O cerco de Damasco de 634 foi uma conflito militar entre o Califado Ortodoxo e o Império Bizantino pela posse da cidade de Damasco entre e , No seu final, as tropas do califado comandadas por Calide ibne Alualide conquistaram a cidade aos bizantinos. Damasco foi a primeira grande cidade bizantina a cair durante a Conquista muçulmana da Síria, uma das primeiras guerras bizantino-árabes.

A última das guerras romano-persas tinha terminado em 627, quando o imperador bizantino Heráclio concluiu uma campanha vitoriosa contras os persas sassânidas na Mesopotâmia. Na mesma altura, Maomé uniu os árabes sob a bandeira do islão e após a sua morte em 632, Abu Becre sucedeu-lhe como primeiro califa ortodoxo (ou Rashidun). Após esmagar revoltas internas, Abu Becre procurou expandir o império muçulmano para além dos limites da península da Arábia.

Em abril de 634, Abu Becre invadiu territórios bizantinos no Levante e derrotou de forma decisiva o exército bizantino na Batalha de Ajenadaim, travada a 30 de julho de 634. As tropas muçulmanas marcharam seguidamente para norte e montaram cerco a Damasco. A cidade foi tomada depois de um padre monofisista ter informado Calide ibne Alualide que era possível penetrar nas muralhas atacando uma posição que estava pouco guarnecida durante a noite. Enquanto Calide entrava na cidade atacando a porta oriental, Tomás, o comandante da guarnição bizantina, negociava uma rendição pacífica na porta Jabia com Abu Ubaida ibne Aljarrá, o segundo comandante muçulmano. Depois da rendição, Calide começou por discordar dos termos do acordo de paz oferecidos aos sitiados por Abu Ubaida, mas acabou por concordar respeitá-los. O acordo incluía a garantia de que durante a três dias não haveria perseguições por parte dos muçulmanos contra o comboio bizantino que sairia da cidade imediatamente. Calide respeitou essa garantia, mas no final do prazo iniciou a perseguição dos refugiados damascenos que se dirigiam para Antioquia e derrotou-os em batalha seis dias depois, perto do que é hoje .

Contexto e antecedentes Em 610, durante a guerra bizantino-sassânida de 602–628, Heráclio ascendeu ao trono imperial bizantino depondo Focas em 610. Enquanto Heráclio focava a sua atenção nos assuntos internos do seu império, os sassânidas conquistaram a Mesopotâmia, invadiram a Síria em 611 e entraram na Anatólia para ocuparem Cesareia Mázaca. Em 612, Heráclio expulsou os invasores da Anatólia e em 613 lançou uma contraofensiva na Síria, mas sofreu uma derrota decisiva. Ao longo da década seguinte, os persas conquistaram a Palestina e o Egito e Heráclio refez o seu exército, preparando-se para uma nova ofensiva, que lançou em 622. Conseguiu então vitórias substanciais sobre os persas e os aliados destes no Cáucaso e na Arménia. Em 627 lançou uma audaciosa ofensiva de inverno contra a Pérsia na Mesopotâmia e obteve uma vitória decisiva na Batalha de Nínive, que ameaçou a capital sassânida de Ctesifonte.

Desacreditado pela série de desaires, foi morto num golpe de estado liderado pelo seu filho , que imediatamente procurou fazer a paz com os bizantinos, concordando em retirar de todos os territórios bizantinos ocupados. Heráclio devolveu a Vera Cruz a Jerusalém num cerimónia muito elaborado em 629.

