José Francisco das Neves, mais conhecido como Juquinha (Goiânia, 29 de janeiro de 1947), é um engenheiro elétrico, professor e político brasileiro.
Iniciou a carreira na CELG na década de 1970, companhia que dirigiu e presidiu em dois períodos (1987–1990 e 1994–1998), conduzindo um amplo programa de eletrificação rural que ampliou o atendimento elétrico no campo goiano, posteriormente avaliado pela agência japonesa de cooperação (JICA), que registrou que as metas físicas do projeto foram cumpridas acima do planejado, e listado pelo JBIC entre as iniciativas que contribuíram para a correção das disparidades regionais no país. Foi eleito deputado federal por Goiás para o mandato de 1999 a 2003 e, entre 2003 e 2011, presidiu a VALEC, estatal federal responsável pela construção da Ferrovia Norte-Sul e de outras ferrovias.
Em 2017 foi condenado em primeira instância; a condenação foi revertida pela 3.ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região em 2023, e uma ação de improbidade administrativa relacionada foi julgada improcedente em 2025, por ausência de nexo causal.
Primeiros anos Filho de Antônio Barbosa das Neves e Idalina Rodrigues da Silva, João Francisco das Neves nasceu em Goiânia, em 29 de janeiro de 1947. Foi, desde os seis anos de idade até concluir os estudos, vendedor de doces, jornaleiro e engraxate.
Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Goiás em 1974, foi pós-graduado em Distribuição de Energia Elétrica pela Universidade Mackenzie em São Paulo em 1976 e, cinco anos depois, em pós-graduação em Administração para Executivos pela Universidade de São Paulo.
Ascendência familiar Entre seus irmãos, João Barbosa das Neves foi juiz em Anápolis, Adão das Neves foi procurador da República em Goiânia e Camilo das Neves foi delegado em Anápolis. O fórum da comarca de Anápolis foi denominado Fórum Dr. João Barbosa das Neves em homenagem ao magistrado.
Carreira na CELG
thumb|Logomarca da CELG, empresa em que Neves trabalhou de 1974 a 1998 e presidiu em dois períodos (1987-1990 e 1994-1998).
Ainda durante o curso de engenharia, estagiou na companhia entre 1972 e 1974; foi efetivado no quadro após a formatura. Após diplomar-se, ingressou em 1974 no quadro da atual Companhia Celg de Participações, naquela época a estatal "Centrais Elétricas de Goiás", e nela ocupou cargos tais como chefe da Divisão de Projetos de Construção de Redes de Distribuição e chefe do Departamento de Engenharia de Distribuição até 1983, quando passou a diretor técnico do Departamento de Águas e Esgotos do estado (1983–1985). Paralelamente foi professor de Matemática e desenho em diferentes instituições de ensino e em 1985 assumiu a diretoria de operações da CELG, empresa que presidiu em dois períodos — de 1987 a 1990 e, após atuar como assessor do governo do Tocantins no primeiro mandato de Siqueira Campos (1990–1992) e retornar à companhia, de 1994 a janeiro de 1998 —, nos governos de Henrique Santillo e Maguito Vilela.
De capital aberto e fundada em 1955, a CELG figurava em anuários empresariais internacionais e empregava cerca de 5.690 pessoas no início da década de 1990.
Na presidência de Neves, a companhia expandiu a eletrificação rural — alcançando cerca de 10 mil quilômetros de redes de distribuição no campo — e ampliou a infraestrutura elétrica do estado, com novas subestações e linhas de transmissão, a exemplo da Subestação Planalto, em Morrinhos, e da LT São Domingos–Iaciara. Um balanço noticiado em dezembro de 1990 registrou "desempenho altamente positivo em quatro anos" de administração, e em 1995 a CELG atendia cerca de 1,1 milhão de consumidores. No mesmo ano, sob sua presidência, a companhia reduziu a folha de pagamento em cerca de 30% — de aproximadamente R$ 10 milhões para R$ 7 milhões mensais —, uma economia da ordem de R$ 3 milhões por mês, ao mesmo tempo em que investia na expansão do sistema de transmissão, incluindo a IV Etapa da Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada, última ampliação da usina, que elevou sua potência instalada a 658 MW. Durante sua gestão, a CELG executou o programa de eletrificação rural Luz na Roça, que, segundo a empresa, colocou Goiás no primeiro lugar nacional do setor, com cerca de 91% das propriedades rurais atendidas. Parcialmente financiado pelo governo japonês, o projeto teve sua eficiência reconhecida pelos japoneses.
