A Controvérsia de Cambridge – as vezes chamada "a controvérsia do capital" ou "o debate das duas Cambridges" refere-se a um debate teórico e matemático durante a década de 1960 entre economistas relativo a natureza e papel de bens de capital e a critica da visão neoclássica dominante de produção e distribuição agregada. O nome surge por causa da localização dos principais envolvidos na controvérsia: o debate foi em grande parte entre economistas tais como Joan Robinson e Piero Sraffa na Universidade de Cambridge na Inglaterra e economistas tais como Paul Samuelson e Robert Solow no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge, Massachusetts. As duas escolas são frequentemente rotuladas "Sraffiana" ou "neo-Ricardiana" e "neoclássica", respectivamente.

A maior parte do debate é matemática, mas alguns dos elementos principais podem ser explicados em termos simples e como parte do 'problema da agregação'. Isso é, a critica da teoria neoclássica do capital pode ser resumida como dizendo que sofre da falácia da composição, ou seja., que não podemos simplesmente pular de concepções microeconômicas para um entendimento da produção pela sociedade como um todo. A resolução do debate, particularmente o quão amplas são suas implicações, não tem sido acordada pelos economistas.

Questões ideológicas Grande parte da emoção por trás do debate surgiu porque as críticas técnicas da teoria da produtividade marginal estavam conectadas a argumentos mais amplos com implicações ideológicas. O famoso economista neoclássico John Bates Clark viu a taxa de lucro de equilíbrio (a qual ajuda a determinar a renda dos donos de bens de capital) como um preço de mercado determinado pela tecnologia e as proporções relativas nas quais os "fatores de produção" são usados na produção. Assim como salários são a recompensa pelo trabalho que os trabalhadores fazem, lucros são a recompensa pelas contribuições produtivas do capital: assim, as operações normais do sistema sob condições competitivas pagam lucros aos donos de capital. Respondendo à "acusação que paira sobre a sociedade" que envolve "exploração do trabalho", Clark escreveu:

Estes lucros são, por sua vez, vistos como recompensas para a poupança, isto é, abstinência do consumo atual, a qual levou à criação de bens de capital. (Mais tarde, John Maynard Keynes e sua escola argumentaram que a poupança não automaticamente leva ao investimento em bens de capital tangíveis.) Assim, nesta visão, a renda de lucro é uma recompensa para aqueles que valorizam altamente a renda futura e estão assim dispostos a sacrificar o prazer atual. Estritamente falando, entretanto, a teoria neoclássica moderna não diz que a renda do capital ou do trabalho é "merecida" em algum sentido moral ou normativo. Mas apesar dos esforços ostensivos para separar economia positiva de normativa, o tom normativo aparece em muitos trabalhos econômicas de qualquer maneira.

Alguns membros da escola Marxiana argumentam que mesmo se os meios de produção "ganhassem" um retorno baseado em seus produtos marginais,isso não implica que seus donos (isto é, os capitalistas) criaram o produto marginal e devem ser recompensados. Na visão Sraffiana, a taxa de lucro não é um preço, e não é claro que ela é determinada em um mercado. Em particular, ela apenas reflete parcialmente a escassez dos meios de produção relativos à sua demanda. Enquanto os preços de diferentes tipos de meios de produção são preços,a taxa de lucro pode ser vista em termos Marxianos, como refletindo o poder social e econômico que possuir os meios de produção dá a esta minoria para explorar a maioria dos trabalhadores e receber lucro. Mas nem todos os seguidores de Sraffa interpretam sua teoria da produção e do capital But dessa forma Marxiana. Nem todos os Marxistas abraçam o modelo Sraffiano: na verdade, tais autores como Michael Lebowitz e Frank Roosevelt são altamente críticos das interpretações Sraffianas, exceto como uma crítica técnica estreita da visão neoclássica. Há também economistas Marxianos, como Michael Albert e Robin Hahnel, que consideram a teoria Sraffiana dos preços, salários e lucro ser superior a própria teoria de Marx.Robin Hahnel e Michael Albert, "Quiet Revolution in Welfare Economics", Princeton: Princeton University Press, 1990: p. 358.

