As missões religiosas no Estado do Maranhão e Grão-Pará consistiram nas ações de missionários católicos na região amazônica sob domínio do Império Português entre os séculos XVII e XVIII. Essas missões inseriam-se no contexto da Reconquista e da expansão ultramarina portuguesa durante as Grandes Navegações, quando a monarquia lusitana passou a se conceber como instrumento divino para a propagação da Cristandade e do Reino de Deus na Terra. O movimento missionário teve início com os franciscanos, financiados pela Coroa Portuguesa, e foi posteriormente ampliado com a atuação da Companhia de Jesus, cuja presença se tornaria determinante na formação e administração das aldeias indígenas e colégios na região.
O Estado do Maranhão e Grão-Pará e sua organização
A colonização do Estado do Maranhão ocorreu de forma mais tardia em relação ao Estado do Brasil, sendo o território subordinado diretamente à Corte portuguesa e não ao Governador-geral do Brasil. A relevância administrativa e eclesiástica do Estado consolidou-se com a criação do bispado do Maranhão em 1676 e, posteriormente, do bispado do Pará em 1719, ambos subordinados ao Patriarcado de Lisboa.
Inicialmente denominado Estado do Maranhão, foi criado em 13 de junho de 1621 por Filipe II de Portugal, abrangendo as capitanias reais do Maranhão, Grão-Pará, Gurupá e Ceará, além das capitanias privadas de Cumã, Caeté, Camutá e Cabo Norte. O Estado abrangia desde a Capitania do Ceará até o oeste amazônico, correspondendo, em grande parte, à atual Amazônia Legal.
Objetivos e métodos das missões As missões religiosas na Amazônia portuguesa não se restringiam à evangelização espiritual. Elas faziam parte de um projeto político e econômico voltado à integração dos povos indígenas à sociedade colonial portuguesa, por meio de um processo de "civilização" e disciplinamento. Os principais objetivos incluíam: a erradicação do nomadismo, com a fixação dos indígenas em aldeamentos que se transformariam em núcleos urbanos; o treinamento técnico para atividades agrícolas e ofícios manuais, criando uma mão de obra disciplinada; e a reforma dos costumes e da estrutura familiar, conforme o modelo da família cristã.
Além da conversão religiosa, as missões também serviam como instrumento de defesa territorial e de proteção dos interesses mercantis portugueses. A presença católica buscava impedir a influência de calvinistas franceses e protestantes ingleses, holandeses e irlandeses que, ao longo do litoral amazônico, tentavam conquistar alianças com povos indígenas locais.
Segundo Pablo Magalhães, os jesuítas eram vistos como agentes fundamentais na formação de alianças militares com as populações nativas.
miniaturadaimagem|250x250px|Igreja e Colégio de Santo Alexandre, na Feliz Lusitânia, em Belém, fundada no século XVII.
Poder temporal e conflitos Para viabilizar o projeto missionário, os religiosos exerceram o chamado poder temporal sobre os aldeamentos, administrando a vida civil e produtiva dos povos nativos. Essa autoridade deu origem a sucessivos conflitos com colonos e autoridades civis, que viam nos missionários um obstáculo à exploração direta da mão de obra indígena.A ordem da missão e os jogos da ação: conflitos, estratégias e armadilhas na Amazônia do século XVII, acesso em 12 de outubro de 2016.
Os primeiros missionários Os franciscanos da Província de Santo Antônio foram os primeiros missionários a chegar na Amazônia Portuguesa, seguidos por outras companhias/missões: jesuítas, carmelitas, mercedários e, capuchinos. Essas missões contavam com o apoio financeiro do Reino de Portugal, em contrapartida, as missões se faziam a conversão dos nativos e prestavam assistência intelectual e espiritual aos colonos.
Franciscanos no Pará em 1612 Em agosto 1614, após as tentativas frustradas de Luís Figueira de estabelecer missões no Estado do Maranhão sem apoio militar, e diante da necessidade da União Ibérica de afastar a presença francesa na região, Jerônimo de Albuquerque Maranhão lideraria uma expedição que partiria de Pernambuco. Não havia jesuítas na comitiva, a pedido do Governador-Geral Gaspar de Sousa foram designados para a jornada dois franciscanos capuchos da Província de Santo Antônio, os freis Cosme de São Damião e Manuel da Piedade.
