A Manifestação de 6 de Junho de 1975, ou simplesmente o 6 de Junho, foi uma manifestação organizada pela lavoura micaelense, em Ponta Delgada, ligada a vários actos de terrorismo separatista, e que levou à demissão do Governador Civil António Borges Coutinho.

Organização da manifestação Os organizadores da manifestação foram os grandes proprietários e terratenentes de São Miguel, que conseguiram reunir uma manifestação de vários milhares de pessoas. Os principais motivos da manifestação foram as reivindicações da lavoura micaelense, onde se misturavam as reivindicações neo-fascistas separatistas, como reacção contra a inclinação política para a esquerda então verificada no Continente, e com o desejo de impedir a eventual aplicação de reformas progressistas em São Miguel, como a Lei do Arrendamento Rural mais justa, proposta pelo Governador Civil do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, o histórico antifascista António Borges Coutinho, e pelo Presidente da Junta Geral, Álvaro Soares de Melo, ambos militantes do M.D.P./C.D.E., ou mesmo de uma Reforma Agrária, que, neste caso, teria que ser uma iniciativa do Ministério da Agricultura. Segundo o escritor Daniel de Sá, a ideia da manifestação "Começou numa conversa de três amigos ricos ligados à lavoura. (Foi um deles que mo contou, há poucos anos, lembrando isso quase com pavor, dadas as consequências que poderia ter tido). A ideia era concentrar o máximo possível de manifestantes em frente ao palácio do governador do distrito (na altura o Dr. António Borges Coutinho). Os lavradores (como aqui se chama aos criadores de gado) protestariam a pedir o aumento do preço do leite e diminuição do custo das rações e dos adubos; os trabalhadores do campo exigiriam alfaias mais baratas e os adubos também; e mais uma ou outra reclamação do género./ A verdadeira finalidade da manifestação não era conhecida por mais do que umas poucas dezenas de pessoas. Havia um grupo de umas vinte, talvez, que se mantiveram juntas. A multidão foi-se exaltando cada vez mais nos seus protestos frente ao palácio do governo do distrito, de modo que repetia qualquer grito que fosse dado. A certa altura, quando julgaram conveniente, os tais cerca de vinte gritaram “independência!” E a multidão repetiu o grito várias vezes. Assim se criou o mito, a pouco e pouco arrefecido pelas sucessivas confissões que têm sido feitas, de que milhares de açorianos (micaelenses) exigiram a independência naquele dia 6 de Junho."Artigo de Daniel de Sá sobre a manifestação de 6 de Junho de 1975

A manifestação A manifestação fora proibida pelo Governador Civil, mas mesmo assim ocorreria. António Borges Coutinho receberia então uma delegação dos manifestantes para discutir as suas reivindicações. Na sua versão dos factos, quando se encontrava a discutir com os representantes, terá sido interrompido pelo Governador Militar, general Altino Pinto de Magalhães, que lhe terá afirmado que se deveria demitir de maneira a pôr fim à manifestação. O Governador Civil, sentindo-se desautorizado pelo Governador Militar, demitir-se-ia publicamente. Uma série de manifestantes, após a sua demissão, numa decisão muito provavelmente já tomada anteriormente, ocuparia a sede do Emissor Regional dos Açores, a sede dos Correios e bloquearia as pistas do Aeroporto de Ponta Delgada, actos claramente antidemocráticos e separatistas.

O Governador Militar ordenaria a prisão dos principais indivíduos alegadamente responsáveis por estes actos criminosos, resultando na detenção de 29 dos seus pretensos organizadores e participantes, na sua maior parte, ligados à extrema-direita fundiária e separatista e ao regime fascista, e enviados para Angra do Heroísmo. Apesar de, mais tarde, vários dos detidos terem assumido publicamente a participação nos actos subversivos, os seus processos acabariam por ser arquivados por falta de provas. O director do diário Açores, Gustavo Moura, antigo militante da Legião Portuguesa e da ANP, que de forma demagógica e fascizante, defendera a manifestação, numa editorial em que manifesta que o seu principal objectivo era o separatismo, seria também preso, por este motivo, mas não alvo de nenhum processo por abuso de liberdade de imprensa nem obrigado a demitir-se. O semanário O Açoriano Oriental, então dirigido por Luciano Mota Vieira, trataria de forma muito mais isenta a manifestação e a demissão do Governador Civil, recordando que este já a pedira anteriormente, após as eleições para a Assembleia Constituinte, devido à derrota clamorosa do MDP/CDE, sendo demovido pelo então ministro da Administração Interna, major António Arnão Metelo. Da restante imprensa de Ponta Delgada, o diário Correio dos Açores, com a mesma direcção do tempo do fascismo, composta pelos salazaristas Gaspar Henriques e Manuel Ferreira, tomaria o apoio da manifestação, enquanto o Diário dos Açores e o semanário A Ilha tomariam atitudes mais isentas em relação a esta. A generalidade da imprensa de Lisboa, dominada pela esquerda, condenaria inapelavelmente a manifestação.

O PS, o PCP, o MDP/CDE e o MES condenaram a manifestação, promovendo uma contra-manifestação patriótica na semana seguinte, em 16 de Junho. O PPD, apesar de ter sido o principal apoio da manifestação, também apoiaria a contra-manifestação, para se demarcar dos actos subversivos ligados a esta. De todos os partidos que tinham participado nas eleições para a Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1975 apenas o CDS não a quis apoiar.

