Giselle Beiguelman (São Paulo/ SP, 1962) é artista, curadora e Professora Titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Pioneira no campo da arte digital e no uso da internet e da inteligência artificial, tem diversas obras premiadas internacionalmente. Entre essas obras, destacam-se: Botannica Tirannica (2022), Venenosas Nocivas e Suspeitas (2024), Odiolândia (2017), Cinema Lascado (2010) e O livro depois do livro (1999). Em 2021, foi premiada pela residência artística Intelligent Museum do ZKM (Center for Art and Media Karlsruhe, Alemanha), Hertz-Lab e Deutsches Museum com pesquisa sobre Inteligência Artificial e colonialismo em parceria com o artista e pesquisador Bruno Moreschi e com o programador Bernardo Fontes. Recebeu também vários prêmios pela realização do projeto demonumenta, como o Latin American Design Award (2023, com Luis Felipe Abbud). É autora de Memória da Amnésia: políticas do esquecimento (Edições Sesc, 2019) e Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera (UBU Editora, 2021. 2a ed. 2023). e co-autora de Boundary Images (University of Minnesota Press, 2023).
Seu trabalho inclui intervenções em espaços públicos, instalações multimídia, projetos em rede e aplicações para dispositivos móveis, exibidos nos principais museus de arte e mídia, centros de pesquisa e espaços de arte contemporânea, como ZKM (Karlsruhe, Alemanha), Gallery@Calit2 (UCSD, EUA) e Bienal de São Paulo. Autora de centenas de artigos e livros sobre cultura digital, vários de seus projetos e ensaios integram o currículo de graduação e pós-graduação de universidades e centros de pesquisa no Brasil, EUA e Europa e o acervo de importantes museus, como ZKM (Center for Art and Media Karlsruhe, Alemanha), Jewish Museum Berlin, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), MAC-USP, entre outros.
Biografia Graduada em História pela FFLCH da Universidade de São Paulo (USP, 1984), concluiu o doutorado com a tese A República de Hemingway: Por Quem os Sinos Dobram em 1991, também pela Universidade de São Paulo. Com sólida formação em humanidades, trabalha com criação e desenvolvimento de aplicações digitais desde 1994. Na década de 1990, integrou as equipes de implantação dos portais UOL e BOL e realizou pesquisa como bolsista da prestigiosa Fundação Vitae, com projeto na área de literatura e novas mídias. Esse projeto resultou no seu premiado trabalho O livro depois de livro (The Book after the Book).
Esse e outros projetos artísticos de sua autoria, acompanhados sempre de sólida pesquisa teórica, vêm lhe proporcionando participações em numerosos eventos acadêmicos e exposições de arte e cultura digital, no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Foram apresentados em exposições como Net_Condition, no Zentrum für Kunst und Medientechnologie (ZKM), Karlsruhe (1999); núcleo Net Art Brasil da 25ª Bienal de São Paulo (2002), com a obra Ceci n’est pas un Nike -- hoje no acervo do MAC-USP--; (re)distributions (voyd.com/ia); el final del eclipse (Fundación Telefonica, Madri e América Latina, 2001-03); Algorithmic Revolution (ZKM, Karlsruhe, 2004-08); arte.mov (Galeria da Vivo, São Paulo, 2012); e no NETescópio, arquivo de web arte do Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo (MEIAC), em Badajoz, Espanha.
Ela aparece em antologias e obras de referência sobre arte digital como Yale University Library Research Guide for Mass Media e Digital Arts, entre outras. Como docente, entre 2001 e 2011, trabalhou no programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. Desde 2011 é professora do curso de Design da FAUUSP. Orientadora de uma nova geração de críticos e artistas dedicados à tecnologia e à cultura digital, é autora e organizadora de diversos livros sobre o tema, como Link-se (2005), O livro depois do livro (2003), Nomadismos tecnológicos (com Jorge La Ferla, 2011) e _HTTPpix _HTTPvideo: Criação e crítica nas redes de imagens (2011). Organizou festivais de arte digital e web arte, além de ter atuado como membro do comitê científico do International Symposium on Electronic Arts (ISEA) nas edições de Paris, Nagoya, Dortmund, Albuquerque e Manizales e do júri do festival Ars Electronica (Linz, Áustria) em 2010 e 2011.