Em meados de 1612, os primeiros capuchos se estabeleceram na região da Conquista do Pará. Alguns anos depois, em 22 de julho de 1617, quatro franciscanos se estabeleceram na Capitania do Pará, eram os Freis: Antônio da Merciana (superior), Cristovão de São José, Sebastião do Rosário e Filipe de São Boaventura.
Em 20 de junho de 1618, foi publicada uma Carta Régia do Rei Felipe II de Portugal, encarregando os franciscanos da Província de Santo Antônio da administração espiritual dos nativos no Estado do Maranhão.
Cristóvão de São José subiu o Rio Tocantins e em sua margem esquerda estabeleceu um aldeamento para os índios camutás, que seria denominado como Vila Viçosa de Santa Cruz de Camutá. Em 1635, Feliciano Coelho de Carvalho, foi nomeado como primeiro capitão-mor da Capitania de Camutá (atualmente corresponde ao município de CametáCametá, município do Pará, acesso em 04 de novembro de 2016..
Em agosto de 1624, chegaram os franciscanos que se estabeleceriam na região que atualmente corresponde ao Estado do Maranhão. Esses ocupavam os ofícios de Visitador Eclesiástico e de Comissário do Santo Ofício. Naquela ocasião, Frei Cristóvão Severim de Lisboa, trouxe consigo o Alvará de 15 de março de 1624, que além de confirmar aos franciscanos a administração espiritual dos índios do Norte da colônia portuguesa na América, entregava-lhes também a administração temporal, até então confiada aos colonos. Além disso, chegou acompanhado de dez franciscanos provenientes de Portugal e cinco do Convento de Olinda, que conheciam línguas nativas (língua tupi), dentre esses estavam: os freis Álvaro do Calvário e Francisco do Rosário.
Em 1630, os capuchos da Província de Santo Antônio abandonaram o papel que lhes fora confiado no governo dos aldeamentos de povos nativos no Estado do Maranhão e Grão-Pará, devido, em parte, a disputas com colonos decorrentes desse trabalho. Maior parte deles abandonaria a região em 1636Luís Figueira e a construção do projeto missionário jesuítico no Estado do Maranhão e Grão-Pará, acesso em 29 de outubro de 2016 .
Algumas Cartas de Frei Lisboa contém críticas aos jesuítas, o que revela um certo grau de rivalidade entre as congregações na épocaUma Arte Perdida nos Trópicos: a epistolografia jesuítica no Maranhão e Grão Pará (séculos XVII-XVIII), acesso em 07 de novembro de 2016. . Colégios e principais missionários jesuítas miniaturadaimagem|250x250px|Catedral de São Luís, antiga Igreja e Colégio dos Jesuítas, fundada pelo padre Luís Figueira. Entre as instituições fundadas pela Companhia de Jesus destacam-se: o Colégio Nossa Senhora da Luz, em São Luís, fundado em 1622, localizado no atual edifício da Catedral de São Luís do Maranhão;Igreja da Sé, São Luís, MA, acesso em 1º de novembro de 2016.Promessa que se tornou catedral de São Luís, acesso em 1º de novembro de 2016.O Colégio Máximo do Maranhão, acesso em 1º de novembro de 2016. e o Colégio Santo Alexandre, em Belém, também do século XVII.Antropónimos FIGUEIRA, Luís, S.J. (1574/6–1643), acesso em 1º de novembro de 2016.
miniaturadaimagem|Padre Luís Figueira, retratado por Cândido Portinari.
Entre os missionários mais influentes da região destacam-se: Luís Figueira (1574–1643) e Antônio Vieira (1608–1697), notáveis pela atuação catequética e produção intelectual; João Filipe Bettendorff, autor da Crônica dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão (1627–1698); Domingos de Araújo, autor da Crônica da Companhia de Jesus da Missão do Maranhão (1720);Crônica da Companhia de Jesus da Missão do Maranhão (1720), acesso em 11 de dezembro de 2016. José de Moraes, autor da História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (1759).Memórias para a história do extincto Estado do Maranhão cujo território compreende hoje as províncias do Maranhão, Piauí, Grão-Pará e Amazonas, acesso em 11 de dezembro de 2016.
miniaturadaimagem|351x351px|Padre António Vieira, jesuíta de destaque no Brasil Colônia, cuja obra teve ampla repercussão teológica e política.
