thumb|300px|Roma
Por historiografia romana entende-se narrativas que abordam o presente ou o passado, escritas em prosa, que valorizavam a esfera política e escritas com parâmetros de composição definidos pela retórica. As narrativas históricas na Roma Antiga eram consideradas como um gênero literário. Não existia o entendimento moderno sobre os parâmetros epistemológicos da história, mas de nenhuma forma isso significa dizer que os historiadores desprezavam a pesquisa e a busca pela verdade. Os relatos históricos buscavam agregar vivacidade à narrativa, não existia uma exata correspondência entre realidade e discurso, mas informavam pela plausibilidade. Essas histórias também misturavam os fatos ocorridos, com mitos e crenças populares.
A história na Roma Antiga tinha como papel relatar os acontecimentos ocorridos durante certo período de tempo, expressando o desejo de perpetuar ou evitar modelos morais de vício e virtude e servindo como instrução moral, tendo um papel didático. Os historiadores da antiguidade latina davam destaque aos grandes feitos heroicos, aos nomes e aos acontecimentos marcantes, como batalhas. Diferente de hoje, os historiadores antigos não tinham preocupações ou inquietações relativas às questões sociais e econômicas. Os assuntos principais estavam centrados no campo político-militar e o historiador embelezava suas narrativas.
Tradicionalmente convencionou-se adotar o início da historiografia romana no , no contexto das Guerras Púnicas. Como outros gêneros literários, a historiografia romana teve seu início nos reflexos da historiografia grega. Em , a Grécia foi anexada ao território romano. A produção de material histórico grego termina como resultado da dominação dos romanos da cidade de Corinto, última cidade grega a ser conquistada. No final do e início do inicia-se a elaboração dos primeiros textos por autores latinos, movimento que teve grande expansão com a conquista da Grécia. Os primeiros textos latinos foram compostos inicialmente em grego por dois motivos. Primeiro pela questão da língua grega inicialmente deter mais recursos literários; e segundo porque os romanos queriam propagar as vitórias de Roma e o grego era um idioma mais conhecido que o latim.
O primeiro historiador romano foi Fábio Pictor, viveu entre os séculos III e , lutou na guerra contra os gauleses em Tito Lívio narra sua visita a Delfos em , quando foi enviado pelo senado para consultar o oráculo após a derrota de Canas, durante a segunda guerra Púnica. Especula-se que Fábio Pictor tenha sido senador. Para Cícero, Fábio Pictor estava apto a ser um bom historiador, por seu conhecimento empírico sobre política e pela sua participação militar.
Não existe consenso sobre o idioma de escrita escolhido por Fábio Pictor para escrever a sua história, se grego ou latim, pois apenas fragmentos de textos, via citação de outros autores, chegaram até nós. Por exemplo, Dionísio de Halicarnasso cita-o em grego, enquanto Tito Lívio em latim, já Cícero cita-o em grego. Desta forma, não se tem um consenso sobre a língua da obra de Fábio Pictor. Existem muitas teorias sobre o idioma utilizado por Fábio Pictor, que englobam inclusive a possibilidade dele mesmo ter traduzido sua obra posteriormente para o latim ou de ser isso obra de um tradutor contratado.
Retórica Em Roma, o conhecimento era passado predominantemente de forma oral, conferindo um grande valor à retórica, a arte de se expressar bem, com eloquência e poder de persuasão. A retórica era uma arte muito valorizada na época e requeria do orador um conhecimento variado sobre muitos assuntos. Segundo Cícero (no seu livro Do Orador), o bom orador deve dominar o conhecimento sobre os eventos anteriores, sobre todos os grandes temas e torná-los belos e atrativos aos ouvintes. A retórica consistia no falar bem, fascinar multidões, conquistar e conduzir pela palavra, pelo poder do discurso e foi usada para trazer honra e benefício ao estado romano. Foi a retórica, o poder de persuasão dos oradores, que contribuiu para unir cidades e pessoas, que conduziu Roma a se tornar um grande Império, que colocou no coração e mente dessas pessoas uma identidade patriótica.