Um perfil publicado pelo Diário da Manhã em janeiro de 2001 associou seu nome à eletrificação do estado, afirmando que "em Goiás, Juquinha é sinônimo de rua iluminada, de subestações espalhadas". Em 1987, foi convidado para ser patrono da turma de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Goiás que colaria grau em agosto daquele ano — a mesma instituição em que se formara. O reconhecimento de sua gestão à frente da CELG era noticiado à época: em 1994, o Diário da Manhã registrava que as homenagens ao dirigente eram "quase diárias" e que seu trabalho era "reconhecido por todo o Estado", citando os títulos de cidadão de Cachoeira Dourada e Ouvidor e o diploma de "Personalidade do Sudoeste", da revista Brasil Oeste, recebidos naquele mês.
Reconhecimento internacional
Empréstimo japonês BZ-P7 (1991-1997)
O aporte japonês concretizou-se em um empréstimo de 12.832 milhões de ienes do então Fundo de Cooperação Econômica Ultramarina (OECF) — o State of Goiás Rural Electrification Project (empréstimo BZ-P7), com contrato firmado em 5 de setembro de 1991 e desembolso concluído em dezembro de 1997.
A Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) registra que as quatro metas físicas mensuráveis do projeto foram cumpridas acima do planejado, conforme a tabela de comparação planejado/executado abaixo:
+ Metas físicas do Projeto BZ-P7 — planejado × executado (fonte: JICA, 1999) Métrica Planejado Executado Variação Linhas de transmissão 1.412 km 1.813 km +28% Capacidade de subestações 640 MVA 1.049 MVA +64% Rede de distribuição 38.854 km 42.433 km +9% Domicílios rurais eletrificados 30.000 43.888 +46%
Além das metas de obra, indicadores agregados da região-alvo confirmam o resultado:
a área irrigada cresceu de 38.162 hectares (1991) para 70.767 hectares (1996) — uma expansão de cerca de +85%; a taxa de eletrificação rural saltou de 31,8% (1990) para 66,8% (1997); o número de domicílios atendidos subiu de cerca de 24 mil para 71 mil; os pontos de irrigação supridos por energia elétrica passaram de 427 (1991) para 769 (dezembro de 1997).
A avaliação posterior oficial da JICA, publicada em fevereiro de 1999, registrou que, durante a execução do projeto, a companhia expandiu o volume de energia vendida, melhorou a taxa de cobrança tarifária e reduziu pessoal, passando ao azul a partir do exercício de 1997 — com o resultado líquido saindo de um prejuízo de cerca de R$ 45,8 milhões em 1996 para um lucro de aproximadamente R$ 9,4 milhões em 1997, ainda durante a execução do projeto. Trabalho acadêmico apresentado no Encontro de Energia no Meio Rural (AGRENER) registra que, ao longo dos dez anos do projeto, foram eletrificadas 21.981 propriedades rurais em 167 municípios goianos — cerca de 41% acima da meta inicial de 15.000 —, com aproximadamente 22 mil quilômetros de redes. A taxa interna de retorno financeira (FIRR) do projeto foi estimada pela JICA em 14,4%, e a avaliação posterior qualificou a gestão da CELG na execução do empréstimo como "excelente". Entre os efeitos socioeconômicos, a avaliação posterior registra que o uso de energia elétrica na irrigação reduziu o custo de produção — cerca da metade do custo com geradores a diesel —, viabilizou o cultivo de trigo e novas safras, e que o fornecimento a escolas rurais permitiu a oferta de aulas noturnas a trabalhadores.
Avaliação institucional posterior
A JICA registra como lição institucional transferível a constituição pela CELG de uma equipe-projeto dedicada com amplo poder decisório, modelo adotado em projetos de empréstimo nos estados da Bahia e do Ceará.
