O Políptico da Capela-mor da Sé de Lamego era um políptico de pinturas a óleo sobre madeira de castanho criado no período de 1506-1511 pelo pintor português do renascimento Vasco Fernandes (c. 1475-1542) e que decorava inicialmente a Capela Mor da Sé de Lamego, estando os cinco painéis sobreviventes actualmente no Museu de Lamego.
O grande Políptico da Capela-mor da Sé de Lamego foi encomendado pelo bispo de Lamego D. João de Madureira (1503-1511) a Vasco Fernandes, tendo para o efeito sido assinados dois contratos, o primeiro dos quais firmado em 4 de maio de 1506 e o segundo em 4 de setembro do mesmo ano, estipulando este que a obra deveria ser constituida por vinte painéis assim descritos: "dois painéis ao centro, figurando o de cima Deus Pai com o globo na mão e rodeado de anjos, e o de baixo, a Virgem, sentada, com o Menino ao colo; em três fileiras com três quadros de cada lado, cenas da Criação do Mundo, da Criação de Adão, Infância de Jesus, desde a Anunciação até à Apresentação no Templo". Com uma base iconográfica privilegiando a Criação Divina, inserida depois na Vida da Virgem e no Nascimento de Cristo, não tem paralelo na iconografia posterior.
O Políptico foi concluido em 1511 e manteve-se na Capela-mor da Sé de Lamego até que ali foram realizadas obras no séc. XVIII que levaram à sua desmontagem e desmembramento, tendo alguns painéis sido oferecidos a outras igrejas, e outros sido destruídos por serem então considerados como imorais. Restam assim os seguintes cinco painéis, que estão actualmente no Museu de Lamego: Criação dos Animais, Anunciação; Visitação; Circuncisão; Apresentação no Templo.
Para Pedro Dias e Vítor Serrão, o grandioso Políptico da Sé de Lamego é obra de acentuada influência neerlandesa, que irá diminuir à medida de novos influxos na fase de maturidade de Vasco Fernandes, mas já revelando os painéis sobreviventes deste Políptico a expressiva pujança dos tecidos, a frescura do colorido e sobretudo a largueza e finura do desenho.
Descrição O Políptico era constituido por vinte painéis, dois maiores ao centro, representando o de cima Deus Pai rodeado de anjos, e o de baixo, a Virgem e o Menino ao colo, e dezoito painéis colocados em três fileiras com três quadros de cada lado dos dois principais, com cenas da Criação do Mundo e da Criação de Adão, e da Infância de Jesus, desde a Anunciação até à Apresentação no Templo. Provavlemente por baixo dos dois painéis centrais estaria colocada um escultura policromada da Árvore de Jessé a envolver o Sacrário. No entanto, apenas se conhece que tenham chegado até ao presente os cinco painéis seguintes.Dias, Pedro e Serrão, Vítor (1986), História da Arte em Portugal, Lisboa, vol. 5 "O Manuelino", pág. 140.
Se a encomenda comprova o prestígio do ainda jovem Vasco Fernandes, na execução das pinturas notam-se colaborações desiguais a sugerir um trabalho de parceria. A documentação conhecida refere apenas outro pintor, o tomarense Fernão de Anes, que em Lamego se dedicou apenas ao estofo da marcenaria esculpida, pelo que a possível intervenção de colaborador flamengo permanece por confirmar.
Criação dos Animais
A Criação dos Animais é um dos painéis que constituia o Políptico da Capela-mor da Sé de Lamego, tendo sido criado por Grão Vasco, tal como os outros painéis do Políptico, no período entre 1506 e 1511. Tendo de altura 174 cm e de largura 92 cm, a obra representa o episódio bíblico da Criação dos Animais.
Este painel estava colocado na fila superior, composta, segundo a versão do Génesis, pelos seis dias da Criação, correspondendo ao sexto dia: "Deus fez, pois, os animais selvagens segundo as suas espécies, e os animais domésticos segundo as suas espécies, e todos os répteis da terra segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom" ().