Em seu currículo de curadora, figuram, entre outros, a exposição Tecnofagias (3ª Mostra 3M de Arte Digital, Instituto Tomie Ohtake, 2012), bem como a curadoria e a diretoria artística do Instituto Sérgio Motta (2008-2010). Foi editora-chefe da revista seLecT (2011 a 2014) e editora da seção Novo Mundo da revista Trópico, de 2001 a 2010.
Trabalhou por 10 anos, como pesquisadora, no extinto Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo, de 1985 a 1995. Remontam a essa época os primeiros estudos sobre os impactos da tecnologia no imaginário e nas formas de sociabilidade urbana. Em paralelo, Giselle dedicou-se às relações entre comunicação de massas e a criação artística, que, posteriormente, no fim dos anos 1990, desembocaram em projetos que operam nas intersecções entre arte, comunicação e espaços urbanos e informacionais. Isso se refletiu em sua tese de doutorado – que abordava a relação entre literatura e comunicação de massas na obra antifascista de Ernest Hemingway, durante a Guerra Civil Espanhola – e em uma série de artigos, papers, apresentações em congressos e em livros publicados entre 1985 e 2000, que discutiam as relações entre tecnologia e e criação cultural.
Nesse período teve como produções significativas e relacionadas a essas reflexões do início de sua vida profissional, por exemplo, os ensaios “Uma Cidade em Guerra” e “Acidentes de Bonde em São Paulo (1900-1905)”, publicados, respectivamente, nos Cadernos de História & Energia (no 4, 1987, p. 76-89) e na Revista Memória (no 19, 1993, p. 69-73). O primeiro, “Uma Cidade em Guerra”, explorava o cotidiano da cidade de São Paulo durante a Revolução de 1924. O outro, “Acidentes de Bonde em São Paulo”, discutia a historicidade da percepção do fenômeno da velocidade e o impacto da tecnologia maquínica no cotidiano paulistano no início do século XX.
Apesar da continuidade das linhas gerais de investigação, do ponto de vista das áreas de interesse e das atividades a elas relacionadas, vários redirecionamentos ocorreram, fruto de um maior envolvimento de Giselle com a produção midiática e mais especificamente com Internet e dispositivos móveis (notadamente, celulares). Isso se deu a partir de 1995, quando foi convidada a integrar a equipe responsável pela implantação do Universo Online (UOL), onde trabalhou até 1998. Essa vertente de pesquisa e criação foi dominante em sua produção entre 1995 e 2010. Destacam-se, nesse período, projetos internacionalmente reconhecidos como O livro depois do livro (1999), egoscópio (2002), Poetrica (2003/2004), Sometimes Always/ Sometimes Never (2005-2007) e Glitched Landscapes (2013).
Nos últimos anos, depois que passou a lecionar na FAUUSP, aprovada em concurso público realizado em 2010, volta-se, novamente às pesquisas relacionadas à tecnologia, arte e imaginário. O enfoque principal são estudos sobre o estatuto da memória no século XXI às estéticas contemporâneas da memória, estratégias de conservação e preservação de arte digital e metodologias de organização da informação relacionadas ao design de interface.
Nesse conjunto de atividades relacionadas às pesquisas em torno da tecnologia e imaginário, nota-se o foco na conservação e preservação de arte digital , a partir da apresentação do projeto Futuros possíveis: arte, museus e arquivos digitais, coordenado por Giselle Beiguelman e pela Professora Ana Gonçalves Magalhães (MAC-USP). Iniciado como um simpósio internacional (2012), realizado em parceria com o Ars Electronica (Linz, Áustria), com apoio da Fapesp, da Capes, da FAU e da embaixada da Áustria no Brasil, reuniu especialistas de renome internacional para discutir temas emergentes no campo da preservação do patrimônio artístico e cultural. Posteriormente, em 2014, os textos do simpósio foram reunidos no livro Futuros Possíveis: arte, museus e arquivos digitais (edição bilíngue, português e inglês), publicado pela editora Peirópolis em coedição com a Edusp e o Itaú Cultural e apoio da Fapesp.
