Waldisa Rússio Camargo Guarnieri (São Paulo, 5 de setembro de 1935 - São Paulo, 11 de junho de 1990) foi uma advogada, professora e museóloga brasileira, reconhecida como uma das personalidades mais influentes no desenvolvimento do pensamento teórico da museologia e de sua consolidação como campo disciplinar no Brasil.
Ela trabalhou a partir de 1957 como funcionária pública estadual exercendo funções diversas e participando no âmbito de reformas administrativas, ao mesmo tempo contribuindo para consolidar o ensino de museologia e a regulamentação da profissão no país. Membro do Comitê Internacional de Museologia (ICOFOM), a partir do início dos anos 1980, ela contribuiu ativamente com as reflexões sobre o campo científico da museologia, publicando diversos textos sobre o assunto.1. GUARNIERI, Waldisa Rússio C. Formação profissional. In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (coord.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, v. 1, 2010, p. 228.
Biografia
Primeiros anos e formação Waldisa Rússio Camargo Guarnieri nasceu no dia 5 de setembro de 1935, na cidade de São Paulo, capital do estado de São Paulo.
No ano de 1959, formou-se no curso de Direito oferecido Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (FDUSP) instituição vinculada a Universidade de São Paulo (USP). A partir de então, passou a se envolver com a gestão de questões culturais do Estado, o que resultou em sua relação com a vida dos museus a partir da década de 1970. Dedicada aos conhecimentos de âmbito cultural e relacionados aos museus, Rússio introduziu essas problemáticas no meio acadêmico ao fazer mestrado em 1977, e doutorado em 1980, na Escola Pós-Graduada da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
Carreira É a partir de sua experiência como Assistente Técnica para a área da Cultura do Governo do Estado de São Paulo e do levantamento de tais questões na academia, que ela começa a delinear a sua contribuição à formação profissional em Museologia.2. RÚSSIO, Waldisa. La museologie et la formation: une seule méthode? ICOFOM Study Series n.5, Museum - Territory - Society. New tendencies / New practices. ADDENDA 3. Londres, 1983. pp. 01-08 comments. Disponível em: http://network.icom.museum/fileadmin/user_upload/minisites/icofom/pdf/ISS%2005%20(1983).pdf Ela coordenou, entre as décadas de 1960 e 1970, diversos projetos para a implantação de museus estaduais no país.
Motivada pelas recomendações do Conselho Internacional de Museus (ICOM) das décadas de 1960 e 1970, que previam a formação de profissionais específicos – os “museólogos” – em todos os níveis, Waldisa Rússio criou o primeiro Curso de Museologia do estado na FESPSP, no ano de 1978, dando preferência ao nível de pós-graduação.RÚSSIO, Waldisa. La museologie et la formation: Une seule méthode? ICOFOM Study Series n. 1, Methodology of Museology and Professional Training. Estocolmo, 1983. pp. 1-8 comments. Na mesma instituição de ensino, contribui para a formatação do Instituto de Museologia de São Paulo, no ano de 1985.
Vinculado à Escola Pós-graduada de Ciências Sociais da FESPSP, o curso de especialização em Museologia era beneficiado com sua estrutura e forma pedagógicas. Como outra característica, tinha a interdisciplinaridade como método.4. Id. Formação do museólogo: Por que em nível de pós-graduação? In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (Coord.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, v.1, 2010, p. 234. Ao justificar a existência de tal curso, Waldisa Rússio afirma que, considerando o fato de que o estudo dos museus e da museologia exige um caráter interdisciplinar, só parece “viável e exequível em nível pós-graduado quando os estudantes já possuem domínio de uma disciplina, na qual estão ‘formados”.GUARNIERI, Op. cit., p. 234. Com o tempo, a proposta da museóloga era a de desenvolver o mestrado em Museologia a partir do curso de especialização.
No entanto, com seu falecimento em 1990, o curso perduraria somente até 1992, sem a concretização efetiva do mestrado na área. Graças a uma reformulação da estrutura interna da FESPSP, que passaria a se organizar em institutos, abordagens interdisciplinares não foram mais priorizadas, relegando a museologia defendida por Rússio Guarnieri ao segundo plano.BRULON SOARES, B. C.; DE CARVALHO, Luciana Menezes; CRUZ, H. V. O nascimento da Museologia: confluências e tendências do campo museológico no Brasil. In: MAGALHÃES, Aline Montenegro; BEZERRA, Rafael Zamorano. (Org.). 90 anos do Museu Histórico Nacional em debate (1922-2012). 1ed. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2014, p. 244-262. Waldisa Rússio também conduziu o Grupo Técnico de Museus da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo (1976). Contribuiu na elaboração de projetos museológicos como, por exemplo, o do Museu da Indústria (década de 1980) e o da Estação Ciência (1986-1988). Além disso, estabeleceu diversas contribuições ao Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, ICOM-Brasil, onde ingressou em 1977, e ao Comitê Internacional de Museologia do ICOM, criado nesse mesmo ano. Waldisa foi membro ativo do ICOFOM, se tornando a primeira brasileira a publicar textos teóricos sobre Museologia reconhecidos internacionalmente no âmbito desse comitê.Cf. RUSSIO, W. Interdisciplinarity in museology. Museological Working Papers - MuWoP 2, 1981, p. 56–57.
