thumb|300px|O Karluk, preso no gelo árctico, Agosto de 1913.

A última viagem do Karluk, o navio principal da Expedição Ártica Canadiana (1913-1916), terminou com a perda do navio e com as subsequentes mortes de quase metade da sua tripulação. Na sua viagem de regresso, em Agosto de 1913, o Karluk, um bergantim anteriormente utilizado como baleeiro, ficou encalhado no gelo do Ártico enquanto rumava para um ponto de encontro na ilha Herschel. Após uma grande deriva pelos mares de Beaufort e Chukchi, o navio foi esmagado e afundou-se. Nos meses seguintes, a tripulação e o pessoal da expedição, tiveram que lutar para sobreviver, primeiro no gelo e, mais tarde, na costa da ilha de Wrangel. No total, morreram onze homens antes de receberam ajuda.

A Expedição Ártica Canadiana foi organizada com a supervisão do antropólogo de origem canadiana Vilhjalmur Stefansson, e incluía objectivos científicos e geográficos. Pouco depois de o Karluk ter ficado preso, Stefansson e um pequeno grupo, deixaram o navio para caçarem renas. À medida que o Karluk ia derivando, tornou-se impossível para a equipa de caça regressar. Stefansson, apercebendo-se da situação, dedicou-se aos objectivos da expedição, deixando a tripulação e o restante pessoal a bordo do navio sob o comando do seu capitão, Robert Bartlett. Depois do afundamento do navio, Bartlett organizou uma marcha à ilha de Wrangel, a 130 km de distância. As condições do gelo eram difíceis e perigosas; dois grupos de quatro homens cada perderam-se na tentativa de alcançarem a ilha.

Depois do desembarque dos sobreviventes, Bartlett e um elemento da tripulação inuit, partiram através do gelo para a costa siberiana, à procura de ajuda. Os dois homens chegaram ao Alasca, mas o estado do gelo do mar impediu uma missão de ajuda imediata. Na ilha de Wrangel, o grupo de homens sobreviveu caçando, mas tinham poucos alimentos e havia conflitos internos. Antes de serem resgatados em Setembro de 1914, morreram mais três homens do grupo, dois de doença e um em circunstâncias violentas.

Os historiadores têm perspectivas diferentes da decisão de Stefansson de deixar o navio. Alguns dos sobreviventes da viagem criticaram a sua aparente indiferença às más condições por que estavam a passar, e à perda dos seus companheiros. Stefansson escapou a uma censura oficial, e foi publicamente elogiado pelo seu trabalho na expedição, apesar das reservas por parte do governo canadiano sobre a sua gestão da situação no geral. Embora Bartlett tenha sido criticado por uma comissão do almirantado por ter levado o Karluk até ao gelo, foi recebido como herói pelo público e pelos seus companheiros do navio.

Expedição Ártica Canadiana Antecedentes thumb|upright|Vilhjalmur Stefansson, líder da Expedição Ártica Canadiana A Expedição Ártica Canadiana concebida por Vilhjalmur Stefansson, um antropólogo de origem islandesa nascido no Canadá, a viver nos Estados Unidos. Stefansson passou grande parte do período 1906-1912 a estudar a vida dos Inuit na remota região árctica do Canadá. O seu trabalho teve como resultado a primeira informação detalhada sobre a vida e a cultura dos Inuit do cobre, os chamados "esquimós louros". Stefansson regressou a casa com planos para outra expedição, por forma a continuar os seus estudos sobre o Árctico, e obteve promessas de apoio financeiro num total de US$ (cerca de US$ em 2010) da National Geographic Society (NGS), em Washington, e do American Museum of Natural History, em Nova Iorque. No entanto, ele queria alargar os seus planos por forma a incluir exploração geográfica no mar de Beaufort, então uma região inexplorada nos mapas mundiais.Henighan, pp. 57–58 Para estes novos planos, ele precisava de mais dinheiro, e decidiu contactar o governo canadiano.Niven, pp. 12–14