No campo da produção artística, foi responsável pela curadoria de Arquinterface: a cidade expandida pelas redes (Galeria de arte digital do Sesi) e pela intervenção urbana Os #QR-Comms (2015) e organizou a exposição Memória da Amnésia, Arquivo Municipal (São Paulo, 2015), na qual abordou o que denomina “políticas do esquecimento” a partir dos monumentos paulistanos. Em 2016, realizou as exposições individuais Cinema Lascado, Caixa Cultural (São Paulo) e Quanto Pesa um Nuvem? (Galpão Videobrasil). Outra individual de destaque foi Monumento Nenhum e Chacina da Luz, realizadas no Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos (Museu da Cidade de São Paulo, 2019).
A partir de 2020, passa a se dedicar à investigações sobre a construção do imaginário colonialista nas artes e nas ciências utilizando recursos de Inteligência Artificial, como nas obras Botannica Tirannica (2022) e Venenosas, Nocivas e Suspeitas (2024).
Principais obras artísticas
Venenosas, Nocivas e Suspeitas (2024). Instalação de arte botânica e inteligência artificial. Centro Cultural Fiesp. Domingo no Golpe (2024). Com Lucas Bambozzi. Botannica Tirannica (2022). Instalação de arte botânica e inteligência artificial. Museu Judaico de São Paulo, 3a Bienal de Karachi, Museu Sartorio (Trieste, Itália), Sesc Taubaté, Koffler Arts Centre (Toronto). Ditamapa e Postais do Atraso (2021) - Net art. Em parceria com o artista e programador Andrey Koens. nhonhô (2021) - Documentário experimental para o Videobrasil Online, Associação Cultural Videobrasil. Em parceria com o artista Ilê Sartuzi. We Are Still Alive (Ainda Estamos Vivos) (2020). Mapeamento sonoro coletivo para Bienal de Imagem em Movimento de Buenos Aires 2020. Parte do projeto Janelas Desobedientes, desenvolvido na disciplina Arte e Design de Interface em Escala Urbana (PPG-DE / FAUUSP). Gavetas de Ossos (2019) - Ensaio fotográfico e narrativa sonora. Obra comissionada para a exposição Meta-arquivo (1964-1985), Sesc Belenzinho, com curadoria de Ana Pato. Coronário (2020) - Net Art. Obra comissionada pelo programa IMS Convida, Instituto Moreira Salles. Monumento Nenhum e Chacina da Luz - instalações Odiolândia (2017) - Videoinstalação Quanto pesa uma nuvem? (2016) - Instalação multimídia Deserto Rosso (2016) - Fotografia Paisagens Ruidosas (2016) - Fotografia Memória da Amnésia (2015) - Intervenção urbana / Instalação - Os #QR-Comms (2015) - Intervenção Urbana - #CidadESpelhadas | mirrored_cities (2015) - Trabalho fotográfico / Net art. Beleza Convulsiva Tropical: 3a Bienal da Bahia (2014).Especial do programa Soterópolis, produzido pelo Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia Cinema sem Volta/ Unlooping Film (2014) - Net art. I Lv Yr GIF (2013) - WebApp (iPad and iPhone).Apresentação da obra e entrevista. Catálogo da exposição Three Junctures of Remix. (Gallery @ Calit2. UCSD, San Diego, 2013) URnotHere (2012) - Instalação interativa/ Cinema Lascado #1 (Chipped Movies #1): Minhocão (2010) - Vídeo/ Acervo MAC-USPEntrevista com a artista e vídeo da instalação. Guia da Folha, 19 de janeiro de 2011. CGH-SDU: Homage to the Minimal Information (2010) - Vídeo Suite 4 Mobile Tags (2009) - Mobile art/ Instalação interativa Fast/Slow_Scapes (2007) - Mobile vídeo Landscape0 (2002)- Net art - //**Code_UP (2004) - Instalação interativa / mobile art.Harpold, Terry. Ex-foliations: Reading Machines and the Upgrade Path. University of Minnesota Press, 2008, p. 107-108.Tolve, Antonello e Viola, Eugenio. Disegni Critici. Salerno, Plectica, p. 31-49 Sometimes Always Sometimes Never Sometimes (2005-2007) - Instalação audiovisual interativa / Acervo ZKM.Paul, Christiane. Digital Arts. 2nd Edition. Londres, Routledge, 2008. Capa e p. 224.