António de FariaSurge nalgumas fontes com o nome mais completo de António de Faria de Sousa, que nunca usou. (Figueira da Foz, Alqueidão, Quinta do Canal,A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira diz ter nascido em Lisboa. primeira década do século XVI – Goa, p. d. 2 de Junho de 1548), foi um fidalgo, aventureiro, capitão, mercador, embaixador, navegador, guerreiro, pirata e corsário português do século XVI.
Ascendência Era filho de Simão de Faria, nascido c. 1479, Fidalgo da Casa Real,Manuel de Faria e Sousa diz que foi Monteiro-Mor de D. João II de Portugal, o que não se documenta, nem de resto teria idade para tanto. D. João III de Portugal fez-lhe em 1529 confirmação dos Casais de Belide e da Figueira, no termo da vila de Montemor-o-Velho, que tinham sido de seu pai, e dos quais foi o 2.º Senhor, bem assim como lhe deu uma tença de 10$000 reais e uma carta para poder andar de mula. Mas tinha outra tença igual, pois, a 21 de Agosto de 1511, Simão de Faria, Fidalgo da Casa Real, teve uma tença anual de 10$000 reais, que vagou por falecimento de seu pai, Lourenço de Faria. Desde 1513, sendo então referido apenas como Simão de Faria, filho de Lourenço de Faria, que teve sucessivas provisões para receber esta tença. Na provisão de 18 de Julho de 1515 já vem referido como Fidalgo da Casa Real. Afonso de Torres diz que teve foro de Fidalgo da Casa Real com 1$600 reais de moradia em 1518, mas deve ser, portanto, acrescento de moradia, pois já tinha foro pelo menos desde 1511. Ainda em 1514 passou recibo (que assinou) de 40$000 reais que recebeu da sisa do pescado. Continuou a ter provisão para receber a sua tença de 10$000 reais nos anos subsequentes, tença que passa a 20$000 reais em 1526, sendo paga na Alfândega de Buarcos e no Almoxarifado de Coimbra. e de sua primeira mulher D. Filipa de Sousa, que haviam sido moradores em Lisboa e ambos já falecidos antes dele, e irmão de Lourenço de Faria, morador em Samuel, Soure, termo de Montemor-o-Velho, que menciona no seu Testamento, e que terá sido Fidalgo da Casa Real como seus maiores, sucedido a seus pais, casado e tido descendência, André de Faria, Fidalgo da Casa Real, casado com Isabel Fernandes e com descendência, Paulo de Faria, que faleceu solteiro e sem geração, e Antónia de Sousa, que se diz ter casado com António Ferreira. Seu pai casou segunda vez com Filipa de Figueiredo, irmã de Rui de Figueiredo, Fidalgo da Casa Real, que instituiu o Morgado da Lobagueira e comprou a Quintã da Torre da Ota, que instituiu em Morgado, sem geração.
Biografia Natural do Campo de Coimbra, onde era herdado nuns pauis em Alqueidão, na Figueira da Foz, junto de Montemor-o-Velho, onde se chama o Canal.Ou nascido provavelmente em Lisboa, de acordo com a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
Partindo para a Índia, foi procurar fortuna no Extremo Oriente, explorando sobretudo as costas da China, mais como pirata do que como explorador, Corsário dos mares orientais, ganhando fama de temível e terrível. Andava por Malaca como Capitão de navios.