O Padre Eterno aparece em primeiro plano, como figura vigorosa, ocupando grande espaço da cena, com os atributos de máxima majestade - a coroa imperial e o manto de um vermelho muito expressivo que parece em movimento. Contudo, Deus é figurado como um homem real, que poderia ser um serrano da região, mostrando o seu grande pé descalço assente na terra. Deus olha com amor, levantando as mãos à altura do peito em gesto de criação e benção. Depois, em primeiro plano, aparece um cavalinho branco, com as patas da frente flectidas. Ao lado, um pouco mais discretos, encontram-se um boi, um cordeiro, um lobo e um porco. Mais longe, num fundo de floresta, distinguem-se diversas aves e um veado, um elefante e um unicórnio.
Segundo Dalila Rodrigues (1992), a dinâmica e imponência da figura do Padre Eterno é acentuada pela coroa, pelo pé suspenso e pelo longo manto esvoaçante de um vermelho vivo, o que é realçado pela linha diagonal de composição. As formas vigorosas, apesar de alguns erros de desenho no cavalo em primeiro plano, a desenvoltura plástica na ocupação do espaço ou no desenho do manto, o extraordinário efeito luminoso do fundo, onde se recorta num tratamento delicado a vegetação, são aspectos reveladores dos recursos técnicos do jovem Vasco Fernandes, numa fase ainda precoce da sua longa actividade.Nota sobre a Criação dos Animais na Matriznet,
Já para Sant´Anna Dionísio, a Criação dos Animais é uma obra de estranha originalidade e consumada mestria, desde logo nas mãos do Padre Eterno, numa atitude solene, ou catalizante, de extrair com doçura do limbo dos Possíveis, as mais diversas formas de Ser. No primeiro plano, como estranha figura simbólica, destaca-se o cavalinho branco, quase dançante, formoso e ao mesmo tempo algo canhestro, parecendo querer ajoelhar (ou erguer-se) no instante em que sente o bafo vivificante vindo de cima, do céu azulado e dourado, da grande Madrugada do Mundo. Ao lado, mais discretamente, identificam-se outros seres como um boi, um cordeiro, um unicórnio, uma raposa, diversas aves. Na paisagem matutina recortam-se algumas árvores de macios tons crepusculares. Um precioso colorido ressalta nesta estranha sinfonia cromática dominada pelo equilíbrio entre a tonalidade de marfim do potro e o tom vermelho do manto do Espírito Criador que parece esvoaçar. Conclui Dionísio referindo que a observação deste formoso quadro é alimento de sobra para meia hora de deleitoso prazer artístico.Sant´Anna Dionísio, Guia de Portugal, 2ª ed., 5º Vol. Trás-os-Montes e Alto-Douro. II Lamego, Bragança e Miranda, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988
Anunciação
A Anunciação é um dos painéis que constituia o Políptico da Capela-mor da Sé de Lamego, tendo sido criado por Grão Vasco, tal como os outros painéis do Políptico, no período entre 1506 e 1511. Tendo de altura 173 cm e de largura 92 cm, a obra representa o episódio bíblico da Anunciação.
Em primeiro plano está a Virgem envolta num manto de vermelho vivo que escuta religiosamente o arcanjo Gabriel, que ajoelhado e segurando com a mão esquerda o ceptro de ouro, transmite a mensagem divina num pergaminho triplamente selado pela Santíssima Trindade. O arcanjo vinca o carácter sagrado da sua missão indicando com o braço direito a presença divina na forma da pomba do Espírito Santo. No pergaminho que o anjo Gabriel segura está inscrita a saudação: Ave Gratia Plena Dominus Tecum (Salve, Cheia de Graça, O Senhor é Contigo). Por sua vez, na orla do manto da Virgem está inscrito: Ecce Ancilla Domini Fiat Michi Secundum Verbum Tuum (Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra) ().