O resto deste artigo diz respeito apenas a questões técnicas.

O problema da agregação

Em economia neoclássica, uma função de produção é frequentemente presumida, por exemplo,

onde Q é a saída (output), A é o fator representando a tecnologia, K é a soma do valor de bens de capital, e L é a entrada (input) de trabalho. O preço do output homogêneo é tomado como o numéraire, de modo que o valor de cada bem de capital é tomado como homogêneo com o output. Diferentes tipos de trabalho são presumidos reduzidos a uma unidade comum, geralmente mão de obra não qualificada. Ambas os inputs tem um impacto positivo no output, com retornos marginais decrescentes.

Em alguns modelos de equilíbrio geral mais complicados desenvolvidos pela escola neoclássica, trabalho e capital são presumidos como sendo heterogêneos e medidos em unidades físicas. Na maioria das versões da teoria neoclássica do crescimento (por exemplo, no modelo de crescimento de Solow),porém, a função é presumida a ser aplicada para toda a economia . Esta visão retrata uma economia como uma grande fábrica ao invés de como uma coleção de um grande número de locais de trabalho heterogêneos.

Esta visão produz uma proposição central nos livros de ensino da economia neoclássica, isto é, que a renda ganha por cada "fator de produção" (essencialmente,trabalho e "capital") é igual ao seu produto marginal. Assim, com mercados de produtos e insumos perfeitos, o salário (dividido pelo preço do produto) é alegado se igualar ao produto físico marginal do trabalho. Mais importante para a discussão aqui, a taxa de lucro (às vezes confundida com a taxa de juros, isto é,o custo do financiamento) é suposta se igualar ao produto físico marginal do capital. (Por simplicidade, abreviamos "bens de capital" como "capital".) Uma segunda proposição central é que uma mudança nos preços de um fator de produção levará a uma mudança no uso desse fator - um aumento na taxa de lucro (associada com quedas salariais) conduzirá a mais desse fator sendo usado na produção. A lei dos rendimentos marginais decrescentes implica que um maior uso deste insumo implicará um menor produto marginal, com todo o mais constante: uma vez que uma firma está recebendo menos da adição de uma unidade de bem de capital do que é recebido da anterior,a taxa de lucro deve aumentar para incentivar o emprego dessa unidade extra, assumindo maximização do lucro.

Piero Sraffa e Joan Robinson, cujos trabalhos desencadearam a controvérsia de Cambridge, apontaram que havia um problema de medição inerente em aplicar este modelo de distribuição de renda ao capital. A renda capitalista (lucro total ou renda da propriedade) é definida como a taxa de lucro multiplicada pela quantia de capital, mas a medição da "quantia de capital" envolve somar objetivos físicos bastante incomparáveis – adicionando o número de caminhões ao número de lasers, por exemplo. Isso é, assim como não se pode adicionar "maçãs e laranjas" heterogêneas, não podemos simplesmente somar unidades simples de "capital". Como Robinson argumentou, não há tal coisa como "leets", um elemento inerente de cada bem de capital que pode ser somado independente dos preços daqueles bens.

Uma apresentação Sraffiana

Economistas neoclássicos presumiram que não havia problema real aqui. Disseram: basta somar o valor do dinheiro de todos estes diferentes itens de capital para obter uma quantia agregada de capital (enquanto corrigindo os efeitos da inflação). Mas Sraffa assinalou que esta medida financeira da quantia de capital é determinada parcialmente pela taxa de lucro. Isto é um problema porque a teoria neoclássica nos diz que esta taxa de lucro é em si suposta ser determinada pela quantia de capital sendo usada. Há circularidade no argumento. Uma taxa de lucro em queda tem um efeito direto na quantia de capital; não simplesmente causa maior emprego dela.

