O Marfim Barberini ou Díptico Barberini é uma peça de arte bizantina datada dos últimos anos da Antiguidade Tardia ou início da Idade Média que atualmente faz parte do acervo do Museu do Louvre, em Paris. Trata-se de um díptico imperial constituído por uma de marfim com quatro painéis esculpidos no estilo classicizante conhecido como estilo teodosiano tardio, representando um imperador bizantino triunfante.
A obra é geralmente datada da primeira metade do e atribuída a uma oficina imperial de Constantinopla, representando provavelmente Justiniano , embora possivelmente possa ser ou ainda mesmo Zenão (r. 474–475; 476–491). É um documento histórico notável por estar ligado à rainha Brunilda da Austrásia . Na parte traseira tem uma lista de nomes de reis francos, todos parentes de Brunilda, indicando a importância da posição das rainhas nas famílias reais francas. Brunilda encomendou a lista para a oferecer à igreja como uma imagem votiva.
A peça apresenta tem muitas das caraterísticas dos dípticos consulares nos esquemas decorativos, embora não seja um. O imperador é acompanhado no painel principal por um bárbaro conquistado que enverga umas calças à esquerda, uma figura alegórica agachada, que provavelmente representa território conquistado ou reconquistado e que segura o pé do imperador em sinal de agradecimento ou submissão, além de uma anjo ou Vitória que coroa o imperador com a tradicional palma de vitória (a qual já não existe atualmente). Apesar do bárbaro estar parcialmente escondido pela enorme lança do imperador, esta não o trespassa, e ele parece mais atónito e profundamente reverente do que combativo. Por cima, Cristo com um penteado em moda na época, com caracóis, é flanqueado por mais dois anjos com estilo das figuras de vitória pagãs; ele reina acima, enquanto o imperador o representa em baixo, na Terra. No painel do fundo, bárbaros do Ocidente (à esquerda, de calças) e do Oriente (à direita, com presas de marfim, um tigre e um pequeno elefante) trazem tributos, que incluem animais selvagens. A figura do painel à esquerda, não aparenta ser um santo mas sim um soldado, segura uma estatueta da Vitória; o seu homólogo do lado direito perdeu-se.
Descrição thumb|Detalhe do canto inferior direito do painel central
O díptico, uma das peças mais importantes da coleção Barberini, era constituído por quatro painéis retangulares, dos quais apenas restam quatro — o do lado direito, não existe, tendo sido substituído, talvez no por uma pequena tabuleta com a inscrição «CONSTANT. N. IMP. CONST.» Os painéis são ajustados entre eles por e e dispostas em redor de um painel central maior. O conjunto é o mais bem preservado do seu tipo na categoria dos objetos profanos oficiais ainda existentes, que usualmente são agrupados sob a designação de dípticos imperiais. Mede de altura por de largura, no total, enquanto que as dimensões do painel central são 19 cm de altura por de largura e de profundidade. É feito de marfim de elefante esculpido e cravejado com incrustações de pedras preciosas, das quais subsistem sete pérolas. Não apresenta vestígios de policromia, contrariamente ao que foi suposto por certos historiadores.
O reverso do painel é plano e liso, sem depressão para a cera como a que se encontra num díptico consular usado como placa para escrever. No entanto é estriado com linhas esculpidas posteriormente sobre inscrições mais antigas a tinta: trata-se de uma lista de nomes (orações para os mortos) entre as quais se reconhecem os reis da Austrásia e nomes sobretudo latinos — pela análise onomástica a lista pode provir da Auvérnia e não da Provença, como se poderia inferir da localização do painel na época moderna. As inscrições datariam assim do final do ou início do (sem dúvida um presente do imperador Maurício à rainha Brunilda da Austrásia e provam que a obra foi levada precocemente para a Gália. A sua história posterior é desconhecida até 1625, quando foi oferecida por Nicolas-Claude Fabri de Peiresc ao legado Francesco Barberini em Aix-en-Provence, que a integrou na sua coleção em Roma. Foi adquirida pelo Museu do Louvre em 1899 e pertence desde então à coleçao do departamento de obejtos de arte (número de inventário OA 9063).
Não é certo que a tenha feito parte de um díptico, ou seja, que tenha existido outro conjunto comparável de que formasse uma segunda , onde pudesse ter estado representada, por exemplo, a imperatriz: o peso da existente é já demasiado grande para que possa ser facilmente manuseado e cumprir uma função utilitária. Além disso, não há vestígios de dobradiça cuja existência poderia sugerir uma espécie de encadernação.
Decoração Os laterais apresentam bordos incisos decorados com óvalos e simplificados, que em volta do central dão lugar a uma grinalda de folhas estilizadas com um espaço circular ao meio que tinha uma incrustação atualmente perdida.
O painel central upright|esquerda|thumb|O imperador triunfante no painel central
A composição ordena-se em redor da placa central que a domina tanto pelo seu motivo como pela sua qualidade estilística. O motivo esculpido representa a figura triunfante de um imperador montado num cavalo empinado. O imperador segura na mão direita a haste de uma lança, cuja ponta está fincada no chão, e segura as rédeas do cavalo com a mão esquerda. Atrás da lança é visível a figura de um bárbaro, identificado como tal pela sua cabeleira e barba desgrenhadas e sobretudo pelas suas vestimentas: usa um barrete recurvado, similar ao barrete frígio, indicação de uma origem oriental, uma túnica com mangas compridas e bragas (calças). Simbolizando um persa ou um cita, ele representa os povos vencidos pelo imperador: é em sinal de submissão que que ele toca a lança com a mão direita e levanta a mão esquerda.
No canto inferior direito, debaixo do cavalo, uma mulher penteada com tranças : o seu vestido escorregou, pondo à mostra o seu peito direito. A mão esquerda segura uma aba do vestido onde há frutos, símbolos de prosperidade. O seu braço direito está estendido de forma a segurar com a mão direita o pé direito do imperador, em gesto de submissão. Trata-se da personificação da Terra, que representa a área de domínio universal do imperador e sobretudo a prosperidade do seu reino, simbolizado pelos frutos que carrega e pelo peito desnudado. Esta personificação é frequentemente apresentada neste papel nas imagens do imperador em ou triunfante: é o caso, por exemplo, do , no qual Telo é representado numa medalha, sob a figura de Teodósio no trono em pose majestática; é também o caso do relevo da piedade dos augustos (pietas augustorum) sob o Arco de Galério, onde os Tetrarcas são acompanhado por toda uma série de personificações, nomeadamente as de Gaia, a Terra. Estas personificações de Telo ou Gaia são geralmente reconhecíveis pelo seu atributo principal, a cornucópia, o corno da abundância: ela não está presente no marfim, mas a aba do vestido de Telo, cheio de frutos, preenche a mesma forma e a função simbólica.
thumb|Soldo de cunhado , cujo reverso apresenta uma Vitória alada similar à do marfim
Simetricamente a esta primeira figura feminina, no canto superior direito da placa é representada uma estatueta da Vitória alada, de pé sobre um globo que tem inscrito o símbolo da cruz, segurando na mão direita uma palma, símbolo de vitória, e na mão esquerda, partida, certamente uma coroa destinada ao imperador. Este tipo de estatueta de personificação é igualmente um dos motivos obrigatórios da iconografia do imperador triunfante: encontra-se em numerosas moedas (por exemplo, no reverso do soldo de da imagem), na escultura (por exemplo na cena do sacrifício no Arco de Galério) e em alguns dípticos consulares.
