thumb|upright=1.2|Dácia romana entre 106-271. Os carpos estão representados ocupando a zona entre os rios Sirete e Prut na Moldávia (Romênia Oriental)

Carpos () ou carpianos (; ) eram um antigo povo que residiu nas porções orientais da atual Romênia na região histórica da Moldávia não mais tardar que 140 até ao menos 318. A afiliação étnica dos carpos permanece disputada, pois não há evidências diretas sobreviventes nas fontes literárias antigas. Um grande número de estudiosos consideram-os como um tribo dácia. Outros, conectam-os com uma variedades de grupos étnicos, incluindo sármatas, trácios, germanos e celtas.

Cerca de um século depois da menção mais antiga a eles feita por Ptolemeu, durante um período no qual suas relações com o Império Romano pareceram amistosas, os carpos emergiram ca. 238 entre os mais persistentes inimigos dos romanos. No período entre 250-270, eles foram um importante componente da coalizão hostil de tribos bárbaras transdanúbias que incluía elementos germânicos e sármatas. Eles foram responsáveis por uma série de invasões grandes e devastadoras das regiões balcânicas do império que quase causaram sua desintegração na Crise do século III.

No período de 270-318, os imperadores romanos agiram para remover a ameaça dos carpos da fronteira imperial. Várias derrotas foram infligidas aos carpos em 279, 297, 298-308 e 317, após as quais vários deles foram forçosamente transferidos para a província romana da Panônia, na atual Hungria Ocidental, como parte da política imperial para repovoar as províncias danúbias devastadas pelas tribos bárbaras. Uma vez que os carpos não são mencionados em documentos pós-318, é possível que tivessem sido grandemente removidos da região dos Cárpatos por ca. 318 ou, se alguns permaneceram, é possível que misturaram-se com os demais povos residentes ou imigrantes da Moldávia, como os sármatas ou godos.

Etimologia do nome

Os greco-romanos chamaram este povo de carpos ou carpianos. Provavelmente a menção mais antiga a eles, sob o nome carpianos, está na Geografia do geógrafo grego Ptolemeu, composta ca. 140. Seu nome pode derivar da mesma raiz do nome da cadeia dos Cárpatos que eles ocuparam, e que também foi mencionado pela primeira vez por Ptolemeu sob o nome Καρπάτης - Karpátes. A raiz poder ser o putativo da palavra protoindo-europeia *ker/sker, que significava "pico" ou "penhasco" (comparar o albanês karpë [pedra], o romeno (ş)carpă [precipício], e o latim scarpa).

Estudiosos que apoiam esta derivação estão divididos entre aqueles que acreditam que os carpos deram seus nome para a cordilheira (ou seja, o nome significa "montanha dos carpos") e aqueles que alegam o oposto. No último caso, carpianos poderiam significar simplesmente "pessoas dos Cárpatos". Mas a similaridade entre os nome pode ser coincidência, e eles podem derivar de raízes diferentes. Por exemplo, foi sugerido que o nome pode derivar de uma palavra de raiz eslava krepu significando "forte" ou "bravo". Também, foi sugerido que os Cárpatos podem derivar da raiz sânscrita kar (cortar) que daria o significado de "montanhas acidentadas".

Alguns estudiosos consideram que os seguintes povos registrados em outras fontes antigas correspondem aos carpianos de Ptolemeu:

Os calípidas () mencionados nas Histórias de Heródoto (compostas cerca de ) como residentes na região do rio Borístenes (Rio Dniepre); Os cárpidas () do entorno da foz do rio Tiras (Dniestre) registrados em um fragmento de Pseudo-Escimno (composto ca. ); Os hárpios (), localizados próximo ao delta do Danúbio, mencionados pelo próprio Ptolemeu.

Caso a correlação proceda, as localizações deles podiam implicar que os carpos gradualmente migraram para Oeste no período entre - , um visão defendida por Kahrstedt. O elemento comum carp- presente nestes nomes aparece frequentemente na toponímia e na antroponímia dácia e trácia. Mas não há consenso que tais grupos são de fato os carpos. Bichir sugere que eles eram tribos traco-dácias distantemente relacionadas a eles.