Século XVII
Em 26 de julho de 1596, foi publicada uma Lei que concedia aos jesuítas a exclusividade na atividade de "descer" os povos nativos do "sertão" para instalá-los em aldeamentos estabelecidos no litoral.Synopsis Chronologica de Subsidios ainda os mais Raros para a Historia e Estudo Critico da Legislação Portugueza - Tomo II. Desde 1550 até 1603, p. 274 em The Ius Lusitaniae Database. Época em que a presença portuguesa a noroeste da Capitania do Rio Grande do Norte era inexistente, e os franceses estavam se estabelecendo na região (Feitoria da Ibiapaba). Entre 1603 e 1604, houve uma breve tentativa início de colonização, liderada por Pero Coelho de Sousa, mas que foi descontinuada.
No dia 20 de janeiro de 1607, os jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira partiram do Recife, em uma embarcação que ia buscar sal coletado nas salinas na foz do rio Mossoró, com o intuito de catequizar os nativos a oeste do Rio Grande do Norte. Os dois padres foram acompanhados por cerca de 60 indígenas. Em 2 de fevereiro do 1607, celebraram a primeira missa jesuíta na capitania do Ceará, na foz do Rio Jaguaribe.
Durante a viagem, estiveram em um aldeamento denominado como Paupina, que, atualmente, corresponde ao centro de Messejana.Padre Francisco Pinto pode ser canonizado, acesso em 06 de novembro de 2016. Os dois avançaram até a Chapada de Ibiapaba, chegando a habitar com os índios Tabajara. Em 11 de janeiro de 1608, o padre Francisco Pinto foi assassinado pelos índios Tocarijus, instigados pelos franceses que tinham mantinham contatos na região por meio da Feitoria da Ibiapaba. O martírio ocorreu, provavelmente, onde, atualmente, está localizado o Município de Carnaubal.Caravana celebrará martírio de jesuíta pioneiro no Ceará, acesso em 03 de novembro de 2016.
Em 30 de julho de 1609, o Rei Felipe II de Portugal determinou a liberdade dos povos nativos do BrasilCollecção Chronologica da Legislação Portugueza - 1603-1612 pp. 271 à 273 , acesso em 07 de outubro de 2016..
A análise de escritos de Luís Figueira, permite concluir que ele acreditava que os jesuítas teriam o dever de converter e conservar os povos nativos contra os abusos cometidos pelos colonos, sempre ávidos em obter a todo custo a mão-de-obra dos "negros da terra". Figueira acreditava que as agressões dos portugueses contra os nativos atrapalhavam a propagação do catolicismo entre os gentios. Trata-se da crença de por meio da preservação da liberdade dos povos nativos, juntamente com a a sua conversão, seria possível assegurar a expansão e a preservação da colonização portuguesa.
Em novembro de 1615, os padres Manuel Gomes e Diogo Nunes desembarcaram em São Luís e foram os primeiros jesuítas a se instalarem por um tempo considerável na região. Eles vieram como integrantes da Armada de Alexandre de Moura, que fora mandada como reforço para alcançar a vitória definitiva sobre os franceses de São Luís. Provavelmente eram importantes para fazer a ligação do comando de Alexandre de Moura com 70 nativos guerreiros arregimentados em aldeamentos dirigidos pelos jesuítas em Pernambuco.
Manuel Gomes e Diogo Nunes permaneceram em São Luís, visitando as aldeias e assistindo aos colonos, somente até até 10 março de 1618, quando deixaram a região, devido, em parte, a conflitos gerados por sua oposição à forma como os moradores da cidade tratavam os nativos.OS PRIMEIROS MISSIONÁRIOS E DESCOBRIDORES DO MARANHÃO, acesso em 04 de novembro de 2016.OS JESUÍTAS, acesso em 06 de novembro de 1611.
Sob a liderança de Luís Figueira em 1622
Em 1622, ocorreria o retorno dos jesuítas, com a chegada de Benedito Amodei e Luís Figueira.