Aura é um termo apropriado por Walter Benjamin em seu ensaio "Pequena história da fotografia", de 1931, complementado em "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica", de 1935, mas que teve sua primeira versão publicada no ano de 1936. O conceito foi utilizado para designar os elementos únicos de uma obra de arte original. Para o autor, a aura está relacionada a autenticidade; a existência única de uma obra de arte. Portanto, ela não existe em uma reprodução. Está ligada a ideia religiosa de aura, dando à obra de arte um caráter de objeto a ser cultuado.COSTA, Edgar Rogério da. O conceito de aura em Walter Benjamin, 2012, p.1
Definição Aura para Walter Benjamin está relacionada à unicidade, autenticidade e tradição de uma obra, ou seja, o que o autor chama de “aqui e agora”, no caso a sua essência. Tais fatores as tornam características em seus respectivos contextos socioculturais, já que a original conta a história do objeto, criando uma sucessão de valores sobre ele. Abarca os mais variados fatores que foram alocados em uma dada obra de arte e que são de total importância para sua apreciação e seu entendimento. Por isso que, ao se pôr em prática o processo de reprodução, a aura da obra de arte se enfraquece (devido à falta de tais elementos, que são considerados a personalidade do quadro ou da escultura).
É isso que a torna única e autêntica e, portanto, a valoriza, ainda mais do que o paradigma da perfeição. Mesmo dentro do âmbito das reproduções manuais, as produções artísticas contam com essas características, pois não existe o uso da tecnologia (máquina) durante o processo de cópia. A aura, portanto, só deixa de estar presente na era da reprodutibilidade técnica.Benjamin, W.B. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. 1 edição. Porto Alegre: Zouk, 2012. 4 p.
“A autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem,desde sua duração material até o seu testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra,quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde.”BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, 1955, p. 2
Para explicitar seu conceito, o autor faz uma relação de espaço e tempo, explicando-o a partir do emprego do mesmo na análise de objetos históricos, assim como pode ser utilizado para a análise de objetos naturais.Benjamin, W.B. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. 1 edição. Porto Alegre: Zouk, 2012. 5 p.
Acredita na necessidade de um distanciamento para a contemplação da obra, mas sem muito se afastar para que ainda haja o reconhecimento da obra pelo espectador. Ademais, o tempo de contemplação deve ser lento para que haja captação daquilo que está sendo manifestado.COSTA, Edgar Rogério da. O conceito de aura em Walter Benjamin, 2012, p.2
Outra relação que pode ser feita é a da proximidade com o erotismo. A aura deve, afetar o espectador como "Uma espécie de amor paradoxal: um querer ter e não poder ter, um amor que se alimenta da inacessibilidade e que, se chega a possuir o objeto desejado, perde por ele toda a atração".COSTA, Edgar Rogério da. O conceito de aura em Walter Benjamin, 2012, p.2 Demonstrando, assim, todo o valor da intangibilidade da obra de arte.
A obra, desta forma, apresenta sua singularidade e é fiel à sua maneira de se alojar em seu contexto. A exemplo, toma-se a tradição, que é algo totalmente vivaz, admiravelmente mutável. Desta maneira, pode-se citar a estátua da Vênus, que possuía diferentes formas de interpretação; formas estas que dependiam, por sua vez, do contexto histórico-cultural do território de onde era feita sua apreciação. Os gregos a tomavam por um objeto de culto, enquanto os clérigos medievais enxergavam nela uma imagem execrável. Mas o que, independentemente da nação, era enfrentado da mesma maneira, era sua unicidade, sua aura. Como o valor de culto (uso ritual) foi a exteriorização da obra de arte no seu âmbito tradicional, é correto afirmar que o valor singular da obra de arte “autêntica” tem o seu embasamento no hábito em que se apropriou o seu valor de uso original e primeiro.
Interpretações sobre o legado de Walter Benjamin
Alguns autores, posteriores à Benjamin, discorreram considerações a partir das obras e conceitos do autor, dentre eles estão: Peter Burke, Francisco Rüdiger e Márcio Seligmann-Silva.
Burke Peter Burke, historiador inglês, destacou a importância dos debates, no universo acadêmico, sobre a imagem impressa como meio de comunicação. Burke comparou esses debates "às detalhadas investigações a respeito de textos impressos".BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. A Revolução da Prensa Gráfica. In: BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: De Gutenberg à Internet. Tradução Maria Carmelita Pádua Dias; revisão técnica Paulo Vaz. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, p.48 Analisando a perspectiva da obra de arte em meio a reprodutibilidade técnica, Peter Burke comenta a conceituação de “aura” cunhada por Walter Benjamin. Burke argumenta que é difícil julgar o desaparecimento da “aura” na reprodução de uma imagem. Burke afirma ainda que bibliógrafos e historiadores da arte cada qual em sua vertente de observação estudam a produção impressa. Contudo, para Burke, a proximidade das obras de artes possibilitada pela reprodutibilidade poderá estimular o desejo de conhecer o original e não saciá-lo.
Rüdiger Francisco Rüdiger atenta para pensamentos similares presentes nas obras de Walter Bejamin e Siegfried Kracauer, em especial referentes à cultura.SIMIS, A. . Luzes e foco sobre Kracauer. Estudos de Sociologia (São Paulo), Araraquara, v. 10, 2005, p. 136 Kracauer é considerado, assim como Benjamin, pertencente a “periferia dos teóricos da Escola de Frankfurt”.RÜDIGER, F. “A Escola de Frankfurt”. In: HOHLFELT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. V. (org.), Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 131 Rüdiger afirma que ambos enxergavam no “progresso técnico uma capacidade de revolucionar a arte”.RÜDIGER, F. “A Escola de Frankfurt”. In: HOHLFELT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. V. (org.), Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 134 Além disso, na interpretação de Rüdiger, eles compartilhavam da ideia de que estava se caminhando para uma democratização da cultura.RÜDIGER, F. “A Escola de Frankfurt”. In: HOHLFELT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. V. (org.), Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 135 Dessa forma, as massas poderiam, finalmente, ter acesso a experiências estéticas anteriormente restritas à burguesia.
