A Guerra de Creta de foi um conflito militar que opôs o rei da Macedónia, a Liga Etólia, várias cidades cretenses (entre as quais se destacaram Hierapitna e Olunte) e piratas espartanos a Rodes, Pérgamo, Bizâncio, Cízico e Cnossos.
Os macedónios tinham acabado de terminar a Primeira Guerra Macedónica e Filipe, antevendo uma oportunidade de derrotar Rodes, formou uma aliança com piratas etólios e espartanos, os quais começaram a atacar navios ródios. Filipe formou igualmente uma aliança com várias cidades cretenses importantes, como Hierapitna e Olunte. Filipe acreditava que a derrota de Rodes estava ao seu alcance devido aos estragos causados à frota e economia ródias pelas depredações dos piratas. Para ajudar a que o seu objetivo fosse cumprido, o rei macedónio fez ainda uma aliança com o imperador selêucida Antíoco, o Grande contra do Egito (os outros estados diádocos, como a Macedónia). Filipe começou por atacar os territórios de Ptolemeu e os aliados de Rodes na Trácia e em volta do Propôntida.
Em , Rodes e os seus aliados na Ásia Menor, Pérgamo, Bizâncio e Cízico, juntaram as suas frotas e derrotaram Filipe na Batalha de Quio. Alguns meses mais tarde, a frota macedónia derrotou os ródios ao largo da ilha de Lade, perto de Mileto. Enquanto Filipe saqueava o território pergameno e atacava cidades na Cária, Átalo dirigiu-se a Atenas para tentar criar uma diversão. Conseguiu assegurar uma aliança com os atenienses, que declararam imediatamente guerra aos macedónios. Perante isso, o rei macedónio atacou Atenas com a sua frota e alguma infantaria. Porém, os romanos exigiram-lhe que retirasse, pois se não o fizesse enfrentaria uma guerra com Roma.
Após ter sofrido uma derrota frente às frotas ródia e pergamena, Filipe retirou, mas não sem antes ter atacado Abidos, no Helesponto. Abidos caiu após um longo cerco e a maior parte dos seus habitantes suicidou-se. Filipe rejeitou o ultimato dos romanos para parar de atacar estados gregos e os romanos declararam guerra à Macedónia. Isto deixou as cidades de Creta da aliança sem aliados importantes, o que foi agravado pela aliança entretanto celebrada com Rodes por Cnossos, a maior cidade de Creta. Em face dessa situação, tanto Hierapitna como Olunte renderam-se e foram forçadas a assinar um tratado favorável a Rodes e a Cnossos.
Contexto esquerda|thumb|upright|Efígie de Filipe V da Macedónia num dracma
Em , a Primeira Guerra Macedónica, entre a Macedónia e Roma, terminou com a assinatura do Tratado de Fenice, nos termos dos quais os macedónios não estavam autorizados a expandir-se para ocidente. Por seu lado, Roma estava preocupada com Cartago e Filipe esperava poder tirar partido disso para tomar o controlo do mundo grego. Ele sabia que uma aliança com Creta ajudaria a concretizar as suas ambições e por isso começou a pressionar os cretenses para atacarem interesses ródios.
Creta encontrava-se então dividida, na sequência da Guerra de Licto (), que opôs várias cidades da ilha, divididas em duas fações, uma liderada por Licto e outra por Cnossos e Gortina. Durante essa guerra, as aliadas de Licto Polirrénia e Lapa pediram ajuda a Filipe, que então estava em guerra com os etólios, aliados de Cnossos. Após a guerra, Filipe detinha o controlo da maior parte da ilha e em foi reconhecido como "patrono de Creta" , o que constituía um grande passo para o almejado controlo do mar Egeu.
Foi provavelmente nesta época que as cidades cretenses se organizaram na forma de uma liga, , ou assembleia dos cretenses, na qual Cnossos e Gortina eram preponderantes. Este organismo era composto por um conselho e uma assembleia popular que se reunia principalmente em Cnossos. Aparentemente, deve-se a essa liga um esforço de legislação e de regulação das relações entre as cidades cretenses com o objetivo de manter a paz. Doravante, a liga foi muito útil para a política egeia de Filipe.
