A Grande Seca, ou a seca no Nordeste brasileiro de 1877–1879, foi o mais devastador fenômeno de seca da história do Brasil, ocorrido no período imperial brasileiro. A calamidade é responsável pela morte de entre e pessoas. De um total de pessoas que viviam na área afetada da região Nordeste, em torno de migraram para a Amazônia, enquanto migraram para outras partes do Brasil. A região mais afetada foi a província do Ceará. Foram três anos seguidos sem chuvas, sem colheita, sem plantio, com perda de rebanhos e com a fuga das famílias, deixando despovoado o sertão. Tanto esse evento de estiagem quanto anteriores e posteriores estão associados ao fenômeno El Niño e suas interferências diretas ao clima dessa e outras regiões.

Antes da Pandemia Mundial de COVID-19, era o maior desastre natural do Brasil por número de mortos.

Histórico O fenômeno El Niño interfere diretamente nas condições climáticas de determinadas regiões brasileiras. No Brasil a variação no volume de chuvas e/ou outras mudanças depende de cada região e da intensidade do fenômeno. Na Região Sudeste, há o aumento da temperatura média. Na Região Sul, aumento da temperatura média e da precipitação, principalmente na primavera e no período entre maio e julho. Já nas Regiões Nordeste e Norte, diminuição de chuvas causando secas no sertão nordestino e incêndios florestais na Amazônia; respectivamente. Historicamente, no Nordeste os registros de mudanças climáticas mostram-se ora mais brandos, ora mais críticos – não sendo estabelecido um padrão.

A população de certo modo foi pega de surpresa, já que a última grande seca ocorrida nas "províncias do Norte" havia sido há mais de 30 anos, entre 1844 e 1845. Nessa época, nada ou pouco pôde ser feito para amenizar suas consequências pela falta de recursos da engenharia. Na seca de 1877, até as famílias abastadas partiram em busca de refúgio junto a parentes que habitavam as serras e o litoral. Os adultos iam montados nos cavalos seguidos pelos carros e bois cheios de mulheres, crianças e bagagens, tendo na retaguarda os vaqueiros e os ajudantes conduzindo o que restara do gado. Os pobres seguiam a pé, na poeira das estradas, os adultos levando as crianças menores, puxando o que restava do rebanho de cabras ou vacas, o cachorro de estimação atrás. Esses eram chamados de retirantes ou flagelados, que eram perseguidos e expulsos quando estacionavam nas vizinhanças de um povoado.

Os moradores temiam os saques nos comércios e armazéns, como rotineiramente acontecia. As cidades, além dos vales férteis, ficavam apinhadas de flagelados. Aracati, que contava com cinco mil habitantes, passou a abrigar mais de 60 mil pessoas. Fortaleza converteu-se na capital do desespero: de 21 mil habitantes pelo censo de 1872, passou a ter 130 mil. Muitos dos retirantes morriam nas veredas e estradas. Os que alcançavam os centros urbanos chegavam à beira do colapso e impressionavam pela desnutrição.

A economia provincial, já abalada pela crise do algodão, quase acaba de vez. Escravos são vendidos para o sudeste; os rebanhos, salvo algumas cabeças conduzidas pelos retirantes, eram dizimados pela ação das zoonoses, furtos, extravios, fome e sede. A flora e fauna praticamente desaparecem; as lavouras exterminadas. Para agravar o quadro de tragédia, um surto de varíola dizima milhares de pessoas. Mulheres se prostituem em troca de comida, multiplicam-se os casos de roubo, furto e estupros.

Na seca de 1877, o Ceará – a região mais afetada das províncias do Norte – perdeu o equivalente a um terço de sua população: estima-se que 200 mil pessoas morreram e outras migraram para outras regiões.

Enquanto a população sofria com a estiagem e a escassez de água e alimentos, alguns setores beneficiaram-se com a seca, como algumas casas comerciais estrangeiras, a exemplo da Boris Frères, que comercializava artigos de primeira necessidade.

Causas e fatores contribuintes Fatores ambientais esquerda|miniatura|330x330px|O sertão brasileiro no Nordeste O Nordeste brasileiro é uma área onde o desenvolvimento político e social foi dificultado pelo ambiente hostil do sertão árido. Caracterizado pela presença de nove grandes rios, entre os quais o São Francisco e o Parnaíba, o sertão tem uma temperatura média anual entre 20 °C e 28 °C, com máxima de 40 °C. A pluviosidade da área é uma fonte de preocupação tanto para agricultores quanto para governos locais. Embora a precipitação média anual seja ligeiramente inferior a 1.000 mm, o período chuvoso, que geralmente dura apenas dois meses por ano, é instável. Por vezes, a precipitação cessa por um ano ou mais, causando secas regionais frequentes. Ocorrências sustentadas de disponibilidade de água abaixo da média podem acontecer em todas as áreas do país como consequência de taxas de precipitação anormalmente baixas e altas taxas de evaporação; mas é no Nordeste onde elas ocorrem com maior frequência. A Zona da Mata, que corre ao longo da costa nordestina e na qual se localizam as principais cidades, é um sub-bioma onde as chuvas são frequentes e a vegetação é abundante. Esta área não costuma sofrer com secas, mas a magnitude da Grande Seca foi tão grande que até a região litorânea foi impactada. Como os rios que fluem para a costa quase sempre têm sua origem no sertão, uma seca nas sub-regiões semiáridas e áridas pode se estender por toda a área nordestina. Antes do assentamento português no século XVI, não havia problemas prementes, pois o ecossistema predominante da caatinga estava adaptado ao clima cíclico. Grupos indígenas que habitavam a terra eram afetados por secas extremas, que os forçavam a se deslocar para a região costeira úmida, mas estas ocorriam raramente.

