Alcides Longhi (Caxias do Sul, 10 de junho de 1917 – Caxias do Sul, 18 de agosto de 1994) foi um industrial, comerciante e futebolista brasileiro.

Iniciando a vida como sapateiro de magros recursos, fundou uma fábrica e loja de sapatos que por alguns anos foi muito bem sucedida, sendo elogiada na imprensa e exportando seus produtos para outros locais do estado do Rio Grande do Sul e do Brasil, mas faliu em 1954 e passou a enfrentar dificuldades econômicas. Ao mesmo tempo, sempre envolvido no futebol, foi um ativo colaborador do Esporte Clube Juventude, atuando primeiro como jogador, foi capitão de 1939 a 1947, e a partir de 1941, por mais de 40 anos, participou quase ininterruptamente da diretoria, desempenhando múltiplas funções. Foi presidente do clube em 1949, quando o Juventude sagrou-se campeão invicto do Campeonato Citadino, e coordenador das obras de construção do Estádio Alfredo Jaconi na década de 1970. Foi um dos mais populares "ídolos" do alviverde em sua geração, que coincidiu com os tempos dourados do amadorismo, conquistou vários campeonatos e distinções, incluindo dez títulos de campeão do Citadino, tornou-se figura estimada na cidade e é lembrado como um destacado personagem da história do futebol caxiense. Casado com Noris Leda Artico, teve seis filhos que deram expressivas contribuições à sociedade local.

Biografia Família

A família de Alcides Longhi é nativa de Vermiglio, comuna situada no norte do Trentino, Itália, onde são atestados desde meados do século XVI como membros da comunidade de vicini (cidadãos livres com plenos direitos políticos). Os primeiros membros individualizados na documentação são Bartolomeo, Antonio e Domenico, todos residentes no distrito de Fraviano, que em 19 de junho de 1558 são citados na ata da assembleia geral da Regra (o Conselho comunal), participando da governança. Outros membros aparecem logo depois como donos de terras nos distritos de Cortina e Pizzano. O mais remoto ancestral direto de Alcides conhecido com segurança é Giovanni Domenico Longhi, nascido em torno de 1600. A partir de fins do século XVIII alguns ancestrais diretos foram citados como madeireiros e carpinteiros, uma atividade que seria continuada no Brasil. O brasão mostrado ao lado está na família há gerações, mas a memória da data e das circunstâncias de sua adoção foi perdida.Frantz, Ricardo André Longhi. Crônica das famílias Artico e Longhi de Caxias do Sul e sua parentela - Volume IV - o passado na Europa. Academia.edu, 2025, pp. 13-36

thumb|left|180px|Pedra fundamental da comunidade de São Romédio

O bisavô de Alcides, o imigrante Ignazio Longhi, antes casado com Anna Maria Poli, chegou ao Brasil em meados de 1876 com sua segunda esposa Candida Pedron e alguns filhos, nos primórdios da imigração italiana no Rio Grande do Sul, estando entre os primeiros colonizadores de Caxias do Sul.Gardelin, Mário & Balen, João Maria. “Primeiras Famílias Chegadas a Caxias do Sul”. Folha de Caxias, 10/06/1989Gardelin, Mário & Costa, Rovílio. Os Povoadores da Colônia Caxias. EST / Folha de Hoje, 1994 Ignazio faleceu poucos anos depois da chegada, legando a chefia da família ao seu primogênito Giovanni Battista, um dos fundadores da Comunidade de São Romédio, onde primeiro formou-se um núcleo comunitário, sendo hoje considerada "o berço de Caxias". Ali também participou da fundação e foi membro da primeira diretoria da Sociedade Igreja de São Romédio, a primeira associação civil da cidade,"Primeira sociedade caxiense comemora 125 anos". Folha do Sul, 23-24/12/2000"Comunidade caxiense celebra 135 anos" . Correio Riograndense, s/d. permanecendo na função até 1894, colaborando na estruturação da comunidade e na construção das duas primeiras capelas de madeira, da escola e do cemitério.