A região conhecida como "Alto Árctico" era reclamada não só pelo Canadá, mas também pela Noruega e pelos Estados Unidos. O governo canadiano estava preocupado com o facto do financiamento dos EUA lhes poder dar uma base legal para reclamar os direitos sobre qualquer território descoberto no mar de Beaufort Sea. Quando o primeiro-ministro Robert Borden se encontrou com Stefansson em Ottawa, em Fevereiro de 1913, ofereceu-se para assumir a responsabilidade financeira de toda a expedição. O governo canadiano esperava que a expedição fortalecesse as pretensões do Canadá de obter a soberania das ilhas árcticas. Os patrocinadores americanos concordaram em retirar o seu apoio, com base num acordo que estabelecia a NGS podia reclamar para si os direitos da expedição caso Stefansson falhasse a sua partida em Junho de 1913. Esta condição criou um prazo muito apertado e apressou os preparativos para a viagem ao norte, embora Stefansson mantivesse no seu relato de 1921 que "a premeditação terá antecipado todas as eventualidades".Stefansson, p. 27

Estratégia e objectivos O envolvimento financeiro do governo canadiano, representou uma mudança no foco da expedição, passando este a concentrar-se na exploração geográfica, em vez de nos estudos etnológicos e científicos.Pálsson, p. 130 Numa carta dirigida ao jornal canadiano Victoria Daily Times, Stefansson informou sobre esta separação de objectivos. O objectivo principal era agora explorar a "área do milhão de quilómetros quadrados, ou perto disso, representada pelas zonas brancas no nosso mapa, situada entre o Alasca e o Pólo Norte". A expedição tencionava ser aquela que iria realizar o maior estudo científico do Árctico jamais feito. Enquanto um Grupo do Norte teria como objectivo descobrir novos territórios, um outro grupo, o do Sul, iria efectuar pesquisas e estudos antropológicos sob a supervisão do zoólogo Rudolph Anderson nas ilhas ao largo da costa norte do Canadá.Bartlett, pp. 4–6

O navio do Grupo do Norte, Karluk, devia dirigir-se para norte, a partir da costa canadiana, até encontrar terra ou ser bloqueada pelo gelo. Devia explorar qualquer terra que encontrasse; caso contrário, iria seguir o limite do gelo, em direcção a leste, e tentar passar o Inverno na ilha Banks ou na ilha do Príncipe Patrick. Se o navio ficasse preso no gelo e fosse forçado a ficar à deriva, o grupo deveria estudar o movimento das correntes do Árctico e efectuar pesquisas oceanográficas. Entretanto, o grupo de Rudolph Anderson continuaria com os seus estudos antropológicos dos "esquimós louros"; a recolher amostras da flora e fauna árcticas; a analisar a geologia do território; e a procurar por canais de água na esperança de estabelecer novas rotas de comércio.

Organização e membros da expedição O plano de Stefansson estabelecia a utilização de dois navios - o Karluk e o Alaska - até à velha estação de caça de baleias na ilha Herschel, ao largo da costa árctica canadiana, onde se organizaria a composição dos Grupos Norte e Sul, e onde se instalaria o armazém com os equipamentos e as provisões. A pressa de cumprir com os prazos estabelecidos pela NGS preocupou os membros da expedição no que respeita à adequação das quantidades, e da própria qualidade, dos alimentos, vestuário e equipamentos.Leslie, pp. 297–98 Stefansson, que esteve quase ausente das agitadas semanas que precederam a partida dos navios, e que pouco revelou sobre os planos à sua equipa, subvalorizou tais preocupações considerando-as como "impertinentes e desleais". Ocorreram algumas discussões entre Stefansson e o grupo de cientistas sobre a cadeia de comando; o Serviço Geológico do Canadá que tinha cedido quatro cientistas à expedição, queria que estes lhes reportassem, em vez de a Stefansson. O líder do Grupo do Sul, Rudolph Anderson, ameaçou demitir-se perante a vontade de Stefansson de reclamar para si todos os direitos de publicação dos diários privados da expedição.Henighan, pp. 60–61Pálsson, p. 132 thumb|upright=1.5|Equipa científica da expedição, com Stefansson e Bartlett. Malloch, Beuchat, McKinlay, Mamen, Mackay e Murray ficaram no Karluk; os outros formavam o Grupo do Sul. A equipa científica, composta por vários técnicos destacados nas suas áreas, incluíam representantes dos Estados Unidos da América, Dinamarca, Noruega, e França, e também do Reino Unido e seu Império.McKinlay, pp. 10–13 Apenas dois, contudo, tinham experiência na exploração polar: Alistair Forbes Mackay, o médico da expedição, tinha estado na Antártida na Expedição Nimrod de Sir Ernest Shackleton, em 1907–09, e foi um dos três descobridores da localização do Polo sul magnético.Riffenburgh, p. 244 Outro veterano do Nimrod, de 46 anos de idade, James Murray, era o oceanógrafo da expedição. Entre os jovens cientistas, estava William Laird McKinlay (1889–1983), um professor de Ciências de 24 anos de idade, natural de Glasgow, recomendado pelo explorador escocês William Speirs Bruce, e Bjarn Mamen (1893–1914), um campeão de esqui de 20 anos de idade, de Christiania, Noruega, que trabalhava como guarda-florestal, apesar de não possuir experiência científica.

