A Batalha do Mar de Bismarck foi uma ação militar que teve lugar na região sudoeste do oceano Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial, entre os dias 2 e 4 de março de 1943. Aeronaves da Quinta Força Aérea das Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos (USAAF) e da Real Força Aérea Australiana (RAAF) atacaram um comboio naval japonês que transportava tropas para Lae, Nova Guiné (atual Papua-Nova Guiné). A maior parte da força-tarefa japonesa foi destruída e a perda de soldados nipónicos foi considerável.

A formação do comboio japonês foi decidida pelo Quartel-General Imperial, que previa reforçar a sua posição no Sudoeste do Pacífico. Foi então executado um plano de movimentação de cerca de 6 900 soldados desde Rabaul diretamente para Lae. A missão era bastante arriscada, tendo em conta a supremacia aérea das forças aliadas. A operação marítima foi desencadeada, pois na outra opção, as tropas nipónicas seriam forçadas a marchar sobre pântanos, montanhas e florestas, desprovidas de estradas. Em 28 de fevereiro de 1943, o comboio — constituído por oito contratorpedeiros e oito navios de transporte de tropas escoltados por aproximadamente uma centena de caças — partiu de Simpson Harbour em Rabaul.

Os aliados detectaram os preparativos de movimentação das forças nipónicas. O sistema de criptoanálise naval em Melbourne (FRUMEL) e Washington, D. C., descodificaram as mensagens cifradas identificando o destino previsto e a data da chegada das embarcações. As forças aéreas aliadas tinham desenvolvido novas tácticas, e planearam um ataque aéreo sobre os navios japoneses. As forças aliadas detectaram e sobrevoaram a escolta atacante, a qual ficou sob ataque aéreo prolongado de 2 a 3 de março de 1943. O seguimento do combate foi realizado pela patrulha de barcos torpedeiros e aeronaves em 4 de março. Todos os oito navios de transporte e quatro dos contratorpedeiros foram abatidos. Dos mais de 6 900 soldados imprescindíveis na Nova Guiné, apenas cerca de chegaram a Lae. Outros 2 700 soldados foram resgatados pelos restantes contratorpedeiros e submarinos, e regressaram a Rabaul. A partir de então, os japoneses não realizaram mais tentativas para reforçar a frente em Lae por meio marítimo. As tropas nipónicas não tiveram sucesso na detenção das ofensivas aliadas na Nova Guiné.

Antecedentes Ofensiva dos aliados Seis meses após o Império do Japão atacar Pearl Harbor em dezembro de 1941, os Estados Unidos obtiveram uma importante e decisiva vitória na Batalha de Midway, em junho de 1942. Aproveitando-se de uma iniciativa estratégica, os Estados Unidos e os seus aliados desembarcaram em Guadalcanal, no sul das Ilhas Salomão, em agosto de 1942, dando início à Campanha nas Ilhas Salomão. A Batalha de Guadalcanal terminou com a vitória dos aliados e a retirada das forças japonesas da ilha no início de fevereiro de 1943. Ao mesmo tempo, as forças australianas e norte-americanas na Nova Guiné repeliram a ofensiva terrestre japonesa ao longo da Trilha de Kokoda. Nesta mesma ofensiva as forças aliadas tomaram Buna-Gona, derrotando as forças japonesas em toda a região.

Os planos dos aliados para a contra-ofensiva na Nova Guiné e Ilhas Salomão consistiram na captura da principal base japonesa localizada em Rabaul, na Nova Bretanha, operação que recebeu o nome de código de Cartwheel, abrindo caminho para a reconquista das Filipinas. Reconhecendo a ameaça, os japoneses continuaram a solicitar reforços terrestres, aéreos e navais para a região, numa tentativa de controlar o avanço dos aliados.