Giovanni Battista rapidamente prosperou como agricultor, madeireiro, carpinteiro, marceneiro, ferreiro, moleiro, produtor de vinho e comerciante, abrindo uma série de negócios. João Tessari, o historiador de São Romédio, o chamou de um "faz-tudo", e anos depois de morto virou lenda, quando seu túmulo foi aberto para uma reforma e seus despojos não foram encontrados. Sua esposa, Catterina Rossi, também gerou folclore, falecendo com fama de santa, e 32 anos depois de seu sepultamento seu corpo foi encontrado incorrupto, o que desencadeou a formação de um pequeno culto popular em seu redor, sendo-lhe atribuídas graças e curas.Tessari, João Antônio. Memórias. E.A., 1994

Victorio Longhi, filho de Giovanni e Catterina, casou com Lucia Pezzi e foi pai de Alcides, Francisco, Tercila, Flora, Romilda, Oscar, Natalino, Irma e Guilherme. Victorio deixou a zona semi-rural de São Romédio e passou a viver no centro urbano, mas ainda foi conselheiro fiscal da Sociedade e um dos fundadores da terceira e atual capela.Frantz, Ricardo André Longhi. [https://www.academia.edu/43006119/Cr%C3%B4nica_das_fam%C3%ADlias_Artico_e_Longhi_de_Caxias_do_Sul_e_sua_parentela_Volume_III_atualiza%C3%A7%C3%A3o_dezembro_2025_ Crônica das famílias Artico e Longhi de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, história e genealogia — Volume III]. Academia.edu, 2025, pp. 11-68 Tornou-se grande industrial madeireiro, um dos três sócios de uma empresa que em seu auge teve o vultoso capital de 900 contos de réis e filiais em Porto Alegre e Jaguari,Giron, Loraine Slomp & Bergamaschi, Heloísa Eberle. Casas de Negócio: 125 anos de imigração italiana e o comércio regional. EDUCS, 2001, p. 138

No entanto, em sua juventude a família Longhi havia empobrecido, e Alcides iniciou sua vida profissional como sapateiro, aprendendo o ofício de João Maineri. Casou-se em 1938 com Noris Leda Artico, filha de Augusto Artico e Ema Panigas, nascida em 10 de novembro de 1918 e falecida em 16 de outubro de 2011, também de família tradicional,"Faleceu o sr. Augusto Artico". Pioneiro, 24/06/1962 mas que tivera sorte semelhante, ganhando riqueza no início do século com uma grande cantina, de produto premiado,"Visitando lo stabilimento". Città di Caxias, 14/10/1915"Inauguração de uma cantina". O Brazil, 13/07/1917"Os Srs. Artico & Cia." Città di Caxias, 12/01/1920 e falindo em 1921.“Notas forenses”. O Brasil, 25/03/1922 Com a esposa teve os filhos Beatriz Ignez, Elisabeth Ana, Vera Mari, Villi Victorio, Vitor Augusto e Roberto Alcides.Câmara de Vereadores de Caxias do Sul. 355ª Sessão Ordinária no 3º Período da XIII Legislatura, 10/09/2003

Carreira na indústria

Associando-se ao irmão Francisco, abriu uma fábrica de sapatos em torno de 1935, a Longhi & Cia. Ltda., mais conhecida como Fábrica de Calçados Caxias, iniciando uma fase ascendente. Na época era a única empresa do gênero da cidade, produzindo calçados de todos os tipos, mas concentrando-se nos modelos escolares e botas para o Exército, passando a atender o mercado interno e também exportando seu produto para várias cidades do Rio Grande do Sul e outros estados do Brasil.Rigon, Roni. “Memória: novo setor produtivo”. Pioneiro, 02/09/2003 Giron & Bergamaschi, p. 173

thumb|esquerda|Longhi em sua primeira sapataria, c. 1935. thumb|esquerda|Publicidade da sua fábrica de sapatos.

A empresa conheceu um período de significativa prosperidade, ampliando suas instalações em 1947 com uma seção de varejo junto à fábrica e abrindo uma loja própria em 1948 na praça central da cidade. A imprensa da época apontou sua contribuição para o avanço econômico e industrial de Caxias,"Inaugurado o varejo de Calçados da Fábrica Longhi & Cia. Lt." O Momento, 13/03/1948 como fez O Momento:

"Aqui estamos hoje falando da grande fábrica de calçados da firma Longhi & Cia. Ltda. Não resta dúvida que o progresso e o desenvolvimento material e cultural desta terra, de anos a esta parte, vem tomando um incremento extraordinário, digno do maior crédito e apreciação. Assim, depois de termos abordado noutros números, a marcha admirável de dois importantes estabelecimentos comerciais da praça, hoje cuidaremos [...] da firma que tem como dirigente o sr. Alcides Longhi. Senhor dum tino comercial idôneo e apreciável, cavalheiresco e entusiasta do esporte caxiense, o sr. Alcides Longhi há mais de um lustro que está norteando, dentro do terreno da honradez e do critério, a Fábrica de Calçados marca 'Caxias', instalada próxima ao campo do Juventude.