Entretanto, na Arábia, Maomé tinha unido a maior parte da região sob uma só autoridade religiosa e política. Quando Maomé morreu, em junho de 632, Abu Becre foi eleito para o então criado cargo de califa, tornando-se o sucessor político e religioso de Maomé. No entanto, houve várias tribos árabes que se rebelaram contra o califa, dando início às Guerras da Apostasia, mas a revolta foi reprimida com êxito por Abu Becre. Em 633, a Arábia estava firmemente unida sob a autoridade central do califa, cuja capital era Medina. Nesse mesmo ano, Abu Becre deu início a uma guerra de conquista contra os impérios vizinhos bizantino e sassânida. Após ter conquistado a província persa do Iraque, a confiança do califa aumentou e em abril de 634 os seus exércitos invadiram o Levante bizantino através de quatro rotas diferentes. Os exércitos envolvidos nesta invasão revelaram-se pequenos para a tarefa, pelo que foram enviados reforços a partir do Iraque, comandados pelo brilhante general Calide ibne Alualide. Atravessando o deserto, Calide e as suas tropas entraram na Síria por uma rota inesperada, num movimento audacioso. Atacaram e derrotaram as defesas bizantinas no Levante e rapidamente capturaram Bostra, a capital dos gassânidas, aliados dos bizantinos. Em julho de 634, o exército muçulmano comandado por Calide derrotou outro exército bizantino na Batalha de Ajenadaim. Após limparem o seu flanco sul, os muçulmanos cercaram Damasco.

Local do cerco Pela sua localização estratégica, Damasco atraía mercadores de praticamente todo o mundo. A cidade era conhecida como o "paraíso da Síria". As fortificações condiziam com a sua importância: a parte principal da cidade era rodeada por uma muralha imponente com 11 metros de altura. A cidade fortificada tinha cerca de de comprimento por 800 m de largura.

A muralha tinha seis portas: a Oriental (Bab Sharqi), de Tomás (Bab Touma), de Gabita (ou Jabiya; Bab al-Jabiya), do Paraíso (Bab al-Faradis), de Keisan (Bab Kisan) e a Porta Pequena (Bab al-Saghir). Não obstante o rio Barada () corra ao longo da parte norte da muralha, não tinha profundidade suficiente para ter importância defensiva.

Durante a campanha da Síria, o comandante bizantino de Damasco era Tomás, genro do imperador Heráclio, um cristão devoto que era conhecido pela sua coragem e dotes de comando, além da sua inteligência e formação.

Forças bélicas e sua disposição thumb|esquerda|Disposição das tropas muçulmanas (em vermelho) durante a batalha|alt=Mapa sinalizando as posições das tropas muçulmanas ao redor da cidade, durante o cerco

Os exércitos muçulmanos do século VII não dispunham de equipamento de cerco e tipicamente só aplicavam táticas de cerco quando não tinham outras opções. Sem o equipamento adequado, as tropas das primeiras conquistas muçulmanas sitiavam a cidade, bloqueando os seus abastecimentos até que os sitiados se rendessem. Entretanto, qualquer chance de poder entrar na cidade era aproveitada, nomeadamente usando ações furtivas e espionagem. Os exércitos muçulmanos normalmente isolavam a cidade de todas as terras em seu redor e enviavam batedores para as rotas mais vitais.

Para isolar Damasco, Calide cortou as linhas de transporte e de comunicações com o norte da Síria. A sudoeste, foi enviado um destacamento de cavalaria para Arbela (Fahal em árabe; Irbide na atualidade), para chamar a atenção da guarnição bizantina e para defender as linhas de abastecimento muçulmanas com Medina. Dessa forma, esse destacamento funcionava como a retaguarda das forças muçulmanas na frente síria. Outro destacamento de cavalaria foi enviado para a estrada de Emesa, para tomar uma posição perto de Bete Lihya, a cerca de 16 km a norte de Damasco e fazerem o reconhecimento de quaisquer colunas bizantinas de reforços; se não fosse capaz de derrotar ou repelir os reforços inimigos, o comandante do destacamento tinha instruções para pedir reforços a Calide.

Após isolar Damasco cortando todas as linhas de abastecimento à cidade e dispondo tropas em seu redor, Calide ordenou ao seu exército que cercasse a cidade em 21 de agosto de 634 (dia 20 do mês Jumada Alacir do ano 13 de calendário islâmico), colocando em frente de cada uma das portas da cidade uma unidade comandada por um general. Foram dadas instruções aos comandantes de unidade para repelirem qualquer ataque bizantino das portas respetivas e que pedissem reforços no caso de ataques pesados. Darar ibne Alazuar comandava cavaleiros da guarda móvel, a força de elite muçulmana de cavalaria ligeira, que tinha como missão patrulhar as áreas vazias entre as portas à noite e para reforçar qualquer unidade que fosse atacada pelos bizantinos.