Plano japonês Revendo o progresso da Batalha de Guadalcanal e da Batalha de Buna-Gona em dezembro de 1942, os japoneses concluíram que nenhuma delas poderia ser mantida. Assim, o Quartel-General Imperial optou por tomar medidas para reforçar a frente japonesa no Sudoeste do Pacífico ao enviar a 20.ª Divisão comandada pelo tenente-general Jusei Aoki, da Coreia, para Guadalcanal e a 41.ª Divisão do tenente-general Heisuke Abe da China para Rabaul. O tenente-general Hitoshi Imamura, comandante da 8.ª Região Militar em Rabaul, ordenou que o XVIII Exército do tenente-general Hatazō Adachi salvaguardasse Madang, Wewak e Tuluvu na Nova Guiné. A 29 de novembro, Adachi ordenou que o 102.º Regimento de Infantaria e outras unidades sob o comando do major-general Toru Okabe — comandante do grupo de infantaria da 51.ª Divisão — fossem movimentadas de Rabaul para Lae, conquistando território para tomar Wau. Após a evacuação de Guadalcanal a 4 de janeiro de 1943, os japoneses garantiram os seus esforços na Nova Guiné, e enviaram as 20.ª e 41.ª Divisões para Wewak.

thumb|esquerda|Um Mitsubishi A62M Zero, uma das principais aeronaves da força aérea do Japão.

A 5 de janeiro de 1943, o comboio japonês composto por cinco contratorpedeiros e cinco transportes de tropas conduziu a tripulação de Toru Okabe, de Rabaul para Lae. Prevenidos pelo sistema de inteligência Ultra, os bombardeiros das USAAF e a RAAF, sobrevoaram e atacaram a frota japonesa, salvaguardada apenas por algumas nuvens baixas que a escondiam e alguns caças japoneses. Pelo que afirmaram, as forças aliadas abateram um total de 69 aviões japoneses e sofreram a perda de 10 das suas aeronaves. Um hidroavião Consolidated PBY Catalina da RAAF afundou o navio de carga SS Nichiryu Maru. Apesar dos contratorpedeiros terem resgatado 739 dos 1 100 soldados a bordo, não foi possível recuperar os suprimentos médicos das forças de Okabe, afundadas com o próprio navio de transporte marítimo. Outro navio de carga, o SS Myoko Maru, foi severamente danificado em Lae pelo bombardeiro médio B-25 Mitchell da USAAF, e teve que ser encalhado. No entanto, o navio conseguiu chegar a Lae a 7 de janeiro, permitindo o desembarque da sua tripulação; todavia, Okabe acabou por ser derrotado na Batalha de Wau.

A 19 de janeiro de 1943, a maior parte da 20.ª Divisão desembarcou em Wewak, a partir dos navios do Transporte de Alta Velocidade norte-americano. A maioria da 41.ª Divisão seguiu-se a 12 de fevereiro. A 3 de março, Imamura e o vice-almirante Gunichi Mikawa, comandante da 8.ª Frota da Marinha Imperial Japonesa, desenvolveram um plano para transferir o posto de comando do quartel do XVIII Exército Japonês e o principal corpo da 51.ª Divisão de Rabaul para Lae, e posteriormente, deslocar o restante da 20.ª Divisão para Madang a 10 de março. Este plano foi reconhecidamente arriscado considerando o forte poder aéreo das forças aliadas na região. O pessoal do XVIII Exército utilizou-se de uma simulação militar, cuja estimativa previa a perda de quatro em cada dez navios, e entre 30 e 40 aeronaves. Com isso, foram previstos 50% de hipóteses de êxito dessa missão. Por outro lado, se as tropas tivessem desembarcado em Madang, teriam que enfrentar uma marcha de mais de 140 milhas (230 km) por inóspitos pântanos, montanhas e terrenos florestais, sem qualquer estrada existente. Para aumentar os três grupos navais e dois grupos de combatentes do exército na área designada para proteger o comboio, a Marinha Imperial Japonesa separou temporariamente 18 caças do grupo de caça do porta-aviões de Truk para Kavieng.

