A adaptação hedónica (hedonic treadmill, hedonic adaptation) é a tendência observada nos humanos para regressar rapidamente a um nível relativamente estável de felicidade apesar da ocorrência de importantes acontecimentos positivos ou negativos ou de mudanças de vida. De acordo com esta teoria, à medida que uma pessoa ganha mais dinheiro, as suas expectativas e desejos aumentam em consonância, do que resulta não haver qualquer ganho permanente em felicidade. Philip Brickman e D. T. Campbell fixaram o termo no seu ensaio Hedonic Relativism and Planning the Good Society (1971).em M. H. Apley, ed., Adaptation Level Theory: A Symposium, New York: Academic Press, 1971, pp 287–302 No final dos anos 1990s, o conceito foi modificado pelo psicólogo britânico Michael Eysenck para passar ser a actual teoria da passadeira rolante hedónica que compara a procura da felicidade por uma pessoa a ela andar numa passadeira rolante, ou seja, tem de continuar a andar apenas para ficar no mesmo sítio. O conceito vem desde a antiguidade, desde pensadores como Santo Agostinho, que foi citado por Robert Burton na sua obra Anatomy of Melancholy de 1621: ""O desejo não tem descanso" é um ditado verdadeiro, pois é infinito em si mesmo, não tem fim e, como se usa dizer, é uma nora a rodar sem parar.""A true saying it is, Desire hath no rest, is infinite in itself, endless, and as one calls it, a perpetual rack, or horse-mill."
O ponto de equilíbrio (ou fixo) de felicidade (ou hedónico, hedonic ou happiness set point, em inglês) tem merecido interesse no campo da psicologia positiva, em que tem sido sucessivamente desenvolvido e revisto.Lykken, David, e Tellegen, Auke. "Happiness Is A Stochastic Phenomenon", Psychological Science 7.3 (1996): 186-189. Print. Dado que a adaptação hedónica geralmente demonstra que a felicidade de longo prazo de uma pessoa não é significativamente afetada por acontecimentos que são de outro modo influentes, a psicologia positiva tem-se preocupado na descoberta de coisas que podem levar a alterações duradouras dos níveis de felicidade.
Visão Geral
A adaptação hedónica é um processo ou mecanismo que reduz o impacto afetivo de acontecimentos emocionais. Em geral, a adaptação hedónica envolve um “ponto fixo de felicidade” ("happiness set point"), no qual os seres humanos em geral mantêm um nível constante de felicidade ao longo da vida, apesar dos acontecimentos que ocorrem ao seu redor.Kuhn, Peter J; Kooreman, Peter; Soetevent, Adriaan; & Kapteyn, Arie. (2008). The Own and Social Effects of an Unexpected Income Shock: Evidence from the Dutch Postcode Lottery. Department of Economics, UCSB. UC Santa Barbara: Department of Economics, UCSB. Retrieved from: http://escholarship.org/uc/item/07k895v4 O processo de adaptação hedónica é frequentemente conceptualizado como uma passadeira rolante, dado que cada indivíduo tem de continuamente trabalhar para manter um certo nível de felicidade. Outros vêem o funcionamento da adaptação hedónica de forma similar a um termostato (um sistema de contrarreação (negative feedback)) que funciona para manter o ponto de felicidade de um indivíduo. Uma das principais preocupações da psicologia positiva é determinar como manter ou aumentar o ponto de felicidade de cada um e, além disso, que tipo de práticas levam a uma felicidade duradoura.
A adaptação hedónica pode ocorrer de várias maneiras. Geralmente, o processo envolve mudanças cognitivas, tais como a mudança de valores, de objectivos, de atenção e da interpretação de uma situação.Frederick, Shane; Loewenstein, George Kahneman, Daniel (Ed); Diener, Ed (Ed); Schwarz, Norbert (Ed), (1999). Well-being: The foundations of hedonic psychology. , (pp. 302-329). New York, NY, US: Russell Sage Foundation, xii, 593 pp. Além disso, há processos neuroquímicos que dessensibilizam no cérebro os caminhos hedónicos demasiado estimulados, o que possivelmente evita níveis elevados persistentes de sentimentos intensos, positivos ou negativos.Solomon, R. L., & Corbit, J. D. (1974). An opponent-process theory of motivation: I. Temporal dynamics of affect. Psychological Review, 81, 119-145 O processo de adaptação também pode ocorrer através da tendência dos seres humanos para construir elaboradas justificações para se considerarem à margem por meio de um processo a que o teórico social Gregg Easterbrook apelida de negação alargada (abundance denial, em inglês).Easterbrook, Gregg. The Progress Paradox: How Life Gets Better While People Feel Worse, Random House, 2003. ISBN 0812973038
Principais abordagens teóricas
Abordagem comportamental/psicológica
A "adaptação hedónica" (“hedonic treadmill”) é um termo fixado por Brickman e Campbell no seu artigo “Hedonic Relativism and Planning the Good Society” ("Relativismo Hedónico e Planejamento da Boa Sociedade") de 1971, que descreve a tendência das pessoas para manter um nível básico relativamente estável de felicidade apesar dos acontecimentos externos e das flutuações nas circunstâncias demográficas. A ideia de felicidade relativa já vinha sendo tratada há décadas quando, em 1978, Brickman e Campbell começaram a abordar o prazer hedónico no âmbito da teoria do nível adaptação de Helson, que sustenta que a perceção do estímulo depende da comparação de estímulos anteriores.Brickman, Philip; Coates, Dan; Janof-BUlman, Ronnie, Agosto de 1978, Journal of Personality and Social Psychology, 36.8, 917-927 A adaptação hedónica funciona de forma similar à maioria das adaptações que servem para proteger e melhoram a perceção. No caso hedónico, a sensibilização ou dessensibilização para as circunstâncias ou para o ambiente pode redirecionar a motivação. Essa reorientação funciona para proteger contra a complacência, mas também para aceitar circunstâncias inalteráveis e redirecionar os esforços no sentido de objectivos mais eficazes.Frederick, C. & Lowenstein, G., Hedonic Adaptation, 1999, Well-being: The foundations of hedonic psychology, 302-329 Frederick e Lowenstein referem três tipos de processos na adaptação hedónica: níveis de adaptação móveis, dessensibilização (desensitization) e sensibilização (sensitization). Níveis de adaptação móveis ocorrem quando uma pessoa experimenta uma alteração no que é percebido como um estímulo "neutro", mas mantém a sensibilidade para diferenças de estímulo. Por exemplo, se obtiver um aumento salarial, o Rui inicialmente ficará mais feliz mas depois habitua-se ao salário maior e retorna ao seu ponto de ajuste de felicidade. Mas irá ficar contente quando receber uma gratificação extra. A dessensibilização diminui a sensibilidade em geral, o que reduz a sensibilidade à mudança. Quem viveu em zona de guerra por um período de tempo prolongado pode tornar-se insensível à destruição que acontece diariamente e ser menos afetado pela ocorrência de ferimentos graves ou perdas que anteriormente podiam ter sido chocantes e perturbadores. A sensibilização é um aumento da resposta hedónica derivada de uma exposição contínua, tal como o aumento do prazer e seletividade dos provadores de vinho, ou de comida.
