thumb|direita|upright=1.5|Mapa do Lácio e das principais cidades da Liga Latina em amarelo. À direta do Tibre, a Etrúria, com suas principais cidades marcadas em verde. Em branco, as cidades dos hérnicos e sabinos. As guerras romano-latinas foram uma série de guerras gravadas entre a Roma Antiga (incluindo tanto o Reino de Roma quanto a República Romana) e as tribos latinas, dos primeiros anos da história de Roma até a subjugação final dos latinos a Roma depois da Segunda Guerra Latina.
Primeira guerra contra Roma Os latinos foram a guerra contra Roma pela primeira vez no século VII a.C. durante o reinado de Anco Márcio. Segundo Lívio, a guerra foi iniciada pelos latinos, que supuseram que Anco seguiria o caminho piedoso da paz adotado pelo seu avô, Numa Pompílio, e invadiram o território romano. Quando uma embaixada romana tentou conseguir a justa recompensa pelos danos causados, a resposta dos latinos foi desrespeitosa e Anco declarou guerra, um feito notável, pois, segundo Lívio, foi a primeira vez que os romanos declaram guerra através dos rituais sagrados dos feciais.Lívio, Ab Urbe Condita, I, 32
Anco marchou de Roma com um exército recém-reunido e tomou a cidade latina de Politório. Seus residentes foram removidos e reassentados no monte Aventino, em Roma, como novos cidadãos romanos, seguindo a mesma tradição utilizada com os sabinos e albanos. Quando outros latinos ocuparam a cidade esvaziada, Anco tomou-a novamente e a demoliu.Lívio, Ab Urbe Condita, I, 33 Mais habitantes latinos foram levados a Roma quando Anco conquistou as cidades latinas de Telleni e Ficana.
A guerra então passou para a cidade latina de Medúlia, que tinha uma forte guarnição e era bem fortificada. Diversos combates foram realizados fora da cidade e os romanos acabaram vencedores. Anco retornou a Roma com muitos espólios e mais latinos para serem habitantes da cidade, todos assentados no sopé do Aventino, perto do monte Palatino, perto do Templo de Múrcia.
Guerra contra Roma na época de Tarquínio Prisco thumb|direita|upright=1.5|Mapa da vizinhança de Roma na época do Reino de Roma. Quando Roma era governada por Tarquínio Prisco (r. 616–579 a.C.), os latinos foram a guerra contra Roma em duas ocasiões. Na primeira, que, segundo os Fastos Triunfais, ocorreu antes de 588 a.C., Tarquínio tomou a cidade latina de Apiolas e trouxe para Roma uma grande quantidade de espólios.Lívio, Ab Urbe Condita, I, 35 Na segunda, Tarquínio submeteu todo o Lácio e tomou diversas cidades latinas ou que se aliaram a eles: Cornículo, Ficuleia, Caméria, Crustumério, Ameríola, Medúlia e Nomento, antes de concordar com a paz.Lívio, Ab Urbe Condita, I, 38
Guerra entre Clúsio e Arícia Em 508 a.C., Lars Porsena, rei de Clúsio, na época considerada a mais poderosa cidade da Etrúria, partiu de Roma depois de encerrar sua guerra contra Roma com um tratado de paz. Porsena dividiu suas forças e enviou parte do exército clúsio com seu filho Aruns para cercar a cidade latina de Arícia. Os aricianos pediram ajuda da Liga Latina e também da cidade grega de Cumas. Quando a ajuda chegou, o exército ariciano saiu da muralha e os exércitos combinados enfrentaram as forças clúsias em combate. Segundo Lívio, os clúsios inicialmente arrasaram os aricianos, mas as tropas cumanas permitiram o avanço clúsio e depois os atacaram pela retaguarda, conseguindo a vitória. Segundo Lívio, o exército clúsio foi destruído.Lívio, Ab Urbe Condita, II, 14
Revolta Pomécia Em 503 a.C., duas cidades latinas, Pomécia e Cora, que, segundo Lívio, eram colônias romanas, se revoltaram e pediram ajuda da tribo dos auruncos meridionais.