"Iniciando suas atividades com modesta sapataria, em ponto central da cidade, hoje o sr. Alcides Longhi, para orgulho desta terra, orienta os negócios daquele modelar estabelecimento. Com uma seção de varejo instalada na própria fábrica, com funcionários que exprimem a beleza do comércio moderno, no tocante ao esforço, a dedicação, a atenção e o trabalho em geral, o sr. Alcides Longhi viu concretizados os seus mais ardentes sonhos. A passos gigantescos, marcha a indústria em Caxias do Sul. Com homens de têmpera construtiva e progressista do quilate do sr. Alcides Longhi e doutros que integram a poderosa indústria, breve a 'Pérola das Colônias' poderá, festivamente, proclamar a sua independência econômica"."A Fábrica de Calçados 'Caxias' de Longhi & Cia." O Momento, 31/05/1947

Recebeu destaque também em 1950 em dois grandes álbuns ilustrados comemorativos dos 75 anos da colonização italiana no estado, um publicado pela Festa da Uva e outro pela Municipalidade. No primeiro, declara-se que a cidade podia se orgulhar de uma empresa que era a única em seu tipo na região e que se comparava às melhores do estado,Festa da Uva. Álbum Comemorativo do 75º Aniversário da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul. Editora Globo, 1950, p. 218 e no segundo, de teor semelhante, foi descrita como...

"[...] uma fábrica de calçados que hoje figura em pé de igualdade com as mais reputadas congêneres do estado e do país, [...] fornecendo calçados de todos os tipos, todos de superior qualidade, a uma multidão de consumidores em todo o estado e demais unidades da Federação. [...] Fazendo do binômio 'qualidade e preço módico' o seu lema de trabalho, a firma Longhi & Cia. Ltda. conquistou para seus calçados uma aceitação que superou as melhores expectativas. [...] Os negócios da firma acham-se sob a direta orientação do sócio sr. Alcides Longhi, cuja capacidade comercial tem sido um dos fundamentos do extraordinário progresso que consolidou em poucos anos a Fábrica de Calçados Caxias".Antunes, Duminiense Paranhos (org). Documentário Histórico do Município de Caxias do Sul 1875-1950, Comemorativo do 75º Aniversário da Colonização. Associação Comercial / Biblioteca Pública / Câmara dos Vereadores / Prefeitura de Caxias do Sul, 1950, p. 223

Porém, depois desta boa fase, Longhi faliu em 1954,"Edital de 1ª Praça". A Época, 14/01/1954 em uma crise do setor coureiro. Então passou a direcionar sua atenção para outra empresa que havia fundado na mesma época, a Mibral, que produzia rebites, braçadeiras e lonas para freios, mas que até a falência da fábrica de calçados havia permanecido em segundo plano e tinha um porte pequeno. Para aumentar seus rendimentos e sustentar sua grande família, abriu também uma lancheria. No entanto, os negócios não foram muito bem e ele passou por períodos difíceis. Em 1965 a Mibral tornou-se uma sociedade anônima, quando Longhi retirou-se da empresa e se aposentou.

O desportista

Paralelamente à sua vida empresarial, Longhi sempre manteve forte envolvimento com o futebol, vindo a construir destacada carreira. Iniciou sua participação no Esporte Clube Juventude nos anos 30 como júnior, e em 1935 ingressou no time principal, ocupando a posição de zagueiro.Rigon, Roni. “Memória: o zagueiro Alcides”. Pioneiro, 18/09/2003 Nesta época, por um breve período colaborou com o Esporte Clube Cruzeiro do Sul como tesoureiro,"S. C. Cruzeiro do Sul". O Momento, 13/01/1936 mas dedicaria depois toda a vida ao Juventude. Francisco Michielin o citou em várias passagens de seu livro Assim na Terra como no Céu, que narra a história do clube. Em uma delas, o autor diz: