miniaturadaimagem|Teatro Experimental do Negro ensaiando Sortilégio, com Abdias Nascimento e Léa Garcia, 1957. Arquivo Nacional. Teatro Experimental do Negro (TEN) foi uma companhia teatral brasileira, fundada por Abdias do Nascimento, que atuou entre 1944 e 1961. Entre 1952 e 1953 o grupo teve um programa de mesmo nome na TV Tupi apresentando teleteatros.
Histórico O TEN foi fundado e dirigido por Abdias Nascimento e Maria Nascimento, sua esposa. A ideia para sua criação nasceu em 1941, após um encontro com os poetas Efraín Tomás Bó, Godofredo Tito Iommi, Raul Young e Napoleão Lopes Filho, que desde a década de 1930 formavam a Santa Hermandad Orquídea, para assistir à peça O Imperador Jones, de Eugene O'Neill, no Teatro Municipal de Lima. Naquela montagem, um ator branco com o rosto pintado de negro, o argentino Hugo D’Evieri, interpretava o protagonista negro.NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estud. av. [online]. 2004, vol.18, n.50 [cited 2014-03-20], pp. 209-224
De volta ao Brasil, Abdias do Nascimento foi preso em consequência de seus protestos contra a discriminação racial. Ainda na penitenciária do Carandiru, criou com outros presos o Teatro do Sentenciado. Ao deixar a prisão, concebeu uma companhia teatral voltada para o desenvolvimento da cidadania e conscientização racial. O elenco foi composto por operários e empregadas domésticas. Alguns dos primeiros membros eram analfabetos, e foi preciso realizar cursos de alfabetização para que eles pudessem ler os textos das peças.
A estreia da companhia foi em 1945, com uma peça baseada na obra de Eugene O’Neill, que além de inspirar diversas montagens teatrais também inspirou o filme The Emperor Jones (O Imperador Jones). Eugene O’Neill cedeu gratuitamente os direitos da peça para encenar o texto no Brasil. A escolha se justificou pela ausência, na dramaturgia brasileira da época, de obras que contemplassem o problema racial. No dia 8 de maio de 1945, o TEN se apresentou no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo a primeira produção teatral com artistas negros a se apresentar no Theatro. Aguinaldo Camargo representou o papel principal sob a direção de Abdias Nascimento. Léa Garcia fez o papel da Velha Nativa e José da Silva interpreta o Feiticeiro do Congo.
A primeira montagem de um texto brasileiro veio dois anos depois, com O filho pródigo, drama poético de Lúcio Cardoso. Aguinaldo Camargo vatuou ao lado de Ruth de Souza, José Maria Monteiro, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e Roney da Silva. Tomás Santa Rosa assinou os cenários.Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Cultura.rj, 18 de março de 2014Teatro Experimental do Negro, o pioneiro a levar o negro para os palcos. SP Escola de Teatro, 18 de novembro de 2013 Nelson Rodrigues escreveu para o TEN a peça Anjo Negro (1946), cuja estreia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro teve como condição de o ator principal ser um branco pintado de preto. O TEN produziu vários outros espetáculos, trabalhando com textos brasileiros e estrangeiros.
Além da atuação nos palcos, o TEN assumiu uma postura política, criando entidades como a Associação das Empregadas Domésticas e o Conselho Nacional de Mulheres Negras. Publicou o jornal Quilombo, que denunciava a discriminação racial em todo o Brasil e dava notícias e informações sobre cultura negra no mundo. Combateu o padrão eurocentrista de beleza dos concursos de Miss Brasil, realizando concursos de beleza para mulheres negras. Em 1955, promoveu a Semana do Negro e um concurso de artes plásticas tendo como tema o Cristo Negro. Publicou o jornal Quilombo (1948-50), a antologia Dramas para negros e prólogo para brancos (1961),Seção TEN. Acervo Ipeafro e os livros Sortilégio (Mistério Negro), de Abdias Nascimento (1959), e Teatro Experimental do Negro: Testemunhos (1966).
O TEN foi impedido pelo governo brasileiro de participar do primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado no Senegal em 1966,Teatro Experimental do Negro - TEN. Enciclopédia Itaú Cultural ocasião em que Abdias Nascimento publicou sua "Carta Aberta a Dacar" denunciando o critério discriminatório aplicado pelo Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores). O artigo foi publicado pela revista Présence Africaine, editado pelo renomado intelectual senegalês Alioune Diop.
Em 1968, o TEN realizou um ciclo de debates e a primeira exposição do projeto Museu de Arte Negra, no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Logo em seguida, Abdias Nascimento viajou para o exterior, onde foi obrigado a ficar durante 13 anos de exílio. No exterior, ele continuou o trabalho do TEN ao desenvolver atividades culturais e artísticas, bem como continuar o combate ao racismo.
Peças encenadas
1945 - O Imperador Jones 1946 - O Moleque Sonhador 1946 - Festival do 2º Aniversário do Teatro Experimental do Negro 1946 - Othello 1946 - Todos os Filhos de Deus Tem Asas 1947 - Terras do Sem Fim 1947 - O Filho Pródigo 1947 - Recital Castro Alves 1948 - A Família e a Festa na Roça 1948 - Aruanda 1949 - Filhos de Santo 1949 - Calígula 1952 - Rapsódia Negra 1953 - O Imperador Jones 1953 - O Filho Pródigo 1954 - Festival O'Neill 1954 - Onde Está Marcada a Cruz 1956 - João Sem-Terra (Teatro Novos Comediantes de S.Paulo) 1956 - Orfeu da Conceição 1957 - Perdoa-me por Me Traíres 1957 - Sortilégio - Mistério NegroTeatro Experimental do Negro - espetáculos. Enciclopédia Itaú Cultural 1958 - O Colar de Coral Teatro Experimental do Negro de São Paulo Em 1945 foi criado em São Paulo um grupo de inspiração semelhante, fundado por Geraldo Campos de Oliveira, amigo de infância de Abdias Nascimento e depois seu companheiro em várias lutas políticas, levando inclusive o mesmo nome: Teatro Experimental do Negro de São Paulo. Ativo até 1966, teve uma atuação importante na luta pela dignificação do teatro negro paulista e no combate ao racismo, encenando peças de dramaturgos negros estrangeiros como Richard Wright, Langston Hughes, Lorraine Hansberry e James Baldwin.Silva, Mário Augusto Medeiros da. "O Teatro Experimental do Negro em São Paulo, 1945-1966". In: Novos Estudos CEBRAP, 2022; 412 (2): 389-410Binazzi, Biancamaria. "Teatro de Babel #12: a presença negra no Teatro Musicado". ''Jornal da USP, 2 de fevereiro de 2026 Santos, William Santana & Diniz, Guilherme. "Dramas Afro-Atlânticos: o teatro de James Baldwin desembarca na cena de São Paulo (1966)". In: Ephemera - Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, 2026; 9 (18): p. 26-41 Também montaram peças de Augusto Boal, Tasso da Silveira e Milton Gonçalves."Teatro Experimental do Negro: histórico". Jornal GGN, 14 de junho de 2010 Ver também Teatro do Brasil Associação Cultural do Negro Movimento negro no Brasil
Categoria:Companhias de teatro do Brasil Categoria:Cultura afro-brasileira Categoria:Movimento negro no Brasil