Alguns meses antes de sua morte, Waldisa Rússio esteve na organização, em conjunto com o Instituto de Museologia de São Paulo, do "I Seminário Latino-Americano de Museologia" realizado em 1990, no Memorial da América Latina, na cidade de São Paulo.BRUNO, Maria Cristina Oliveira (Org.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. V.1. São Paulo: Pinacoteca do Estado; Secretaria de Estado de Cultura; Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, 2010, p.20. A programação do evento evidencia uma preocupação particular da museóloga com os problemas culturais e patrimoniais, e a inserção da formação profissional nesse contexto, tópico este que já constituía um dos seus interesses de investigação.9. RÚSSIO GUARNIERI, W. La muséologie et la formation: une seule méthode. ICOFOM Study Series – ISS 5, 1983, p. 32–39.
Morte Rússio teve uma morte prematura em 11 de junho de 1990, na cidade de São Paulo aos 54 anos.
Pontos de vista sobre a museologia O "fato museal" ou “fato museológico”
Waldisa Rússio, bem como Tereza Scheiner, integraram um grupo de pensadores do ICOFOM que possibilitaram que a Museologia internacional fosse atualmente pensada como uma ciência social, ou uma ciência social aplicada. Na teoria que produziu no seio do ICOFOM, Rússio formulou a noção de "fato museológico" ou “fato museal”,CARVALHO, Luciana Menezes de. Waldisa Rússio e Tereza Scheiner - dois caminhos, um único objetivo: discutir museu e Museologia. Revista Museologia e Patrimônio. MAST. Rio de Janeiro, 2011, pp. 147-158. sua mais conhecida e representativa conceituação derivada do fato social pensado por Durkheim e Mauss no âmbito da Sociologia, que é entendida como a relação do homem e os objetos de sua realidade e que seria, para ela, o verdadeiro objeto de estudo da museologia científica.
Para criar tal síntese sobre o caráter científico da Museologia, ela baseou-se no pensamento de E. Durkheim, notadamente, na obra “As regras do método sociológico”, a qual o autor defende uma visão de “fato social” que pode ser compreendido como todas as práticas do grupo ou da sociedade que são tomadas coletivamente,de modo que“[...] só existe fato social onde exista uma organização definidaDURKHEIN, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia editora nacional, 9 ed., 1984, p.6.. O autor determina que para analisar e compreender tal fato social: “[...] É preciso afastar sistematicamente todas as prenoções”, logo, o papel do sociólogo é o reinterpretar os fatos de maneira totalmente imparcial."DURKHEIN, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia editora nacional, 9 ed., 1984, p.27.
Para Rússio:
RUSSIO, W. Interdisciplinarity in museology. Museological Working Papers – MuWoP 2, 1981, p. 58.
Sistematizando:
1. O homem, um projeto inacabado, em constante evolução, um ser no mundo, dotado de sensibilidade e de razão, de memória e de imaginação, capaz de agir e criar;
2. O objeto, contingente, existindo "aqui e agora", num contexto espaço-temporal, documento e testemunho de uma realidade suscetível de ser percebida[...];
3. O enclave museu um processo fazendo-se num continuum, dentro da realidade do homem e do social[...]GUARNIERI, Waldisa Rússio C. Formação profissional. In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (coord.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, v. 1, 2010, p.128.
Segundo o esquema tríptico proposto por Hugues de Varine, que permeou de forma marcante o pensamento museológico ao longo dos anos 1980, podemos apresentar a seguinte relação com a perspectiva desenvolvida por Rússio:
FATO MUSEAL= HOMEM / OBJETO / CENÁRIO
↓ ↓ ↓
Museu tradicional = público + coleção + edifício
Novo museu = população + patrimônio + território
CÂNDIDO, Manuelina Maria Duarte. Teoria Museológica: Waldisa Rússio e as correntes internacionais. In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (Org.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. V.2. São Paulo: Pinacoteca do Estado; Secretaria de Estado de Cultura; Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, 2010, p.151.
Tal conceituação ressalta uma abordagem que interpreta os objetos como testemunhos de processos sociais – ou seja, inseridos em um determinado contexto. Assim, o conceito de fato museal propõe o contrário do que acontecia até então no campo dos museus, onde consideravam-se tais objetos de uma forma isolada, sem uma preocupação com seu contexto histórico ou com os resultados de sua ação.
"Interdisciplinaridade"
Para Rússio, a interdisciplinaridade firma o campo museológico auxiliando-o para que de fato seja compreendido como científico. Segundo a autora, "Esse fato evidencia que a razão e a prática museológicas, orientadas para um processo de interdependência, reciprocidade [...] permitem que a pesquisa científica, a formação e o exercício profissional sejam um sistema",GUARNIERI, Waldisa Rússio C. Sistema da Museologia (1983). In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (coord.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, v. 1, 2010, p.134. explicando em seguida a alteração em cada instância: museu, ciência museológica, nível profissional.
O museu se configura basicamente pelo homem e pela vida, o que permite ao processo museológico e ao seu método que sejam substancialmente interdisciplinares, já que o estudo do homem, da natureza e da vida, possui especificidades de conhecimentos diversos.GUARNIERI, Waldisa Rússio C. A interdisciplinaridade em Museologia (1981). In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (coord.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, v. 1, 2010, p.126.
Segundo Rússio:
“A interdisciplinaridade deve ser o método de pesquisa e de ação da museologia e, portanto, o método de trabalho nos museus e cursos de formação de museólogos e funcionários de museus”GUARNIERI, Waldisa Rússio C. A interdisciplinaridade em Museologia (1981). In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (coord.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, v. 1, 2010, p.126.
"Museologia”e “Museografia"