Germán Rey Beltrán (Bucamaranga, Colômbia, 1956) é um psicólogo, jornalista, sociólogo e professor universitário colombiano que trabalha nas áreas de jornalismo, psicossociologia e nas relações entre cultura e desenvolvimento social e econômico. Foi assessor de Políticas Culturais do Ministério da Cultura da Colômbia e, em 2009, coordenou a produção do Compêndio de Políticas CulturaisLas políticas culturales en Colombia: la progresiva transformación de sus compreensiones, , Compendio de Politicas Culturales, Ministério da Cultura de Colômbia, 2009 do país. Manteve uma coluna semanal sobre a produção televisiva colombiana no jornal El Tiempo e publicou cinco livros, entre eles Los ejercicios del ver: hegemonia audiovisual y ficción televisiva, em parceria com o filósofo colombiano Jesus Martín-Barbero, em 1999, e Impacto económico de las industrias culturales en Colombia, em 2002. Além disso, faz parte do Conselho Reitor da Fundación Gabriel García Márquez para el nuevo periodismo iberoamericanoPremio y Festival Gabriel García Márquez de Periodismo - Consejo Rector e da Rede Desenvolvimento e Cultura, que analisa a dimensão cultural dos fenômenos na América Latina e no CaribeRed Desarrolo y Cultura - Membros .
Cultura como desenvolvimento humano A importância da cultura para a concepção de desenvolvimento humano
Em um dos seus trabalhos principaisCultura y Desarrollo Humano: unas relaciones que se trasladan, Pensar Iberoamerica, Revista de Cultura, febrero de 2002], Germán Rey critica não apenas a concepção de desenvolvimento humano estabelecida por prescrições distintas de diferentes ramos do conhecimento, como também aquela que procura quantificá-lo por taxas comparáveis e manipuláveis por governos, entidades internacionais e companhias financeiras. Para ele, os países da América Latina foram especialmente prejudicados por essas visões quando passaram a adaptar-se e construir políticas públicas desenvolvimento de seus cidadãos a partir delas. Dessa forma, diz ele que "hubo una exagerada importación de propuestas y una débil recreación autóctona de ellas, porque la participación social cedió ante los paternalismos gubernamentales o porque los procesos de planeación solo consideraron versiones muy reducidas de lo cultural".
Sua argumentação é que a cultura exerce um papel importante da definição de desenvolvimento humano, na medida em que é por meio dela que as noções do que se entende por "desenvolvimento" das pessoas se modificam. Em um primeiro momento, elas diziam respeito a um crescimento social, econômico e moral medido por etapas - e cujos patamares mais elevados eram os europeus. Hoje, porém, as rupturas com os modelos eurocêntricos também podem ser compreendidas como desenvolvimento: Rey sustenta que, se os obstáculos ao avanço pelas fases de desenvolvimento eram entendidas como "barreiras", hoje eles são vistos como "oportunidades" para intervenções e ações sobre diferentes grupos sociais existentes. A partir da abordagem teórica da filósofa estadunidense Nancy Frazer, ele afirma que o desenvolvimento humano se trata do reconhecimento de atores invisíveis, processos em marcha e articulações viáveis que costumam cair no esquecimento, como são as lutas étnicas, raciais e de gênero.
Assim, ao invés de pensar em um espectro homogêneo de desenvolvimento humano, baseado em taxas, níveis e definições totalizantes (visando o bem-estar e a liberdade civil de todos), é necessário observar que, dentro da massa de indivíduos da sociedade existem diferentes atores, grupos e articulações que precisam ser reconhecidas para que elas também façam parte do projeto de desenvolvimento. Para Rey, "una de las experiencias más interesantes a las que se enfrentan hoy las propuestas de desarrollo es la existencia de mezclas, de sociedades cada vez mas heterogénas. Pero especialmente el reconocimiento de que para los proyectos de desarrollo es fundamental la consideración de las hibridaciones cuando en el pasado"". Essa mudança de percepção transformaria os indivíduos de "usuários" de intervenções para o desenvolvimento humano para "atores" distintos.
Rey ainda argumenta que a concepção de desenvolvimento humano foi se modificando ao longo do tempo a partir de ideias oriundas da "paisagem cognitiva" das entidades responsáveis por definí-la, sobretudo as Nações Unidas. Essas mudanças podem ser vistas nos relatos elaborados por essas organizações em diferentes países do mundo. Nos anos 1990, por exemplo, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ainda numa amplitude global, centralizou sua atenção para um aspecto econômico da vida: a pobreza que, como consequências, dificulta a participação na vida pública, à educação de qualidade e o conhecimento de valores culturais.
Em um segundo momento, o relato do desenvolvimento humano passou para a institucionalidade democrática, quando procurou se valorizar a consolidação da cidadania e o fortalecimento das democracias no mundo não apenas no sentido de liberdade de ir e vir, como também do poder político. Foi desse processo que surgiu o terceiro relato: o da participação, quando Germán já observa diferentes "relatos" sobre desenvolvimento humano a partir de culturas distintas. Nele se valorizou a expansão dos movimentos sociais, dos partidos políticos e das organizações não-governamentais internacionais. Na Colômbia, por exemplo, foi a época em que movimentos indígenas adquiriram reconhecimento de suas lutas contra o Estado e companhias transnacionais interessadas em suas terras.