Após ter derrotado Pérgamo, o estado grego dominante na Ásia Menor, e ter-se aliado com a Etólia, Rodes passou a ser a potência grega importante que se opunha a Filipe. A ilha-estado de Rodes dominava economicamente e militarmente o sudeste do Mediterrâneo e, apesar de ser formalmente aliada de Filipe, também era aliada da República Romana, inimiga da Macedónia.
Filipe também procurou consolidar a sua posição como maior potência nos Bálcãs. Nesse sentido, marchou com as suas tropas para a fronteira norte da Macedónia e infligiu uma derrota esmagadora aos Ilírios, que perderam homens em batalha. Com a sua fronteira a norte segura, Filipe pôde concentrar a sua atenção no mar Egeu.
Ações antes da declaração de guerra
thumb|upright|Busto de , rei de Pérgamo, o principal aliado de Rodes contra os macedónios
O tratado de Fenice proibia Filipe de se expandir para ocidente, em direção à Ilíria ou à costa adriática, o que levou o rei macedónio a virar a sua atenção para o mar Egeu, onde começou a construir uma grande frota.
No , as tarefas de policiamento dos mares eram asseguradas principalmente pelos navios de Rodes. Esse policiamento dirigia-se especialmente contra a pirataria em alto mar. A relativa calma que se vivia na ilha propiciava a prosperidade dos comerciantes ródios, o que levou a que Rodes tomasse a seu cargo a vigilância marítima necessária à manutenção das relações comerciais.
Segundo Diodoro Sículo, os cretenses, que tinham uma longa tradição de pirataria, começaram a lançar expedições piratas com sete navios. A posição preponderante de Filipe em Creta permite teorizar que ele deve ter contribuído para a decisão dos cretenses de lançar ataques piratas contra interesses comerciais ródios. Para o historiador Theocharis Detorakis, a estratégia de Filipe para abalar o domínio marítimo de Rodes passava não só pela guerra mas também pela pirataria.
Além dos cretenses, o rei macedónio convenceu também os etólios e os espartanos a tomarem parte nesse empreendimento. O incentivo para essas nações era a promessa de vastos butins dos navios ródios capturados. Não se sabe quais foram as cidades cretenses envolvidas nos raides piratas, mas geralmente são apontadas pelo menos Gortina (a cidade que liderava a liga cretense), Hierapitna e Eleuterna (esta estava em conflito aberto com Rodes).
As relações de Esparta com algumas cidades cretenses, especialmente as de Creta Ocidental, eram já antigas. Segundo Políbio, o tirano de Esparta Nábis associou-se aos atos de pirataria dos cretenses a partir de O historiador francês Pierre Brulé concluiu que Nábis participou seguidamente na guerra contra Rodes ao lado dos cretenses, onde certamente tinha cidades suas aliadas com as quais podia contar para o apoiarem durantes as operações de pirataria. Segundo Tito Lívio, infestou de navios piratas as águas em volta do cabo Maleia, no sudeste do Peloponeso e a noroeste de Creta, e tirou grandes proveitos dessa atividade de pirataria.
Filipe enviou o pirata etólio Dicearco para um raide marítimo em larga escala no Egeu, confiando-lhe 20 navios e ordenando-lhe que cobrasse tributos nas ilhas a fim de ajudar os cretenses na guerra contra Rodes. À semelhança dos cretenses, Dicearco não se limitou à pirataria em alto mar e levou a cabo assaltos em terra, obrigando as ilhas das Cíclades e territórios ródios que devastou a pagarem tributos.
