor Torao Sikara, presidente da Assembleia Nacional, Armando Balboa, Ministro da Informação e do Turismo, e o opositor político Bonifacio Ondó Edu. Outros ministros e funcionários que foram relacionados à tentativa de golpe também são assassinados ou perseguidos, incluindo Gustavo Watson Bueco (falecido em 1972) e Agustín Nve, deputados na Assembleia Nacional, Enrique Gori (falecido em 1972)Un supuesto complot, en 1969, sirvió al dictador para iniciar el exterminio de la oposición, diario El País, 8 de agosto de 1979., Presidente da Deputação de Fernando Poo e Federico Ngomo (falecido em 1971), Presidente da Deputação de Río Muni. A estes, deve-se citar outros políticos como Norberto Balboa, Vicente Ntutumu, Luis Angue Bacale e Santiago Osa.La guinea de Macías. El despertar del monstruo, por José Eburi Palé, 2008. Seguiu-se a petição da Espanha junto à ONU para o envio de observadores e outras iniciativas diplomáticas, como as negociações com o imperador etíope Haile Selassie ou uma petição urgente da Cruz Vermelha Internacional relacionada com os fatos.

Evacuação da população espanhola No dia 5, as Nações Unidas decidem enviar observadores. No dia 8 chegam a Tenerife pelo navio espanhol Ciudad de Pamplona, da companhia Trasmediterránea, 460 pessoas embarcadas do país africanoCuatrocientos sesenta españoles llegan a Tenerife, diario ABC, 09/03/1969, página 32., que se juntaram a outras 243 pessoas que haviam deixado o país naquele dia até Espanha em um Super DC-8.Doscientos cuarenta y tres, a Barajas, diario ABC, 09/03/1969, página 32. Os observadores internacionais da ONU chegam no dia 10 em Malabo e no dia 13 em Bata. A missão consegue impor um prazo de dois meses para a retirada dos espanhóis e suas tropas. As dependências da Guarda Civil são fortificadas com sacos de areia e postos de metralhadoras. Em 13 de março fogem precipitadamente até Madrid 346 pessoas num aviãoTrescientos cuarenta y seis españoles abandonan Guinea en un solo avión, diario ABC (Madrid), 14/03/1969, página 35., uma vez que as baterias da fragata Pizarro (F-31) são apontadas para o palácio presidencial. No dia 15 novamente foi dificultada saída da população para a Espanha.El gobierno guineo pone dificultades para la salida de los españoles, diario La Vanguardia, 16/03/1969, página 5. Em 21 de março, Macías novamente exige a retirada dos espanhóis e suas tropas; o Secretário-Geral das Nações Unidas, U Thant, repreende a Guiné Equatorial pelo não cumprimento do prazo perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas. No dia 23 chegam os navios de transporte da Armada Espanhola e se inicia a evacuação em Bata, sob a supervisão dos observadores da ONU e da Organização da Unidade Africana (OUA). Durante várias semanas, aviões e barcos partem da Guiné Equatorial repletos de passageiros. Em 5 de abril é certificada por observadores da ONU o procedimento de evacuação total das forças espanholas. No total, 6.800 espanhóis foram repatriados juntamente com 514 veículos. Os prejuízos patrimoniais e pessoais dos repatriados são difíceis de avaliar.Murió de un tiro de fusil -DIARIO ABC

No total, participaram da evacuação os seguintes navios da Armada: a fragata Pizarro (F-31), o cruzador pesado Canarias (C-21), o navio-petroleiro Teide (A-11), a corveta Descubierta (F-51) e os transporte de ataque Aragón (TA-11) e Castilla (TA-21).

Ver também Tratado de Amizade e Cooperação entre Espanha e Guiné Equatorial em 1980 Independência da Guiné Equatorial

Bibliografia LA CRISIS DE MARZO DE 1969 EN GUINEA ECUATORIAL - Dr D. Javier Martínez Alcázar, Murcia. España Capítulo X de Memorias diplomáticas, de Juan Durán-Loriga, Siddharth Mehta Ediciones, Madrid 1999 Revista Historia 16, Año 2001, Número 297, España-Guinea, 1969: La estrategia de la tensión, Xavier Lacosta, páginas 46-63, ISSN 0210-6353, parte I (de II) - parte II (de II)

Ligações externas Marzo de 1969. El segundo golpe de estado de Franco. Más apuntes para la ley de la memoria histórica Página Oficial del Gobierno de la República de Guinea Ecuatorial - CRONOLOGÍA HISTÓRICA

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