A história foi um subgênero da retórica muito importante. Em Roma, nesse período, para ser considerado um bom historiador, o autor deveria conseguir transmitir a história de forma clara e espelhar a realidade. Diferente dos gregos, romanos como Cícero e Salústio concordam que a história era tarefa daqueles que têm conhecimento da maneira apropriada de narrá-la, ou seja, da retórica. A verdade do relato histórico deixa de estar centrada na percepção pessoal da realidade, como era para os gregos, e passa a estar na credibilidade emprestada à narrativa pela retórica. A verdade esta no campo da plausibilidade, da possibilidade e não exclusivamente na exata conformidade entre realidade e discurso. O conhecimento retórico para Tito Lívio, por exemplo, era considerado um fator de legitimidade
Fastos Capitolinos e Anais Máximos thumb|Os Fastos Capitolinos
Os Fastos Capitolinos e os Anais Máximos são documentos oficiais produzidos no colegiado sacerdotal. A história romana era escrita em tábuas, onde os acontecimentos do ano eram narrados, recebendo estas o nome de Anais Máximos. Estes textos ficavam a mostra do lado de fora da Régia – a matriz do poder do pontífice máximo – e eram pintados em uma tábua coberta de gesso que, anualmente, recebia um retoque a fim de manter sua aparência vivaz.
Anais Máximos Os Anais Máximos indicavam as ocorrências que interessavam à religião onde eram mencionados acontecimentos ligados aos eclipses solares e lunares, as epidemias, presságios como raios bem como a explicação destes fenômenos. Pouco a pouco esses escritos foram se transformando em crônicas, das quais se originou o gênero historiográfico romano chamado de Analística.
Fastos Capitolinos Os Fastos Capitolinos são considerados o fundamento da cronologia romana, onde os anos eram nomeados por uma tábua anual de cada magistrado. Essas listas se estendem apenas até o . A referida inscrição consiste de 3 partes: Os Fastos Consulares – Uma lista de Cônsules e outros Magistrados; um sumário abreviado dos Jogos Seculares (festas religiosas); O Fastos Triunfais – uma lista dos triunfos romanos. São compilações do reinado do Imperador Augusto, datados de .
Gêneros A historiografia é um gênero da literatura latina e, com isso, possui um estatuto diferente do atual. Para os romanos, a história era um gênero literário como qualquer outro, obedecendo um decoro e regras de composição. O diferencial do gênero história é que ele recebia credibilidade por se preocupar com a verdade dos fatos narrados, pois eles são confirmados pelas testemunhas e fontes. Com isso, os outros gêneros da literatura receberam um sentido de ficção por partirem da verossimilhança dos fatos e da imaginação do autor.
Nos manuais de literatura latina é comum textos que abordem especificamente um autor, formando sucessivamente uma cronologia a partir da relação do autor estudado com seus predecessores, com isso, a definição de historiografia não é apresentada por grandes reflexões teóricas. Outras vezes, segue definições contemporâneas, e não antigas, sobre o que deveria ser uma obra historiográfica. Basicamente existiram seis gêneros de história na historiografia romana
Analística
A analística remonta aos Anais Máximos. Esses livros de história são denominados Anais devido ao fato de que, de acordo com um rígido modelo pautado nos arquivos do Estado, todos os acontecimentos ocorridos a cada ano eram nelas registrados. Seus autores eram conhecidos genericamente pelo nome de analistas, sendo geralmente de origem nobre e provavelmente tenham abordado a redação de seus escritos como uma extensão de sua atividade política. No início, os autores desse gênero narravam exclusivamente fatos, mas com o passar do tempo o gênero adquire o estatuto literário com os Anais de Tácito. Diferente das outras modalidades históricas, por se preocupar apenas com o que ocorreu há certo tempo, a analística recebe o título de história do passado.
