Manuel de Jesus Fortes (Espanha?,? — Minas Gerais?, depois de 1796) foi um ermitão franciscano fundador de duas instituições assistencialistas no Brasil: a Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei (1783) e a Santa Casa de Caridade de Diamantina (1790), ambas ainda em atividade, com uma longa trajetória de relevantes serviços prestados às suas comunidades.Franco, Suely Campos. "A Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei – 230 anos: assistência e devoção". In: Reis, Bernardo (coord.) Congresso Internacional 500 Anos de História das Misericórdias. Braga, 2014, pp. 333-348Lima, Francisco Diomedes Garcia de. "Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei" In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, 1985 (II): 61-67

Biografia

De origem incerta e vida obscura e envolta em lendas, diz uma tradição que era de família espanhola abastada e vivera a juventude entregue ao ócio e aos prazeres, mas depois de passar por uma experiência mística teria mudado de rumo radicalmente, tornando-se um ermitão devotado à caridade.Gusmão, Sebastião Silva; Magnani, Maria Cláudia Almeida Orlando; Ramos Júnior, Silvio Pereira. "Hospital do contrato Diamantino, Santa Casa de Diamantina e Hospício da Diamantina". In: Revista Médica de Minas Gerais, 2012; 23 (2)

Em 21 de outubro de 1771 estava em Vila Rica, no Brasil, jurando o compromisso de admissão na Ordem Terceira de São Francisco de Assis, e em 1772 construiu uma ermida na localidade de Alto do Passa Dez, dedicada ao Santíssimo Coração de Jesus, São Miguel e as Almas do Purgatório, "por não haver na dita paragem capela alguma". Em 15 de outubro de 1773 pediu licença à Ordem para usar as vestes da penitência a fim de esmolar.Araújo, Manoela Vieira Alves de. "Nas vezes da Misericórdia": As Irmandades de São Miguel e Almas no desenvolvimento das práticas caritativas na Capitania de Minas Gerais no Brasil Colonial (1712-1816). Doutorado. Universidade Federal de Juiz de Fora, 2019, pp. 185-190

Vila de São João del-Rei Desejava construir um hospital para os pobres em São João del-Rei, onde "se pudessem recolher para serem assistidos de médico, cirurgião e botica, e ao mesmo tempo do alimento necessário".Ribeiro, Lourival. Medicina no Brasil colonial. Sul Americana, 1971, p. 55 Em janeiro de 1783 as obras estavam concluídas, e a então chamada Casa de Caridade começou a funcionar, contando com 30 leitos e uma capela dedicada a Nossa Senhora da Misericórdia, São João de Deus e as Almas do Purgatório, "para os enfermos se poderem confessar na entrada que fizerem para o mesmo hospital e nas ocasiões em que carecerem de sacramentos ou aperto de suas enfermidades". Em quatro meses o hospital já havia curado 60 pessoas. Segundo Manoela de Araújo, apesar de ter sido descrito como "homem ordinário e pouco dotado dos bens da terra", Fortes era "bem relacionado, pois além de ter conseguido um avultado número de esmolas para poder construir o dito hospital em tão pouco tempo, ele reuniu o testemunho de outros vários moradores ilustres da região atestando 'a sua probidade e boa conduta na legítima aplicação das esmolas que se conseguem'". Teve vários colaboradores na empreitada. O termo de aprovação da capela foi passado em 6 de janeiro de 1784. Tencionando consolidar sua obra com o estatuto régio de Santa Casa de Misericórdia, ainda em 1783 Fortes endereçou um requerimento à rainha Maria I, pedindo ao mesmo tempo permissão para fundar uma irmandade mantenedora. O pedido foi encaminhado em 1785 para análise do presidente do Conselho Ultramarino, o Conde da Cunha.Gusmão, Sebastião Silva; Magnani, Maria Cláudia Almeida Orlando; Ramos Júnior, Silvio Pereira. "Hospital do contrato Diamantino, Santa Casa de Diamantina e Hospício da Diamantina". In: Revista Médica de Minas Gerais, 2012; 23 (2)Franco, Suely Campos. "A Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei – 230 anos: assistência e devoção". In: Reis, Bernardo (coord.) Congresso Internacional 500 Anos de História das Misericórdias. Braga, 2014, pp. 333-348 Embora o mérito da iniciativa tenha sido reconhecido, foram levantadas dúvidas sobre sua sustentabilidade, e a aprovação tardou.Araújo, Manoela Vieira Alves de. "Nas vezes da Misericórdia": As Irmandades de São Miguel e Almas no desenvolvimento das práticas caritativas na Capitania de Minas Gerais no Brasil Colonial (1712-1816). Doutorado. Universidade Federal de Juiz de Fora, 2019, pp. 185-190

Arraial do Tijuco

Enquanto isso, em 1787 já havia deixado São João del-Rei e se encontrava no Arraial do Tijuco, arrecadando esmolas a fim de instalar outra Casa de Caridade. Em 1790, tendo recebido grandes doações do doutor Carlos da Silva e Oliveira e do capitão Manuel Rodrigues de Carvalho, comprou duas casas do capitão Manuel Lopes de Souza por três mil e quinhentos cruzados, transformando-as em enfermarias. A instituição foi fundada oficialmente em 23 de maio do mesmo ano, tendo como presidente Rafael da Rocha Neves Quintela. Logo o hospital recebia doentes e Fortes já começava uma ampliação, servindo ele mesmo como obreiro e ainda esmolando pela região. Além do atendimento aos pobres, o hospital prestava serviços remunerados ao governo tratando de escravos e soldados.

Em 1796 Fortes acabou entrando em atrito com o intendente João Inácio do Amaral, foi acusado de envolvimento no contrabando de diamantes e expulso do Arraial. Depois disso não há mais nenhum registro sobre ele e seu destino final é ignorado.

Legado

São João del-Rei Apesar do requerimento de 1783 endereçado à rainha para alçar o hospital à condição de Santa Casa da Misericórdia, foi somente pela provisão régia de 31 de outubro de 1816 que recebeu o estatuto, sendo instruída a adotar o Compromisso de Lisboa, que regia todas as Misericórdias, mas com permissão para adaptá-lo às possibilidades locais. Em 21 de janeiro de 1817 foi formalizada a criação da irmandade, sendo em seguida eleita a primeira mesa diretora e o capelão-mor. A instituição se expandiu com o tempo, permanecendo ativa até hoje, denominada Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei.Lima, Francisco Diomedes Garcia de. "Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei" In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, 1985 (II): 61-67

Diamantina thumb|A Santa Casa de DiamantinaCom sua partida do arraial do Tijuco, o hospital entrou em decadência e em 1810 fechou. Em 1832 foi criada a Irmandade de Santa Isabel, com a finalidade de arrecadar fundos para a reabertura. A instituição teve seus estatutos aprovados em 22 de fevereiro de 1836, mas nunca foi reconhecida como Santa Casa de Misericórdia. Reabriu em 4 de julho de 1838, sendo subvencionada com uma pequena dotação permanente do Estado, rendas de um teatro e loterias, além de doações espontâneas dos cidadãos. Hoje permanece ativa com o nome de Santa Casa de Caridade de Diamantina.Magnani, Maria Cláudia Almeida Orlando. O Hospício da Diamantina 1889-1906. Mestrado. Fiocruz, 2004, pp. 36-37

Ver também Santa Casa de Misericórdia Filantropia

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