Território

thumb|upright=1.2|Carpianos em um mapa de 1467 baseado na Geografia de Ptolemeu

Segundo a Geografia de Ptolemeu, os carpos ocuparam a região entre o rio Hiéraso (Sirete) e o rio Porata (Prut), ou seja, o futuro Principado da Moldávia. Isso estava fora da Dácia definida pelo próprio Ptolemeu, cuja fronteia oriental era o Hiéraso. A leste desse rio situava-se aquilo que o autor chamou Sarmácia Europeia, uma vasta região que estendeu-se tão longe quanto a Crimeia, predominantemente, mas não por meios exclusivos, povoada por tribos sármatas. Ptolemeu afirmou que os vizinhos dos carpos eram:

A norte, no norte da Moldávia e sul da Galícia, os costóbocos; A sul, na planície valáquia, os roxolanos sármatas; A leste, entre os rios Prut e Dniestre, os bastarnas que migraram . A oeste, entre o Sirete e a província romana, os dácios livres.

Contudo, não é possível definir com segurança os territórios destes grupos devido a imprecisão das fontes geográficas antigas. Também, é provável que em muitas áreas, grupos étnicos se sobrepuseram e o mapa étnico foi uma miscelânea de subgrupos dispersos. Os sármatas e bastarnas são atestados, tanto na literatura como na arqueologia, na Valáquia, Moldávia e Bessarábia. É provável que, quando fontes greco-romanas mencionaram os conflitos com os costóbocos, carpos ou godos, elas estavam referindo-se a coalizões de grupos diferentes sob uma tribo hegemônica.

Cultura material

thumb|esquerda|Trecho do friso da Coluna de Trajano no qual descreve-se o suicídio de Decébalo

Não há disputa entre os estudiosos que alguns assentamentos dácios na Moldávia (principalmente a leste do Sirete, com alguns na margem oriental, incluindo Piroboridava, em Poiana) do reinado de Decébalo foram abandonados por 106, muito provavelmente, segundo Bichir, como resultado da conquista romana da Dácia. Desse ponto, Bichir identifica duas culturas diferentes na Moldávia, coexistindo lado a lado. A primeira, sedentária, foi rotulada "daco-cárpica" e começou cerca de 106 e desapareceu cerca de 318, quando foi substituída pela "variante" Sîntana-de-Mureş da Cultura de Cherniacove, comum em grande parte da região pôntica norte do sul da Europa Oriental, no período de 200-400. A segunda cultura, menor e geralmente associada com os povos nômades das estepes eurasianas, foi rotulada "sármata".

Por 1976, 117 assentamentos sedentários foram identificados, a grande maioria (89) localizados a oeste do Sirete. Seus habitantes viverem em cabanas superficiais ou afundadas no chão. As habitações superficiais eram feitas com pau a pique e terra batida, geralmente de formato retangular ou quadrado, variando de 9 m2 para 30 m2, e continham apenas uma sala com uma lareira de argila localizada no centro. As habitações afundadas, mais numerosas, eram geralmente ovais ou circulares. Estes povos sedentários geralmente cremavam os mortos, e segundo Bichir todos os 43 cemitérios puramente daco-carpos usaram apenas cremações. As cinzas das cremações eram, na grande maioria dos casos, enterradas dentro de urnas. Alguns túmulos continham bens mortuários, mas nenhuma arma além de uma adaga. Bens mundanos incluíam facas, chaves e cinto de fivela; bens valiosos incluíam espelhos em estilo sármata, brincos de prata, pingentes de ouro e pérolas.

thumb|Áureo do imperador Caracala thumb|Culturas arqueológicas góticas do norte do Mar Negro entre os séculos II-IV. A Cultura de Cherniacove está representada em laranja escuro

Os túmulos nômades, por outro lado, são predominantemente inumações, encontrados, em 1976, em 38 locais da Moldávia. Eles foram predominantemente encontrados nas planícies e raramente no sopé dos Cárpatos, individualmente ou em pequenos grupos de 2 a 13 túmulos. A grande maioria dessas sepulturas são planas, em contraste aos túmulos monticulares dos nômades que habitaram a região do Dniestre mais a leste, embora existam algumas sepulturas monticulares secundárias (ou seja, que usaram montículos preexistentes), principalmente datando de 200 em diante. Os túmulos nômades sempre contêm bens tumulares, frequentemente incluindo armas e espelhos gravados com tangas (símbolos rituais ou tribais).