O imperador, com corte de cabelo em tigela ou arquivolta, de forma que a franja desenha um arco de círculo em redor da face, usa uma coroa com pérolas embutidas, das quais ainda restam quatro. Os traço faciais, de forma oval, são bastante pesados, principalmente nas pálpebras e no nariz, mas dão um aspeto sorridente ao retrato imperial. O imperador enverga um uniforme militar de comandante-em-chefe, função na qual é representado. Sob a couraça veste uma túnica curta e por cima o manto (paludamento), do qual uma aba flutua atrás dele, e que é preso no ombro por uma fíbula redonda. Esta última e a couraça tinham originalmente uma pedra preciosa incrustada. Calça botas com atacadores cruzados, decorados com uma cabeça de leão. Os arreios do cavalo são ornamentados com uma série de medalhões aljofarados, originalmente com incrustações que se perderam à exceção de uma no meio da cabeça.
O relevo deste motivo central é particularmente acentuado: a Vitória, a lança e, em menor escala, as cabeças do imperador e da sua montada, são quase esculpidos em vulto. O padrão cuidado das cortinas e a minúcia em certos detalhes anatómicos, como os músculos da perna do imperador, podem ser qualificados de . Estas caraterísticas, juntamente com a desproporção intencional das figuras para destacar a majestade da pessoa imperial, fazem lembrar a arte teodosiana.
Painéis laterais, inferior e superior thumb|esquerda|upright|Vista a três quartos, onde é evidente a diferença de profundidade entre os relevos do painel central e dos restantes
Os painéis laterais são de um relevo menos elevado e estilisticamente, em geral, apresentam um grau menor de virtuosidade. A profundidade máxima do painel central é de 28 mm, enquanto que a dos restantes painéis é de apenas 8 a 9 mm.
O relevo da placa esquerda representa um oficial superior, reconhecível para sua panóplia militar, comparável à do imperador: com barba, enverga uma couraça e paludamento, fixado ao ombro por uma fíbula mais simples. Fixada ao lado esquerdo da cintura, vê-se a da sua espada. O oficial avança em direção ao imperador oferecendo-lhe uma estatueta da Vitória num pedestal, que segura uma palma e uma coroa, em tudo semelhante à do painel central. A personagem evolui por uma decoração arquitetural composta por duas colunas retorcidas que suportam capitéis coríntios e por um pavimento — talvez opus sectile — que evoca a sala de um palácio.
Este personagem é por vezes identificado como um cônsul devido à estatueta da Vitória e ao saco (muito provavelmente de ouro) que tem aos seus pés serem atributos consulares, mas pode também ser uma alusão à sparsio, as dádivas consulares (; ) representadas noutros dípticos, como o de Clemente (513) e de Justino (540). O saco de ouro é principalmente um símbolo do espólio de guerra e por conseguinte constitui a prova do triunfo imperial. No cronógrafo de 354, o césar Constâncio Galo é representado de forma semelhante, com uma estatueta da Vitória comparável, mas enverga vestes civis e não militares. O oficial do marfim Barberini deve por isso representar um general que participou na campanha militar vitoriosa celebrada pelo relevo. Dada a concessão simétrica deste tipo de obra, é natural supor que o painel em falta no lado direito tivesse também ele a representação de um general.
O painel inferior é uma espécie de friso decorado com uma procissão dupla de bárbaros e de animais que convergem para a figura central de uma Vitória virada para o alto e para a figura imperial do painel central. A Vitória tem sobre o seu braço esquerdo um troféu militar, representado na forma tradicional de um tronco sobre o qual está fixada uma panóplia. Os bárbaros vencidos levam ao imperador várias dádivas que representam o seu tributo e são diferenciados pelas suas farpelas e pelos animais selvagens que os acompanham. À esquerda, dois personagens barbudos são do mesmo tipo do bárbaro do painel central; envergam uma túnica curta, um barrete frígio e sapatos fechados. Um segura uma coroa e o outro um recipiente cilíndrico cujo conteúdo se desconhece, talvez um cesto de ouro; são precedidos por um leão. Podem tratar-se de Persas ou Citas.
upright=0.5|thumb|Painel lateral esquerdo, representando um oficial bizantino