Brickman, Coates e Janoff-Bulman foram dos primeiros a investigar a adaptação hedónica no seu estudo de 1978, “Lottery Winners and Accident Victims: Is Happiness Relative?” ("Ganhadores de loteria e vítimas de acidente: É a felicidade relativa?". Os paraplégicos e os ganhadores de loteria foram comparados a um grupo controle e como previsto, a comparação (com experiências passadas e comunidades atuais) e a habituação (a novas circunstâncias) afetaram os níveis de felicidade de tal modo que após o impacto inicial de acontecimentos extremamente positivos ou negativos, os níveis de felicidade tipicamente voltavam para os níveis médios. Este estudo baseado em entrevistas, ainda que não longitudinal, foi o início do campo de trabalho atualmente alargado que explora a relatividade da felicidade.
Brickman e Campbell originalmente deduziram que todos retornavam ao mesmo ponto fixo neutro após um acontecimento de vida emocionalmente significativo. Na revisão de literatura “Beyond the Hedonic Treadmill, Revising the Adaptation Theory of Well-Being” (2006), Diener, Lucas, e Scollon concluíram que as pessoas não são hedonicamente neutrais, e que os indivíduos têm diferentes pontos fixos que são pelo menos parcialmente hereditários.Diener, E.; Lucas, R.E.; Scollon, C.N., Beyond the hedonic treadmill - Revising the adaptation theory of well-being, American Psychologist, 2006, Vol.61(4), pp.305-314 Também concluíram que os indivíduos podem ter mais do que um ponto fixo de felicidade, como um ponto de satisfação de vida (life satisfaction), e um ponto de bem estar subjectivo (subjective well being), e que por causa disto, o nível de felicidade de cada um não é apenas um dado ponto estável mas que pode variar dentro de um dado intervalo. Diener e os colegas argumentam que o ponto estável de felicidade pode mudar e, por fim, que os indivíduos são diferentes na taxa e grau de adaptação que exibem relativamente a mudanças no que os circundam.
Num estudo longitudinal realizado por Mancini, Bonnano e Clark, as pessoas apresentaram diferenças individuais na forma como respondiam a acontecimentos significativos na sua de vida, como o casamento, o divórcio e a viuvez. Eles reconheceram que alguns indivíduos experimentam alterações substanciais ao longo do tempo do seu ponto estável hedónico conjunto, embora a maioria dos outros não o experimentam, e argumentam que o ponto estável de felicidade pode ser relativamente estável ao longo da vida de um indivíduo, mas a satisfação de vida e o bem estar subjetivo são mais variáveis.Anthony D. Mancini, George A. Bonanno, e Andrew E. Clark, Stepping Off the Hedonic Treadmill Individual Differences in Response to Major Life Events, Journal of Individual Differences 2011; Vol. 32(3):144–152
De forma similar, o estudo longitudinal realizado por Fujita e Diener (2005) descreveu o ponto estável de satisfação de vida como uma "linha de base suave" (“soft baseline”). Isto significa que, para a maioria das pessoas, esta linha de base é similar à sua linha de base da felicidade. Normalmente, a satisfação de vida situar-se-á em torno de um dado ponto durante a maior parte das suas vidas e não muda drasticamente. No entanto, para cerca de um quarto da população, este dado ponto não é estável e de fato desloca-se em resposta a um acontecimento importante para as suas vidas.Fujita, F. e Diener E.(2005). Life satisfaction set-point: Stability and change. Journal of Personality and Social Psychology, 88, 158-64 Outros dados longitudinais têm demonstrado que os pontos estáveis de bem estar subjetivo variam ao longo do tempo, e que a adaptação não é necessariamente inevitável. Na sua análise de dados de arquivo, Lucas encontrou provas de que é possível que o ponto estável de bem-estar subjetivo de alguém pode mudar drasticamente, como no caso de indivíduos que ficam sujeitos a uma incapacidade física grave e permanente. Contudo, como Diener, Lucas, e Scollon salientam, o grau de flutuação em torno do seu ponto estável que uma pessoa experimenta depende principalmente da capacidade individual para se adaptar.