A cena decorre no interior de uma habitação repleta de objectos decorativos ou de uso quotidiano. No medalhão colocado na parede ao fundo, Eva segura a maçã com a mão esquerda, indicando com a mão direita a Virgem. Ainda na parede do fundo, na parte superior, surge a representação miniatural, em grisalha, de três personagens identificadas com temas do Antigo Testamento: o Profeta Ezequiel; Gedeão e o velo Probatório; e, muito provavelmente, Moisés e a Sarça ardente. À direita, junto do armário mural, num pequeno quadro, a figura do Padre Eterno. No chão, no centro da composição, surge um fogareiro, o que constitui um objeto elemento tipicamente português. Uma janela aberta, ao fundo do lado esquerdo, faz a ligação com o exterior, onde se vêem edificações de recorte flamengo.Nota sobre a Anunciação na Matriznet,
Para Sant´Anna Dionísio, na Anunciação, a mestria de Vasco Fernandes aproxima-se claramente do virtuosismo prodigioso dos retratistas da Flandres. Nesta pintura, a simplicidade e a ingenuidade integram-se de modo impecável na profusão e placidez das coisas inertes. Ambas as figuras vestem riquíssimas roupagens, no caso do Arcanjo um sumptuoso manto de brocado sobre uma túnica de tom de marfim e Maria um longo e amplo vestido carmezim que é uma obra prima de modéstia sumptuosa. As mãos do mensageiro são maravilhas de finura, tendo a que se ergue a delicadeza de um príncipe, e a outra, apoiada no pergaminho da mensagem - Ave gracia plena Dominum tecum - é tão estilizada que parece inverosímil. Conclui Dionísio referindo que a finura da figura de Maria, embora muito bela, não atinge a excepcional e tocante simplicidade da figura do Anjo, parecendo de outro artista, o que tem levado alguns a supor que na realização destes grandiosos painéis terá havido a participação de outros parceiros além do grande Vasco Fernandes.
Visitação
A Visitação é um dos painéis que constituia o Políptico da Capela-mor da Sé de Lamego, tendo sido criado por Vasco Fernandes, tal como os outros painéis do Políptico, no período entre 1506 e 1511. Tendo de altura 177 cm e de largura 93 cm, a obra representa o episódio bíblico do Visitação.
Representa o encontro bíblico da Virgem Maria e da sua prima Santa Isabel cujas figuras envoltas em largos mantos dominam o primeiro plano da cena que se prolonga por uma aprofundada paisagem. A paisagem é dominada por uma arquitetura de inspiração nórdica baseada numa técnica miniaturista notável que permite o aprofundamento do espaço. À esquerda, parece suspensa uma paisagem enquadrada por frondosa vegetação por onde um caminhante (São José?) conduz um jumento. As duas figuras femininas, situadas atrás da Virgem, são provavelmente uma alusão às suas virtudes: a Castidade e a Humildade. Dois anjos, voando no céu, são os elementos estritamente religiosos que completam a cena.
O colorido suave desta fase inicial da vida artística de Vasco Fernandes, que contrasta com os tons mais sombrios das últimas obras, liga-se a uma elegância das figuras e à mestria no desenho do cenário. Não são identificáveis erros de desenho e de perspetiva, e as figuras equilibram-se com sentido realista e idealizado. Além da preocupação à minúcia dos pormenores, e à figuração subtil, Vasco Fernandes revela-se nesta obra um excelente paisagista. O viajante e os dois anjos são elementos figurativos que conferem à cena um valor poético e a expressão religiosa.Nota sobre a Visitação na Matriznet,
Para Sant´Anna Dionísio, na Visitação, o encontro bíblico entre as duas santas mulheres tem a movimentação peculiar de uma fremente cena dramática. As amplas roupagens são sabiamente dispostas e empoladas. As mãos visíveis de Maria e Isabel são claras demonstrações da mestria que naquele tempo os pintores das grandes oficinas atingiam na execução destes elementos essenciais da figura humana. Por sua vez, as fisionomias das duas Mulheres transmitem uma estranha melancolia, parecendo uma visita mais de comiseração do que de discreta felicitação por ambas as gravideses.