No quarto relato sobre o desenvolvimento, surgiu o tema da perspectiva de gênero, quando tiveram ênfase movimentos feministas dedicados a reivindicar espaços na política, na economia e na vida comunitária. Segundo ele, a emergência desse relato significou comoções culturais profundas, assim como no que elas resultaram – das mudanças nas estruturas familiares à valorização de culturas juvenis. Atualmente, temas como segurança, consumo e direitos humanos fazem parte da agenda de diversos países em seus relatos sobre desenvolvimento humano.
Relações entre cultura e desenvolvimento
Germán Rey – assim como Jesus Martín-Barbero – demonstra preocupação com a dimensão econômica que a própria concepção de cultura adquiriu para para medir o desenvolvimento humano das sociedades. Esse processo, para Barbero, faz com que o "desenvolvimento" siga sendo reconhecido por dimensões materiais, como o crescimento da produção. Isso faz com que a prioridade das sociedades seja apenas aspectos econômicos, deixando em segundo plano os possíveis e necessários reconhecimentos culturais. Novamente a América Latina foi prejudicada por esse fenômeno, porque os governos privilegiaram privatizações, flexibilizações trabalhistas e ajustes econômicos que aumentaram a exclusão escolar e o desemprego.
Apesar disso, Rey é otimista: a sociedade moderna, pautada no conhecimento, na expansão do conhecimento e na infraestrutura de produção e de consumo, assim como o crescimento de movimentos socioculturais, deram outro peso para a cultura no desenvolvimento humano. No limite, a expansão da indústria cultural, ainda que dentro da esfera econômica, gerou empregos e deu dinamismo tecnológico ao mercado global.
Políticas culturais na América Latina No artigo que escreveu na introdução do Compêndio de Políticas Culturais do Ministério da Cultura colombiano, Germán Rey mostra que a América Latina passou por três fases institucionais de compreensão da cultura: no primeiro, do final do século XIX até o começo do século XX, os Estados tentaram construir instituições que atendessem aos campos das artes e dos patrimônios culturais. Foi o período em que se criaram os grandes museus da região, assim como bibliotecas e entidades de promoção à arte que ligaram o Estado a uma elite intelectual.
Já no século XX, o conflito retórico – e em alguns casos armado – entre conservadores e liberais fez com que se tornasse importante criar acervos culturais, fato que também distanciou a produção artística, literária e musical da Igreja Católica. Para Germán Rey, foi o período em que a América Latina chegou à modernidade. Reprimida e cada vez menos hegemônica, a Igreja escolheu se aliar ao movimento conservador contra as ideias laicas e pluralistas de cultura dos liberais. Neste momento, cabe situar, começam os esforços para aproximar a cultura dos setores mais pobres.
No terceiro, já na metade do século XX, os meios de comunicação de massa, as transformações da educação, o crescimento da mobilidade social e consequentemente das cidades mudou a compreensão sobre cultura, agora entendida como política pública. Explica o autor: "Ya no se trataba de cultura en mayúsculas, sino de culturas que se entremezclaban y diferenciaban; ya no se asimilaba la cultura solamente a las artes, sino también a las fiestas, la gastronomía y las manifestaciones popularesLas políticas culturales en Colombia: la progresiva transformación de sus compreensiones, , Compendio de Políticas Culturales, Ministério da Cultura de Colômbia, 2009, p. 26". É dessa última concepção que surge o conceito de políticas culturais tal como ele é entendido e aplicado hoje pelos governos, entidades e grupos comunitários latino-americanos.
Em resumo, para Germán Rey, as políticas culturais precisam: a) atender a diferentes âmbitos ou campos de cultura; b) integrar diversos mecanismos de intervenção do Estado; c) possibilitar o acesso de várias camadas da sociedade a diversas formas de cultura; d) ser públicas e não estatais, o que significa dizer que devem ser acessíveis a todos, mas nem sempre planejadas pelo Estado; e) buscar a autonomia de manifestações culturais regionais e locais e f) promover a participação de todos os atores em sua construção.
Em abril de 2016, em entrevista ao jornal brasileiro O PovoJornal O Povo, 26 de abril de 2016, , Rey afirmou que a aplicação das políticas culturais na América Latina permitiu a diminuição de problemas comuns da região, como os índices de miséria e a inserção de um maior número de indivíduos à assistência estatal, mas, por outro lado, não modificou panoramas como os da violência e das agressões aos direitos humanos:
"Hoje a democracia se realizaria também no entorno dos direitos culturais. Bem, as políticas de desenvolvimento para nossos países, acredito que são contraditórias. Por um lado, permitiram certos avanços, mas por outro não conseguiram deter alguns dos problemas mais fundos com os quais vive América Latina, como a violência, a insegurança, a questão dos direitos humanos, os problemas no meio ambiente, as crises de convivência, a exclusão da participação dos habitantes das cidades na vida cotidiana urbana. São problemas que não foram completamente superados. Mas creio que se podem apresentar alguns avanços em termos de diminuição dos índices de miséria, aumento do acesso dos cidadãos a certos serviços básicos, o crescimento de alguns países na educação universal, laica e gratuita, a transformação dos papéis de gênero e particularmente da mulher na vida social e econômica. São alguns dos aspectos que mostram avanços mas, em muitos casos, a América Latina é um laboratório das incertezas, conflitos e respostas atrasadas" (O POVO, 25 de abril de 2016).
Comunicação na América Latina
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