No final do ano , Rodes tinha sido significativamente enfraquecida por essas ações ofensivas e Filipe viu nisso a sua oportunidade de colocar em prática a segunda parte do seu plano, que passava pelo confronto militar direto. Para ser mais eficaz, convenceu Hierapitna, Olunte e outras cidades do leste de Creta a declararem guerra a Rodes. Adicionalmente, Filipe pretendia enfraquecer a capacidade naval dos ródios através de estratagemas. Logrou fazê-lo enviando o seu agente Heráclides a Rodes, onde este conseguiu incendiar 13 . descreve esse episódio:
Início oficial da guerra e primeiras campanhas O início de forma mais oficial da guerra pode ter sido marcado pelo ataque de Hierapitna a Calímnos em Essa cidade estava então dependente de Cós e era aliada de Rodes; um decreto da cidade menciona — «a guerra foi trazida contra nós injustamente por hierapitnianos» . Ao contrário dos ataques precedentes, este não se tratou de pirataria em alto mar, mas sim de assaltos à costa, feitos com recursos a grandes e pequenos navios cheios de homens.
A resposta inicial de Rodes à declaração de guerra foi diplomática: pediram ajuda à República Romana contra Filipe. Os romanos, porém, estavam reticentes em relação a envolverem-se noutra guerra, pois a Segunda Guerra Púnica ainda mal tinha terminado. O senado romano tentou persuadir a população a entrar na guerra, principalmente depois de Pérgamo, Bizâncio e Cízico terem nela entrado ao lado de Rodes, mas não conseguiu demover o forte sentimento antiguerra da população.
Logo após a guerra entre Rodes e Creta ter sido oficialmente declarada, sabe-se que houve ataques contra a ilha de Nísiros, aliada de Rodes. Os cretenses levaram a cabo um segundo ataque a Cós e Calímnos. Desta vez, as fontes não mencionam a participação de Hierapitna, mas de "inimigos" que voltaram com forças importantes. Aparentemente, a hipótese de ter sido apenas essa cidade a empreender o ataque pode ser excluída. A dimensão desses segundos ataques foi consideravelmente maior e uma só cidade não poderia ter os meios materiais necessários para os levar a cabo com sucesso. Um tal Lisandro, navarco de Cós, foi ao encontro dos cretenses ao largo do cabo Laketer e derrotou a frota cretense.
Nessa altura, Filipe provocou ainda mais Rodes atacando Cio, uma cidade costeira da Propôntida que fazia parte da Liga Etólia. Apesar das tentativas de Rodes e de outros estados para mediar um acordo, Filipe tomou e arrasou Cio e a vizinha , outra cidade da Liga Etólia. Depois disso, Filipe entregou estas cidades ao seu cunhado , rei da Bitínia, que reconstruiu e rebatizou as cidades com o seu próprio nome (Prusa, atualmente Bursa) e da sua mulher (Apameia, antes chamada Mirleia). Em troca destas cidades, Prúsias prometeu continuar a expandir o seu reino conquistando territórios a Pérgamo (a última guerra entre os reinos da Bitínia e de Pérgamo tinha terminado em ). A tomada dessas cidades também provocou a ira dos etólios, pois eram suas aliadas. A aliança entre a Etólia e a Macedónia só se mantinha devido ao receio que os etólios tinham de Filipe e estes incidentes pioraram as já precárias relações entre os dois estados.
A seguir, Filipe compeliu as cidades de , na Trácia, e Calcedónia, junto à margem oriental da entrada sul do Bósforo, que também integravam a Liga Etólia, a quebrar a sua aliança com os etólios, provavelmente com ameaças de violência.
thumb|left|upright|Busto de , o o imperador selêucida aliado de Filipe V
Na viagem de volta, a frota macedónia parou na ilha de Tasos, ao largo da Trácia. O general macedónio foi à capital epónima da ilha onde se encontrou com emissários da cidade. Estes disseram que Tasos se renderia aos macedónios se estes respeitassem as seguintes condições: não colocarem uma guarnição na ilha; não exigirem tributos nem soldados para servir no exército macedónio; permitirem que os habitantes continuassem a usar as suas próprias leis. Metrodoro respondeu que o seu rei aceitava as condições e os tasianos abriram as portas da sua cidade aos macedónios. Uma vez dentro das muralhas, Filipe ordenou aos seus soldados que escravizassem todos os cidadãos, que depois foram vendidos, e que pilhassem a cidade. As ações de Filipe durante esta campanha tiveram um impacto drástico na sua reputação entre os estados gregos, que as consideraram ao nível dos raides selvagens dos etólios e dos romanos durante a Primeira Guerra Macedónica.