O PS, segundo o seu comunicado oficial, referido no jornal A Capital, de Lisboa, de 12 de Junho de 1975, afasta-se "do carácter reaccionário que se pretendia imprimir à manifestação inoportuna e habilidosamente convocada por alguns lavradores micaelenses", apoiando "todas as medidas enérgicas adoptadas pelo M.F.A. no sentido de garantir a continuidade do processo revolucionário em S. Miguel, neutralizando a acção nefasta de grupos reaccionários minoritários que, traiçoeiramente, atentaram contra a soberania nacional." De salientar que o PS estava contra os Governadores Civis do MDP/CDE, nomeados por todo o país, mesmo assim, tendo condenado inteiramente a manifestação.

O MDP/CDE, por sua vez, pedia a "imediata e severa punição dos responsáveis pela manifestação e pelos vergonhosos desacatos que já há tempos se vinham a verificar e que se multiplicaram e intensificaram depois da manifestação do dia 6".

O PPD, que, através de alguns dos seus militantes mais destacados, como Américo Natalino de Viveiros, militante da extrema-direita do partido, estivera envolvido na organização da manifestação, segundo o seu comunicado oficial afirmava que: "O povo micaelense levou a efeito uma manifestação no dia 6 de Junho segundo cremos apenas com a intenção de reivindicar solução para uma série de problemas que se vinham arrastando sem que tivessem sido resolvidos pelas autoridades competentes". Sobre os objectivos da manifestação, sublinhavam que "só o oportunismo de grupos desvirtuou a pureza deste movimento de massas enxertam-se nelas e nelas colhem audiência o eco para palavras de ordem atentatórias da dignidade do povo português". O PPD afirma "não aos separatismos, conquanto se bata por um estatuto autónomo". Apela "para que o povo se mantenha atento às manobras de reacção, organizando vigilância popular e se não deixe jogar por interesses obscuros, sejam eles individuais ou de grupos, económicos ou políticos dos latifundiários e proprietários do distrito que mais não pretendem que conservar privilégios e manter a exploração do povo." Convém não esquecer que o PPD era então oficialmente um partido social-democrata do centro-esquerda e candidato à adesão à Internacional Socialista, sendo o seu líder nacional interino, na ausência por motivos de saúde de Francisco Sá Carneiro, o Prof. Emídio Guerreiro, uma das maiores personalidades da Oposição Democrática em Portugal. No entanto, em São Miguel, a situação era deveras dissemelhante, uma vez que o PPD, como o próprio João Bosco Mota Amaral o reconheceu, não tinha antecedentes democráticos de maior, sendo na prática um partido conservador e pós-fascista.José Andrade, Histórias do PPDA, Ponta Delgada, Edição PSD/Açores

O Governador Civil do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, Oldemiro Cardoso de Figueiredo, também militante do MDP/CDE, demitir-se-ia poucas semanas depois da manifestação, por solidariedade com Borges Coutinho.

A principal consequência directa da manifestação foi o incremento de actos de terrorismo, aos mais diversos níveis, sobretudo no período de Junho a Agosto de 1975. Vários militantes do MDP/CDE e do PCP foram obrigados a partir para o Continente em Agosto, incluindo Manuel Barbosa, então contando 69 anos. A notícia de deportação de militantes comunistas para o Continente foi notícia de primeira página do Diário de Notícias, então com uma direcção gonçalvista e servindo de porta-voz oficioso ao governo.

A mistificação em torno da manifestação Apesar de ambiente político então vivido no Continente ter significado, da parte do Poder Central e do MFA, a condenação inequívoca de uma manifestação promovida pela "reacção" micaelense, o Governo da República, então ainda presidido pelo general Vasco Gonçalves, determinaria a formação de uma Junta Regional dos Açores, que substituiu as administrações dos três distritos autónomas dos Açores. A criação da Junta Regional dos Açores fora proposta pelo "Grupo dos Onze", presidido pelo Governador Civil Borges Coutinho, em Janeiro de 1975, nada tendo certamente a dever à manifestação que, pela sua natureza reaccionária, em nada pode ter contribuído positivamente para o processo de autonomia, que seria discutido na Assembleia Constituinte. A única referência à manifestação sucedeu em 19 de Março de 1976 quando o deputado Vital Moreira (PCP) interpelou Américo Natalino de Viveiros (PPD), a propósito de declarações que este fizera a este respeito na imprensa de Ponta Delgada. Segundo a resposta de Natalino de Viveiros: "(...) a manifestação de 6 de Junho foi para pôr termo à ditadura que estava implantada nos Açores e que era feita pelo ex-governador Borges Coutinho, governando como um déspota (sic), sem respeito nenhum pela vontade popular, e foi por isso que essa manifestação se fez, e foi por isso também que houve as tais minorias a que eu me referi aí, que puderam manobrar o povo para o levar a tomar atitudes menos dignas e que não estavam no espírito dessas populações." Estas afirmações, apesar do PPD de São Miguel não ter feito qualquer campanha pela demissão do Governador Civil depois das eleições constituintes de 1975, motivariam uma réplica de Orlando Marques Pinto (MDP/CDE), que protestou contra os insultos proferidos, uma vez que Borges Coutinho fora "um resistente antifascista que pagou na cadeia longos tempos de prisão e de enxovalhos permanentes, enquanto eu não sei o que nessa altura faria o Sr. Deputado que fez essa afirmação."