Lívio afirma que o exército romano, liderado pelos cônsules Agripa Menênio Lanato e Públio Postúmio Tuberto, encontrou o inimigo na fronteira e foi vitorioso. Depois da vitória, Lívio afirma que a guerra ficou confinada a Pomécio e muitos prisioneiros foram assassinados por ambos os lados.Lívio, Ab Urbe Condita, II, 16 Lívio também conta que os cônsules celebraram um triunfo, mas os Fastos Triunfais registram apenas uma ovação de Postúmio e um triunfo de Menênio, ambos sobre os sabinos.
No ano seguinte, os cônsules eram Opítero Vergínio e Espúrio Cássio. Lívio afirma que eles tentaram tomar Pomécia de assalto, mas, depois do fracasso, decidiram empregar armas de cerco. Porém, os auruncos lançaram um ataque vitorioso e conseguiram destruí-las, ferindo muitos e quase matando um dos cônsules. Os romanos recuaram para Roma, recrutaram mais legionários e retornaram a Pomécia. As armas de cerco foram reconstruídas e, quando os romanos estavam prestes a tomar a cidade, Pomécia se rendeu. Os líderes auruncos foram decapitados, os pomécios foram vendidos como escravos, a cidade foi arrasada e suas terras foram vendidas. Lívio afirma que os cônsules celebraram um triunfo por esta vitória,Lívio, Ab Urbe Condita, II, 17 mas os Fastos Triunfais só registram um triunfo, por Cássio (possivelmente sobre os sabinos, mas a inscrição é pouco clara).
Primeira Guerra Latina ()
Em 501 a.C., notícias chegaram a Roma de que trinta das cidades latinas haviam se associado contra Roma instigadas por Otávio Mamílio, de Túsculo. Por causa disto (e também por causa de uma disputa com os sabinos), Tito Lárcio foi nomeado o primeiro ditador, com Espúrio Cássio como seu mestre da cavalaria.Lívio, Ab Urbe Condita, II, 18
Porém, a guerra contra os latinos não ocorreu até pelo menos dois anos depois. Em 499 a.C., ou, possivelmente, 496 a.C., a guerra irrompeu. Fidenas foi cercada (não se sabe exatamente por quem), Crustumério foi capturada (também não se sabe por quem) e Preneste desertou para os romanos. Aulo Postúmio foi nomeado ditador e escolheu Tito Ebúcio Helva como seu mestre da cavalaria. À frente dos exércitos romanos, os dois marcharam para o território latino e foram vitoriosos na Batalha do Lago Régilo.Lívio, Ab Urbe Condita, II, 19–20
Logo depois, em 495 a.C., os latinos resistiram aos pedidos dos volscos para que se juntassem a eles num ataque a Roma e chegaram a ponto de entregar os embaixadores volscos aos romanos. O Senado Romano, agradecido, libertou prisioneiros latinos e, em retorno, os latinos enviaram uma coroa de ouro para o Templo de Júpiter Ótimo Máximo. Uma grande multidão se juntou, incluindo os prisioneiros latinos recém-libertados, que agradeceram aos seus antigos captores. Diz-se que grandes laços de amizade surgiram entre Roma e os latinos por causa deste evento. Os latinos também avisaram Roma da invasão que ocorreu pouco depois, ainda no mesmo ano.Lívio, Ab Urbe Condita, II, 22, 24
Em 493 a.C., um tratado, o Foedus Cassianum, foi firmado estabelecendo uma aliança militar mútua entre as cidades latinas com Roma como parceiro sênior. Um povo menor, os hérnicos, se juntaram algum tempo depois. Embora não se conheça o funcionamento exato da Liga Latina, seu propósito geral é bem conhecido. Durante o século V a.C., os latinos foram ameaçados por invasões de équos e volscos, que eram membros de um mesmo grupo sabélio que migraram para o sul desde os Apeninos. Diversas comunidades parecem ter sido conquistadas e as antigas fontes relatam lutas contra os équos, os volscos, ou ambos todos os anos da primeira metade do século V a.C. Estas guerras anuais eram pouco mais do raides e contra-raides e não guerras campais com as descritas anteriormente nas fontes.
