Historiografia brasileira é o conjunto de estudos sobre a História do Brasil e diz respeito não só ao registro histórico, mas também ao estudo da própria prática da ciência historiográfica. Embora tenha tido precursores, com destaque para o frei Vicente do Salvador, ativo entre os séculos XVI e XVII, geralmente Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) é considerando o fundador da disciplina no Brasil, amparado em um movimento de organização dos estudos sobre a história nacional orquestrado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, que teve apoio decisivo do governo imperial. Entre os historiadores brasileiros de destaque há autores como Silvio Romero e Capistrano de Abreu, nos anos 1900, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda nos anos 1930, Nelson Werneck Sodré nos anos 1950, Caio Prado Júnior nos anos 1960 e Florestan Fernandes anos 1960-70.Reis, José Carlos. As identidades do Brasil 1: de Varnhagen a FHC. 9ª edição 2ª reimpressão. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 2009, p. 7Santos, Pedro Afonso Cristovão dos; Pereira, Mateus Henrique de Faria; Nicodemo, Thiago Lima. "Por onde deve começar-se a história do Brasil?: eurocentrismo, historiografia e o Antropoceno".In: Topoi, 2022 (49): 70–93 A partir da década de 1960 houve um forte incremento na produção historiográfica brasileira com o processo de expansão dos programas de pós-gradução no país e a interlocução com distintas matrizes teóricas internacionais.Fico, Carlos & Polito, Ronald. A história no Brasil (1980-1989): elementos para uma avaliação historiográfica. Ouro Preto: Editora UFOP, 1992
Precursores Os primeiros textos escritos sobre o Brasil foram relatos de exploradores europeus. Destaca-se a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, narrando para o rei de Portugal a descoberta da nova terra e oferecendo uma descrição da natureza e dos povos indígenas que os portugueses primeiro conheceram. Depois dele uma multidão de colonizadores, viajantes, missionários, naturalistas e outros produziram relatos sobre o Brasil, que são fontes valiosas para a reconstrução da história brasileira, mas eles não tinham uma preocupação com a escrita histórica, ou ela é apenas um elemento secundário, estando mais interessados em analisar ou descrever a colônia no tempo presente, em seus aspectos administrativos, militares, religiosos, sociais, culturais, naturais e outros.Salgado, Tiago Santos. Teoria e Historiografia Brasileira. Universidade Católica de Pernambuco, 2003, pp. 38-55
Destaca-se no grupo dos escritores coloniais o frei Vicente do Salvador, com sua obra História do Brasil (1627), onde despontam os primeiros indícios da formação de uma consciência de diferença e brasilidade,Oliveira, Milena Fernandes de. Diálogos entre Caminha e Frei Vicente do Salvador. Mestrado. Unicamp, 2003, pp. 77-84 sendo considerada por vários estudiosos como o marco fundador da historiografia brasileira.Willeke, Venâncio, Frei. "Frei Vicente do Salvador: Pai da História do Brasil". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1967; 277:99-112Santos, Pedro Afonso Cristovão dos. "Um distinto bibliógrafo e bibliófilo: Capistrano de Abreu editor de documentos históricos". In: História, 2010, 29 (1): 418-441 Mollo, Helena. "Varnhagen e a história do Brasil". In: XXIII Simpósio Nacional de História da ANPUH. Londrina, 2005 Segundo Darcy Ribeiro, "o melhor testemunho daqueles tempos [o Brasil colonial] se deve a frei Vicente do Salvador, natural da Bahia. Foi o primeiro intelectual assumido como inteligência do povo nascente, capaz de olhar nosso mundo e os mundos dos outros com olhos nossos, solidário com nossa gente, sem dúvidas sobre nossa identidade, e até com a ponta de orgulho que corresponde a uma consciência crítica".Ribeiro, Darcy. O Povo Brasileiro. Companhia das Letras, 1995, p. 136 Contudo, o trabalho só circulou em manuscrito, teve escasso impacto em sua época e logo foi esquecido, sendo redescoberto somente em meados do século XIX e publicado em 1889.
