Maria Felipa, frequentemente referida na historiografia e na memória pública como Maria Felipa de Oliveira, é uma figura associada pela tradição histórica da Ilha de Itaparica, na Bahia, à resistência popular contra as forças portuguesas durante a Independência da Bahia, entre 1822 e 1823. A historiografia e a memória local descrevem-na como uma mulher negra que participou na resistência aos portugueses.

A identificação documental da personagem permanece incerta. Num estudo dedicado à sua historicidade, Milton Moura e Felipe Peixoto Brito analisaram um processo judicial de 1834 referente a uma mulher chamada Maria Felipa, residente em Itaparica, que apresentou queixa por agressões contra si e contra a filha, Maria Roberta. Os autores consideram que o documento fornece elementos para investigar uma possível identificação dessa mulher com a personagem associada à Independência, embora não permita estabelecer que se tratava da mesma pessoa.

Em 2018, o nome de Maria Felipa de Oliveira foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria pela Lei n.º 13.697, juntamente com os de Maria Quitéria, Joana Angélica e João das Botas, identificados pela lei como heroínas e herói da Independência da Bahia.

Formação da memória histórica

A mais antiga representação localizada de Maria Felipa encontra-se na literatura. Em 1904, Xavier Marques incluiu uma personagem chamada Maria Felippa no romance O Sargento Pedro, publicado inicialmente em folhetim no Correio da Manhã. Na obra, publicada mais de oitenta anos depois dos acontecimentos relatados, Maria Felippa é apresentada como uma personagem popular de Itaparica, fisicamente imponente e hostil aos portugueses.

Ubaldo Osório reproduziu na primeira edição de A Ilha de Itaparica, publicada em 1928, uma carta datada de 7 de janeiro de 1905 e dirigida ao Conselho Municipal de Itaparica. Assinada por dez cidadãos, entre os quais o próprio Osório, a carta propunha que logradouros da ilha recebessem nomes de pessoas associadas à resistência contra os portugueses. Entre as propostas figurava a mudança do nome da então Rua do Canal para «Rua Maria Felippa», embora não esteja documentado o desenvolvimento administrativo daquela proposta.

Na quarta edição, revista e ampliada, publicada em 1979, Osório apresentou-a como «Maria Felipa de Oliveira», moradora da antiga rua da Gameleira, descrevendo-a como alta e corpulenta e atribuindo-lhe a chefia das vedetas da praia do Convento, além de episódios de confronto com portugueses.

A partir de 2002, Eny Kleyde Vasconcelos Farias realizou pesquisa sobre Maria Felipa que reuniu relatos orais de moradores de Itaparica e informações transmitidas por autores anteriores. Publicada em livro em 2010, essa investigação contribuiu para sistematizar e difundir uma versão mais extensa da tradição sobre a personagem. Nessa tradição, Maria Felipa é descrita como marisqueira, pescadora e trabalhadora braçal e como participante da resistência à frente de um grupo de mulheres e homens. Também lhe são atribuídos o emprego de cansanção contra portugueses e a participação, juntamente com outras mulheres, no incêndio de embarcações portuguesas. Registros documentais e debate sobre a historicidade

Em 2022, os pesquisadores Milton Moura e Felipe Peixoto Brito publicaram um estudo sobre documentos oitocentistas de Itaparica que poderiam contribuir para a investigação da historicidade de Maria Felipa. Entre eles encontra-se um assento de batismo de 24 de abril de 1832, lavrado na capela de Santo Antônio dos Velasquez, no qual aparece uma «Maria Felippa, solteira», a quem o documento atribui o ato de «pôr a Coroa de Nossa Senhora» durante a cerimônia. Até então, este era o único registro paroquial localizado pelos pesquisadores, próximo do período investigado, que continha esse nome.

O principal documento analisado pelos autores é um processo criminal de 1834, conservado no Arquivo Público do Estado da Bahia. Em janeiro daquele ano, uma mulher chamada Maria Felipa apresentou queixa contra Manoel Rodrigues do Sacramento por agressões físicas contra si e contra a filha, Maria Roberta. O juiz de paz pronunciou o acusado e ordenou a sua prisão, decisão da qual Manoel Rodrigues recorreu. O recurso levou à sua libertação, mas Maria Felipa contestou a decisão e o processo foi remetido ao Tribunal de Jurados. Em 8 de abril de 1834, o júri entendeu que os autos continham elementos suficientes para que a acusação prosseguisse. Seis dias depois, contudo, Maria Felipa desistiu do processo, declarando ter chegado a um acordo com Manoel Rodrigues do Sacramento. O termo de desistência registra que ela não sabia ler nem escrever e que Agostinho José da Costa Lima assinou a seu rogo. O processo não chegou, assim, a julgamento do mérito; Moura e Brito descrevem o resultado como uma vitória apenas parcial da queixosa.

Posteriormente, Brito localizou no Arquivo Municipal de Cascais, em Portugal, uma relação de foreiros da Casa de Niza na Ilha de Itaparica, datada de 1801–1834. Segundo o pesquisador, o documento registra uma mulher chamada Maria Filipe entre os moradores da Rua da Gameleira, local onde Ubaldo Osório situara Maria Felipa na sua narrativa publicada no século XX.