Em 1535, o Capitão António de Faria foi o primeiro Europeu (Português) que, partindo de Da Nang (depois conhecida como Tourane), onde os Portugueses tinham aportado em 1516, na então chamada Cochinchina (actual Vietname), estabeleceu, ou tentou estabelecer, um local de negócios, um posto comercial na cidade costeira de Faifo, a cerca de 20 quilómetros da atual Da Nang. Esperava-se que António de Faria conseguisse criar nessa área um enclave Português permanente como Macau e Goa, o que falhou, uma vez que, no entanto, o posto nunca floresceu. Ele é, também, responsável pelo equívoco do Vietname. Ele chamou ao Vietname Cauchi, nome derivado dos caracteres chineses para o Vietname: Giao Chi. Para evitar confusão com a sua colónia de Cochim (Kochi), na Índia, acrescentou-lhe aqui China. Assim, o nome Cochin China nasceu. Mais tarde, os Franceses iriam usar apenas esse nome como o da parte Sul do Vietname.Spencer Tucker, "Vietnam", University Press of Kentucky, 1999, ISBN 0813109663, p. 22
Foi em 1537, em Patane, que António de Faria conheceu Fernão Mendes Pinto, Capitão duma outra Embaixada de seu primo em quinto grau Pero de Faria ao Rei de Patane, tal como ele. Ora, António de Faria trazia umas roupas da Índia que ali ninguém comprava, pelo que se decidiu a ir ao Reino de Sião (actual Tailândia) para as trocar por ouro e pedrarias da ilha de Calimantã (actual Bornéu). Fernão Mendes Pinto foi com ele. António de Faria acompanhou-o nas suas viagens e explorações durante grande parte do seu périplo pelo Oriente e foi um dos seus companheiros, sendo igualmente natural de Montemor-o-Velho e sendo mencionado por ele na sua Peregrinação, entre os Capítulos XXXV e LXIX, onde veio a ser um dos personagens preponderantes, bem como no filme Peregrinação. Aliado a piratas Chineses, combatendo outros, correu os mares da China.
Fernão Mendes Pinto e António de Faria, numa situação, quiseram saber novidades de Liampó, "porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito.", mas essa presunção era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas do Goto.
Noutra vez, depois dum ataque que António de Faria repeliu, sobraram seis corsários vivos, para pôr "a tormento" mais tarde. Os prisioneiros, amarrados no porão, optaram por se degolar à dentada.
O seu percurso de aventura é marcado pela perseguição ao pirata e corsário mouro Coja Acém ou Hoja Asan, o "perro do Coja Acém", autointitulado "derramador e bebedor do sangue português" a quem de Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto a tripulação, e que termina na batalha mais violenta de toda a Peregrinação. "E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão. E tornando-lhe com outro revés, lhe decepou ambas as pernas de que se não pôde mais levantar".
Em 1540, a bordo das naus capitaneadas por António de Faria, passaram por uma ilha "na altura de 8º e 1/3 da parte Norte, e quase Noroeste/Sudeste com a costa do Cambodja, "distando de terra umas 6 léguas, foram por esse rio acima, roubaram uns tantos navios, "pelo que foi necessário sair-se logo dali [...] e partir-se com muita pressa".
Num outro rio, de novo assaltaram, e roubaram uma fortuna em bens de tal forma avultada que precisavam de a vender rapidamente, dado o excesso de peso que as embarcações levavam. Foram, todavia, assaltados no caminho, mas venceram os assaltantes e, no processo, ficaram ainda mais cheios de mercadorias, e mais ricos, porque "prouve a Nosso Senhor que se lançaram os inimigos ao mar, dos quais de afogou a maior parte e os juncos ficaram em nosso poder".
A dificuldade agora era vender todo esse saque, porque quem eles tinham roubado e morto, conforme vieram a saber depois, era um corsário que tinha parceria com o Governador daquela Província, e a quem dava a terça parte de todas as presas que fazia, pelo que foram avisados dos perigos de negociar ali, uma vez que a notícia do que tinham feito era já conhecida.
Foram então mais para Norte, sempre pela costa do Cambodja. Ficaram sossegados num outro rio, onde assaltaram um junco. Mas esse junco, afinal, não era de comerciantes, mas sim duma noiva, que se deslocava, deste modo, até ao seu noivo, e ficaram com ela como presa. Quanto às mulheres "já de dias" que a acompanhavam, deixaram-nas na praia.
Fugiram uma vez mais e, agora na Ilha de Hainão, já na China, arranjaram maneira de comerciar não desembarcando, receosos de que ali as notícias dos seus feitos já tivessem chegado, justificando-se, oficialmente, com o não quererem pagar os direitos alfandegários. Assim, vieram os interessados na compra ter com eles ao largo.