Primeiras sistematizações
Uma organização sistemática da história nacional só começaria a partir da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838, estando intimamente ligada à formação da nação independente e ao surgimento de um sentimento nacionalista. O instituto foi criado a partir de uma ideia surgida na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, criada em 1827, de inspiração iluminista, e se propunha a incentivar o progresso e o desenvolvimento brasileiros com duas diretrizes centrais para seus trabalhos: a coleta e publicação de documentos relevantes para a história do Brasil e o incentivo de estudos de História no ensino público. Sua orientação era dirigida a uma interpretação da história brasileira baseada no papel civilizador e progressista do Estado, exercendo um importante papel homogeneizador das elites políticas e intelectuais, e contribuindo significativamente para o debate sobre as bases da organização social brasileira e para a formação dos mitos e do imaginário da nacionalidade.<ref name="guima">Guimarães, Manoel Luis Lima Salgado. "Nação e Civilização nos Trópicos: o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional". In: Revista Estudos Históricos, 1988; 1 (1)</ref> thumb|left|Atual sede do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Fortemente apoiado pelo Estado imperial, o IHGB reivindicava para si o papel de única instância legítima capaz de escrever a história do Brasil, produzindo uma "versão oficial" que dava um sentido para o passado e o monumentalizava, ajustando-se perfeitamente às aspirações do governo e da intelectualidade de definir e consolidar o Brasil como nação e dar-lhe uma identidade própria. No plano externo, a identidade nacional deveria se afastar das nações latinoamericanas, representadas como não civilizadas e bárbaras, e, no plano interno, valorizar a herança europeia. Segundo Luiz Carlos Bento, "em outras palavras, a construção de um ideal de nação e civilização nos trópicos passava por uma negação da realidade social brasileira, composta por uma minoria branca e masculina em meio a uma grande maioria de negros e índios". Dessa forma, a história escrita pelos sócios e colaboradores do IHGB era impregnada pelos valores de um grupo social aristocrático e escravocrata que via a si mesmo como o responsável por conduzir toda a sociedade pelo caminho do progresso e do desenvolvimento.Bento, Luiz Carlos. "História, memória e poder na história da historiografia brasileira". In: Revista Trilhas da História, 2016; 6 (11) — Dossiê Terra, Memória e Poder
Em 1840, o IHGB elaborou uma competição para estabelecer o melhor plano para a escrita da história do Brasil, e quem a ganhou foi o botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius. Sua monografia, intitulada "Como se deve escrever a história do Brasil", foi publicada na Revista do IHGB em 1845, e nela Von Martius sugeriu um guia para um projeto histórico capaz de garantir uma identidade ao Brasil. Para ele, a identidade brasileira deveria ser buscada no que mais singulariza o Brasil: a mescla de raças, mas enfatizou fortemente a contribuição portuguesa e subestimou a africana e a indígena. Sua interpretação exerceu influência sobre os historiadores posteriores e lançou os alicerces do mito da democracia racial brasileira.Barata, M. "A obra de Martius e a sua presença na cultura brasileira". In: II colóquio de estudos Teuto-brasileiros. Recife, UFPE, 1974.Vainfas, Ronaldo. "História Cultural e Historiografia Brasileira". In: História: Questões & Debates, 2009 (50): 217-235
