A arte marajoara é uma cerâmica fruto do trabalho dos povos indígenas do período de ocupação "marajoara" na ilha brasileira de Marajó situada na foz do rio Amazonas (estado do Pará), durante o período pré-colonial brasileiro de 400 a 1400 d.C., sendo assim chamada de cerâmica marajoara, pois existem sucessivas fases de ocupações na região, cada uma com uma cerâmica característica. Segundo Samuel Lopes, gerente da Escola de Artes e Ofícios de Pará de Minas, esta arte representa a origem da cerâmica no Brasil.

A fase marajoara é a quarta fase de ocupação da ilha; sucessivamente as fases de ocupação são: Ananatuba (a mais antiga), Mangueiras, Formigas, Marajoara e, a Aruã. Destas cinco fases, a Fase Marajoara, período de uma elaborada civilização amazônida pré-cabralina, é a que apresenta a cerâmica mais elaborada, sendo reconhecida por sua sofisticação.Betty Meggers e Clifford Evans. "Uma interpretação das culturas de Marajó". Belém, Pará: Intituto de Antropologia e Etnologia do Pará, 1954.

Em 1871, a cerâmica marajoara foi descoberta quando dois pesquisadores visitavam a Ilha de Marajó, o geólogo canadense-americano Charles Frederick Hartt (1840-1878) e naturalista Domingos Soares Ferreira Penna (fundador do Museu Paraense Emílio Goeldi em 1866). Hartt impressionou-se tanto com o que viu que publicou um artigo em uma revista científica, revelando ao mundo a então desconhecida cultura marajoara.Aurélio M. G. de Abreu. "Civilizações que o mundo esqueceu". São Paulo: Hemus, 1990. .

Os estudos no Marajó sobre tal cerâmica e o povo que a confeccionou ganharam impulso a partir do fim da década de 1940, quando chegou à ilha o casal de pesquisadores americanos Betty Meggers e Clifford Evans. Embora muitos estudos sobre a cerâmica já houvessem sido publicados até então, as pesquisas no local só ganharam força a partir desta data. Alguns arqueólogos encontraram objetos de cerâmica em bom estado de conservação, realizados com destreza, tendo em conta as formas esguias e curvilíneas perfeitamente moldadas, e delicadamente decorados e pintados.

Através de pesquisas, descobriu-se que os indígenas marajoaras levantavam suas casas sobre morros artificiais, estrutura elevada chamada Teso, construídos para protegerem-se de inundações. Escavando esses morros, os arqueólogos encontraram vasos, vasilhas, urnas, tigelas e outras peças de cerâmica, feitas com argila cozida na região marginal. Os objetos que mais chamaram a atenção foram encontrados em sepultamentos, os quais podem ser encontradas nos acervos de museus da região e também em museus internacionais.

Acervos

Peças podem ser encontradas nos acrevos de museus da região e inclusive internacionais, como: Museu do Marajó,,Museu Emílio Goeldi, Museu Histórico Nacional (RJ), Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral, Museu Americano de História Natural (Nova York).

Porém, entre os mais significativos espólios de cerâmica da região, o Museu do Marajó, criado em 1972, reúne peças de uso cotidiano e de costumes, relacionando-se com o aspecto cívico-religioso da civilização. O museu foi criado com o intuito de promover e dar a conhecer ao público a cultura e a arte de uma civilização já remota.

Saber tradicional O saber tradicional é um produto histórico resultado do modo de vida de uma comunidade tradicional e o relacionamento com a biodiversidade que está inserida (intelecto coletivo ou intelecto cultural). Este saber se reconstrói na transmissão entre as gerações e, que geralmente é feita por via oral, possui uma vísivel e imediata aplicação prática na sociedade.

A cerâmica

Os índígenas do Marajó confeccionavam objetos utilitários, mas também decorativos. Entre os vários objetos encontrados pelos pesquisadores encontram-se vasilhas, potes, urnas funerárias, brinquedos, estatuetas, vasos, pratos e tangas. A igaçaba, por exemplo, era uma espécie de pote de barro ou uma talha grande para a água, que servia para conservar alimentos e outros. Hoje existem várias cópias das igaçabas de Marajó.