Os documentos de 1832, 1834 e da Rua da Gameleira demonstram a presença em Itaparica de mulheres chamadas Maria Felipa, Maria Felippa ou Maria Filipe no período posterior à Independência, sem que cheguem a estabelecer por si mesmos que se tratasse da mesma pessoa nem que alguma delas fosse a personagem posteriormente associada às lutas de 1822–1823. Moura e Brito reconhecem não ter obtido uma «prova cabal e inequívoca» da identidade da heroína descrita pela tradição, considerando, não obstante, que o conjunto reunido fornece elementos para essa hipótese.

Tradição sobre a participação na Independência

A Ilha de Itaparica teve importância estratégica durante a Independência da Bahia, tanto para o abastecimento de Salvador como para o controle da Baía de Todos-os-Santos. As forças portuguesas tentaram ocupá-la em diferentes ocasiões, sendo repelidas em julho de 1822 e novamente na grande ofensiva de 7 de janeiro de 1823, considerada a última tentativa portuguesa de romper o cerco à capital baiana.

Segundo a tradição oral recolhida na década de 2000 em Itaparica e sistematizada por Eny Kleyde Vasconcelos Farias, Maria Felipa ter-se-ia apresentado como voluntária depois de organizada a resistência na ilha e exercido liderança entre as chamadas vedetas, sentinelas encarregadas de observar embarcações, praias, matas e pontos elevados próximos das áreas de combate. Nessas narrativas, o grupo utilizava também tochas durante a noite para localizar portugueses que desembarcavam na ilha, destacando-se pela participação de numerosas mulheres.

Outros relatos reunidos por Farias associam Maria Felipa e as suas companheiras aos confrontos de 7 de janeiro de 1823. Segundo essas memórias, as mulheres teriam atraído ou surpreendido soldados portugueses, atingindo-os com ramos de cansanção, planta urticante, e posteriormente utilizado tochas contra embarcações portuguesas. A tradição também lhe atribui atividades de pesca e mariscagem e o uso de facas relacionadas com esses ofícios durante os confrontos.

miniaturadaimagem|Monumento a Maria Felipa, de Nádia Taquary, inaugurado em 2023 na atual Praça Maria Felipa, em Salvador|365x365px

Esses episódios pertencem, contudo, à tradição oral e à historiografia posterior. Guerra Filho documenta os ataques portugueses contra Itaparica e a resistência organizada na ilha durante a guerra. A participação nominal de Maria Felipa nesses combates, porém, não aparece documentada nas fontes contemporâneas. Queiroz Lima observa, em particular, que o incêndio de embarcações atribuído a ela e ao seu grupo não está documentado, nem mesmo indiretamente, nos registros da guerra. Legado e homenagens

Em 2004, a perita criminal e desenhista Filomena Orge produziu uma representação de Maria Felipa a pedido de Eny Kleyde Vasconcelos Farias. A imagem foi elaborada a partir de fontes escritas, da tradição oral e de entrevistas com pessoas que se apresentavam como descendentes de Maria Felipa, uma vez que não existiam testemunhas que a tivessem conhecido em vida.

Uma fotografia realizada em 1870 pelo fotógrafo Alberto Henschel, retratando uma mulher negra com turbante, circulou posteriormente como se representasse Maria Felipa. A identificação é incorreta.

Em 2018, o nome de Maria Felipa de Oliveira foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria pela Lei n.º 13.697, juntamente com Maria Quitéria, Joana Angélica e João das Botas, identificados pela lei como heroínas e herói da Independência da Bahia.

Em 27 de julho de 2023, foi inaugurado na então Praça Cairu, no bairro do Comércio, em Salvador, um monumento a Maria Felipa criado pela artista baiana Nádia Taquary. A obra, com cerca de quatro metros de altura, foi instalada de modo que a figura ficasse voltada para a Ilha de Itaparica. Em março de 2024, a Praça Cairu passou a denominar-se oficialmente Praça Maria Felipa, consolidando no próprio local do monumento a homenagem à personagem.

O nome de Maria Felipa também foi atribuído a instituições e iniciativas públicas na Bahia. Em Itaparica, a rede municipal de ensino mantém a Escola Municipal Maria Felipa. Na Polícia Militar da Bahia, o Centro de Referência da Mulher Policial Militar — Centro Maria Felipa, criado em 2006, desenvolve atividades de atenção às policiais e de promoção de estudos, programas e formação relacionados às questões de gênero na corporação.

A Câmara Municipal de Salvador realiza ainda o Prêmio Maria Felipa, destinado ao reconhecimento de mulheres negras com trajetórias ligadas à luta contra o racismo e à defesa de direitos. Em 2026, a homenagem chegou à sua 17.ª edição.

Bibliografia

Categoria:Pessoas relacionadas à Independência da Bahia Categoria:Mulheres na história Categoria:Nascidos em ano desconhecido Categoria:Heróis nacionais do Brasil Categoria:Afro-brasileiras