Inteligência aliada Os aliados rapidamente detectaram sinais de preparo de uma nova frota japonesa. Um hidroavião nipónico, geralmente utilizado em patrulhas anti-submarino, foi avistado a 7 de fevereiro de 1943. O comandante da Força Aérea Aliada da Área do Sudoeste do Pacífico — tenente-general George Kenney — ordenou o aumento nas patrulhas de reconhecimento aéreo sobre Rabaul. A 14 de fevereiro foram tiradas fotografias aéreas, que indicavam a existência de 79 embarcações no porto da cidade, incluindo 45 navios mercantes e 6 de transporte de tropas, identificando também a formação de uma frota de escolta, com destino ainda desconhecido. A 16 de fevereiro, os sistemas de criptoanálise navais em Melbourne (FRUMEL) e Washington D.C. acabaram por descriptografar e traduzir uma mensagem codificada revelando a intenção do exército japonês de enviar comboios para Wewak, Madang e Lae. Em 5 de março, criptoanalistas decifraram uma mensagem da 11.ª Frota Aérea que revelava a chegada de contratorpedeiros e seis transportes de tropas a Lae. Outro relatório indicava que a armada iria chegar a Lae por volta de 12 de março. Em 22 de fevereiro, aviões de reconhecimento aéreo relataram 59 navios mercantes no porto de Rabaul.

A 25 de fevereiro, Kenney leu o sistema de inteligência Ultra no gabinete do Comandante Supremo Aliado da Área Sudeste do Pacífico — General Douglas MacArthur. O facto de um número adicional de 6 900 soldados japoneses alcançar a região de Lae, perturbou MacArthur, pois essa unidade poderia afetar seriamente os seus planos de captura e progressão no território. Kenney redigiu novas ordens, que foram enviadas por correio para o general-brigadeiro Ennis Whitehead, para o vice-comandante da Quinta Força Aérea e para o comandante do seu Advance Echelon (ADVON), na Nova Guiné. Sob as invulgares regras de comando da Quinta Força Aérea, Whitehead controlava todas as unidades das Forças Aéreas Aliadas na Nova Guiné, incluindo as unidades da RAAF que lá se encontravam, as quais foram agrupadas como Grupo Operacional N.º 9 da RAAF, sob comando do commodore aéreo Joe Hewitt.

Kenney informou Whitehead sobre a data proposta da chegada da escolta japonesa, alertando-o para um possível ataque aéreo japonês diurno a considerar. Kenney relevou a importância de encurtar as horas de voo por forma a proporcionar um golpe o mais extenso possível sobre a comitiva japonesa, instruindo-o ainda a avançar com tantos aviões quanto os disponíveis, para que estes pudessem aproximar-se dos campos de pouso capturados ao redor de Dobodura, evitando assim sujeitar-se aos imprevistos temporais na cordilheira de Owen Stanley. A 26 de fevereiro, Kenney voou até Port Moresby onde se reuniu com Whitehead. Os dois generais inspeccionaram as unidades de caças e bombardeiros na área, e concordaram em atacar a escolta japonesa no estreito de Vitiaz. Kenney regressou a Brisbane no dia 28 do mesmo mês.

Tática aliada Uma campanha de bombardeio estratégico convencional estava fora de questão no Sudoeste do Pacífico, considerando que os alvos industriais no Japão estavam para além do alcance das forças aliadas, até mesmo dos maiores bombardeiros estratégicos que operavam a partir das bases na Austrália e Nova Guiné. Portanto, a primeira missão da força de bombardeiros aliados consistiu na interdição aérea das linhas de abastecimento japonesas, principalmente das rotas marítimas. O resultado dos esforços contra o comboio japonês em janeiro fora bastante decepcionante; cerca de 416 missões foram lançadas, resultando apenas em dois navios afundados e três danificados, pelo que um novo método de ataque teve que ser conjurado. Assim, o Capitão de Grupo Bill Garing, um oficial da RAAF na equipa de Kenney com considerável experiência em operações aéreas e marítimas, tendo inclusive exercido funções na Europa, recomendou que os comboios japoneses deveriam ser submetidos ao ataque simultâneo a partir de diferentes alturas e direções.

thumb|Capitão Robert L. Faurot da USAAF na frente do seu P-38 Lightning. O piloto, durante a batalha, abateu dois caças Zero.