Em termos muito simples, suponha que o capital atualmente consiste em 10 caminhões e 5 lasers. Caminhões são produzidas e vendidas por $ 50.000 cada, enquanto que cada laser sai por $ 30.000. Assim, o valor de nosso capital se iguala a soma de (preço)*(quantidade) = 10*$50.000 + 5*$30.000 = $650.000 = K .

Como notado, este K pode mudar se a taxa de lucro sobe. Para ver isto, defina o preço da produção para dois tipos de bens de capital. Para cada item, siga o tipo de regra de precificação usada pela economia neoclássica para itens produzidos, onde o preço é determinado pelos custos explícitos de produção:

P = (custo de trabalho por unidade) + (custo de capital por unidade)*(1 + r )

Aqui, P é o preço de um item e r é a taxa de lucro. Presuma que os donos das fábricas sejam recompensados recebendo renda proporcional ao capital que eles adiantaram para produção (com a proporção sendo determinada pela taxa de lucro). Presuma que o custo de trabalho por unidade se iguala a W em cada setor (e não muda). Ambos r e W são presumidos a serem igualados entre os setores devido a competição, isto é, a mobilidade de capital e trabalho entre setores.

Note que esta concepção Clássica de precificação é diferente da visão de "oferta e demanda" neoclássica padrão. Ela se refere à determinação de preço a longo prazo. Pode ser reconciliada com a economia neoclássica assumindo que a produção segue rendimentos constantes à escala.

Além disso,esta formulação não trata a taxa de lucro como um preço determinado pela oferta e demanda. Em vez disso, ela se encaixa mais com concepções neoclássicas de lucros "normais". Estas referem-se aos lucros básicos que os donos do capital devem receber para permanecer nos negócios em seu setor. Terceiro, enquanto a economia neoclássica presume que a taxa "normal"de lucro é determinada pela produção agregada (como discutido acima), esta formulação toma a taxa de lucro como dadas exógenamente. Isso porque toda a teoria neoclássica de determinação da taxa de lucro está sendo questionada: se podemos ir do produto marginal do capital para a taxa de lucro, deveríamos ser capazes de ir da taxa de lucro para o produto marginal. Em todo o caso, pouco se algum participantes na Controvérsia de Cambridge atacaram a critica Sraffiana por estes motivos.

Volte para a fórmula de precificação acima. Como no mundo real, a intensidade do capital de produção (custo de capital por unidade) difere-se entre os setores produzindo os tipos diferentes de bens de capital. Suponha que leve o dobro de capital por unidade de produto para produzir caminhões do que leva para para produzir lasers, de modo que o custo de capital por unidade iguala-se a $20.000 para caminhões(trucks) (T) e $10.000 para lasers (L), onde estes coeficientes são inicialmente presumidos não mudar. Então,

PT = W + $20.000*(1 + r )

PL = W + $10.000*(1 + r )

Se W = $10.000 e r = 1 = 100% (um caso extremo usado para tornar os cálculo óbvios), então PT = $50.000 e PL = $30.000, como presumido. Como acima, K = $650.000.

Agora, suponha que r cai a zero (outro caso extremo). Então, PT = $30.000 e PL = $20.000, de modo que o valor do capital iguala-se a 10*$30.000 + 5*$20.000 = $400.000. O valor de K varia, assim, com a taxa de lucro. Note que não varia em proporção como com uma inflação geral ou deflação que muda ambos os preços pela mesma porcentagem: o resultado exato depende da "intensidade de capital" relativa dos dois setores.

Este resultado não é mudado pelo fato de que para ambos os itens, o custo de capital por unidade mudaria como os dois preços mudam (ao contrário da suposição feita acima). Nem muda se a taxa salarial e o custo de trabalho por unidade (W ) mudar.