Deserção dos latinos (389–385 a.C.) thumb|direita|upright=1.5|Guerras romnano-latinas de 389-385 a.C. Narrativa antiga Em 390 a.C., um bando gaulês derrotou o exército romano na Batalha do Ália e saqueou Roma. Segundo Lívio, latinos e hérnicos, depois de cem anos de leal amizade com Roma, aproveitaram-se da oportunidade para romperem a aliança com os romanos (389 a.C.).Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 2.3–4Plutarco, Vidas Paralelas, Camillus XXXIII.1 (que não menciona os hérnicos) Em sua narrativa dos anos seguintes, Lívio descreve uma constante deterioração das relações entre romanos e latinos. Em 387 a.C., a situação com os latinos e os hérnicos foi levada ao Senado Romano, mas o assunto foi esquecido quando notícias chegaram de que a Etrúria estava se armando para a guerra.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 6.2–3 No ano seguinte, Âncio invadiu o território romano e relatou-se em Roma que os latinos haviam enviado guerreiros para apoiá-los. Os latinos alegaram que não enviaram, mas também não proibiram seus habitantes de se voluntariarem como mercenários.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 6.4–5 Um exército romano liderado por Marco Fúrio Camilo e Públio Valério Potito Publícola e encontrou os ancianos em Sátrico. Além dos volscos, os ancianos também tinham entre suas forças um grande número de latinos e hérnicos.Lívio, Ab Urbe Condita, VII, 7.1 Na batalha que se seguiu, os romanos foram vitoriosos e os volscos foram mortos em grandes números depois de abandonados pelos latinos e hérnicos. Sátrico foi tomada por Camilo.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 8.4–10 Os romanos exigiram saber de seus antigos aliados se eles haviam enviado contingentes para as guerras contra os romanos nos últimos anos. Eles alegaram que não, pois temiam uma invasão dos volscos. O Senado Romano considerou a defesa insuficiente, mas a época não era propícia para mais uma nova guerra.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 10.6–9 Em 385 a.C., os romanos nomearam Aulo Cornélio Cosso ditador para acabar com a guerra contra os volscos.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 11.9
Cosso marchou com seu exército e encontrou novamente o exército inimigo repleto de latinos e hérnicos, incluindo contingentes das colônias romanas de Circei e Velitras, e, na batalha, os romanos venceram novamente.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 12.1 A maioria dos prisioneiros eram hérnicos e latinos, incluindo nobres, o que os romanos consideraram como prova de que a ajuda aos volscos era uma iniciativa estatal.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 12.6–11 & VI, 13.1–8 Porém, a sedição de Marco Mânlio Capitolino evitou que Roma declarasse guerra aos latinos naquele momento.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 14.1 Quando latinos, hérnicos e os colonos de Circei e Velitras tentaram persuadir os romanos a libertarem seus conterrâneos prisioneiros, não tiveram sucesso.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 17.7–8 Naquele mesmo ano, Sátrico foi colonizada por cidadãos romanos, cada um recebendo 2,5 jugera de terras.Lívio, Ab Urbe Condita, VI, 15.2
Análise moderna Alguns historiadores modernos questionaram a representação de Lívio dos latinos se rebelando contra Roma. Cornell (1995) acredita que não houve revolta armada e sim que a aliança entre Roma e as cidades latinas tenha sido propositalmente abandonada. Nas décadas anteriores, Roma havia aumentado consideravelmente seu poder, especialmente depois da conquista de Veios e os romanos passaram a preferir a liberdade de ação ao invés das obrigações da aliança. Além disso, diversas cidades latinas aparentemente permaneceram aliadas a Roma e, com base em eventos posteriores, entre elas estariam pelo menos Túsculo e Lanúvio, às quais Cornell acrescenta Arícia, Lavínio e Ardea. As colônias de Circei e Velitras provavelmente ainda eram parcialmente habitadas por volscos, o que explicaria a ajuda durante a revolta, mas estes dois assentamentos, mais do que qualquer outra cidade latina, teriam se sentido ameaçado pelas ambições agressivas de Roma na região dos Pântanos Pontinos.Cornell, p. 322