Seis cemitérios na lista de Bichir contêm tanto cremações como inumações. No sítio de Poieneşti, o único completamente investigado em 1976, 6 adultos e 17 crianças foram enterradas, em contraste as 62 cremações encontradas. Desdes, 2 adultos e 7 crianças com seus crânios artificialmente alongados. Este costume, conseguido pelo amarrar firme do crânio duma criança durante seu estágio inicial de crescimento, é associado com os nômades das estepes. Para Bichir os adultos seriam nômades e as crianças a prole de casamentos entre sedentários e nômades. Com base na razão de túmulos sedentários para nômades, conclui-se que os sedentários constituíram a maioria da população da Moldávia. Nos cemitérios mistos documentados, sepulturas nômades constituem cerca de 28% do total.

A cerâmica encontrada nos sítios sedentários inclui o tipo poroso feito à mão, cerâmica cinza feita na roda, cerâmica vermelha queimada e cerâmica romana importada. Bichir descreve as primeiras duas como uma continuidade dácia da cerâmica de La Tène, e aponta a presença da chamada "taça dácia", uma taça de desenho distinto, uma evidência de uma base dácia para esta cultura. Contudo, ele admite que a cerâmica também mostra influência romana e sármata. Não havia uma cunhagem autóctone e as moedas romanas circularam "intensamente" no território carpo. Essa é a base de vários tesouros encontrados na Moldávia (90), bem como cerca de 100 moedas isoladas. Contudo, a circulação de moedas romanas parece ter virtualmente cessado depois de 218, uma vez que não há tesouros e apenas 7 moedas isoladas foram encontrada para o período após o reinado de Caracala .

Afiliação etno-linguística

Segundo a historiografia romena tradicional, bem como vários estudiosos não-romenos, os carpos eram um povo de língua e cultura dácia. Peter Heather, que apoia esta visão, sugere que o nome carpos foi adotado como um nome coletivo das tribos dos dácios livres quando adquiriram um grau de unificação política no começo do . Apesar disso, um significativo número de estudiosos disputa que os carpos eram etnicamente dácios, mas identificaram-se variadamente como sármatas, daco-trácios, celtas ou mesmo protoeslavos. Isso se deve ao fato de que a região entre os rios Sirete e Dniestre tinham grande diversidade étnica durante o período imperial. Em complemento às tribos cito-sármatas (roxolanos, agatirsos, bastarnas), havia celtas (tauriscos, anartes), trácios (biessos) e dácios (tiragetas). Igualmente, alguns estudiosos modernos conjecturam a existência de grupos étnicos formados in loco por origens mistas (mas principalmente com uma base indígena daco/sármata, por exemplo, os godos).

São várias as evidências para apoiar uma identidade dácia:

Arqueologia: cerâmicos e outros artefatos, identificados como "estilo-dácio" por arqueólogos como Bichir, foram descobertos em sítios na região da Moldávia presumivelmente habitada pelos carpos de 100 para 300, bem como em sítios fúnebres. Em particular, Bichir aponta para uma taça de formato incomum e para panelas de decoração "cordada", como caracteristicamente dácias. Contudo, a determinação da afiliação etno-linguística dos carpos usando a tipologia, ou por quantidade relativa de achados, foi questionada por Niculescu. Batty concorda que a presença de artefatos de "estilo dácio" atestam ao nível material dos indígenas, mas não prova sua identidade. Estas objeções refletem a teoria arqueológica moderna, que considera que culturas materiais não são um guia confiável para identidade étnica, e mesmo menos que a linguagem, do povo em questão (que pode, de qualquer forma, mudado ao longo do tempo).