thumb|215px|Francisco Adolfo de Varnhagen Francisco Adolfo de Varnhagen, dentro deste movimento, surge como o primeiro a escrever uma história brasileira em uma perspectiva abrangente, e sua principal obra, História Geral do Brasil (1854-1857), é vista como o marco fundador da historiografia nacional. Teve um importante papel no processo de coleta de documentos, sendo o iniciador da pesquisa metódica nos arquivos estrangeiros, onde encontrou e interpretou inúmeros documentos relativos ao Brasil.Reis, pp. 23-24 Grande defensor da colonização portuguesa, apreciava esta como um enorme feito que criava a possibilidade de sucesso para a recém criada nação brasileira.Dias, M. Odila. O fardo do homem branco - Southey, historiador do Brasil. São Paulo: Nacional, 1974 (coleção Brasiliana 344) Desprezava as sociedades indígenas como bárbaras, que somente poderiam ser redimidas pela obra beneficente do colonizador e do cristianismo, e não poderiam oferecer nenhuma contribuição para a construção de um futuro digno.Reis, p. 36 Seu pensamento historiográfico reflete o seu tempo e os círculos eruditos e cortesãos que frequentava, exibindo suas inclinações pessoais em favor da monarquia, do catolicismo e do nacionalismo, seu romantismo idealista, seu anti-indianismo, sua defesa da herança portuguesa, a contaminação das suas narrativas com a moral e a política, os limites imprecisos entre a reconstituição da história e sua reinvenção programática, mas apesar dos seus muitos preconceitos e limitações, seus trabalhos são notáveis pelo seu vulto, abrangência e importância em seu momento histórico.Santos, Evandro. "História e ficção: os princípios da representação em Alexandre Herculano e Francisco Adolfo de Varnhagen". In: História Unisinos, 2018; 22 (1)Cezar, Temístocles. "Varnhagen em movimento: breve antologia de uma existência". In: Topoi, 2007; 8 (15): 159-207 Para Temístocles Cezar, "mesmo para aqueles que não o apreciam (e não parece, nem ontem nem hoje, que sejam poucos) ele se converteu em uma figura incontornável para o entendimento da história no e do Brasil".
miniaturadaimagem|Capistrano de Abreu José Honório Rodrigues considera que Capistrano de Abreu produziu uma reviravolta na historiografia brasileira por sua posição teórica atualizada, seu conhecimento incomum dos fatos e seu novo ideal de história do Brasil.Reis, pp. 85-87 Capistrano constrói a sua interpretação do Brasil quando a Monarquia e a escravidão estavam em xeque, e se buscavam novas bases econômicas, sociais, políticas e mentais para o Brasil.Wehling, A. A invenção da história. Rio de Janeiro/Niterói, Gama Filho/UFF, 1994 Como diz Reis, "os intelectuais brasileiros do final do século XIX começaram a perceber a distância entre a realidade brasileira e o pensamento que eles próprios produziam". Tinham agora uma preocupação cientificista, em que Auguste Comte, Henry Thomas Buckle, Charles Darwin e Herbert Spencer serão as referências intelectuais predominantes.Ortiz. R. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985Reis, p. 90Chacon V. História das idéias sociológicas no Brasil. São Paulo, USP/Grijalbo, 1977 No período pós-Guerra do Paraguai, essa geração quer reinterpretar a história brasileira, privilegiando não mais o Estado imperial, como Varnhagen, mas o povo e a sua constituição étnica.Reis, p. 89 Capistrano nunca teria proposto uma explicação unilateral da história, mas sempre percebe a interdependência das diversas instâncias sociais.Campos, P. M. "Esboço da historiografia brasileira nos séculos XIX e XX". In: Glenisson, J. Iniciação aos estudos históricos. São Paulo: Difel, 1983 A obra de Capistrano, Capítulos de História Colonial (1907), começa realizando uma descrição geográfica do Brasil, o palco sobre o qual se desenrolará a história que vai narrar. A sua obra é um ponto de referência da recepção da concepção moderna de história, com seu ideal objetivista da verdade, apoiada em documentos inéditos, testemunhas oculares, autores identificados das fontes. Para ele, o distanciamento do historiador deve se dar quando manipula as fontes; em um segundo momento, quando se interpreta, o quadro teórico das ciências sociais orientará a pesquisa com suas leis e teorias.Araújo, R. B. "Ronda noturna: narrativa, crítica e verdade em Capistrano de Abreu". In: Estudos Históricos, 1988 (1)
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