Stefansson queria que o experiente caçador de baleias Christian Theodore Pedersen para capitão do Karluk, o navio do Grupo do Norte. Quando Pedersen recusou, o lugar passou para Robert Bartlett, de 36 anos de idade, natural da Terra Nova, um navegador com muita experiência na região polar, que tinha comando o navio de Robert Peary na expedição polar de 1909.Fleming, pp. 354–61 Bartlett não teve tempo para seleccionar a tripulação do Karluk, que foi organizada à pressa com pessoal da Royal Navy Dockyard, de Esquimalt, na Colúmbia Britânica. Mais tarde, McKinlay escreveria sobre a tripulação que "um era drogado...outro tinhas doenças venéreas; e, apesar de haver ordens para que não fossem levadas bebidas alcoólicas para bordo, entraram pelo menos dois caixotes disfarçadamente." McKinlay achava que faltavam as qualidades e o carácter necessários para os meses que se seguiriam, preocupações partilhadas por Bartlett, cuja primeira medida, à chegada a Esquimault, foi despedir o primeiro-oficial por incompetência. No seu lugar, foi designado Alexander "Sandy" Anderson (1891–1914) de 22 anos de idade.Niven, pp. 20–21

Navios O Karluk foi escolhido por Pedersen e adquirido por Stefansson pela quantia de US$.Niven, pp. 8–9 O Karluk foi construído nos Estados Unidos (Bartlett refere que foi no Oregon,Bartlett p. 2 enquanto os registos mostram Benicia, na Califórnia). O navio foi trazido por Stefansson, quando o governo canadiano assumiu a responsabilidade pela expedição.Stefansson, p.x Foram várias as designações para o navio: HMCS (His Majesty's Canadian Ship),Niven, p. 1 DGS (Dominion Government Ship),McKinlay, p. 81 e CGS (Canadian Government Ship). HMCS é a designação dada aos navios do Canadá; embora o Karluk navegasse sob o comando de um capitão que não era da marinha, e com uma tripulação igualmente fora da marinha, o navio utilizou a Bandeira Azul Canadiana, a bandeira da Marinha Real Canadiana.McKinlay, p. 68 Stefansson foi aconselhado por Pedersen que, dos quatro navios disponíveis, o Karluk era "de longe o melhor e o mais adequado para o nosso objectivo",Stefansson, pp. x, 47 mas Bartlett tinha grandes reservas sobre a sua capacidade para um prolongado serviço no Árctico. O navio, de 29 anos de idade, era um bergantim, com 39 metros de comprimento e uma boca de sete metros. Foi construído para a indústria pesqueira das ilhas Aleutas (karluk quer dizer "peixe" em aleúte) e mais tarde convertido para a caça a baleia, quando a sua estrutura foi coberta com uma camada de 51 mm de madeira-de-ferro australiana. Apesar de 14 viagens ao Árctico, incluindo seis estadias durante o Inverno, , o navio não tinha sido construído para suportar a pressão do gelo, e faltava-lhe um motor para forçar a passagem através do gelo. A escritora e jornalista Jennifer Niven, no seu relato da expedição, descreve o Karluk como "muito longe do navio do gelo árctico de que os homens estavam à espera".