História Pragmática
A história pragmática tem por objetivo principal a explicação do presente. Portanto, é considerada uma história do presente. Um dos desse gênero historiográfico é Res Gestae de Amiano Marcelino.
Universal
A história universal tem como principal objetivo fazer uma narrativa da história do mundo ou da história romana, portanto, não possui uma função imediata. Sendo assim, também representam uma história do passado. Um exemplo de história universal é Ab Urbe Contida, de Tito Lívio.
Monografia
A monografia é parecida com a história pragmática, pois, ocupa-se de um evento presente para buscar suas causas, porém incidem sobre um único fato e não vários. Salústio, com Conjuração de Catilina e Guerra de Jugurta exemplifica as monografias históricas. Por ser filiada a história pragmática também recebe o estatuto de história do presente.
Comentário Os comentários são anotações diárias, que podem ou não ser desenvolvidas. As obras de Júlio César, A Guerra civil e Sobre a Guerra da Gália, são exemplos de comentários extremamente bem escritos. Os comentários, por representarem ações em curso, podem ser entendidos como história do presente.
Breviário ou Epítome
O Breviário ou Epítome possui as mesmas características da história universal, porém, são uma forma menos extensa, ou seja, resumida. Entre as mais significativas: Breviário de História Romana, de Séneca, o Breviarium ab Urbe Condita de Flávio Eutrópio. Os Epitomes são considerados, então, como história do passado.
Principais historiadores
thumb|200px|Salústio
Salústio Salústio, (Amiterno, atual região de Abruzos entre e ) foi apoiado por Júlio César, conseguiu uma cadeira no Senado Romano.No fim da carreira política se dedicou à literatura, escrevendo sobre grandes momentos do fim da República Romana. Em sua narrativa se posiciona politicamente sobre aqueles que tinham o poder de decidir sobre Roma. Suas obras mais conhecidas são Conjuração de Catilina e Guerra de Jugurta. Essas são narrativas que não apresentam traços de linearidade e nem podem ser lidas cronologicamente, são escritas de forma independente, mas que dialogam entre si. Guerra de Jugurta narra a guerra ocorrida no norte da África entre a Numídia e a República Romana. Conjuração de Catilina conta eventos importantes para a compreensão do desenrolar da Guerra Civil. Salústio observa as ações de Catilina, um nobre falido o qual foi senador, para descrever os conflitos entre os grupos políticos existentes em Roma, aristocratas e populares.
Tito Lívio esquerda|thumb|182x182px|Tito Lívio
Tito Lívio (Pádua, entre a ) cresceu entre as guerras civis na península Itálica. Sua principal obra, Ab Urbe Condita, registra desde a Fundação de Roma até Augusto. Composta por 142 livros, dos quais apenas 35 chegaram até nós. No livro I, Tito Lívio narra a fundação mítica da cidade de Roma, por Rômulo e Remo. Nos livros II a X conta a história da República Romana. Nos livros XVI a LII, narra as Guerras Púnicas e Macedônicas. Nos livros XCVII a CIII, conta a história de Crasso, a titulação de Pompeu, a campanha de Júlio César e termina com a Conspiração de Catilina.
Tito Lívio narra uma das versões da criação mítica da cidade de Roma em que o deus Marte estupra Reia Sílvia, desse ato violento nasceram Rômulo e Remo que foram abandonados em uma cesta no no Rio Tibre. Os meninos foram encontrados por uma loba a qual os alimentou e possibilitou que sobrevivessem até serem encontrados. Anos mais tarde os irmãos entram em um conflito com os pastores de seu tio Amúlio (Amúlio roubara o trono do avô dos garotos), Remo é preso, mas Romulo o salva, mata Amúlio e devolve o trono ao avô, como recompensa ganham um pedaço de terra do avô Numitor, dessa terra se inicia Roma.
Tácito thumb|187x|Tácito