Todos apresentam uma grande diversidade de formas e padrões de decoração, sendo um dos mais conhecidos o das urnas globulares que apresentam decoração pintada e modelada representando figuras antropomorfas (primatas). Outros tipos de urnas combinam pintura, o uso de incisões e excisões e modelados que representam figuram antropomórficas e zoomórficas. Outros vasos foram decorados com pintura de motivos geométricos, podendo ser citados neste caso formas mais simplificadas como por exemplo as tigelas, e outros apresentando formas mais complexas como vasos de base dupla, urnas funerárias, estatuetas, pratos, tangas e tigelas em pedestais.Eduardo Góes Neves. "Brasil Tupi- Beleza, Rigor e Dignidade: A cultura material Tupi no tempo e no espaço". São Paulo: Caixa Econômica Federal, 2004.

A cerâmica marajoara é geralmente caracterizada pelo uso de pintura vermelha ou preta sobre fundo branco.Nelson Aguilar. "Mostra do Redescobrimento: Arqueologia". São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2000. Aplicando técnicas que combinavam cores, que eram extraídas de elementos da natureza, como: urucum; caulim; jenipapo; carvão, e; fuligem.

Uma das técnicas mais utilizadas para ornamentação desta cerâmica é a do champlevé ou campo elevado, onde são conseguidos desenhos em relevo por meio de decalque de desenhos sobre uma superfície alisada e escavando em seguida a área sem marcação.

Entre os motivos de decoração mais comuns encontrados nesta cerâmica estão animais da fauna amazônica, como serpentes e macacos, a figura humana e figuras antropozoomórficas. Tendo em vista o aumento a sua resistência do produto final eram agregados antiplásticos ou tempero na argila, dentre os quais cinzas de cascalho e de ossos e concha. Antiplástico ou tempero são termos que se utiliza para designar os elementos, como por exemplo, cacos, conchas moídas, cascas de árvores queimadas e piladas, espículas de esponjas, areia, etc. que são acrescentados na argila para torná-la mais resistente evitando que se quebre durante o processo de fabricação de um artefato.Eduardo Góes Neves. "Os índios antes de Cabral: Arqueologia e História Indígena no Brasil". In Aracy Lopes da Silva. A temática indígena na escola. São Paulo: Mari, 1995:171-193.alt=Urna funerária marajoara |esquerda|miniaturadaimagem|240x240px|Urna funerária produzida na ilha do Marajó entre os séculos 5 e 15 d.C. Atualmente está no MASP.Depois de modelada, a peça era pintada, caso o autor o pretendesse, com vários pigmentos, existindo uma abundância de vermelho em todo o conjunto encontrado, e somente depois cozidas numa fogueira a céu aberto. Após a queima da cerâmica, esta era envernizada, propiciando à peça um aspecto lustroso. São conhecidas cerca de quinze técnicas de acabamento das peças, revelando um dos mais complexos e sofisticados estilos cerâmicos da América Latina pré-colonial. Os artefatos mais elaborados eram destinados ao uso funerário ou ritual. Os artefatos encontrados que demonstram uso cotidiano apresentam decoração menos rebuscada.

No período de transcisão entre os séculos XIX e XX, a cerâmica marajoara foi utilizada em diferentes e específicos propósitos, de objeto científico à inspiração para a arte brasileira, passando pela arte decorativa. Assim intelectuais e artistas elaboraram uma gama de (re)significações do legado cerâmico dos antigos índígenas do Marajó.

É dificultado o resgate de peças de cerâmica marajoara pelas inundações periódicas e até pelos numerosos roubos e saques do material, frequentemente contrabandeado para território exterior ao brasileiro.

Comercialização Atualmente, peças baseadas na arte marajoara são usados como objetos decorativos e vendidos em feiras de artesanato e comércios locais.

Ver também

Artesanato em tururi Brinquedo de miriti em Abaetetuba Cerâmica de Icoaraci Museu do Índio (Santarém) Tradição polícroma da Amazônia

Ligações externas Museu do Marajó Marajoara Denise Schaan: a linguagem Iconográfica da cerâmica marajoara Página oficial da pesquisador Denise Schaan A sociedade marajoara, Revista IstoÉ

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