O Nordeste é fortemente influenciado pelo fenômeno El Niño (El Niño–Oscilação Sul) e pelas temperaturas da superfície do Oceano Atlântico. Anos de El Niño são caracterizados por chuvas abaixo da média na zona semiárida, que tipicamente apresenta média de 800 mm anuais, mas concentrada em um breve período de tempo, às vezes inferior a dois meses. Durante secas extremas, a precipitação pode diminuir em mais de 50%. Como consequência direta da variação nos padrões climáticos ao redor do mundo em 1877, partes do Ceará testemunharam apenas quatro dias de chuva, de 18 a 21 de março. Essas chuvas permitiram que as sementes germinassem, mas não foram suficientes para sustentar a agricultura e os rebanhos de gado. Grande parte da vegetação pereceu rapidamente.

A situação criada pela crescente migração humana para o interior do Nordeste tornou a terra mais vulnerável à seca. A ausência de água impacta primeiro a agricultura, mas também tem ramificações econômicas, sociais e ambientais. A seca é agora parte integrante do ambiente nordestino e vários episódios ao longo da história causaram sérios danos aos seus estados, embora sejam frequentemente esquecidos assim que passam. A produção agrícola e de pastagens volta ao normal, dando às pessoas uma breve sensação de segurança antes que a próxima seca chegue. Essa recorrência de eventos e estagnação comportamental foi denominada como o "ciclo hidro-ilógico" pelo Professor Donald Wilhite da Universidade de Nebraska–Lincoln.

miniatura|Crianças durante a seca, 1878|alt=|269x269px Na época da Grande Seca, a agricultura no Nordeste consistia principalmente de cana-de-açúcar, algodão e agricultura de subsistência. A prosperidade econômica do início do século XIX exigiu um aumento de terras aráveis, o que levou a mais erosão do solo e contribuiu para a catástrofe de 1877–79. Autoridades públicas e especialistas apontaram o rotinismo — a ideia de seguir cegamente a tradição sem buscar melhorias — como um problema que agravou os impactos da Grande Seca. Um exemplo de rotinismo é a forte dependência de monoculturas, nomeadamente cana-de-açúcar e algodão, o que acelera a erosão do solo. Outra instância é a falta de tentativa de comercializar a mandioca, que poderia fornecer renda adicional e diminuir a necessidade de uso da terra. Além disso, os sertanejos não podiam tirar proveito de sistemas de irrigação funcionais para armazenar e racionar água, devido tanto à falta de interesse do governo na região quanto ao desconhecimento agrícola por parte dos produtores. A monocultura intensiva e inadequada e a ausência de uma rede robusta de poços artesianos, barragens e reservatórios exacerbaram rapidamente os problemas criados pela seca.

Outra preocupação eram os vastos rebanhos de gado. Antes do boom do açúcar do século XVIII e início do XIX, os rebanhos eram encontrados predominantemente na zona da mata. Quando os produtores se mudaram para a costa, os rebanhos foram empurrados para o sertão que, como argumentou Kenneth Webb, “não é realmente muito bom para o gado”, mas foi adaptado para esse uso. A população bovina também aumentou de 1,2 milhão em 1860 para 2 milhões em 1876. Legislação foi introduzida para limitar o número de cabeças, mas foi amplamente ignorada pelos fazendeiros que dependiam dela como fonte vital de alimento. Muitos hectares de terra eram necessários para uma única vaca, e o sobrepastoreio levou facilmente a uma erosão cada vez mais rápida. Em 1877, quando as chuvas de inverno atrasaram, muito do gado e das plantações foram destruídos, o solo erodiu rapidamente e a terra tornou-se mais seca como consequência. Ironicamente, durante o estágio inicial da Grande Seca houve abundância de carne de sol, mas isso ocorreu apenas porque as pessoas estavam matando o gado antes que os animais se tornassem totalmente imprestáveis.

Clima social Na época da Grande Seca, a diferença regional entre o Nordeste e o Sudeste era um fator significativo no Império do Brasil e exacerbou o desastre ambiental. O Nordeste tinha sido o epicentro do boom econômico liderado pelo açúcar no século XVIII e também viu um aumento na produção de algodão, que se tornou uma das maiores exportações por volta de 1800. O Sudeste, por outro lado, desenvolvera-se mais recentemente, e a indústria cafeeira independente assumira o mercado, ditando as taxas de câmbio e superando a outrora fervilhante indústria do açúcar e a igualmente importante indústria do algodão do Nordeste.

alt=|miniatura|336x336px|Ferrovias no Brasil, século XIX Em 1870, a qualidade de vida no Nordeste era semelhante à da Região Sul e do Sudeste; entretanto, isso mudou muito rápido, pois a renda per capita no Nordeste caiu 30%, enquanto permaneceu praticamente inalterada no Sul. O desenvolvimento regional desigual no século XIX pode ser visto na valorização e desvalorização dos produtos nas duas regiões. No Ceará, o valor do produto per capita passou de £2,2 em 1872 para £0,8 em 1900, uma variação de -275%. Em São Paulo, o valor do produto per capita aumentou de £3,1 para £15,7, uma variação de +506% no mesmo período.

Na década de 1870, os estados do sul voltaram sua atenção para a imigração como solução para a indisponibilidade de mão de obra para sua economia em rápido crescimento. As elites exigiam que os migrantes fossem trazidos para o Sul não das províncias do Nordeste, mas de países europeus e asiáticos. As motivações por trás dessa preferência não são totalmente claras, mas Leff e Deutsch culpam as atitudes raciais por parte dos cafeicultores que consideravam os sertanejos como preguiçosos e menos produtivos.