Seligmann-Silva Márcio Seligmann-Silva é considerado um grande pesquisador e tradutor das obras de Walter Benjamin no Brasil.Benjamin contemporâneo - Entrevista de Márcio Seligmann-Silva para Revista Filosofia Na perspectiva de Salingmann, as características e os conceitos presentes nas obra de Benjamin estão cada vez mais presentes na contemporaneidade. E isso se deve ao fato dessas obras possuírem grande centralidade ética e reflexões sempre observadas de forma histórica e crítica nunca sob uma vertente apenas.MOGENDORFF, J. R.. “A Escola de Frankfurt e o seu legado”. In: Verso e Reverso; v. 26, n. 63: Ano XXVI, 2012, p. 156 O pesquisador faz ainda comparações teóricas entre Benjamin e um intelectual de nome Vilém Flusser que partilha das convicções de Benjamin sobre as radicais mudanças da humanidade frente aos avanços tecnológicos .Obra de Walter Benjamin é essencial para pensar "século de catástrofes" Acessado em 27 de julho de 2013
Aura na fotografia A fotografia, como elemento histórico, transmite sensações que transcendem à própria imagem representada. Portanto, Benjamin apresenta a fotografia ao desenvolver a aparição da aura, uma vez que esta tenta representar a realidade.AVELAR, Sylvia; AVELAR, Sylvia M. M. O desaparecimento da aura em Walter Benjamin. Exagium, Ouro Preto, v. 1, p. 2, abril 2008. Neste sentido, a aura diz respeito então a algo além do elemento físico constituinte da fotografia, apresentando relevância à convergência entre a técnica e a pessoa, manual. Sugerindo, por fim, uma interpretação metafísica a partir da representação.
Na história da fotografia, o declínio da aura acontece a partir do desenvolvimento técnico, onde a imagem perde o registro simbólico do "espírito", impossibilitando a experiência que afeta a sensorialidade subjetiva.AVELAR, Sylvia; AVELAR, Sylvia M. M. O desaparecimento da aura em Walter Benjamin. Exagium, Ouro Preto, v. 1, p. 3, abril 2008. Seguindo o sentido de subjetividade na representação da realidade, pode-se considerar que a aura entra em declínio também pelas mudanças sociais de relação com a fotografia, já que, cada vez mais, procura-se retratar uma imagem programada, que foge do real propositalmente, considerando que a fotografia capta um momento que não pode mais ser alcançado para além daquele "clique".
A tentativa de resgate da aura, a partir da criação da "pseudoaura", visa a recuperar o "espírito" da imagem através da junção da técnica com uma "magia" inserida. No entanto, é uma tentativa falha no sentido da aura propriamente dita, pois esta conecta-se muito especificamente a um momento histórico que transmitiria a "magia" referida. Desta forma, por mais próxima fisicamente que a imagem esteja do espectador, a noção de aura estará distante por natureza, por não pertencer ao contexto ao qual está sendo analisada.AVELAR, Sylvia; AVELAR, Sylvia M. M. O desaparecimento da aura em Walter Benjamin. Exagium, Ouro Preto, v. 1, p. 4, abril 2008.
Ainda, as imagens têm cunho artístico ligado à experiência da estética, neste sentido a aura é, então, um "manto" que protege a experiência estética (beleza) que a obra transmite. Portanto, se a aura se perde, perde-se o "manto" e desconfigura a noção de beleza.AVELAR, Sylvia; AVELAR, Sylvia M. M. O desaparecimento da aura em Walter Benjamin. Exagium, Ouro Preto, v. 1, p. 4, abril 2008.
Reprodutibilidade Técnica Para Walter Benjamin a obra de arte sempre foi passível de imitação,BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, 1955, p. 1 uma vez que, o que um homem fazia poderia ser copiado por outros indivíduos. Esse processo de reprodução da obra de arte varia em forma, qualidade e volume considerando o seu desenvolvimento histórico. Com o advento da prática litográfica, tal técnica de reprodução registrou um avanço marcante, que até então não fora conquistado: facilitou, através de um processo mais consistente, a reprodução de imagens, a ilustração do cotidiano.
Historicamente é possível listar e explicar tais processos de reprodução de imagens. A xilogravura (a primeira conhecida é datada do final do século XIV)BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. A Revolução da Prensa Gráfica. In: BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: De Gutenberg à Internet. Tradução Maria Carmelita Pádua Dias; revisão técnica Paulo Vaz. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, p.46 e a litografia, que foi inventada em 1796 por Aloys Senefelder e possibilitou primeira vez a produção de imagens coloridas e de custo baixo.BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. A Revolução da Prensa Gráfica. In: BRIGGS, Asa.; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: De Gutenberg à Internet. Tradução Maria Carmelita Pádua Dias; revisão técnica Paulo Vaz. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, p.47 Épocas mais modernas permitem a reprodução de uma obra de arte de maior qualidade, em larga escala e formatos variados. Porém, pouco tempo depois da criação da litografia, as artes gráficas deram espaço para a fotografia, o que culminou em um aceleramento extraordinário do processo de reprodução de imagens, já que esta continha uma característica diferencial: a possibilidade de se reproduzir tecnicamente.