As unidades encarregadas do cerco às portas da cidade tinham cada uma entre quatro e cinco mil homens e eram comandadas pelos seguintes generais muçulmanos: Xurabil na Porta de Tomás; Abu Aljarrá na Porta de Gabita; Anre na Porta do Paraíso; Iázide na Porta de Keisan e na Porta Pequena; Rafai ibne Umiar na Porta Oriental.

Calide entregou o comando do corpo principal das suas tropas a Rafai ibne Umiar, posicionado na Porta Oriental, e estabeleceu o seu quartel general a pouca distância dessa mesma porta, num mosteiro que desde então é conhecido como Deir al Khalid ("mosteiro de Calide"). Para se abastecer, Calide contava com o oásis de Ghouta, uma zona agrícola a sul e a leste de Damasco.

Reforços bizantinos O imperador Heráclio encontrava-se em Antioquia quando o cerco começou. No dia 9 de setembro de 634 enviou uma força de reforços para Damasco, que se pensa que incluiria cerca de homens. Os batedores muçulmanos na estrada entre Emesa e Damasco reportaram a aproximação do exército bizantino. Quando soube disso, Calide enviou Rafai ibne Umiar ao encontro dos bizantinos à frente de homens. Os dois exércitos encontraram-se 32 km a norte de Damasco, no passo de Ucabe ("passo da Águia"), na estrada de Emesa. A força muçulmana revelou-se insuficiente e foi rapidamente cercada pelas tropas bizantinas. Porém, antes dos bizantinos lograrem derrotar o destacamento muçulmano, Calide chegou com outra coluna de homens e desbaratou-os. O confronto ficou conhecido como ("Batalha de Saníate Ulucabe").

A forças que ficaram no cerco tinham entretanto ficado enfraquecidas pela saída de homens e os historiadores suspeitam que se a guarnição bizantina teria saído vencedora se tivesse saído para atacar as linhas dos sitiantes, que provavelmente levantariam o cerco. Percebendo o perigo da situação, Calide voltou rapidamente para Damasco.

Primeiro ataque bizantino Quando percebeu que não chegariam quaisquer reforços, Tomás decidiu lançar um contra-ataque. No início da terceira semana de setembro, Tomás retirou homens de todos os setores da cidade para formar uma força suficientemente poderosa para abrir caminho através da Porta de Tomás. Ali foi confrontado por Shurahbil e a sua unidade de cerca de homens. O ataque bizantino começou com uma chuva concentrada de flechas contra os sitiantes. A infantaria bizantina, coberta pelos arqueiros na muralha, saiu a correr pela porta e espalhou-se em formação de batalha, com Tomás em pessoa a comandar o ataque. Durante o ataque, Tomás foi atingido por uma flecha no olho direito. Sem conseguirem quebrar as linhas inimigas, os bizantinos retiraram de volta para a fortaleza. Diz-se que Tomás teria jurado tirar mil olhos como vingança da perda do seu. Os bizantinos ainda fizeram outra grande saída nessa noite, mas igualmente sem êxito.

Segundo ataque bizantino Para este segundo ataque, Tomás planeou saídas simultâneas de quatro portas. O principal seria novamente a partir da Porta de Tomás, para tirar partido do cansaço das tropas muçulmanas ali estacionadas. Os outros ataques, a partir das portas de Gabita, Oriental e Porta Pequena, tinham como objetivo assegurar que as outras unidades muçulmanas não pudessem ajudar a de Xurabil na Porta de Tomás.

Na Porta Oriental Tomás reuniu mais tropas do que nas outras portas, de forma que Calide fosse impossibilitado de ir em apoio de Xurabil e tomar o comando naquele setor decisivo. O ataque de Tomás em várias portas também deu maior flexibilidade à operação: se fosse logrado êxito em algum setor que não o da Porta de Tomás, esse êxito poderia ser explorado enviando mais tropas para aquele setor para conseguir quebrar o cerco. Tomás ordenou que Calide fosse capturado vivo.