"Dando-se muita pressa à descarga da fazenda, em só três dias foi pesada e ensacada, e entregue a seus donos, com as contas averiguadas e recebida a prata [...] e conquanto isto se fez com toda a brevidade possivel, nem isso bastou para que antes de se acabar deixasse de vir a nova do que tínhamos feito [...] com que toda a terra se amotinou, de maneira que nenhuma pessoa nos quis mais vir a bordo [...] pelo que foi forçado a António de Faria fazer-se à vela e muito depressa".
Assaltaram mais umas tantas embarcações, "onde se fez algumas presas boas, e, ao que nós cuidámos, bem adquiridas, porque nunca seu [de António de Faria] intento foi roubar senão só os cossairos que tinham dado a morte e roubado as fazendas a muitos cristãos que frequentavam este enseada e costa de Ainão, os quais cossairos tinham seus tratos com os mandarins destes portos". "E deste honrado feito ficaram os chins tão assombrados [...] que o próprio vice-rei [D. Garcia de Noronha] o [a António de Faria] mandou visitar com um rico presente de pérolas e peças de ouro [...] pedindo-lhe para o servir como seu capitão-mor da costa de Lamau [em Calimantã] até Liampó", ou seja, desde a Indonésia até à cidade Chinesa de Ningbo, ou seja, o Reino da Pirataria, o que foi recusado, por António de Faria preferir agir livremente, sem ter de dar percentagens ao Vice-Rei.
Saindo do porto do Rio Madel, e apesar dos tripulantes estarem dispostos a ver repartido entre si o saque, que já consideravam suficiente, e irem para as suas casas, António de Faria não se mostrou ainda satisfeito. Na continuação da viagem, acabaram naufragando, perderam tudo no mar e chegaram, nus e descalços, à Ilha dos Piratas.
À Ilha dos Piratas chegou, eventualmente, uma embarcação, que assaltaram, e, assim, puderam sair da Ilha, com o objectivo de ir para "Liampó que era um porto adiante dali, para o Norte, duzentas e sessenta léguas, porque poderia ser que ao longo da costa nos melhoraríamos doutra embarcação maior e mais acomodada a nosso propósito".
Efectivamente, em Xamoy, encontraram uma embarcação, que assaltaram, mas só lhes serviu para substituir a sua própria embarcação, pois que, como a carga era só de arroz, deitaram ao mar a maior parte.
Mais acima, cruzaram-se com uma embarcação dum outro corsário, Quiay Panjão, a quem se decidiram unir. E, sabendo através dele novas do paradeiro do pirata que o tinha derrotado, António de Faria foi à procura das embarcações onde ele se encontrava. Derrotou-o, e, "animados então os nossos com o nome de Cristo Nosso Senhor, por quem chamavam continuamente, e com a vitória que já conheciam, e com muita honra que tinham ganhada, os acabaram ali de matar".
À latitude de 26º naufragaram de novo, e, de novo, tudo perderam no mar. Estavam perto da cidade de Nouday, onde estavam presos alguns Portugueses, pelo que para lá se dirigiram. Depois de luta travada e soltos os Portugueses, "foi mandado aos soldados e à mais gente da nossa companhia que cada um por si apanhasse o que pudesse [...] mas que lhes rogava que fosse muito depressa", tendo embarcado "todos muito ricos e muito contentes, e com muitas moças muito fermosas".
No dia seguinte, foram a uma povoação, "da outra parte da borda da água, e a achou despejada de toda a gente [...] mas as casas com todo o recheio de suas fazendas e infinitos mantimentos, dos quais António de Faria mandou carregar". Para que os habitantes se esquecessem dos seus feitos, foram "invernar os 3 meses a uma ilha [...] ao mar de Liampó quinze leguas", sem, no entanto, antes disso, terem combatido e ganho nesse combate mais uma tanta prata do Japão.