Mais de duas décadas após a conclusão do desembolso, o Escritório JICA Brasil mantém o projeto goiano na categoria "Recursos e Energia" de seus projetos representativos de cooperação financeira ao Brasil, na qual figura sozinho, ao lado de iniciativas como PRODECER (Cerrado), Jaíba, Tietê e Guanabara, classificadas em categorias temáticas distintas. Em estudo oficial de 2002 sobre a cooperação financeira reembolsável do Japão ao Brasil, a JICA registrou o projeto entre as iniciativas que "contribuíram para a correção das disparidades regionais" no país.
Honrarias e títulos
thumb|Insígnia da Ordem do Mérito Anhanguera; Neves recebeu a Grã-Cruz, grau máximo da comenda, em 2011.
Pelos serviços prestados aos municípios, recebeu títulos de cidadania honorária em Goiás, entre eles os de Niquelândia (1988), Nova Aurora, Leopoldo de Bulhões, Aporé e Divinópolis de Goiás (1995), Alto Paraíso de Goiás, Aparecida de Goiânia e Posse (1996), Inhumas (1997) e Águas Lindas de Goiás (1998). Em novembro de 1997 a imprensa local registrava seu 107º título de cidadania e, em 2000, já o tratava como cidadão honorário de cerca de 150 cidades goianas. Em 2007 recebeu o título de Cidadão Tocantinense, concedido pela Assembleia Legislativa do Tocantins e sancionado pelo governador Marcelo de Carvalho Miranda. Em 1997 foi agraciado com a Medalha do Mérito Legislativo Pedro Ludovico Teixeira, concedida pela Assembleia Legislativa de Goiás. Em 2006 fora agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito Anhanguera, por ato do então governador Marconi Perillo (Decreto estadual n.º 6.405, de 17 de março de 2006). Em fevereiro de 2011, então presidente da VALEC, foi promovido do grau de Grande-Oficial ao de Grã-Cruz da Ordem do Mérito Anhanguera, a mais alta condecoração do estado de Goiás, por ato do governador Marconi Perillo.
Carreira política
Deputado federal por Goiás Juquinha das Neves foi eleito deputado federal via PMDB em 1998, sendo o terceiro mais votado no estado, com 83.221 votos (4,48% dos votos válidos), embora tenha migrado sucessivamente para o PSDB e depois para o PL no curso do mandato. Na Câmara, integrou como titular a Comissão de Minas e Energia e a comissão especial da Lei de Responsabilidade Fiscal, além de comissões relativas à contribuição para custeio da iluminação pública (COSIP). Foi autor de proposições nas áreas de energia e mineração — entre elas projetos relativos à Lei da ANEEL e ao Código de Mineração — e de proposta sobre a contribuição municipal para o custeio da iluminação pública. Em discursos, defendeu investimentos no setor elétrico, a inclusão do Centro-Oeste no gasoduto Brasil–Bolívia e o financiamento permanente da saúde pública. Como deputado federal, apresentou emendas individuais ao orçamento da União direcionadas a Goiás nos exercícios de 2000 a 2003, com foco em eletrificação rural, saneamento básico e infraestrutura hídrica. Segundo registros orçamentários da Câmara dos Deputados, essas emendas somaram cerca de R$ 7,5 milhões em valores autorizados nas leis orçamentárias anuais, montante que não corresponde necessariamente ao efetivamente executado. O grau de execução das emendas variou conforme o exercício e a destinação. Em 2000, quatro emendas de eletrificação rural, no valor de R$ 100 mil cada, foram destinadas aos municípios de Mutunópolis, Luziânia, Nerópolis e Novo Gama, com execução integral registrada.
Presidência da VALEC thumb|Trecho da Ferrovia Norte-Sul, cuja expansão marcou a gestão de Neves na VALEC. thumb|Traçado da Ferrovia Norte-Sul. thumb|Primeiro trem de minério a circular na Ferrovia Norte-Sul, carregado em Porto Nacional.
Em abril de 2003 assumiu a presidência da VALEC no governo Luiz Inácio Lula da Silva e ficou no cargo por oito anos. Em sua gestão na VALEC, a estatal conduziu projetos de expansão ferroviária federal, entre eles a Ferrovia Norte-Sul, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste e a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO).